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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



GILBERTO FREYRE
O reinventor do Brasil


Uma boa notícia para os amantes do Brasil. A Global Editora está lançando o essencial de Gilberto Freyre. Primeiro, o grande clássico - “Casa-Grande & Senzala”; agora “Sobrados e Mocambos”. No primeiro, Gilberto analisa a formação da família e da sociedade brasileira; no último a decadência do patriarcado rural entre os séculos XVIII e XIX.

Gilberto Freyre foi um dos intelectuais mais inovadores da cena brasileira do Século passado. Por isso, apesar da oposição uspiana, quando da publicação da “Casa-Grande”, seu livro permanece como um dos mais importantes sobre a formação do povo brasileiro. Influenciou, inclusive, outros sociólogos importantes como Roberto DaMatta.

Com prefácio do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “Casa-Grande & Senzala” ganha uma nova dimensão com notas explicativas e ricamente ilustrada. Uma edição primorosa. FHC, logo de início, pergunta: “Quantos clássicos terão tido a ventura de serem reeditados tantas vezes? Mais ainda: Gilberto Freyre sabia-se clássico. Logo ele, tão à vontade de escrever, tão pouco feito às normas. E todos que vêm lendo ‘Casa-Grande & Senzala’, há setenta anos, mal iniciada a leitura, sentem que estão diante de obra marcante”.

Tem toda a razão o ex-presidente. Gilberto Freyre inovou, buscou novas fontes, fez uma abordagem diferente dos historiadores e sociólogos tradicionais - manuscritos de arquivos públicos, documentos pessoais e até publicidades de jornais para mostrar em “Casa-Grande & Senzala” a formação da sociedade brasileira. Para Mariza Veloso, antropóloga e socióloga da Universidade de Brasília, é possível identificar, diante da complexidade de Freyre, “afinidades eletivas” entre suas propostas de interpretação da sociedade brasileira e algumas proposições fundantes do modernismo, elaboradas por outros intelectuais da mesma geração do autor, como Sérgio Buarque de Holanda, Mário de Andrade e Manuel Bandeira.

— Entre estes traços podem se destacar alguns eixos temáticos definitivos rumo à renovação interpretativa da cultura brasileira, tais como a substituição (pelo menos tentativa) do conceito de raça pelo de cultura e a introdução mais avançada da idéia de meio geográfico, antecipando-se, assim, à própria idéia de meio ambiente, uma vez que voltada mais para uma perspectiva ecológica, em detrimento do então implacável determinismo geográfico.

A professora Mariza Veloso defende a concepção que que Gilberto Freyre nunca pretendeu construir uma interpretação do Brasil que resultasse na idéia de soma ou síntese. “A proposta desse intelectual consiste na construção de uma noção de totalidade histórica que mantém um sentido aberto às transformações sociais e às múltiplas possibilidades de metamorfoses simbólicas e arranjos interpretativos polissêmicos”. Para ela, pode-se arriscar a idéia de que a interpretação modernista de Gilberto Freyre constrói não uma metáfora sobre a cultura brasileira, mas uma alegoria, isto é, uma totalidade aberta a múltiplos sentidos.

Na verdade, em sua trilogia “Casa-Grande & Senzala” (1933), “Sobrados e Mocambos” (1936) e “Ordem e Progresso” (1959), Freyre recorre à tradição, à memória e história, fugindo a retórica da “intelligensia” e explora festas sagradas e profanas - complexos culturais que exibem uma espécie de tradição progressiva -, para ampliar um leque de interpretações, abrindo, de certa forma, espaço de continuidade através das mudanças futuras. Assim, ele explicou o passado com olhos do presente, mas atento ao futuro.

No prefácio que fez para a primeira edição de “Casa-Grande & Senzala”, Freyre coloca essa questão claramente, quando refere-se ao presente e ao futuro, utilizando-se da memória involuntária tão estudada pelos pesquisadores de Proust. Diz ele:

A história social da casa-grande é a história íntima de quase todo brasileiro: da sua vida doméstica, conjugal, sob o patriarcalismo escravocrata e polígamo; da sua vida de menino; do seu cristianismo reduzido à religião de família e influenciado pelas crendices da senzala. O estudo da história íntima de um povo tem alguma coisa de instrospecção proustiana; os Goncourt já o chamavam “ce roman vrai”. O arquiteto Lúcio Costa diante das casas velhas de Sabará, São João del-Rei, Ouro Preto, Mariana, das velhas casas-grandes de Minas, foi a impressão que teve: “A gente como que se encontra... E se lembra de coisas que a gente nunca soube, mas que estavam lá dentro de nós; não sei - Proust deve explicar isso direito.

Lançando mão de Proust e de sua memória involuntária, àquela que não é ditada pelos historiadores oficiais, o próprio Freyre abre um flanco para uma série de interpretações de sua obra. A professora Mariza Veloso lembra que a percepção do tempo como intensidade, como irradiação, e paralelamente, como um instante fugidio leva a consciência moderna a acentuar a aguda finitude da vida e a elaborar uma nova concepção de história.

— Freyre construiu uma noção de história como totalidade que supõe e contém transformações no tempo. Surge, assim, um conceito renovado e ampliado de história, que dirige a sua atenção tanto para a sua mudança na continuidade quanto para a continuidade na mudança.

Para construir esta nova “noção de história”, Freyre não teve preceitos nem preconceitos. Nem seguiu cartilhas deterministas da época. Pelo contrário. Suas fontes foram múltiplas e instigantes - jornais, receitas de comida, relatos de viajantes e romances. E o que não poderia deixar de ser: da rica história oral. Diz ele, no prefácio da primeira edição de “Casa-Grande& Senzala”.

— De outras fontes de informações ou simplesmente sugestões, pode servir-se o estudioso da vida íntima e da moral sexual do Brasil dos tempos de escravidão: do folclore rural nas zonas mais coloridas pelo trabalho escravo; dos livros e cadernos manuscritos de modinhas e receitas de bolo, das coleções de jornais; dos livros de etiqueta; e finalmente do romance brasileiro que nas páginas de alguns dos seus maiores mestres recolheu muitos detalhes interessantes da vida e dos costumes da antiga família patriarcal. Machado de Assis em “Helena”, “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, Iaiá Garcia, Dom Casmurro e em outros de seus romances e dos seus livros de contos, principalmente em “Casa Velha”, publicado recentemente com introdução escrita pela Sra. Lúcia Miguel Pereira; Joaquim Manuel de Macedo em “As Vítimas Algozes” “A Moreninha”, “O Moço Louro”, “As Mulheres de Mantilha”, romances cheios de zinhazinhas, de iaiás, de mucamas; José de Alencar em “Mãe”, “Lucíola” “Senhora”, “Demônio Familiar”, “Tronco do Ipê”, “Sonhos de Ouro”, “Pata da Gazela”; Francisco Pinheiro Guimarães na “História de uma Moça Rica” e “Punição”; Manuel Antônio de Almeida nas “Memória de um Sargento de Milícias”; Raul Pompéia em “O Ateneu”; Júlio Ribeiro em “A Carne”; Franklin Távora, Agrário de Menezes, Martins Pena Américo Werneck, França Júnior são romancistas, folhetinistas ou escritores de teatro que fixaram com maior ou menor realismo aspectos característicos da vida doméstica e sexual do brasileiro; das relações entre senhores e escravos; dos trabalhos nos engenhos; das festas e procissões.

O próprio Gilberto Freyre lançou mão de romances e das idéias de ficcionistas para escrever seu grande clássico. Na época, era comum aos historiadores trabalharem através de documentos oficiais e dados estatíscos para recompor o passado. O que não ocorreu com Freyre. O romance é uma obra aberta. Um livro remete a outro livro. Como diz Harold Bloom, o efebo (poeta inicial) passa por diversas fases para que a sua obra seja respeitada por sua geração. Um processo complexo, difícil, de associações e, algumas vezes, de inseguranças. Freyre construiu, assim, uma obra aberta que teve os seus seguidores - como o já citado Roberto DaMatta com “Carnaval, Malandros e Heróis”.

O passado nunca nos chega completo. É preciso pescá-lo com a luz do presente e com muita imaginação. Foi o que fez Gilberto Freyre. Por isso, a relação que a professora Mariza Veloso faz entre a sua obra e a dos modernistas - sua visão do folclore, do racismo e da cultura brasileira. “Gilberto Freyre recusa-se a pensar a história por um tempo homogêneo e unilinear. Para ele o tempo é repleto de processos históricos irradiadores - daí a observação da história em seus momentos de intensidade e sua relação com a tradição. No Brasil, além da renovação no conceito de tradição, este vem associado à idéia de misturas, o que confere às tradições culturais brasileiras vivacidade inaudita.

Em “Sobrados e Mocambos”, obra prefaciada por Roberto DaMatta”, notamos uma continuidade de “Casa-Grande & Senzala”, uma visão recheada de presenças. “De fato, em contraste com as interpretações marcadas pela ênfase nas ausências (o Brasil não foi colonizado por “raças arianas” ou “povos adiantados” ele “não teve burguesia”, ele “não tem um povo homogêneo”, “não tem, sequer, vergonha na cara”, “não tem patriotismo”, etc., etc.,).

— No Brasil gilbertiano, não há nada inadequado, patológico, tarado ou fora do lugar. Muito pelo contrário em oposição reitero a muitos dos seus contemporâneos (e, diga-se a bem da verdade, sucedâneos), Gilberto viu o Brasil antropologicamente, com o que ele tinha e com o que era, ou seja: sem preconceitos comparativistas negativos, quando ele não era lido em seus próprios termos, mas em função de outro escalão civilizatório. Para ele, o diferente não significa inferioridade ou, muito menos, superioridade. A recusa da autonomia e da autenticidade emblematizada na pergunta absurda, feita por plebeus, publicistas e filósofos quando o Brasil fez 500 anos - o que comemorar? - não cabe, pois, nesta obra.

DaMatta recoloca também a obra de Gilberto Freyre dentro de um processo de tempo relativo, a compreensão do tempo inter-relacionada com o modo específico de compreender a memória, a tradição e a história. Relaciona os pontos de encontro entre a “Casa-Grande & Senzala” e “Sobrados e Mocambos” ao estudar o espaço da casa e da rua. Principalmente, quando enfatiza a contribuição intuitiva de Gilberto Freyre com relação à hierarquia como ponto central do sistema social brasileiro.

Sua contribuição mais importante é que ela chega não só no sistema de dominação (feito de senhores e escravos e, em seguida, de patrões e empregados ou dependentes), mas no modo específico pelo qual essa dominação se faz no caso brasileiro. Pois é na casa “grande” ou de sobrado que as polaridades irreconciliáveis do sistema se materializam, e são igualmente amaciadas, conciliadas e mediatizadas. No Brasil, portanto, a “casa” é mais que o local de moradia. É também, como Gilberto Freyre demonstra em sua obra, escola, igreja, banco, partido político, hospital, casa comercial, hospício, local de diversão, parlamento, restaurante, e o que mais se queira. De certo modo e, em larga medida, continua sendo - apesar dos nossos esforços - uma instituição ainda sem rival na sociedade brasileira. (...) Um estilo de vida no qual a relação não é um mero resultado contratual do encontro de dois sujeitos, mas é um valor, tendo poder coercitivo e subjetividade. Assim, o Brasil, como Dona Flor, decide escolher não escolher; tem rios com três margens; tem “jeitos” de passar pela lei sem cometer crime, bem como “desconstruções” sociais programadas, como o carnaval que coloca tudo de ponta-cabeça”.

Tanto em “Casa-Grande & Senzala” quanto em “Sobrados e Mocambos”, Gilberto Freyre traça uma história do Brasil longe dos padrões tradicionais. Sua história não é mecânica, tocada por leis ou engrenagens da história ou da economia. Como reconhece o próprio DaMatta, o Brasil de Gilberto tem alma, intriga, gostos, incoerência, sussurro, coração. Ou como na voz de Carlos Drummond de Andrade: Velhos retratos receitas/de carurus e guisados;/as tortas Ruas Direitas/os esplendores do passado;/A linha negra do leite/coagulando-se em doçura/ as rezas à luz do azeite;/o sexo na cama escura.

Fonte: DIRETOR tem identificação cultural. Diario de Pernambuco. Recife, 15 mar. 2000. Viver.

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