O FIEL DO PODER MODERADOR
O velho senhor de compridos cabelos cor de pergaminho percorre, orgulhoso, a pequena e desarrumada saleta onde estão algumas de suas preciosidades esquecidas. No alto da parede, apertados e sem a luz que merecem, convivem, frente a frente, um imperial retrato de dom Pedro II e uma família cinzenta, esquiva e nervosa de nobres do século passado - um óleo de Cícero Dias. Ele passa sem dar atenção à sua vitrina de condecorações, onde reluz o crachá de Cavaleiro do Império Britânico. Acaricia uma palmatória de jacarandá, aponta o auto-retrato de Pancetti e esclarece: "Me disseram que vale 40 000 contos". Pára diante de um pequeno oratório envidraçado onde ficam guardados santos, elefantes de marfim, um castiçal de prata, um prato, uma corça de madeira, uma parafernália empoeirada. Abre a portinha e retira uma velha fotografia sépia montada sobre papelão. E entre as suas mãos surge, ainda nítida, uma jovem de boca inquietante e sobrancelhas ativas. Tem jóias de brilhantes nos cabelos, no colo e na mão de dedos compridos. Há 39 anos, ela aparece como a primeira ilustração de "Casa-Grande & Senzala". Lá está protegida por uma legenda misteriosa: "Uma Wanderley do século XIX". "Sempre tive uma aspiração incestuosa com relação a esta minha tia-avó", confessa Gilberto de Mello Freyre, 72 anos, enquanto recoloca Maria da Rocha Wanderley Lins no seu nicho.
O grande salão - Se as aspirações incestuosas, a família do quadro e o escuro retrato do Imperador escondidos na saleta relembram a decadência da opulenta civilização do açúcar e dos senhores de engenho, o grande salão contíguo encerra a imponência aristocrática que cerca a vida e os menores gestos do senhor da vivenda Santo Antônio, de Apipucos, a 20 minutos do centro do Recife.
Sentado na gigantesca cadeira que sustentava dona Ana Rosa Falcão, a rica madrinha de Joaquim Nabuco, Freyre é aí protegido por uma galeria de quadros recentes de seus antepassados, entre os quais, evidentemente, a bela Wanderley do século XIX. Esse salão, com tapetes persas, mesas inglesas, castiçais de bronze franceses. Milhares de livros, é cuidadosamente ordenado sob o olhar vigilante de um Quixote de prata maciça trazido de Sevilha.
Sem canaviais e escravos, Gilberto Freyre reúne nos dois andares da casa de Apipucos o resultado de sua próspera e glorificada atividade extrativa: quarenta mil livros, 600.000 exemplares vendidos e 120 prefácios generosamente concedidos. Graças a essa notoriedade muitas vezes premiada, foi deputado em 1946 e, 26 anos depois, inesperadamente, desceu de sua colina às margens do Capibaribe, primeiro com as tábuas de um documento político encomendado pela Arena e depois com uma entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo".
"A opressão é desnecessária. É tempo para uma reabertura. O AI-5 foi necessário porque as forças que caíram em 1964 estavam se reagrupando. Agora eu acho que ele está se prolongando demais. Contudo, qualquer medida deve ser tomada levando-se em conta a situação internacional, pois há forças internacionais querendo a desagregação do Brasil", disse a VEJA na semana passada.
"O senhor está querendo reeditar o pronunciamento de José Américo de Almeida em 1945*?".
"Não me faça isso. O José Américo estava querendo derrubar o governo. Eu me considero perfeitamente identificado com ele e estou querendo colaborar".
A repercussão - Por mais bem intencionado e cauteloso que tenha sido Gilberto Freyre, seus dois pronunciamentos tiveram uma repercussão bastante superior à própria atividade do Congresso Nacional nos últimos anos. Ao que tudo indica, não significam nada além do pensamento do próprio Freyre. De uma maneira geral, ele não revela profundos conhecimentos dos mistérios da política brasileira. E nem se preocupa com isso. Discute as questões sempre em tese. De Apipucos, portanto, ele não poderia ver imediatamente a imensa distância fictícia que separa o seu conselho para se estimular um clima de debate com estudantes e operários, incluído no documento divulgado em maio, da sua opinião de que talvez tenha chegado a hora de uma abertura política, divulgada com a entrevista, no inicio de junho.
Mas os mistérios da política brasileira, se ainda não foram desvendados todos, já têm as suas manifestações sobrenaturais perfeitamente identificadas. Assim, dos elogios que choveram ao documento onde se falava apenas em debate, restou pouco mais que o silêncio diante das declarações sobre a abertura. Durante toda a semana passada, a sucursal de VEJA em Brasília buscou opiniões de arenistas sobre os pronunciamentos de Freyre. Um senador acusou terríveis nevralgias, outro lamentou seu resfriado. Houve um caso de estafa e dois de telefone quebrado. Enquanto isso, no Rio. Josué Montello, do Conselho Federal de Cultura, informava: "Não compete ao intelectual ficar se pronunciando sobre problemas estritamente relacionados com o processo político, a não ser que seja especialmente convidado pelas lideranças políticas". E Freyre só havia sido convidado para fazer o documento. Mas não para dar entrevistas.
Desarmonia - Sincero, o sumo sacerdote da Arena, senador Filinto Müller, explicava o mistério do repentino silêncio: "Considero o trabalho preparado pelo dr. Gilberto Freyre para a Arena como altamente interessante e até pedi um voto de louvor para ele, na reunião da Arena, o que foi aprovado. Depois do trabalho, a imprensa publicou uma entrevista do dr. Gilberto Freyre e, como notei uma certa desarmonia entre o trabalho e as declarações a ele a ele atribuídas, espero ter a oportunidade de conversar com ele sobre o assunto". Além disso, Müller recomendou aos parlamentares da Arena que evitassem comentários a respeito da entrevista.
Assim, estabeleceu-se mais uma das divertidas situações paradoxais que a política brasileira tem a capacidade de gerar. No início do ano, ávida de saber, a Arena sitiou a mansão cor-de-rosa de Apipucos em busca de algumas palavras do velho sociólogo de dedos finos, orelhas grandes - como aliás têm todos os descendentes dos Wanderley - e nariz de bruxo. Rompendo seu silêncio ditado unicamente pelo culto que dedica ao conforto, Gilberto Freyre fez longas reuniões no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, onde as fechaduras e dobradiças são de prata talhada e, sob a sua liderança, especialistas realizam estudos em geral sociológicos. Finalmente, produziu o documento tão aplaudido pela Arena. Em seguida, Freyre, valendo-se das mesmas idéias gerais, deu uma entrevista, onde acrescentou algumas opiniões. E então descobriu-se que nem todas as opiniões políticas saídas de Apipucos são sábias e louváveis.
Anarquista - A política, para Gilberto Freyre, é um assunto extremamente singular. Do ponto de vista filosófico, ele seria um dos mais perigosos adversários de qualquer regime, pois confessa: "Sou anarquista", acrescentando a ressalva salvadora - "no bom sentido". Uma coisa, porém, é certa: não é arenista, oposicionista, udenista ou pessedista e, acima de tudo, não é, não quer vir a ser e tem raiva de quem é liberal. "O liberal não é carne nem peixe. Não resolve nada porque foge das soluções", afirma "Eu sou um revolucionário conservador. Acho que a sociedade brasileira tem coisas que devem ser mantidas e outras que devem ser viradas de cabeça para baixo".
Em seu documento, recomendou: "A Arena necessita, como partido revolucionário, de ser um claro porta-voz da consciência nacional, apelando para a unidade e solidariedade de todos os brasileiros, sem temer qualquer deles. Sem temer proletários que, em potencial, está demonstrado que são, há anos, dentro e fora do Brasil, uma força socialmente estabilizadora. Sem temer estudantes ou jovens e suas reivindicações. Ao refletir as idéias da Revolução de 1964, a Arena será o construtor de uma situação política que possa servir, no futuro, para ampliar instituições brasileiramente democráticas. Instituições democráticas que devem ser entendidas dentro de um sentido novo, despojados de balofas idéias liberais, mas baseadas no respeito àquele sentimento de liberdade, àquele apreço à adversidade, àquele pendor para a tolerância tão das nossas tradições".
Nenhum entusiasmo - O trabalho de Gilberto Freyre foi considerado pelo jornalista Arnaldo Pedroso d'Horta "uma mensagem elaborada na Lua, por curiosos, a respeito da situação reinante na Terra", e, pelo senador Ernani do Amaral Peixoto (MDB-RJ), "um belo documento literário, onde falam coisas objetivas". Apesar disso, o senador acrescenta uma pergunta extremamente política: "Em sua entrevista o professor disse que considera antipática a idéia do voto individual. Eu gostaria que ele explicasse até que ponto vai essa antipatia".
Gilberto Freyre explica: "Não tenho entusiasmo nenhum por eleição. Votei só uma vez, em mim mesmo, para não decepcionar os estudantes que haviam lançado minha candidatura à Constituinte, em 1946". Na realidade, excluindo-se o conhaque de pitanga que fabrica em sua casa e o Instituto Joaquim Nabuco, onde passa as tardes num porão azulejado e refrigerado, Gilberto Freyre não é uma pessoa de grandes entusiasmos: "Sou um anti-retórico".
Ele não acredita que o Brasil tenha a premente necessidade de subir a Apipucos para resolver seus problemas institucionais. No entanto, se o que se busca no país hoje é um modelo político, Gilberto Freyre tem o seu a oferecer. Suas idéias já foram expostas a inúmeros presidentes, desde Getúlio Vargas - um fatalista espanhol, segundo Freyre - no período constitucional, até ao marechal Castello Branco, visita habitual da casa-grande, onde trocou o conhaque de pitanga por cálices de vinho do Porto. Sentado com uma perna sobre o braço da cadeira e acariciando a ponta do queixo, diz: "A democracia é uma palavra em crise no mundo todo. Agora está aberta a novos conteúdos". Abaixa a cabeça, olha por baixo da sobrancelha e, fixando-se num ponto imaginário no chão de lajotas vermelhas da varanda, onde passam borboletas marrons e pássaros, acrescenta: "Precisamos de uma mistura de autoritarismo com democracia. Durante o Império, a autoridade foi consagrada no exército do Poder Moderador, que é uma invenção brasileira. O imperador tinha o direito indiscutível de interferir com sua autoridade sempre que as disputas entre as facções pudessem levar a impasses que prejudicassem a vida do país. Em 1964, não tínhamos nem a Coroa nem o Poder Moderador e a autoridade foi posta em perigo mortal. Agora, com a Revolução, a moderação está sendo exercida pelas Forças Armadas com o Executivo forte".
Corporativismo - Além da necessidade de um novo poder, Freyre prega o surgimento de uma nova forma de representação: "O voto geográfico é artificial. Temos que falar um pouco de corporativismo, não o dos fascistas, mas o de Georges Sorel, que era anarquista". Entre todas essas conclusões, coloca a da necessidade de uma abertura e do destemor diante do debate. Por isso, entre a abertura de Gilberto Freyre e a dos liberais e neoliberais que ele ataca, abre-se um imenso abismo, em cujo fundo podem repousar eternamente as esperanças daqueles que pretenderam ver nas sugestões do professor um poema oposicionista.
Em certo aspecto, chega a ser um rígido e lógico defensor da legislação de exceção vigente no país. O senhor concorda com a aposentadoria compulsória do sociólogo Florestan Fernandes, que hoje leciona no Canadá*?, pergunta VEJA. "Essa pergunta é muito difícil de ser respondida. O intelectual não deve ser um privilegiado. Eu mesmo fui preso três vezes durante a ditadura de Vargas. Minha casa foi literalmente saqueada em 1930. Se o intelectual tentou atingir o regime e se isso ficar provado, como não sei se é o caso de Florestan Fernandes, nada mais justo que houvesse uma reação de defesa".
"Então o senhor acha que o juiz de Tribunal de Salvação Pública de Paris que mandou executar Lavoisier dizendo que 'a Revolução não precisa de cientistas' tinha razão?".
"É aí fica muito forte. Executar, não, mas poderiam aposentar Lavoisier".
Demissão de todos - Muitas vezes, nos últimos anos, opiniões tão duras só foram enunciadas por ocupantes de cargos públicos que, pelos mais diversos motivos, depois de perderem o poder, tiveram violentas recaídas democráticas e liberais. Gilberto Freyre, porém, cultiva suas opiniões com o mesmo sentido caseiro com que ele e dona Magdalena, sua mulher, supervisionam a ordem no jardim tropical da casa, onde, há dez anos, Aldous Huxley passou uma tarde xeretando plantas. Em 1964, logo depois de ter sido eleito, o marechal Castello Branco telefonou-lhe, oferecendo o Ministério da Educação.
"Só aceito se minha posse coincidir com a demissão de todos os reitores e de todos os conselhos universitários", informou Freyre. "Você está sendo muito radical".
"Então, vá a outro".
E o marechal Castello Branco foi ao professor Flávio Suplicy de Lacerda. Meses depois, convidou-o para a embaixada em Paris. E novamente Freyre recusou. "Eu não vou sair daqui", diz e sorri olhando em volta de sua casa, "para ser subministro, ficar assinando papéis sem importância, nem para ir morar em Paris".
Gilberto Freyre, como os velhos senhores de engenho, insiste em esclarecer que se sente muito bem na casa. Contudo, a paixão do jovem filho do professor perseguido pelos revolucionários de 1930 com o Brasil não foi das mais simples. "Eu passei seis anos fora, dos dezessete aos 23, vivendo em Londres e em Nova York. Quando voltei achei que nunca iria adaptar. Não conseguia me aproximar das elites, achava-as muito artificiais. Mas depois de algum tempo comecei a achar isto aqui muito interessante. E acabei me adaptando".
Academia - Acusado de anglicismo, lusitanismo, europeísmo, direitismo e até mesmo de esterilidade intelectual, ostenta o título de "um dos dez brasileiros mais desonestos", outorgado por uma revista. Na verdade, Freyre mostra uma mágoa irônica diante desses ataques que talvez tenham aumentado sua timidez e sua implicância nordestina. E o professor Pedro Calmon, um nos reitores que teriam sido demitidos se ele tivesse aceitado o convite de Castello Branco, informa: "O que parece ser a grande vaidade e a mordacidade de Gilberto são a reação de um retraído que voluntariamente se refugiou na província e se irrita quando não reconhecem o valor cultural da própria província. Ele é o maior intelectual brasileiro da atualidade. Não digam isso a ninguém, mas é a pura verdade".
Tão verdade que, mesmo sabendo que a qualquer momento a Academia Brasileira de Letras estaria pronta a lhe oferecer uma cadeira e o governo de Pernambuco, um fardão, Freyre fulmina: "Entrar para a Academia? Para que? Não entro pelo mesmo motivo por que não sou da Irmandade do Senhor dos Passos. Não tenho nada a fazer lá". E, horas depois, lembra que a Academia, logo após a guerra, desconversou um convite ao escritor alemão Thomas Mann porque corria o boato literário de que ele era nazista. Mann, que era um exemplo de democrata, tivera seu nome cogitado pelo presidente americano Franklin Roosevelt para chefe de governo após a derrota de Hitler.
A pintura - Ao contrário do que se pode supor, mistificando-se seu isolamento de Apipucos, Freyre não ocupa seu tempo com assuntos transcendentes. Dedica muito pouco tempo a discussões políticas e passa boa parte do dia saboreando uma nova atividade, a pintura. Nela, liberta o erotismo que aflora a cada página de suas obras e dela espera receber bons dividendos. "De sessenta quadros expostos na galeria Nega Fulô já vendi 45. Pintura rende mais que literatura", ironiza.
O mundo de Gilberto Freyre, a velha casa-grande do falecido engenho Dois Irmãos, mantém relações cordiais, porém distantes, com a política brasileira. Do Ministério da Educação, espera e sempre agradece, reconhecido, as verbas para o Instituto Joaquim Nabuco. De ministros e autoridades em geral exige gentilmente que sua importância intelectual seja reconhecida. Mas não cobra sobretaxas. Se a Arena não lhe tivesse pedido documento algum, certamente sua exposição teria três ou quatro desenhos a mais. Na essência, é uma mistura de intelectual saxão e profissional da tolerância brasileiro. Em 1964, enquanto fazia catilinárias contra o reitor da Universidade do Recife ("Que acabou sendo demitido, o que foi injusto, porque os outros ficaram") também procurava o comandante do IV Exército para pedir a liberação de um notório líder comunista. Foi movido por um motivo bastante brasileiro - "a mulher dele veio aqui em prantos" - e teve sucesso com uma argumentação típica do raciocínio saxônico: "Ele é tão conhecido que já se tornou inofensivo".
Contudo, longe dos prantos das esposas, é um ferrenho anticomunista. Com exceção do período imediatamente posterior à guerra, quando, como todos os intelectuais, participou do grande flerte da "esquerda democrática", Gilberto Freyre e os esquerdistas nunca se toleraram. Desde 1964, Freyre jamais teve instantes de infidelidade revolucionária, e talvez por isso tenha sido incluído na galeria de intelectuais a quem a Arena solicitou luzes políticas*. Apesar disso, seu apartidarismo, anarquista e visceral, chega ao ponto de levá-lo a reconhecer: "Eu tenho simpatia pela Arena porque apóio o governo e acho que o presidente Emilio Garrastazu Medici está conduzindo os destinos do país com arrojo e dignidade, mas, se o MDB me pedisse sugestões, também as daria".
Euclides - Gilberto Freyre é muito mais uma vítima dos preconceitos alheios do que um aristocrata irascível. Começou sua carreira cientifica glorificando a miscigenação, e o fez em 1933 - com a publicação de "Casa-Grande & Senzala" -, quando boa parte do mundo, vestindo camisas das mais diversas cores, aplaudia a subida de Adolf Hitler ao poder. É visto como um defensor reacionário da civilização decadente do açúcar, mas, enfrentando Euclides da Cunha, parafraseia-o, sorrindo: "O sertanejo é antes de tudo um dependente do litoral. Os mestiços neurastênicos desse litoral, com seu raquitismo exaustivo, construíram o Brasil". Corre a lenda de que se veste em Londres, mas usa calças de brim com um blazer comprado no Rio, na velha rua do Catete. Foi deputado pela UDN mas confessa: "Talvez eu me sentisse melhor no PSD".
Suas opiniões políticas revelam uma forte preocupação pelo surgimento de instituições e mecanismos estáveis, acima de leviandades e do arbítrio: "Sou a favor de uma ampla liberdade de imprensa com rigorosa responsabilidade".
Em um mês de permanência no noticiário político, o eremita de Apipucos parece estar sendo esfriado, primeiramente com um discreto silêncio, perigoso prenúncio de futura indiferença. É claro que nem em sua biblioteca, nem em qualquer outra, estava escondida a fórmula capaz de acabar com as dificuldades do Brasil. No entanto, é inegável que suas opiniões, originadas pelo apoio que dedica ao governo e pela admiração que tem ao regime, não podem ser simplesmente engavetadas, a menos que se justifique a suspeita de que nem mesmo os aliados importam muito.
Quem resolveu entender o pronunciamento de Gilberto Freyre como um lampejo de liberalismo viu um cúmplice onde havia um adversário. E quem ouviu suas palavras como uma ameaça às instituições revolucionárias, viu um fantasma onde estava um solícito senhor de engenho que, mesmo sendo "um hippie confesso", aprecia muito o consumo da "agradável junção de caviar com champanha".
Por isso, quando se pergunta a Gilberto Freyre o que ele terá a dizer se a abertura aconselhada não vier tão cedo, ele responde: "Será mais um fracasso meu. O outro foi tentar fazer o conhaque caseiro com cajá, que é muito ácido". No entanto, o senhor de engenho conservador e revolucionário, olhando da varanda do Instituto Joaquim Nabuco para a velha senzala, onde agora estão jovens sociólogos, e para os bustos de faiança de Camões e o do marquês de Pombal, na entrada da grande casa azul-celeste, admite: "O que estragou tudo foi a usina".
Quem é quem, segundo G.F.
Essas não são necessariamente as opiniões definitivas de Gilberto Freyre sobre alguns personagens ilustres dos tempos modernos. São apenas as opiniões emitidas ao longo de nove horas de conversa. Fez também questão de acentuar que não tinham sido geradas por uma implacável mordacidade. "Atribuam, por favor, ao meu 'sense of humour'", disse.
AFONSO ARINOS - Você conhece o Afonso Arinos? É um liberal.
ANTÔNIO HOUAISS - É medíocre, mas sério. Traduziu "Ulysses", um trabalho de paciência.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - É o melhor escritor brasileiro, em prosa e verso.
CARLOS LACERDA - Devia recuperar seus direitos políticos e ser nomeado embaixador em Paris.
CASTELLO BRANCO - Não quis ser presidente revolucionário. Pretendia ser um presidente legal e isso ele não era. Emérito discípulo de Rui Barbosa - um liberal.
CASTRO ALVES - Um grande orador. Eu admiro a oratória, mas nos outros; porém Gonçalves Dias era melhor.
DUTRA - Um pouco liberal.
GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ - "Cem Anos de Solidão" é um sub-livro.
GEORGE LUKÁCS - Um mestre da crítica. Não era comunista. Um homem com a sua sensibilidade não poderia ser comunista.
GUIMARÃES ROSA - Um grande escritor. No fim, sua linguagem ficou artificial.
HELDER CÂMARA - Gosto dele. Pessoalmente, acho-o interessante. Anda gordo, com uma gordura episcopal. Como outros, corteja a juventude. O que o consagrou foi o Rio de Janeiro. Se tivesse ficado no Ceará, seria um novo padre Cícero. Aliás, tem até o "physique du rôle".
HENRY KISSINGER - É batutão.
JOÃO CABRAL DE MELLO NETO - Um grande poeta. Um dos três maiores, ao lado de Drummond e Manuel Bandeira.
JORGE AMADO - O do início era melhor.
LÉVY-STRAUSS - Um mediocrão. Desemburrou no Brasil. E foi injusto com o Brasil. Só conheceu São Paulo e Mato Grosso e escreveu um livro - "Tristes Trópicos" - cheio de injustiças contra o Brasil.
LUIZ CARLOS PRESTES - Fala pra burro. Cheio de raciocínio matemático. Não tem nada de líder.
MÁRIO GIBSON BARBOZA - Declarou de público que está seguindo as minhas idéias. Um grande diplomata. Uma boa escolha do presidente Medici.
MÁRIO PALMÉRIO - Um bom romancista quando descreve uma caçada ou uma pescaria. Nas figuras humanas é péssimo. Mas é pitoresco. Sobretudo quando chega do Amazonas contando histórias interessantes que não se podem conferir.
MIGUEL ARRAES - É falso e hipócrita. Esteve muitas vezes aqui em Apipucos. Conheço bem. Pode estar se fingindo de morto.
NÉLSON RODRIGUES - É singular e muito desigual. "Vestido de Noiva" é a primeira manifestação de bom teatro brasileiro.
PEDRO ALEIXO - Um liberal, foi colocado na vice-presidência para enfeitar. Os liberais são muito bons para enfeitar.
PINHEIRO MACHADO - Uma grande figura. Um não-liberal autêntico.
PLÍNIO SALGADO - Um homem sincero. Um homem de bem. O que se poderia chamar de um homem de bem. Mas um bes-ta-lhão.
RAUL PILLA - Um liberal angelical.
ROBERTO CAMPOS - É um retórico. Foi quase padre.
RUI BARBOSA - Não conhecia o Brasil. Nada, nada. Muito pouco da Bahia e da rua São Clemente, no Rio de Janeiro.
SALAZAR - Vaidosíssimo.
SAN THIAGO DANTAS - Um homem inteligentíssimo. Deveria ter sido primeiro-ministro.
SARTRE - Um chato. A Simone, não.
TRISTÃO DE ATHAYDE - Um mediocrão. Veio da Europa - era muito rico - sabendo algumas coisas. Quando escrevi "Casa-Grande", ele tinha uma coluna de crítica literária e não fez a menor referência. Em 1935, pediu a minha prisão. Se tanta gente estava sendo presa - dizia -, porque não mandavam prender os organizadores de um congresso sobre a cultura afro-brasileira? Eu tinha organizado esse congresso no Recife.
Fonte: O FIEL do poder moderador. Veja. Rio de Janeiro, 21 jun. 1972.
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