IOIÔ-DE-IAIÁ
na casa-grande dos cem anos
Florisvaldo Matos
Entre o arrogante "ame-o ou deixe-o" dos anos de chumbo da ditadura militar, que ele com prestimoso entusiasmo e compungida crença apoiou, e as luzes das celebrações e homenagens inevitáveis no centenário de um escritor a quem, durante grande parte de sua vida, sobejaram apologistas e detratores, não restam dúvidas de que a obra de Gilberto Freyre e sua estatura intelectual tudo possuíam para torná-lo um patrimônio da cultura brasileira, o que está sendo comprovado este mês e o será pelo curso de todo o ano, em Pernambuco, sua terra, e em vários outros pontos do país.
Não bastassem a veneração dos pernambucanos, batizando com o seu nome ruas, praças e avenidas de Recife, Olinda e outras cidades, a saraivada de atos, oficializando as comemorações, através de decretos do presidente da República, do governo de Pernambuco e das prefeituras de Recife e Olinda, o lançamento de um CD-ROM, intitulado Uma viagem em torno de Gilberto Freyre, e a entrega no Rio de Janeiro de prêmio de concurso monográfico de âmbito nacional em torno da obra do mestre de Apipucos, editoras nacionais relançam obras suas, especialmente a famosa trilogia que se tornou um emblema da sociologia e da antropologia brasileiras - Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mocambos e Ordem e Progresso, livros lançados respectivamente em 1933, 1936 e 1959, com várias edições no Brasil e no estrangeiro, sendo o primeiro uma singularidade no campo das ciências humanas, com suas mais de 20 edições brasileiras, 14 francesas, quatro norte-americanas, quatro portuguesas, e outras mais em alemão, italiano, espanhol e até em polonês.
Essas obras estão sendo lançadas, em edições caprichadas, pela editora Record (os três volumes acondicionados numa luxuosa caixa), enquanto a Nova Aguilar as incluiu na sua série Intérpretes do Brasil, organizada por Silviano Santiago, junto com mastodontes dos estudos sobre sociedade e cultura brasileiras, como Joaquim Nabuco, Oliveira Viana, Caio Prado Júnior, Florestan Fernandes e Sérgio Buarque de Holanda, entre outros, abarcando três volumes com cerca de 4.000 páginas.
Tudo no intelectual Gilberto Freyre foi hiperbólico. Publicou quase 70 livros e mais de 90 opúsculos, envolvendo ensaios de sociologia, antropologia, ciência política, história, folclore, biografia, memória, palestras, discursos, crônicas e, até, poesia e ficção, pois adorava considerar-se um "escritor literário". Redigiu mais de 80 contribuições em obras coletivas, nacionais e estrangeiras, mais de 160 prefácios a livros de autores nacionais e estrangeiros, escreveu mais de 300 artigos e os publicou em revistas do Brasil e de outros países, organizou 14 obras coletivas e foi um colaborador assíduo de revistas e jornais de várias capitais brasileiras, sem esquecer a sua presença em publicações de Portugal.
Definia-se como "um recifense sempre itinerante", pelo tanto que viajava, participando em simpósios, congressos e solenidades, pronunciando conferências, ministrando cursos, ou simplesmente em vilegiaturas de fins culturais ou mero exercício lúdico da curiosidade. Longevo, parecia espantado da idade que atingira, mas, alguns anos antes de morrer, aos 87 anos, fleugmático, recorria a ditosa expressão de Goethe, para jactar-se de estar vivendo uma velhice verde - "velhice adjetivada como um oposto a todos os cinzentos", frisava.
Nos últimos 20 anos, para surpresa de leitores e prazer de editores, depois de um período de hibernação, justamente por causa de suas posições durante o período da ditadura militar, em cujo surto repressivo teve uma conduta indesejável para as esquerdas e outros opositores, que chegaram até a acusá-lo de delator, voltou a crescer sensivelmente o interesse pelo estudo de sua obra. Os fundamentos da história cultural, assentada na valorização do cotidiano, e a retomada de atributos narrativos, que impulsionou a historiografia moderna, estão na origem dessa nova arrancada, despertando a atenção de autores não formados sob a influência de suas teorias, como os críticos culturais José Guilherme Merquior e Roberto DaMatta e, mais recentemente, Mary del Priore, Elide Rugai Bastos e Roberto Ventura, e, notadamente, o antropólogo Enrique Rodriguez Larreta e o ensaísta Guillermo Giucci, professores de universidades do Rio de Janeiro, que estão escrevendo uma biografia do pernambucano.
Não é para menos. O reconhecimento de Gilberto Freyre vem de longe, até por figuras insuspeitas, como o etnólogo Darcy Ribeiro, que, no prefácio para uma tradução venezuelana de Casa Grande & Senzala, afirmava, sem rodeios, que ele escrevera "a obra mais importante da cultura brasileira" e que aquele livro era "o maior dos livros brasileiros e o mais brasileiro dos livros que já foram escritos", intrigado de que Freyre, "sendo tão reacionário no plano político", tivesse podido escrever um livro "generoso, tolerante, forte e belo", que, de certa maneira, fundara o Brasil no plano cultural, tal como Cervantes, Camões, Tolstoi e Sartre o fizeram, em relação à Espanha, a Portugal, à Rússia e à França, respectivamente.
Perguntava então Darcy o por quê disso e respondia em seguida, enumerando: "Ensinou-nos principalmente a nos reconciliarmos com a nossa ascendência lusitana e negra, de que todos nos envergonhávamos um pouco; a ele devemos haver começado a aceitar como digno antepassado a esse povo que nos acostumáramos a ver como o imigrante que fazia de burro de carga, empurrando carrinhos de feira ou o comerciante próspero e mesquinho em que se transfigurava depois de enriquecer. A Gilberto devemos, sobretudo, haver aprendido a reconhecer na cara de cada um de nós ou na de nossos tios e primos - se não com orgulho, ao menos com tranqüilidade - uma bocarra carnosa, cabelos encaracolados, ou os fornidos narigões de indiscutível procedência africana e servil".
Um livro tão revolucionário para os nascentes estudos brasileiros das décadas de 20 e 30 tem no próprio autor, um cultor por excelência de virtudes sensoriais, a explicação de como isto foi possível. Ao completar 80 anos, homenageado pela Universidade de Brasília (entre os muitos afagos que recebeu na ocasião, inclusive na Bahia), confessava Gilberto Freyre, diante de uma prestigiosa platéia: "Talvez pudesse dizer do modo por que principalmente idealizei, elaborei, escrevi o livro intitulado Casa-Grande & Senzala, que se assemelhou à maneira de um pintor juntando sugestões particulares, concretas, vivas, para um painel que em sua singularidade de conjunto fosse simbolicamente o singular e o plural. Plural por ser concebido por quem, de dentro de uma casa-grande síntese de várias casas-grandes particulares conhecidas, experimentadas, vividas - algumas já conhecidas em ruínas -, procurasse sentir intimidades dessas casas em seus velhos dias. Intimidades de seus interiores. Intimidades de suas relações com suas senzalas: intimidades sexuais, por vezes líricas, místicas, culturais. Intimidades desses interiores com os arvoredos e com os matos próximos. Com vegetais e com animais, ligados tanto a senhores como a escravos das casas".
E caracterizava essa busca como algo "de certo modo proustiano" que, para o francês Blaise Cendrars, impressionado com tal forma de reconstituição do passado, era uma "nova maneira de fazer-se história", como nunca tinha sido feito, que decorria, segundo o autor, da utilização de fontes "de todo, ou quase todo, virgens de olhos de historiadores, de antropólogos, de sociólogos, de psicólogos".
Nos anos 30 de conturbada transição, o escândalo provocado por aquele esforço "de reexame, reavaliação e reinterpretação da formação social brasileira", resultara, segundo ele, de "duas ênfases de fato insólitas: a importância dada ao sexo nessa formação e o relevo concedido não só à alimentação em geral como à arte culinária em particular". Por isso, houve no Brasil quem tachasse o livro de pornográfico, imoral, obsceno, além de anti-religioso e de anticatólico, merecedor de um auto-de-fé e digno de ser queimado em praça pública, por maligna influência, quando era apenas original conquanto pioneiramente revolucionário. Era o de que ele tinha plena consciência, ancorado tanto no que se refletira internamente, expresso pela voz de autores como João Ribeiro, Roquete Pinto e Monteiro Lobato, como pela dos franceses Lucien Febvre, Jean Pouillon, Roger Bastide (seu tradutor na França), e Roland Barthes, que o comparou ao mítico historiador Michelet, pelo método de análise histórico-social.
Ele próprio supunha que seu livro ("destacado como revolucionariamente inovador", lembrava) provocara impacto, após o lançamento, por fazer da casa-grande ou da família patriarcal brasileira, ao servir-se de vários métodos de análise, fora das convenções acadêmicas, "nova e principal chave para a reinterpretação não só do passado psicossociocultural de uma sociedade moderna, complexamente euro-tropical, euro-afro-ameríndia, nas suas origens, como do próprio ethos, característico do Brasil colonial tornado nacional e de histórico considerado numa amplitude antropossocial ou antropocultural, projetada sobre seu presente e até sobre seu futuro".
Por isso mesmo é que Gilberto Freyre se proclamava, por seu ânimo anárquico e pendor autobiográfico, mais que um especialista, um generalista - generalismo que para ele não faltava à cultura brasileira, por ancestralidade ibérica. Mas, de natural polêmico e polemista, além de um caso-limite em matéria de vaidade (Darcy Ribeiro, alfinetando, dizia que Freyre presidia em torno de si, feliz e insaciável, um culto de elogios, que ele saboreava "como se fossem bombons"), não foi um mar-de-rosas a navegação cultural do pernambucano. Quando andou pela Bahia, proferindo aula inaugural na Universidade da Bahia, recoberto de glórias, na qual exaltava a doçura da vida espreguiçada em redes e varandas nordestinas, o cineasta Glauber Rocha sapecou-lhe contundente crítica em artigo publicado em Sete Dias (já extinto), sob um título de rasa hospitalidade - O preguiçoso de Apipucos -, em que o desancava.
Embora se tenham claramente atenuado nos anos recentes as restrições a Gilberto Freyre, como se vê pelo número de editoras que estão a reeditar suas obras, seus maiores críticos sempre estiveram entre os cultores das teorias marxistas. O historiador também pernambucano Carlos Guilherme Mota, que o tinha ironicamente como um revolucionário conservador, em livro prestigioso da década de 70, Ideologia da Cultura Brasileira (1933-1974), cujo período de análise coincidentemente começa no ano de publicação de Casa-Grande & Senzala. sustentava que, depois de 1967, "tornou-se possível o balanço da produção, a avaliação dos trabalhos de Gilberto Freyre - o que não devia ser nada fácil antes dessa época", e alinhava os fatores que, a seu ver, geraram o "novo momento que compeliu a uma abertura crítica que não fosse a louvação ingênua e duvidosa ou a destruição apressada e juvenil".
Esses fatores se traduziam (referia) pelas "múltiplas ocorrências sociais e políticas na história contemporânea da América Latina e no mundo", entre as quais estavam a crise do ultracolonialismo português na África, e internamente os entraves políticos e sociais com que se defrontou o plano de desenvolvimento do Nordeste, a emergência de novas formas de organização do mundo do trabalho, como as ligas camponesas (o MST de ontem), que "acarretaram uma profunda revisão nas ciências sociais, estas passando a atacar vigorosamente "as ideologias que se constituíram a partir de uma categoria tão abstrata como a de homem brasileiro". E nesse contexto incluía os vários impactos da obra de Freyre sobre os meios intelectuais, "por permitir a análise da cristalização de uma ideologia com grande poder de difusão: a ideologia da cultura brasileira", ocasionando o surgimento de uma geração de explicadores - "uma espécie de caso-limite".
"Essa geração, por assim dizer, caracterizada não só pelo peso de sua erudição mas, sobretudo, pelo estilo de manipulação das informações, oferece ao investigador um material rico e complexo, se se tentar decifrá-lo pelo flanco ideológico. Uma abordagem sumária permite, desde logo, vislumbrar em seu comportamento intelectual - que também se traduz em nível político, possuindo enraizamento econômico - as expressões de um estamento dominante, embora em crise. Carrega consigo um certo sentido de mando, as marcas da distinção e do prestígio, uma visão senhorial do mundo, suavizada pelas condições gerais de vida criadas na esteira das transformações sociais e políticas com foco na crise de 1930" - observava Carlos Guilherme Mota.
Mas houve o outro lado na crítica esclarecida. José Guilherme Merquior, em artigo sobre o que chamou de "sua estupenda trilogia", classificou-o como portador de "uma senhora revolta, mais anárquica em moral que conservadora em política, contra os impasses e miopias do nosso liberalismo clássico", contra a fase clássica do ideário da burguesia brasileira, a um só tempo contra o juridicismo parnasiano e o abstracionismo histórico e social do progressismo republicano do Brasil, afirmando que a obra de Gilberto Freyre representava "a ilustração brasileira de longe mais interessante daquela ponte ideológica entre decadentismo e modernismo", que passava a ser objeto de estudo então aprofundado pelos historiadores da cultura. E via nele, sobre suas múltiplas qualidades, um "sociólogo substantivamente escritor". Tal conclusão se sobressai para Merquior de certas peculiaridades de Freyre: "Dadas essas raízes vitalistas e estéticas, não é de admirar que o livro com que o Brasil inaugurou a radiografia de seu passado íntimo fosse obra de um sociólogo convencido da primazia cognitiva da arte literária".
De fato, mais que um sociólogo e um indivíduo com múltiplas realizações culturais, Gilberto Freyre vangloriava-se de sua condição de escritor literário. É esse atributo que o próprio presidente da República, o também sociólogo Fernando Henrique Cardoso, recentemente destacou, mesmo confessando ainda fazer-lhe restrições à polêmica tese da democracia racial, ao incluir a qualidade de bem escrever entre seus "méritos extraordinários".
Fonte: MATTOS, Florisvaldo. Ioiô-de-iaiá: na casa-grande dos cem anos. A Tarde. Salvador, 25 mar. 2000. Ilustrada.
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