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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



GILBERTO FREYRE: ALÉM DO APENAS MODERNO

Eduardo Portella

O autor de Casa-Grande & Senzala infiltrou,
nas concepções fechadas de identidade nacional,
sujeitos e objetos proscritos, a energia do outro, a diferença,
abrindo caminho para a verdade possível.

A obra de Gilberto Freyre sofreu, ao longo da vida do autor, dois tipos de rejeição. O primeiro, de fundo epistemológico, impugnava sua cientificidade. O segundo, de nítida feição ideológica, dedicou-se a estigmatizar o que seria o seu conservadorismo. No primeiro caso, os argumentos da maldição partiam da separação contundente de ciências exatas e humanas, até chegar ao confinamento do saber monodisciplinar. A pecha de "escritor literário" teve papel relevante nesse desacordo indolente. No segundo caso, o veto ideológico simplificado na leitura voltada para as relações de produção no autor de Casa Grande & Senzala agravou-se, como era de se esperar, a partir de 64. Teria sido mais corrosivo, não fora as privações teóricas do marxismo mecânico. E a inanição crítica do poder dominante.

É provável que essa breve reconstituição não passe de um exercício memorialístico perfeitamente dispensável. O debate intelectual transformou-se substancialmente. E transformou-se, em grande parte, graças a essa prática teórica, que foi deixando de lado as denegações peremptórias, os maniqueísmos reincidentes, a vontade exterminadora da racionalidade hegemônica. O desempenho subversivo de Gilberto Freyre, essa espécie de razão impura que o animou, apontam nessa direção, imunes ou refratários ao absolutismo da ratio última.

Se por um lado a razão impura, que certa vez surpreendi no autor de Nordeste, nos ameaça com o desconcerto e a dispersão, por outro nos protege do autoritarismo do conhecimento imperial. O sociólogo mais que sociólogo percebeu cedo que o futuro da sociologia dependeria menos da pureza disciplinar do que da competência convencional, da sua capacidade de mobilizar a mais larga cooperação interdisciplinar e, desse modo, apreender a complexidade das formações intersubjetivas.

Herdamos das nossas metrópoles, ou das nossas matrizes conceituais, a ambição da pureza identitária. A idéia de pureza, diga-se de passagem, se alastrou por todo o corpo da construção nacional, penalizando ou ferindo, em alguns gravemente, possibilidades de encontros, ao que tudo indica, promissores. Foi sob essa base tutelar, consciente ou inconscientemente, que passamos a defender a marca sedimentada, a percepção rígida, que atendiam pelo nome – nome superiormente nomeado – de identidade. E assim a identidade nacional passou a ser um lugar estabelecido, insensível à diversidade, carente de energias emancipatórias.

No seu registro excludente, ela evitava e proscrevia tudo o que pudesse advir do mundo imprevisível da diferença, da ousadia do outro. Parecia dispor de um dispositivo de segurança inabalável. Sem se aperceber que a vida da identidade, ou a identidade da vida, da história, da nação, do grupo, do indivíduo, se alimenta e vive dos seus outros, de suas diferenças. A obra de Gilberto Freyre, confluente e plural, desmontou o sistema de segurança da identidade singular.

O trabalho histórico-hermenêutico levado a efeito por Gilberto Freyre, em contracena com a tropicologia felizmente contraditória, e por isso mesmo aberta, imune ao vírus formalista e homogenizador das metodologias em voga, como que sentiu, percebeu e antecipou os abalos sísmicos, ou críticos, que redundariam na mais desconcertante crise das interpretações.

O primado do teórico, do teórico desgarrado do prático, pôs entre parênteses o conjunto de fundamentos sobre os quais repousavam placidamente as suas certezas. O próprio modelo da racionalidade, na sua versão clássica e na sua veemência tardo-moderna, à medida que se converteu em ideologia, passou a produzir uma espécie de desestabilização conceitual. Impedindo-se de dar conta das situações-limites, dos intervalos ou das margens: submersa que se encontrava nos esquemas interpretativos institucionalizados.

Inadiável se tornou rever os instrumentos reflexivos, e reler aquelas obras que não se deixaram imobilizar no recinto de uma identidade nacional concebida não como ponto de partida mas como reta de chegada. A identidade protegida pelos filosofemas fechadamente metafísicos jamais conseguiu evitar o seu autoconhecimento – a sua frequente perda de alteridade. E, por consequência, de legitimidade.

Foi necessário muito tempo para que, por meio de um esforço crítico a que se aliava a altiva resistência à tirania de Procusto – aquele que dedicou toda a sua força à destruição do outro -, chegássemos a descobrir a verdadeira dinâmica da identidade. Ela se verificou pela descoberta da diferença, e Gilberto Freyre anteviu precocemente. Ele abriu a passagem para os nossos outros: revelou sujeitos silenciados, objetos silenciosos; idéias, afetos, formas e cores, desconhecidos ou proscritos. E sob os auspícios da linguagem, deslindou a energia silenciosa da verdade possível. A partir dele começa a se imiscuir, no ideal peremptório de identidade, o vigor da diferença. Imiscuir é bem o termo porque essa infiltração, como que clandestina, se verifica sem a autorização e com todas as recusas do idêntico – solene e confortavelmente idêntico a si mesmo.

Gilberto Freyre empreende essa jornada reflexiva sem conceder, em nenhum instante, aos cacoetes doutrinários que tanto estigmatizaram a investigação sociológica, subordinando-o aos caprichos de ideologias toscamente laborais. E sem temer as impurezas da razão. Ou as decisões do puritanismo oficial. Ele cria, com as estruturas aparentemente binárias de Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, Aventura e Rotina, Ordem e Progresso, inesperadas - e aqui recorro a Guimarães Rosa - terceiras margens do rio. E assim, sem inverter mecanicamente a pontaria do poder ou do saber tradicional, denega a solidão autoritária do que seria pura mesmidade, mero autismo. Do que é progresso como perda da diferença.

A metafísica objetiva, a efusão do transcendentalismo, o culto da pureza, fabricaram realidades insulares. Mas o querer da vontade nos mostrou que o "eterno retorno do mesmo" se efetiva como eclosão da alteridade. A obra de Gilberto Freyre é amplamente relacional, vive e se nutre do contato, de uma rede interminável de intercâmbios simbólicos: o senhor de engenho e a mucama, o padre e a sinhazinha, o dinheiro e o açúcar, o social, o sagrado, o lúcido - a festa da convivência insólita, a sexualidade da linguagem. O homem pode identificar-se pelo seu desejo, na proporção em que a diferença é constitutiva da identidade. A diferença é também o Trópico: a diferença que se afirma e multitudinária, para além do espaço do pecado - ou dos limites do Equador.

Gilberto Freyre nos ensinou que toda cultura é intercultural. E que os níveis de interculturalidade se intensificam no interior de determinadas relações. Essa inclinação relacional, essa predisposição à convivência, às permutas intersubjetivas, pressupõem contatos abertos e livres face às noções habituais ou hegemônicas de identidade. Requerem uma flexibilidade mais ampla, capaz de conferir pulsões de vida, de erotizar mesmo, núcleos identitários paralisados ou agônicos. Para isso é preciso estar atento aos mínimos sinais afetivos aproximam ou afastam homens e mulheres, brancos, negros, pardos, vermelhos ou amarelos, especialmente nas sociedades patriarcais, em ascensão e em declínio.

O livro emblemático dessa jornada instauradora vem a ser Casa-Grande & Senzala.

A compreensão vertical das tensões da história, ou da "vida histórica", a mutabilidade incessante da cena social, rompe a muralha entrópica, dentro da qual se protegia a fantasia da evolução linear das sociedades. As pulsões do corpo, ocultas e interditadas, implodem no texto e no contexto de Casa-Grande & Senzala. Gilberto Freyre suspende ou retira a censura peremptória da razão absolutizada, que continuava impedindo o saber livre dos homens e das coisas. A sua palavra resistia à tentação onicompreensiva de todos os reducionismos. E começaram a ter acesso ao livro os espaços deserdados pela história opulenta – pedaços, restos, coágulos: tanto nos sentimentos como na consciência, tanto nos instintos quanto na lição codificada. O poder do Todo Absoluto, Infinito, parece abalar-se. Já é possível perceber-se, no marco do conhecimento uniformizador, a emergência de Algo. É certamente a força da diferença. A diferença promove a singularidade, sem abrir mão da pluralidade. Esta atitude coloca a produção intelectual brasileira para além da relação maniqueísta de dependência e independência.

A proposta metodológica que se defrontara com essa multiplicidade teria de rever a própria noção de sistema. E foi o que ocorreu. O conceito de sistema, limitando sempre a sistema de produção – produção, distribuição e consumo -, se revela insuficiente. A ultrapassagem do desejo humano conduz a uma espécie de reconstrução da realidade e da razão, para além das barreiras sistêmicas.

Não se nota nenhum temor com respeito à manipulação da pecha de irracionalismo, estigma execrável – mais que tudo prática autoritária da razão desfibrada de paixão. Em Casa-Grande & Senzala o sujeito deixa de ser profeta solitário, que pensa auto-iluminadamente, expurgando as misturas societárias. Estão em jogo os curto-circuitos da rede comunicativa, onde carecem de vigor os pressupostos que se desvirtuaram em preconceitos.

Aqui o sistema é aberto pelo que Jürgen Habermas chamaria de "agir comunicativo". As relações do mundo vivido, ou tão revivido que vivido, se intensificam desinibidamente: entre histórias, linguagens, economias, raças, crenças e doenças, gostos e desgostos, sabores e dessabores. O discurso que logo se instaura navega contra a correnteza sistêmica, e se adianta analíticamente. Não terá Gilberto Freyre se antecipado ao seu tão afim Roland Barthes, ao "modificar o discurso de análise"?

Os discursos argumentativos desconfiados ou avessos à filosofia, ao pensamento, são incompetentes para pensar a intersubjetividade, para resistir ao formalismo dominante sem resvalar na arbitrariedade. A ideologização do comportamento crítico, nas décadas recentes, vem implicando em variados reducionismos, especialmente de base sociologizante, economicista ou psicanalista. O receituário da modernidade jacobina acentua o seu caráter discriminatório, e quando se depara com situações-limites, intervalos, frestas, rumores, expõe aos olhares confiantes imprevisíveis dificuldades hermenêuticas. O que talvez nos autorize a forçar uma oportuna distinção entre o saber interpretativo e o saber demonstrativo. No espaço estacionário da demonstração, o prefixo de vem a ser um fator de decrésimo, ou de depauperamento das forças do mostrar. As ilusões do "corte epistemológico" privilegiam a postura demonstrativa - investida abusivamente da missão de separar, e incompatibilizar, ciência e não-ciência.

Essa guilhotina demonstrativa explicitou o abismo que se interpõe entre o intérprete doador, o que desobstrui as artérias do sentido, e o sanguessuga, mero vampiro que já não se dá ao cuidado do disfarce. Nenhuma medicina conseguirá estancar a hemorragia argumentativa que esses cortes provocam, no exato instante em que o demonstrar se faz a redundância do mostrar, e a alucinação do decepar.

Tudo isso torna-se visível com a fadiga tecnocrática que finalmente se generaliza. A tecnocratização da verdade vem gerando prolongados impasses. Mas em Casa-Grande & Senzala, a alternância criativa de interpretar e mostrar se encontra presente no conjunto de suas antevisões.

Imune ao conhecimento apenas produtivista da história, ou das permutas humanas, Gilberto Freyre supera o economicismo, desde cedo destinado a grande fortuna exegética no campo das ciências sociais - de tal maneira estamos encobertos antes pela história da economia política do que propriamente pela história. É que, embora a meta de Casa-Grande & Senzala consista em descrever os movimentos, os gestos, os mínimos ícones da "Formação da Família Brasileira sob o Regime da Economia Patriarcal", verifica-se um deslocamento no eixo da divisão do trabalho, em função do qual adquirem especial relevância os desempenhos interativos. Freia-se o expansionismo econômico, na mesma hora em que a "economia libidinal" e o impacto do desejo sobre os contatos interpessoais são pioneiramente desbloqueados. O que Pierre Bourdieu denominaria imprecisamente de "capital simbólico" irromperá com todo o seu vigor metafórico. O saber agora secularizado resgata o que a ordem possa ter de desordem - de simbolicamente desconcertante.

É fácil prever o papel reservado à linguagem. Distante de qualquer dogmatismo, a linguagem - e não a língua – abre os sistemas, promove encontros e reencontros imprevisíveis, interioriza, verticaliza o saber. Na montagem verbal de Casa-Grande & Senzala se realiza, pelo lado da felicidade, o triângulo saudável e verdadeiramente amoroso de sujeito-linguagem-objeto. Esse novo lugar, plástico sem ser apenas decorativo, nem obeso nem esquelético, é a vida do mundo. Por isso dilata as fronteiras do entendimento, ou da razão. É a linguagem menos como instrumentalidade que como modo de ser. Aqui reside parte substancial da verdade gilbertiana.

A linguagem instaura modos de alargamento ou de liberdade da representação. Emblemas, signos, insígnias, da sociedade escravocrata se multiplicam, nesse tempo ternário. O cenógrafo sutil que há em Gilberto Freyre, combina com perícia a cena e o mise en scène. A representação pluriforme jamais se confunde com o excedente. Ele sabe que a redundância da cena é obscena. O obsceno é menos do que deseja - sem querer, permanece neutro, porque ao extrapolar o seu espaço, perde o seu lugar. Jean Baudrillard diz que "o obsceno é o fim de toda cena" - o excesso, o hiper-real que é anti-real, exibicionismo ocioso, excrescência. A palavra de Casa-Grande & Senzala se mostra sensual, erótica mesmo, sem resvalar nunca no obsceno. Daí a sua energia sugestiva. A sugestão é a representação menos a evidência. O evidente é sugestivo: é ostensivo.

A partir de Casa-Grande & Senzala recupera-se o dinamismo da nossa identidade. Consolida-se o processo de emancipação da identidade.

Pode parecer estranho falar-se em emancipação da identidade. Sobretudo se temos em mente que, ao longo da modernidade ilustrada, fomos induzidos a confiar na identidade como a instância emancipadora por excelência. E realmente talvez haja sido, nos pequenos intervalos em que deixou de lado o seu programa auto-centrado.

A compreensão aberta dos antagonismos, o aproveitamento crítico da conflitividade, foi desenhando os contornos da diferença - o não-idêntico do idêntico. Por seu intermédio fica bastante claro que a identidade entra em crise, ou até em coma, toda vez que sacrificada essa dinâmica constitutiva. Isto significa que a identidade é um fazer-se. A identidade antecedente é um mero antecedente da identidade: nada mais. E assim a identidade se fortalece com a diferença, com o reconhecimento do outro. Sem a elucidação da alteridade se extravia a diferença; imobiliza-se, petrifica-se a identidade. E em que obra, em que acontecimento da cultura brasileira, tanto quanto em Casa-Grande & Senzala, o outro, o interdito, o diferente, foi tão antecipadamente valorizado?

      Casa-Grande & Senzala configura a nossa singularidade diversa, as tensões matinais de vida interior, mundo exterior e relações sociais. O novo ente que desponta recupera o indivíduo subjugado nas malhas do sociocentrismo. Mas sem ceder ao idílio individualista. Antes se sobrepondo à separação mecânica de saber, poder e prazer.

Em Gilberto Freyre a linguagem deixa de ser um dado externo ao fenômeno do conhecimento, um simples veículo de que se sirva para comunicar ou transmitir. Pelo contrário: a linguagem irrompe como o próprio lugar do conhecimento, e o saber é tanto mais vertical quanto mais se acha por ela implementado. Só a linguagem guarda, como uma espécie de tesouro escondido, a verdade essencial do homem. E certamente por isso, Gilberto Freyre não vacila em reconhecer e promover a linguagem como infatigável central produtora de sentido.

O dizer do saber se torna sempre mais relevante graças ao saber dizer. É nesta ordem de fatores que emerge e se potencializa o papel do literário, segmento ou instância avançada da expressividade. O signo literário - se é que podemos falar de signo literário - constitui a forma superlativa de nomeação do real, a única capaz de dar conta de toda a movimentação da realidade, dessa interminável contracena de homens e coisas. O signo literário ultrapassa o signo apenas verbal porque dispõe de outra mobilidade, porque está tocado pela poesia. A poesia atua como força de agilização ontológica da linguagem, e não é sem razão que o poeta vê profundamente. Gilberto Freyre já dissera, a propósito de Euclides da Cunha, em Vida, Forma e Cor - obra extremamente reveladora do seu saber literário -: "O poeta viu os sertões com um olhar mais profundo que o de qualquer geógrafo puro. Que o de qualquer simples geólogo ou botânico. Que o de qualquer antropólogo". O poeta vê o mundo por dentro, ou desde dentro, como diriam os espanhóis. E poeta não deve ser apenas o que faz poemas, mas todo aquele que se encontra tomado pelo espírito da poesia. Gilberto Freyre o é; já o era mesmo antes dos poemas e das "seminovelas".

No centro do seu edifício literário, ou artístico de uma maneira mais geral, ou científico de um modo mais artístico - o que significa dizer, mais criativo -, destaca-se logo, ameaçada ou vingada, a figura do homem. Mais do que um analista, Gilberto Freyre chega a ser um construtor do homem: do homem plantado, localizado, enraizado, mesmo ou sobretudo quando em permanente luta contra os impulsos apátridas de nossa era. O homem já não é uma abstração, porém uma encarnação social; com uma história, com um desempenho específico. É através do homem que se descobre a vida; e é através da vida que se reconhece o homem.

O conjunto de ensinamentos ou indicações existenciais que a obra de Gilberto Freyre nos propicia tem a vida como fonte incessante. Não que esteja ele submetido sectariamente a um naturalismo anticultural. O seu discurso livre constitui, aliás, um modelo de insubmissão dogmática, ao preferir expor a sua face nada tecnocrática e por vezes até carnavalesca.

O que acontece aqui é que a cultura, vitalizada pelo sentimento da natureza, preserva-se a todo instante das tentações eruditas que se desempenham por retirá-la do campo para confiná-la no gabinete.

Não nos devemos admirar da sua inserção naquela família de escritores, por ele referida em Como e por que sou e não sou sociólogo - a do escritor que "tende a ter por base sua própria e personalíssima experiência: a vida por ele pessoalmente experimentada, vivida, vista, ouvida, amada, sofrida, apalpada, sentida, observada. A vida por ele apreendida em todos os contrastes: desde os mais sórdidos aos quase angélicos; dos plebeus aos fidalgos; dos sensuais aos religiosos". Todos os sentidos acesos, o coração e a mente; a revelação do real; a linha do horizonte nas mãos. A autobiografia deixa de ser o capricho narcisista para se erguer como recurso vitalizador. Alguma coisa à maneira dos seus espanhóis preferidos.

A construção verbal, ainda mais, a expressão literária de Gilberto Freyre, se multiplica e cresce por meio de um pluralismo equilibrado na dialética do tempo. Saudavelmente descontínuo. Existencial. Consolidado para além daquela dicotomia que a linguística fabricou, e as ciências sociais, por ingenuidade ou insegurança, erigiram em princípio supremo; para além do esquema fraudulento de diacronia e sincronia.

A imaginação do homem pode mais do que supõem os cortes epistemológicos. E nesse caso, reduzir, compartimentar, seria simplificar ou empobrecer a compreensão de um mundo tanto maior quanto mais plural. Um mundo que talvez se alimente justamente dessa capacidade mestiça de incorporar o contraste, de integrar a oposição. Convivência bem pode ser a palavra-chave para uma análise pretendida. A energia do conviver (que outra coisa não é, senão a força irresistível do viver com) impulsiona a própria teoria gilbertiana da cultura. Por isso ela não admite oposições inconciliáveis ou delimitações territoriais indiscutíveis. No seu amplo ideário coabitam, num jogo agora tão alternado quanto revelador, razão e desrazão, normalidade e anomalia, branco e preto, e, se me permitir Glauber Rocha, "Deus e o diabo na terra do sol". Uma dialética amparada pela concepção radical do tempo.

Digo radical porque Gilberto Freyre desce ao fundo da história, como para afirmar que a força do homem é a força do tempo. E neste momento ele se afasta daquela tendência fechadamente historiográfica, segundo a qual a história é apenas crônica, sucessão marcada de episódios, simples topografia da memória. Não: o tempo é aqui uma estrutura unitária, simultaneamente futuro, presente e passado. Jamais a justaposição mecanizada, porém o intercâmbio dinâmico. E essa capacidade presentificadora, esse poder de vitalização do passado, diferencia Gilberto Freyre dos tímidos restauradores, frágeis memorialistas em regime full time. As suas indicações pioneiras para uma sociologia dos brinquedos deixam antever essa reversibilidade cronológica. Talvez porque na opção dos brinquedos começa o jogo das preferências maiores. Ou porque a criança brinca hoje como o homem se comporta amanhã. Ou simplesmente porque na escolha do brinquedo decide-se a prática da liberdade. Ou ainda porque, de qualquer maneira, no comércio dos brinquedos o tempo é um jogo cruzado. E Gilberto Freyre, que se movimenta num interminável universo que vai da crônica à futurologia - e vice-versa -, sabe que o tempo é o local do acontecimento do homem. Mas o "tempo tríbio", conforme a sua própria designação.

A mobilidade cronológica, esse infatigável ir e vir do tempo, tornou inconfundível a lição e a palavra de Gilberto Freyre. E se não fosse de todo arbitrário procurar uma causa principal, teria de acentuar a sólida aliança que se estabelece entre história e existência: e que vivifica a primeira sem desvitalizar a segunda. O tempo deixa de ser criação abstrata para fazer-se dado concreto, visível, existencial. É provável mesmo que a figura humana seja o lugar mais ostensivo da caprichosa fugacidade do tempo. Daí a frequência de certas caracterizações - lembro-me logo de Tempo Morto e Outros Tempos -, como a releitura de efebo confrontada com a dramática cronologia da beleza. Há momentos em que Dorian Grey é só um fantasma sem o menor poder de convicção. Talvez para confirmar que a força do homem é a força do tempo. Do "tempo tríbio". Dorian Grey inverte, sem integrar.

As projeções estilísticas estão igualmente iluminadas por essa multivalência temporal, seja ao absorver o passado, sobretudo inscrito na "tradição ibérica de escritor", animado que sempre se acha por uma "consciência pan-ibérica", seja ao procurar apoios mais atuais no acervo da oralidade, rural e urbana. Gilberto Freyre não se compraz em reconstituir passivamente todo um conjunto de lembranças talvez imóveis, todo um acúmulo patrimonial que, de tão compulsivamente "tombado", jamais deixe margem para um reerguimento. De forma alguma. A tradição parasitária se vê substituída, graças à sua determinação crítica, pela tradição como criação; e é quando o legado se faz roteiro e núcleo gerador de novas vidas.

O projeto criativo de Gilberto Freyre, tanto no plano amplamente cultural, como no nível imediatamente verbal, põe em funcionamento estratégias diversificadas, capazes de acompanhar toda a movimentação do real. Talvez se possa falar de uma antropologia filosófica. Comparatista. Contrastiva. Confrontadora. Em qualquer hipótese, situada na divisa de natureza e história, e informada - nunca por um método fechadamente conclusivo - por um transmodelo abertamente integrador. Como se procurasse corresponder, nessa conjuntura heterodoxa e até anárquica, à própria índole do organismo social pluralístico, e de uma arte verbal tanto mais instauradora quanto mais transgressora. Os esquemas interpretativos pré-delineados perdem peso, e aquela propedêutica apressada dos nossos cientistas sociais cede a um tipo de conhecer que é antes co-nascer.

A prosa multidimensional de Gilberto Freyre se projeta como centro energético desse mesmo sistema de decisões, sobretudo quando consegue vencer ou superar o dualismo que coteja sem misturar subjetividade e objetividade. Sempre me recusei a considerá-lo impressionista, embora seja ele um estranho fabricante de sensações. Sempre me escusei de reconhecê-lo como um cientista, inexoravelmente submisso à predicação. O ímpeto modernizador de sua linguagem se acentua exatamente pela implantação de um novo estatuto expressivo, onde subjetivo e objetivo se confundem, recobrando o seu perdido equilíbrio.

Não pretendo, sob qualquer pretexto, promover ou estimular classificações, sacrificando certamente um traço dominante da sua personalidade: a inclassificabilidade. Gilberto Freyre não cabe no espaço de nenhuma classificação particular. O seu discurso crispado, tenso, polissêmico, composto na linha divisória que separa e reúne ciência e arte escapa, ou desautoriza, aquelas pressurosas etiquetas que fizeram e fazem a felicidade dos preceptistas de todos os tempos. Isto não quer dizer que nele não coexistam o cientista sensível às pulsações da arte e o artista permeável às aberturas da ciência. Até porque a sabedoria do conviver ilumina toda a sua jornada. De uma coisa, no entanto, não devemos esquecer: o cientista usa língua; o escritor instaura a linguagem.

Tem toda razão Gilberto Freyre ao se autoconsiderar principalmente escritor. Melhor dito: escritor literário. O escritor não é o mero usuário do idioma. Antes de se distinguir pelo uso, ele se destaca - perdoem-me a ênfase - pelo abuso da língua. O abuso, que o código linguístico proíbe e a gramática condena, pode ser a redenção do escritor. A pobreza da língua não o anula, porque a riqueza da linguagem o multiplica. A linguagem é a "língua viva", enquanto a língua é a linguagem imobilizada. Já se pode perceber o quanto a condição de escritor vem a se destacar como a mais libertária de todas as condições. Graças a ele – ao abuso mais do que ao uso – a própria língua abandona o seu caráter dominador.

A concepção atualizada do fenômeno literário desenvolve em Gilberto Freyre o pouco apreço pelo "ortodoxamente literário" ou por todas as perversões beletristas que um estatuto anacronicamente bizantino insiste em sustentar, sem querer supor que foi esse purismo, cada vez mais identificado com a canônica oficial, quem preparou a agonia da literatura. O autor de Dona Sinhá e o Filho Padre move-se numa outra faixa, menos triunfalista, mais realista, infensa sobretudo ao padrão formal institucionalizado. A opção das "seminovelas", o gosto pela temática proibida ou evitada, a linguagem da experiência "anti-heróica", que ele tanto soube valorizar em Cervantes, corresponde a uma insatisfação frente ao convencional, já manifesta na descrença pela literatura dos "apenas realistas", dos que ignoram que o realismo literário é o real menos a limitação empírica. Porque a própria realidade, enquanto dinamismo, processamento, vir-a-ser, está constituída por camadas imaginárias, necessariamente transideológicas. Paradoxais.

Gilberto Freyre deve ser reconhecido, sem que se faça qualquer obséquio ou se pratique a menor gentileza, como o divisor de águas da construção estilística no Brasil contemporâneo. O seu "anarquismo construtivo" abriu caminhos novos, passando por cima daquela "bizantinice na composição literária" - são agora palavras suas – "que resulta em obras rigorosamente bem cuidadas e em estilos chamados castigados". O castigo do estilo nada mais é - para mim - do que pura estilização, extensão artificiosa e inócua. Explica-se perfeitamente por que se fizeram tão perturbadores o esquema metafórico, a imagística insólita, os deslocamentos qualificativos, os períodos longos, e nem por isso menos compactos, as intercalações, os encartes postos em funcionamento pela poética de Gilberto Freyre. A gramática da estilização não estava preparada para receber aqueles ativadores estilísticos, condutores obstinados de uma verdade abrangente, pluralista, vertical.

O vigor originário da palavra, que aqui se exprime por um postulado superior - o alargamento significante a serviço da condensação e da intensificação manifestativa – rapidamente substitui o discurso mecanizado pela linguagem vivenciada. A nova língua mediada, robustecida para além das dicotomias de existência e essência, real e ideal, reflexão e sentimento, desautoriza e supera as próprias divisões de prosa e poesia. O homem, a vida, são as verdadeiras instâncias qualificadoras. A lição gilbertiana arranca do fundo dessa constatação.

A região agora é muito mais do que uma simples geografia. É o tempo do homem enraizado – os tempos de Casa-Grande & Senzala. Por que aí coabitam o presente, o passado e o futuro. Gilberto Freyre prefere acompanhar o processo, em vez de simplesmente conceitualizar as variadas e sucessivas ocorrências, instigado muito mais pelo acontecer do que pelo acontecimento. A astúcia metodológica se compõe com a sagacidade intuitiva, e o manifesto regionalista acata as indicações da modernidade, para "além do apenas moderno".



Fonte: PORTELLA, Eduardo. Gilberto Freyre: além do apenas moderno. Rumos. Brasília, n. 1, dez.98 ; jan.99. p. 36-43.

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