O DESCONFORTO DE NÃO SER BRANCO
Antonio Motta
Bastante confessional, a descrição de Lima Barreto, datada de 24 de janeiro de 1908, portanto em pleno verão nos trópicos, evoca a chegada de esquadra norte-americana, em visita ao porto do Rio de Janeiro. Trazia com ela uma variada tripulação de marinheiros de diferentes nacionalidades: norte-americanos, ingleses, franceses, italianos, turcos, alemães, sem esquecer de enfatizar entre eles a presença de alguns poucos marinheiros negros, porém, chamando logo a atenção para seus aspectos atléticos: "bem postos e fortes". Como se pode notar, impressão inversa daquela causada em Gilberto Freyre ao visualizar, na zona portuária nova-iorquina, apenas os marujos brasileiros como " mestiçozinhos desajeitados e nada atléticos", ou ainda, "pequenotes, franzinos, sem o vigor físico dos autênticos marinheiros".
O fascínio de Lima Barreto diante da profusão de imagens etnicamente diversas da sua, e da maioria de seus compatriotas mestiços, encontrada nas ruas do Rio, o levaria, de forma bastante pessimista, a refletir sobre a sua própria condição de mulato brasileiro, interiorizando um forte sentimento depreciativo em relação a si próprio. Inclusive chegando até mesmo a se reconhecer como uma simples "caricatura de homem", quando comparado aos atributos físicos exibidos pelos marinheiros anglo-saxônios. No seu Diário Íntimo, encontra-se registrada, nas páginas 90-91, da primeira edição, a seguinte nota: "Observei fisionomias. Algumas lindas ; nunca vi nas mais lindas mulheres brancas daqui o tom doce de uma fisionomia de marinheiro que me caiu sob os olhos. Entre nós, as fisionomias são mais secas, contraídas, cheias de fogo, mas não têm a limpidez dessas fisionomias saxônicas, que a gente vê nas reproduções dos quadros dos pré-rafaelistas. Há alguma coisa de primitivo nelas, de um primitivo sem selvageria, um sentimento do além, do desconhecido, visto por anjos delicados. Os selvagens são sempre graves, nós somos sempre graves..."
Ao lamentar não possuir o mesmo "ar de arcanjo" que o marinheiro dólico-louro lhe fizera ver, o escritor carioca desacreditava também a sua verdadeira alteridade mestiça, desabafando no seu Diário Íntimo o desconforto e infortúnio de "não ser branco". Aquele sentimento desconcertante, o de ser um outro diferente do europeu, vivido em maior intensidade por Lima Barreto, mas de certo modo também compartilhado em diferentes épocas por Silva Alvarenga, André Rebouças, José do Patrocínio, Barão de Cotegipe, Nilo Peçanha, Tobias Barreto, Cruz e Souza, Luís Gama, Machado de Assis, Raymundo Nina Rodrigues, Manuel Querino e tantos outros, seria gradativamente transformado por Gilberto Freyre em objeto de estudo.
No caso de Freyre, a experiência do visível, vivenciada no inverno nova-iorquino de 1921, começava posteriormente a ser enxergada e descrita como um fato cultural e não apenas racial, como havia acreditado o escritor carioca e outros intelectuais da época. A cena registrada por Freyre em 1921 servirá no Préfacio à Casa-Grande & Senzala, em 1933, como ponto de partida para a escolha e construção epistemológica de seu próprio objeto de estudo. Ao se utilizar propositadamente da referência depreciativa "mongrel", Freyre, sem dúvida, projeta-se na figura do viajante Stewart, como também poderia ter optado por buscar imagens do gênero em relatos de viagens de outros autores estrangeiros, notadamente do século XIX, como: Louis e Ellisabeth Agassiz, Carl Von Koseritz, Carl Von Spix, Maria Graham, John Luccock e tantos outros. Basta lembrar a primeira impressão causada ao conde françês, Arthur Gobineau, quando de sua chegada ao Brasil, em 1845, no porto do Rio de Janeiro, em plena festa de carnaval. Ao ver as primeiras imagens exibidas na face da população carioca, não se contendo de espanto, o autor de Essai sur l'inégalité des races humaines resolvera compará-las a macacos: "tout le monde est laid ici, mais laid à ne pas croire, des singes", ou seja, "aqui todo mundo é feio, tão feio que nem se pode imaginar, verdadeiros macacos".
As imagens de macacos ou de viralatas, atribuídas à população local, evidentemente, hoje só têm importância enquanto registro histórico: vestígios de uma antropologia física (ou biológica) que reduziu o homem concreto unicamente aos determinismos de sua classe zoológica, raça, pulsões, genes, etc. No caso de Freyre, a referência de "mongrel", como poderia ter sido também a de "monkey", serve apenas como imagem contrastiva, de puro efeito retórico, para não tardar, logo em seguida, a realçar a sua verdadeira condição de nativo que se deixara trair pelo sentimento nacional de um olhar cúmplice, compartilhado com a alteridade autóctone, mestiça, no desejo de entender e decifrar também a sua própria alteridade. Sobre isto vejamos o que ele diz : "(...) Faltou-me quem me dissesse então, como em 1929 Roquette Pinto aos arianistas do Congresso Brasileiro de Eugenia, que não eram simplesmente mulatos ou cafusos os indivíduos que eu julgava representar o Brasil, mas cafusos e mulatos doentes".
A declaração de princípio é escrita em 1933 e parece complementar ou mesmo justificar a hesitante indagação registrada em 1921: "Mal de mestiçagem?". A partir de então o seu objetivo primordial fora o de não somente se convencer, ele próprio, do contrário, mas sobretudo demonstrá-lo empiricamente. E com isso, ambicionava passar em revista todo um imaginário sócio-cultural local ainda comprometido na época com a noção de hierarquia entre raças: umas reputadas superiores, outras inferiores. Assim é que em 1933, reivindicando-se sociológo e antropólogo com formação especializada em Columbia, sob forte influência de Boas, serviu como uma espécie de porta-voz oficial local: enquanto a raça é apenas uma questão de hereditariedade, a cultura é uma questão de tradição. Aplicar a diferença conceptual entre raça, cultura e civilização dentro do próprio país tornar-se-ia meta principal por ele perseguida nos anos subseqüentes de retorno a seu país. Com isso, Gilberto Freyre desacreditava de uma vez por todas o argumento de complexos de raças (inferior e superior), as diferenças psicológicas inatas (elementares ou desenvolvidas) e, finalmente, a idéia de estádios culturais inscritos numa ordem seqüencial e finalizada (rudimentar e evolutiva). E, não é nenhuma novidade: o secreto motor daquilo que constituía para ele a base singular de formação da sociedade brasileira, em última instância, repousava sobre a miscigenação cultural.
Fonte: MOTTA, Antonio. O Desconforto de não ser branco. Jornal do Commercio. Recife, 15 mar. 2000.
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