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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



GILBERTO FREYRE: ESCRITOR LIVRE, AMIGO DA BAHIA

Josaphat Marinho

Tanto mais duradouro e de excelsa valia é o acervo cultural de Gilberto Freyre, porque ele foi um escritor livre. Não admitiu restrições do poder político ou econômico, nem de outros grupos, à sua liberdade de pensar, enunciar e expandir idéias. "O escritor que se acomoda diante dessas forças - proclamou - corre o risco de tornar-se escriturário". Vale dizer, será um repetidor de dados, não um criador de pensamentos, conceitos e diretrizes.

Deliberado a escrever o que lhe parecia certo, sem vínculos deformadores, aceitou a crítica sensata e, fundado nela, reviu juízos emitidos. Repeliu com energia a censura autoritária.

Toda sua obra essencial, desde a investigação sociológica e antropológica da sociedade nordestina, com valorização dos negros e mestiços, até a concepção do tropicalismo, foi uma luta acesa contra critérios tradicionais de interpretação da realidade social. Afirmou-se como cientista social e escritor pela capacidade metódica de sustentar suas teses. Contrariou mitos, devassando arquivos e até descobrindo "intimidades extintas". Expôs o que o conservantismo silenciava e assim descreveu novas faces da sociedade. Contrariando verdades assentadas, porém sem bases firmes procurou a certeza entre contradições. Buscava descobrir nos contrastes o que chamou a "verdade composta". O espírito dialético recusava a linearidade, que amortece a imaginação e a força de mudar motivadamente. (...)

Pelo critério investigativo seguido de interpretar a sociedade nordestina, varando preconceitos e receios, o escritor de visão humana havia de buscar elementos substanciais na Bahia, onde se constituíram os primeiros núcleos de colonização.

O pesquisador interessado no conhecimento das estruturas sociais, que ofereciam semelhanças e diferenças, visitou Salvador e parte do Recôncavo, em 1926 e em 1930. Voltou em 1949. Colheu diretamente impressão das ruas estreitas, das igrejas de tradição e riqueza artística, dos cortiços, dos costumes baianos em geral. Confessou que "onde se regalaram" mais seus "olhos foi nas paisagens ainda marcadas pela presença de velhas casas-grandes, capelas e engenhos". Dessas visitas extraiu elementos para escritos diversos, depois incorporados em livros.

Na sua autenticidade viu "a Bahia de todos os Santos e de quase todos os pecados". Criticou a oratória de Rui Barbosa, mas declarou que nele admirava o letrado, o lutador político, o homem de coragem, o liberal desassombrado de sempre, o jurisperito, sempre lúdico, o trabalhador formidável, o estudante madrugador que foi até o fim da vida". Também criticou em 1925 a oratória de Otávio Mangabeira. Depois de ouvi-lo na Assembléia Constituinte de 1946, que também integrou com relevo, escreveu que o tribuno era "outro". "O orador sem igual na arte ou na técnica do debate da réplica, do discurso político", e "portador da mensagem democrática".

Elogiou "os escritores baianos de hoje", de seu tempo, pela aptidão de conciliar a tradição de eloqüência com "um ritmo moderno de frase e um sentido atual de expressão". E generoso assinalou: "quem fala em valores genuinamente brasileiros de cultura, decerto incluí entre os melhores os baianos: os da arte, os da civilização, os da civilização baiana".

Mas o grande encontro do preclaro pernambucano com a Bahia foi em 1943, quando o combatente pela democracia revelou, destemido, que não era e não queria ser o intelectual puro. Resistindo à ditadura e às suas práticas policiais, foi aqui perseguido e preso. Recebeu-o, então, a cidade do Salvador, por todas as categorias intelectuais e sociais, à frente a mocidade. Foi aplaudido na Faculdade de Medicina, na Faculdade de Filosofia, no almoço que lhe ofereceram baianos livres, de todas as tendências políticas filiadas ao pensamento democrático. Falou em duas conferências: Em torno de uma classificação sociológica, na primeira; A propósito da filosofia social e suas relações com a sociedade histórica, na outra. Em ambas conjugou o juízo científico a conceitos oportunamente políticos, que naquele instante seria deserção ignorar os atos de violência e opressão.



Fonte: MARINHO, Josaphat. Gilberto Freyre: escritor livre, amigo da Bahia. A Tarde. Salvador, 25 mar. 2000. Ilustrada.

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