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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



O ESTILISTA GILBERTO FREYRE

Veríssimo de Melo

Se me perguntassem o que mais admiro em Gilberto Freyre eu não teria nenhuma dúvida em responder: O estilista. O escritor da palavra exata e simples. O tom regional de sua prosa pernambucana. A sobriedade no que escreve sem desejar nunca ser brilhante.

Creio que o grande segredo da obra de Gilberto Freyre reside principalmente no seu estilo. Na sua prosa. Na maneira de dizer as coisas mais sérias evitando a chatice dos termos rebuscados.

Naturalmente que Gilberto Freyre, com a sua obra monumental de interpretação sociológica, alcançaria a evidencia mesmo que não fosse um mestre na arte de escrever. Mas isso, sobretudo, o seu modo encantador de escrever, é que lhe possibilitou esse renome e popularidade grandiosos dentro e fora do nosso país.

É que Gilberto sabe que a perfeição é a simplicidade. O efeito, o chocalho na frase, os guisos barulhentos do palavrório gongorico, tudo isso já passou de moda, embora os medalhões da nossa cultura continuem utilizando esse meio desmoralizado na divulgação do seu pensamento.

Eis por que Gilberto Freyre surge no panorama da cultura brasileira como figura revolucionária nesse sentido. Nunca a sociologia ou qualquer outro ramo da Antropologia tinha tido no Brasil um divulgador e um interprete que escrevesse tão bem e de maneira tão acessivel a qualquer pessôa. Porque nem mesmo a seriedade do assunto que êle agita consegue perturbar o estilista.

Seus periodos são curtos, quase sempre. É de uma objetividade quase fotográfica no que escreve. Lê-se Gilberto, em qualquer dos seus livros notáveis, com a mesma facilidade e o mesmo sabor de suas crônicas na imprensa.

Esse o aspecto que mais impressiona na personalidade do escritor Gilberto Freyre. Ponho de lado toda a sua erudição, todo o seu amôr a Pernambuco e ao Brasil, o culto das tradições que é um traço vivo de sua inteligência, o parlamentar, o jornalista, o professor, o intelectual enfim que todos conhecemos, e não vêjo nada que me agrade mais no autor de "Casa Grande & Senzala" do que a sua maneira saborosa de escrever.

Se eu estivesse faminto numa ilha deserta, inteiramente coberta de pedra, sem um pássaro, sem uma árvore, e encontrasse por acaso um exemplar de um dos livros de Gilberto Freyre, ninguém pense que eu iria ler a obra, de perna cruzada, meditando e anotando os melhores trechos. Nada disso. Eu escolheria aquela página mais gostosa do escritor de Apipucos e as devoraria imediatamente, guardando para os domingos aqueles estudos sobre doces e pratos regionais pernambucanos, que os leio e releio sempre com a bôca cheia dágua ...



Fonte: MELO, Verissimo de. O estilista Gilberto Freyre. Bando. Natal, n. 5, v. 6, p. 25-26, 1954.

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