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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



GILBERTO FREYRE E SUA VOCAÇÃO FILOSÓFICA

Miguel Reale

"É essencial que a ciência em que se desenvolve a Sociologia não se submeta à Filosofia, mas é sempre uma pobre Sociologia aquela que hoje despreza o contato com a Filosofia, receosa de tornar-se simples anexo da Filosofia Social".

(Gilberto Freyre - Sociologia, vol. I pág. 175).

1. Embora sem cultivar de maneira explícita a Filosofia social, há no substratum da obra de Gilberto Freyre, como na de todo sociólogo de sua alta categoria, não só a colocação prévia de problemas de ordem filosófica, como o desenrolar de uma série de atitudes axiológicas que transcendem os limites da pesquisa científico-positiva. Condicionando a sua monumental análise da formação da família patriarcal brasileira, assim como os seus estudos complementares, existem pressupostos epistemológicos, e, mais ainda, os lineamentos de uma teoria da história do Brasil subordinada a certo conceito de temporalidade e de cosmovisão.

Daí a necessidade de uma referência preliminar, ainda que sumária, à sua posição metodológica de sociólogo e antropólogo antes de indagarmos de sua implícita problemática filosófico-histórica.

A Sociologia para Gilberto Freyre é declarada, corajosamente, eclética. Não se sente preso rigorosamente a nenhuma escola, por acreditar, ao mesmo tempo, na pluralidade de Sociologias e na sua tendência à unidade, e "considerar como alguma originalidade e mais audácia, confessa ele, a Sociologia ciência mista, híbrida ou anfíbia, em parte natural, em parte cultural; e não simples ou definitivamente a ciência natural que alguns sociólogos mais ousados pretendem já estabelecida" [1].

Gilberto Freyre é, como se vê, até certo ponto um culturalista, só remotamente tentado pelo ideal, talvez inatingível, de uma ciência puramente natural. "Ao nosso ver, escreve ele ainda, a Sociologia é, por excelência, um estudo de contradições. No que ela estuda se contradizem a natureza e a cultura. Ela tem de ser anfíbia ou mista para alcançar a natureza e a cultura" [2].

Sua concepção situa-se em quadros bem mais abertos do que o do naturalismo progmaticista ou instrumentalista de inspiração norte-americana, com fortes infuxos da Filosofia Social e histórica alemã, notadamente de Wilhelm Dilthey, Max Weber e Hans Freyer, o que o leva a conceber a Sociologia como uma "ciência também de compreensão", na qual é inevitável "a presença do sociólogo", inclusive com seus preconceitos. "Em Sociologia, adverte, como em História e em Psicologia, grande parte do não eu só se deixa esclarecer pelo eu do indagador; pelo seu poder de compreensão, de empatia, digamos mesmo de imaginação - imaginação científica e mesmo poética - e não apenas técnicas de experimentação" [3]. 3

Seria, em verdade, impossível olvidar, na obra de Gilberto Freyre, o papel que, ao lado das técnicas mais apuradas na coleta e na análise objetiva dos dados, se deve atribuir à imaginação criadora, aos valores da intuição e da empatia, parecendo-lhe que "o estudo da vida íntima de um povo tem alguma coisa de interpretação proustiana", de sorte que "estudamos a vida doméstica dos antepassados, sentimo-nos aos poucos nos completar: é outro meio de procurar o tempo perdido" [4].

2. Assente essa orientação metodológica um tanto plástica, cuja unidade é assegurada pela acuidade do investigador, Gilberto Freyre nos revela uma teoria da história do Brasil de caráter plurivalente, na qual não há um fator absolutamente dominante, geográfico, étnico, político, religioso ou econômico, que todos se compõem em um processo dialético de interações contínuas, com ciclos nos quais as influências preponderantes se revezam em impressionante intercorrência.

O autor não esconde o sentido dialético de seu pensamento, não só por conceber a Sociologia como "uma ciência de contradições", mas ao nos dizer, explicitamente, que os seus estudos da sociedade brasileira "exprimem uma filosofia do fusionismo étnico e social brasileiro" [5].

Sintomática parece-me, sob essa prisma, a alusão feita à concepção da história de Hegel, "segundo a qual a vida humana se desenvolve sob contradições ou sob polaridade", ou ao lembrar a lição de Renan sobre "les deux faces opposés dont se compose toute verité" [6].

É, com efeito, através de sucessivos valores de polaridade que a história do Brasil é vivida pelo sociólogo Gilberto Freyre. Note-se, por exemplo, o que ele escreve em Casa-Grande & Senzala "a formação brasileira tem sido um processo de equilíbrio de antagonismos. Antagonismos de economia e de cultura. A cultura européia e a indígena. A européia e a africana. A africana e a indígena. O católico e o herege. O jesuíta e o fazendeiro. O bandeirante e o senhor de engenho. O paulista e o emboaba. O pernambucano e o mascate. O grande proprietário e o pária. O bacharel e o analfabeto. Mas predominando sobre todos os antagonismos, o mais geral e o mais profundo: o senhor e o escravo" [7].

Interações múltiplas, como se vê, com fatores intercorrentes se substituindo nos termos em conflito; uma busca incessante de equilíbrio, e a inevitável ruptura na continuidade estuante do processo histórico-cultural; multiplicidade de perspectivas indispensável à compreensão histórica de uma civilização americana, desde o início marcada por contrariedades e acomodações de cultura, de raças, de crenças, de línguas, de modos de ser e de querer. É desse complexo e mutável sistema de antagonismos que resultaria o "estímulo" de nossa história, sugerindo composições integrantes de forças múltiplas. Complementaridade, onde outros enxergam contradição.

3. A obra mais relevante de Gilberto Freyre prende-se ainda às raízes de nossa formação histórico-social, numa prodigiosa realização de "Sociologia genética", mas já é possível antever alguns de seus pontos de vista sob o sentido total de nossa história.

O que o preocupa, como cuidado constante, é o problema da integração dos antagonismos, a conciliação de nossas vivas contradições, reveladas até mesmo no título de suas obras principais: Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, Ordem e Progresso, marcando sempre dois pólos que não se excluem, mas se exigem reciprocamente.

No passado brasileiro, até a decadência do patriarcado rural, o centro de equilíbrio e de acomodação, no dizer de Gilberto Freyre, foi a "Casa0Grande", unidade ao mesmo tempo familiar, econômica, religiosa e política. Em torno dos senhores de engenho criou-se, no seu entender, "o tipo de civilização mais estável na América hispânica", tendo como base o trabalho servil e a monocultura latifundiária [8].

Para Gilberto Freyre, a Casa-Grande foi "uma maravilha" ou uma "quase maravilha de acomodação", permitindo uma adaptação prodigiosa de valores transoceânicos às condições peculiares ao meio, em contraste com as abstratas aspirações de universalismo, de que os jesuítas teriam sido os intérpretes por excelência, sempre em luta, por isso, com os "senhores da terra". Algo de autóctone surgiu, então, que resultou de todos os fatores, mas de nenhum deles em particular, possibilitando, graças à miscigenação, ao caldeamento das raças e dos costumes, uma verdadeira democracia social e étnica.

Com a ruptura daquele primordial equilíbrio, outros antagonismos surgiram e estão surgindo, a exibir uma compreensão político-social capaz de compor os conflitos segundo critérios que não sejam puramente quantitativos e numéricos, mas atendam às características regionais, a fim de salvaguardarmos as linhas de uma cultura "original pela continuação de valores de origens várias - ameríndia, européia, africana, asiática - dentro das necessidades e das condições do meio americano em geral, e brasileiro em particular, e por obra e graça de cruzamento de sangues e interpenetração de culturas diversas, considerada a luso-cristã a decisiva, embora de modo nenhum a exclusiva" [9].

4. Afirmada assim a diretriz de uma cultura destinada a compor valores universais, nacionais e regionais, pelo abandono da "mística da Europa como única fonte de cultura, capaz de alimentar e enobrecer os povos da América", que parece a Gilberto Freyre já haver de realizado e marcante na experiência histórica brasileira?

É aqui que nos defrontamos talvez com o valor ideal de sua concepção histórica: refiro-me ao ideal de uma democracia social e étnica, que já lhe parece realizado no Brasil de maneira exemplar, verdadeiro modelo de "civilização plural nas variantes de predominâncias regionais das raças e das culturas que a constituem" [10].

O ideal democrático, que na obra de John Dewey ainda possui apenas valor político-pedagógico, enquadrado em uma concepção do tipo liberal e individualista; e que já nos escritos de A. W. Moore se norteia no sentido de uma "democracia social", adquire na obra de Gilberto Freyre denso conteúdo étnico e cultural: a "democracia social e étnica" surge como valor-fim, já em vias de ser atingido, e destinado a realizar-se plenamente, sem ruptura com o passado, característica essencial que é da nova civilização que se formou nos trópicos, quando "a cultura européia se pôs em contacto com a indígena, amaciada pelo óleo quente da mediação africana" [11].

É substancialmente sobre essa base de integração étnico-cultural que se pode programar, segundo Gilberto Freyre, toda uma série de integrações sociais. Sendo a atual situação Brasileira "quase exemplar no que se refere à interpenetração de raças - a branca e as de cor - e de civilizações - a européia e as não européias - " cumpre-nos completar a obra integrativa no que se refere às relações "entre espaços construídos e espaços abertos, entre áreas urbanas e áreas rurais, entre atividades industriais e atividades agrárias".

Nessa obra, acrescenta Gilberto Freyre, - e esta sua advertência tem grande alcance ante o surto atual de estatolatria que parece ir invadindo os espíritos, toda vez que se cuida de problemas econômicos - não devemos esquecer que no Brasil se formou uma civilização em que a Família e o Indivíduo "sociologicamente cristocêntrico" é que foi a unidade civilizadora. O Estado não fez senão sancionar ou confirmar. Há no Brasil uma "constante familialista", que se revela desde a expansão dos bandeirantes até a aventura da indústria extrativa na área amazônica [12]. Daí ser o brasileiro, conclui ele, um ser ideal para, sobre essa constante familialista do seu comportamento, desenvolver-se uma civilização rurbana (ou seja, de harmonização de valores da cidade e do campo, ora em conflito, pondo-se aqui outra, "polaridade" da dialética de Gilberto Freyre), que ao telúrico, junte a tendência para a transferência, dos espaços civilizados para os agrestes, de valores inseparáveis da organização da família como unidade civilizadora" [13].

Desse modo, através de "constante e estimuladora interação de antagonismos", devemos, como no passado, ir realizando uma obra crescente de adaptação e de integração na substância social da vida brasileira, para sermos menos geografia e mais história, superando aquela outra constante de nosso viver social a que se refere Gilberto Freyre, citando Prudente de Morais, neto, e que seria o derramarmo-nos em superfície antes de nos desenvolvermos em densidade e profundidade.

É no âmbito dessa compreensão sociológica e antropológica, densa de elementos intelectivos e emocionais, que Gilberto Freyre desenvolve sua noção de tempo tríbio, ou seja, trí-vital ou tri-existencial. Mostra-nos ele que o tempo vivido pelos indivíduos e pelos povos não é retilíneo, nem sucessivo, mas reflete (para não dizer que condiciona) avanços e recuos, composições e antagonismos, numa concreta interpenetração de formas temporais, com insurgências e ressurgências [14].

Julián Marías vincula essa compreensão do tempo gilbertiano ao sentido ibérico da vida, nunca ilhada na abstração do presente, mas vivamente entrelaçada ao passado, donde emana uma projeção do futuro como esperança ou tensão. Da mesma forma, digo eu, o passado ressurge sempre emotivamente pelas forças emocionais que na língua portuguesa se sintetizaram na palavra saudade. Daí certa nota de conservantismo que se observa na posição gilbertiana.

Apesar da interpenetração das formas temporais, próprias do tempo tríbuo, que é um tempo existencial, perdura, com efeito, em toda a obra de Gilberto Freyre, predominante amor ao passado, não exclusivo por certo mas prevalecente, o que corresponde, aliás, a uma tendência de seu espírito no sentido de buscar as fontes germinais da experiência social. Nessa aderência ao "Ter sido", sua posição coincide com a do raciovitalismo de Ortega. A visão histórico-social sob a espécie do futuro, ou o futuro agônico que se nota em Heidegger e tantos outros pensadores contemporâneos, não é dominante na obra de sociólogo e antropólogo de Gilberto Freyre, que prudentemente desvenda no passado, assim como nas mãos do presente, certas linhas prenunciadoras de nosso porvir como Nação. O futuro está, por assim dizer, imanente na correlação presente-passado, transparecendo como algo de esperado e estuante, como floração, um botão antecipando a rosa, numa projeção que não se desvincula de suas nascentes germinais.

Nasce desse sentido de polarização temporal, entre futuro, presente e passado a sua tese harmonizadora, ou, como ele corajosamente o diz, "mista" ou "eclética", vendo a natureza sempre unida à cultura e a cultura sempre ligada à natureza, racional e irracionalmente, ponto de partida ou condicionante primordial de todas as "polaridades complementares" que, como salientei, se estadeiam nos títulos mesmos de seus livros maiores.

Há, em suma, toda uma dialética de complementaridade subjacente às formas gilbertianas de nossa compreensão histórico-social [15], o que o preserva de unilateralismos fáceis, de explicações monocórdicas sobre a cultura brasileira, tão do gosto de certos endeusadores desta ou daquela nota característica de nossa Inteligência, ou, mais amplamente, de nosso ser histórico.

Como se vê, quer pela meditação do sempre vivo e aberto problema da correlação entre natureza e cultura; quer pela compreensão dialética e imagístico-poética (o que faz dele um escritor de raras qualidades, num estilo de tom coloquial) dos fatos humanos; quer pela interpretação do papel do homem na trajetória histórica; que por sua fecunda compreensão do tempo tríbio, é fácil perceber quantos motivos filosóficos condicionam os seus escritos, assegurando-lhes unidade.

Na leitura da imensa e variegada obra gilbertiana, os espíritos filosóficos encontrarão sempre sugestões e estímulos no sentido de uma filosofia que não separe a teoria da prática, as tarefas especulativas de nossos irrenunciáveis ditames de natureza existencial, mantendo sempre um sentido de integralidade ente valores culturais e ecológicos, econômicos e artísticos, de trabalho criador e de lazer edificante, tendo como centro a relação fundante entre o homem e a terra [16].

Notas e ReferênciaS

1 - FREYRE, Gilberto, Sociologia, Rio, 1945 - vol. I, pág. 12[voltar]

2 - Op. Cit., pág. 25. Sobre o seu conceito naturalista de "cultura", v. o estudo que dediquei a Casa-Grande & Senzala em Atualidade Brasileiras, Rio, 1937, pág. 93 e segs. Nesse trabalho, aparte certo tom polêmico e ousado, próprio da juventude, ainda se salvam alguns reparos críticos à problemática metodológica gilbertiana. O semi-culturalismo de Gilberto Freyre, embora haurido nas lições da Franz Boas e outros mestres coevos, prende-se a uma bela tradição nacional, como se pode ver no ensaio intitulado "O culturalismo na Escola do Recife", inserto em meu livro Horizontes do Direito e da História, São Paulo, 2ª ed., 1977, pág. 215 e segs. Lembro, nesse trabalho, que, dissentindo de Tobias Barreto, que apontava uma antinomia entre natureza e cultura, já Sílvio Romero tentara uma síntese dos dois elementos, num hibridismo muito afim ao de Gilberto Freyre. Cf. Horizontes, cit., pág. 221, e na mesma obra, à pág. 223 e segs., o estudo que dedico a "Sílvio Romero e os problemas da Filosofia". A meu ver, o conceito de cultura tem como pressuposto a natureza, embora desta claramente se distinga (Cf. minha Filosofia do Direito, 12ª ed., São Paulo, 1987, pág. 240 usque 251), pois como pondera Eduardo Spranger, "toda cultura radica no seio da natureza e no complexo vital condicionado por ela". [voltar]

3 - Op. Cit., pág. 29. Ou ainda: "O humano só pode ser explicado pelo humano, ainda que se tenha de deixar espaço para a dúvida e até para o mistério, pelo menos provisório"; Sobrados e Mucambos, Rio, 1936, pág. 27.[voltar]

4 - Casa-Grande & Senzala, 2ª ed., Rio, 1946, pág. 36. Não só por essa busca proustiana do tempo perdido, mas pelo sentidos geral de sua obra, percebe-se como o passado constitui componente decisivo na teoria histórica de Gilberto Freyre, enquanto que no pensamento de Bergson, de Lavelle, de Heidegger ou de Dewey, não obstante a diversidade das respectivas posições, o valor primordial é atribuído ao futuro na concepção do tempo, assunto a que volverei logo mais. Sobre o mais atual conceito de temporalidade e o futuro como dimensão temporal básica, v. minha comunicação ao Congresso Internacional de Veneza "Liberdade e Valor" (Relazioni introduttive, Florença, 1958, pág. 55 e segs., inserto em Pluralismo e Liberdade, São Paulo, 1963, e sobretudo Experiência e Cultura, São Paulo, 1977 Partindo da observação de que para Gilberto Freyre, à maneira de Rickert, "o critério histórico distingue-se do sociológico por ser, na sua pureza, o critério do fato único, inédito, ostensivamente dramático" (Sociologia, cit., pág. 175), Luis Washington Vita chega a ver uma aporia essencial na meditação gilbertiana: "a redução da história à sociologia e vice-versa - é por demais viva para ser história, e está inteiramente morta para ser sociologia" (v. Revista Brasileira de Filosofia, 1958, fasc. 32, pág. 528) quando, na realidade, a apontada redução não me parece existir. Não há dúvida, porém, que Gilberto Freyre paga demasiado tributo à concepção clássica que via no futuro mera projeção do passado, apesar de sua concepção do tempo tríbio. [voltar]

5 - Interpretação do Brasil, Rio, 1947, prefácio[voltar]

6 - Sociologia, cit., pág. 25 e segs.[voltar]

7 - Casa-Grande & Senzala, cit., vol. I, pág. 160 e segs. Em Sobrados e Mucambos, outros valores se sucedem numa diacronia de implicações e polaridade: o engenho e a praça, a casa e rua . . . E, mais recentemente, modos do homem e modas da mulher.[voltar]

8 - Casa-Grande & Senzala, cit., págs. 24 e segs. e 33 e segs. Cfr., também, Sobrados e Mucambos, cit., pág., 15 e segs. [voltar]

9 - FREYRE, Gilberto, Em torno do problema de uma cultura brasileira, na Philosophy and Phenomenological Research, Dezembro de 1943, pág. 167. Note-se que Gilberto Freyre não estabelece uma relação necessária entre "cultura original" e "Filosofia original". Parece-lhe mesmo que um filósofo tem de ser super ou supra-nacional, mas que dificilmente poderá ser "supra-regional, no sentido de ignorar as condições regionais da vida, da experiência, da cultura, da arte, e do pensamento que lhe cabe julgar ou analisar" (Interpretação do Brasil, cit., pág. 140). Sobre a frágil pretensão do regionalismo como "Filosofia social" , v. as considerações de Afrânio Coutinho no citado fascículo de Philosophy anb Phenomenological Research. [voltar]

10 - FREYRE, Gilberto, Sugestões em torno de uma orientação para as relações internacionais do Brasil, São Paulo, 1958, pág. 17. Apesar do caráter otimista de sua teoria da história brasileira, o espírito penetrante de Gilberto Freyre não ignora que há sombras no processo de miscigenação ou de acomodação ao meio. Como, por exemplo, quando observa: "Julgados de conjunto, os brasileiros têm o que as psiquiatras chamam um passado traumático. A escravidão foi o seu grande trauma". (Interpretação, cit., pág. 225). Mas já se pode considerar, acrescenta ele, superado, de maneira geral, esse estado de consciência infeliz, não havendo brasileiro que, honesta e sinceramente, "negue ou esconda a influência, direta ou indireta, próxima ou remota, do ameríndio e do negro". (loc. Cit.). Na realidade, porém, como tantas vezes tem sido observado, Gilberto Freyre às vezes generaliza para todo o Brasil observações válidas apenas para as regiões do Nordeste ou Norte. [voltar]

11 - Casa-Grande & Senzala, cit., pág. 159. Sobre a idéia ou o ideal de "democracia social e étnica", v. Interpretação do Brasil, cit., págs. 159 e segs.[voltar]

12 - Sugestões, etc., pág. 26 [voltar]

13 - Sugestões, cit., pág. 26. Sobre essa tese fundamental da família como "unidade civilizadora" na história do Brasil v. Casa-Grande & Senzala, vol. I, págs. 107 e segs.[voltar]

14 - Cfr. Insurgências e ressurgências atuais, Porto Alegre, 1981[voltar]

15 - Sobre a dialética de complementaridade, vide meu livro Experiência e Cultura, cit., onde o leitor poderá encontrar maiores desenvolvimentos sobre minha concepção pluralista do tempo. [voltar]

16 - É com base nessa compreensão global, achegada às nossas circunstâncias biofísicas, que Gilberto Freyre crítica justamente os construtores de Brasília, que fugiram das lições de nossas acomodações ecológicas, nem previram pontes entre o "tempo-trabalho" e o "crescente tempo-lazer" (Insurgências, cit., pág. 157). [voltar]



Fonte: REALE, Miguel. Gilberto Freyre e sua vocação filosófica. Ciência & Trópico. Recife, n.15, v. 2, p. 217-223, jul./dez. 1987.

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