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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



ENCONTROS COM O SOCIÓLOGO

Edivaldo M. Boaventura

Fuem viveu em Recife no início dos anos 60, naqueles dias em que nascia a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, a Sudene, podia ver e ouvir Gilberto Freyre no Conselho Deliberativo, no qual representava o Ministério da Educação. Estava, assim, no centro das decisões regionais e no centro também das polêmicas. Mais do que em qualquer outro lugar, ele estava mesmo em sua casa, em Apipucos, que não distava muito da sede do Centro Regional de Estudos Pedagógicos, então funcionando no sobrado que pertencera a Delmiro Gouveia. Esse centro era coordenado também pelo sociólogo e integrado, dentre outros educadores, por Carlos Frederico Maciel e Maria Graziela Pelegrino.

Trabalhando na Sudene, pelos meados de 1961, fui visitá-lo pela primeira vez, em Apipucos, levado por Vamireh Chacon. Entramos na conversa pela crítica à estranha teoria de Oliveira Viana sobre mistura de raças. Eu, que lera bastante sobre enquadramento sindical, tentei mostrar a contribuição do estudioso fluminense para o sindicalismo. Logo passamos ao referencial baiano, entrando no comentário acerca da não-recondução do reitor Edgard Santos à Universidade Federal da Bahia. Gilberto aproveitou o momento para enaltecer a figura do fundador da Ufba. Considerava Edgard o reitor por excelência que o Brasil possuía. A não-designação teve por parte dele uma reação de indignação. Tempos depois, deparei-me com um artigo de Gilberto sobre o nosso reitor, Universidade viva, publicado em O Cruzeiro (6/3/1958), que incorporei na coletânea Ufba, trajetória de uma universidade, 1946-1996.

No artigo, Freyre destaca o trabalho inovador do primeiro reitor da Ufba: "O reitor Edgard Santos vem juntando ao zelo pelo saber tradicional a atenção pelo novo; cuidando da modernização do ensino médico - ensino que é das mais ilustres tradições baianas - mas cuidando também da modernização dos estudos de Língua, de Literatura, de Filosofia e de Belas-Artes; e também dos de Ciências Sociais e Econômicas; dos de Direito e de Engenharia. Cuida da Universidade que orienta, considerando-a o todo ou o complexo que é. Daí a atenção que tem sabido dispensar também aos cursos de teatro, de drama, de dicção, confiados a instrutores não só competentes como cheios de entusiasmo pela obra pioneira que vêm realizando". Freyre insiste que "uma universidade viva e orgânica se afirma cada dia mais na capital da Bahia".

O meu encontro maior e mais significativo com o sociólogo foi em novembro de 1970, quando o governador Luiz Viana Filho o convidou para a inauguração da Biblioteca Central do Estado da Bahia, do Museu de Arte da Bahia, no palacete Góes Calmon, e do Museu das Alfaias, em Cachoeira. Como secretário da Educação e Cultura, fui o orador da solenidade, que devolveu à Bahia o tradicional palacete, hoje sede da Academia de Letras da Bahia. A audiência contou com vários membros da Academia Brasileira, inclusive Pedro Calmon, que falou depois de mim.

No dia seguinte, a caravana acadêmica partiu cedo para Cachoeira. Estávamos todos empenhados na declaração de monumento nacional para a cidade heróica. Neste sentido, foi a bela fala de Afonso Arinos de Melo Franco na Câmara Municipal. Na ida, havia conectado Gilberto e conversamos bastante sobre a restauração do Engenho Freguesia, onde se instalaria o Museu da Independência Wanderley Pinho. Combinamos que tão logo terminassem os atos em Cachoeira, deixaríamos o grupo em direção ao histórico engenho.

No percurso de Cachoeira para o Engenho Freguesia, Gilberto, dona Magdalena e eu falamos bastante do formalismo jurídico de alguns políticos baianos. Gilberto observava-os do ponto de vista da cultura material de uma maneira antropológica. Qual não foi o seu espanto quando avistou a imponência do solar do Conde de Passé. O volume de casa e capela parecia bem maior, saindo do verde. Visto de frente, bem pintado e restaurado, iluminado ainda pela incidência do sol que se punha, causava uma impressão surpreendente ao visitante. Espanto e admiração se transmudaram em elogio pela restauração, ao tempo em que lamentava o desaparecimento do Engenho Noruega, em Pernambuco.

Percorremos todo o prédio. Gilberto perguntou ao vigia se não havia fantasma? O vigilante, meio escabreado e assustado, respondeu negativamente. Mas Gilberto não se conformou. À proporção que corria a casa, insistia cada vez mais na indagação. Não era possível não existir duendes naquele casarão tão antigo e habitado por tão nobre gente!

Perto de concluir a visita, já estávamos nos dirigindo para o carro, o vigilante, muito sem jeito, me chamou à parte e, quase em segredo, disse-me: "Senhor secretário, eu não quis dizer que há fantasmas, com vergonha, mas ouve-se uma zoada infernal por essas salas à noite. Muitos que dormem aqui já o ouviram e viram a subir e a descer pelas escadas". E acrescentou: "vários vigias, apavorados, deixaram de tirar o pernoite no interior da casa".

Logo relatei o segredo do funcionário a Gilberto, que prontamente retrucou com uma atitude metodológica. Claro que tinha de haver fantasma! E completou afirmando que, num procedimento investigativo, o problema era insistir na indagação. Disse: "Não se esqueça que tenho prática de pesquisa, especialmente de entrevista". Com essa fantástica evidência empírica, arrumamo-nos para voltar.

Chegando ao Recife, escreveu um belo artigo sobre essa sua visita à Bahia, ressaltando as recentes contribuições à sua cultura, a cujas inaugurações testemunhara.

Fonte: BOAVENTURA, Edivaldo M. Encontros com o sociólogo. A Tarde. Salvador, 25 mar. 2000. Ilustrada.

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