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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



GILBERTO FREYRE: MAIS NA ORIGINALIDADE QUE NO MÉTODO E ESTILO

Waldir Freitas Oliveira

A 15 de março de 1900, nascia, em Recife, Gilberto de Mello Freyre. Trinta anos depois, estreou como autor, no Brasil, com um livro que marcou a história interpretativa da sociedade brasileira - Casa-Grande & Senzala, publicado em 1933, no Rio de Janeiro, por Maia & Schmidt Ltda. Nele desdobrou as idéias que defendeu em sua tese universitária - Social Life in Brazil in the Middle of the 19th Century, apresentada, em 1922, na Universidade de Columbia (EUA), ao final do curso de doutorado em Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais [1].

De Gilberto Freyre afirmou, anos depois, Vamireh Chacon, após informar haver sido, nos Estados Unidos, contemporâneo de Ruth Benedict, então assistente de Franz Boas, de Melville Herskovits, Ruediger Bilden e Margaret Mead, tendo, ali, ainda, estabelecido contatos com os principais discípulos de Boas: Kroeber, Robert Lowie, Clark Wissler, Edward Sapir, Alexander Goldenweiser, e que, no Brasil, "ninguém da sua geração logrou semelhante formação universitária" [2].

Foi depois do exílio no estrangeiro, provocado pela Revolução de 30 e passado na Europa e nos EUA, que, segundo a apreciação feita de sua atuação como intelectual, por Dante Moreira Leite, insuspeito para avaliá-la, dada a sua ideologia marxista, oposta à do sociólogo pernambucano, adepto do culturalismo de Boas, obteve Gilberto Freyre "ressonância nacional, através de um livro que permanece até hoje - e provavelmente permanecerá indefinidamente - como um dos documentos básicos da vida intelectual brasileira: Casa-Grande & Senzala".

Afirmando, a seguir, que "sob certos aspectos", tal livro "só tem um símile em nossa história literária: Os Sertões de Euclides da Cunha"; acrescentando que, como ele, é "um livro pedante, desequilibrado e pretensioso... ostensivamente apresentado como de história ou de interpretação geral do Brasil", apesar de não o ser, valendo, contudo, pelo fato, do mesmo modo que o livro de Euclides, de haver procurado "redimir um grupo incompreendido e desprezado: no caso de Euclides, o sertanejo nordestino; no de Gilberto, o negro".

Em tom acre de crítica, ele o considera, contudo, obra "inevitavelmente datada e anacrônica", dado o seu caráter de livro escrito por alguém que "procura ruas raízes no passado brasileiro, encontrando-as no passado colonial e nas suas transformações durante o século XIX", sem perdoar o autor por haver se posicionado, tanto no Brasil como em relação ao colonialismo português na África, ao lado dos "grupos mais conservadores dos países de língua portuguesa", caracterizando-se, desse modo, como "um intelectual de direita, aceito pelos grupos no poder, mas não pelos jovens intelectuais" [3]. Havendo essa busca incessante do passado, por Gilberto Freyre, sido considerada, por Vamireh Chacon, um "saudosismo da casa-grande, do sobrado e da chamada Luso-Tropicologia", acentuando, porém, que isto "não invalida o conjunto da obra total freyreana, embora mais ao nível de análise, que de prognóstico ou proposta" [4].

Foi, talvez, um historiador norte-americano, Thomas E. Skidmore, quem haja melhor analisado o papel e a importância da obra de Gilberto Freyre, na história das idéias no Brasil, no ensaio intitulado Gilberto Freyre e os primeiros tempos da República Brasileira, publicado, inicialmente, em Belo Horizonte, em 1967, na Revista Brasileira de Estudos Políticos nº 22, da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, depois incluído em seu livro O Brasil visto de fora[5].

Nele enfatizou a importância do terceiro volume da Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil proposta e parcialmente realizada por Gilberto Freyre, Ordem e Progresso, publicado em 1959, dando seqüência a Casa-Grande e Senzala, de 1933, e Sobrados e Mocambos, de 1936. Considerou-o, então, "um trabalho clássico sobre os primeiros tempos da República", afirmando que "os estudiosos do período continuarão por anos a achar em suas páginas idéias para pesquisa e estudo mais detalhados"; enquanto "os interessados em novas técnicas de escrever história social [nele] descobrirão inovações valiosas e lições aplicáveis a outros lugares e épocas"[6].

Interessante será, então, lembrar que no capítulo que intitulou Em busca do tempo perdido, relativo à contribuição de Gilberto Freyre à construção do caráter nacional brasileiro, não se referiu Dante Moreira Leite ao livro Ordem e Progresso, o que se explica por haver escrito o seu trabalho, apresentado como tese de doutoramento à Universidade de São Paulo, em 1954, em época anterior à sua publicação, havendo se limitado, pois, à crítica, quase sempre impiedosa, aos seus dois livros anteriores - Casa-Grande & Senzala e Sobrados e Mocambos - e chegado à conclusão de não ser possível identificar, na obra de Gilberto Freyre, "um ponto de vista teórico bem definido... nem indicar o método por ele empregado para chegar às suas afirmações". E vai além, em sua oposição, quando escreve que "sua História Social, ou Sociologia Genética, como a denomina o autor, não é apenas anedótica", e a denuncia, a seguir, como "escrita e interpretada do ponto de vista da classe dominante... reveladora dos preconceitos mais conservadores e mais arraigados na classe dominante brasileira" [7].

Preferiu, no entanto, o brasilianista T.E. Skidmore considerar a obra de Gilberto Freyre anterior a Ordem e Progresso, principalmente Casa Grande & Senzala, em função dos seus efeitos sobre a mentalidade dos intelectuais brasileiros que se sentiam envergonhados da sua condição de integrantes de um povo mestiço e se atribuíam uma pretensa inferioridade em razão dessa mestiçagem e da influência genética "debilitante do negro". Destacando, então, nesse livro, como Gilberto Freyre, após haver estabelecido "um impressionante dispositivo de provas científicas em apoio a esse ponto de vista", desmentiu tal inferioridade e demonstrou haver sido uma vantagem a mistura étnica que deu origem ao povo brasileiro e, ainda, haver lhe permitido "orgulhar-se de sua original civilização tropical, etnicamente misturada, cujos vícios sociais - que Freyre não procurou diminuir - poderiam ser atribuídos primeiramente à atmosfera de monocultura escravocrata que dominou o país até a segunda metade do século XIX"; e afirmando que "as conseqüências ruins da miscigenação não derivaram da mistura de raças em si, e sim da relação doentia entre patrão e escravo em que ocorreu essa mistura", ensejando, com isso, o surgimento de uma até então pouco sentida autoconfiança do povo brasileiro, ao comparar-se com os países europeus [8].

Devemo-nos lembrar, contudo, ao analisar esse aspecto, que antes de Gilberto Freyre, outros intelectuais brasileiros já haviam se esforçado para demonstrar a improcedência dos argumentos racistas, como fez, por exemplo, Manuel Bonfim, um dos mais esquecidos e injustiçados pensadores nacionais, em seu A América Latina -Males de origem, de 1905[9].

Sobre Casa Grande & Senzal é oportuno notar que os maiores elogios que até hoje lhe foram feitos, integram o volume formado por 64 ensaios, intitulado Gilberto Freyre: sua ciência, sua filosofia, sua arte. Ensaios sobre o autor de Casa Grande & Senzala e sua influência na moderna cultura do Brasil, comemorativos do 25º aniversário da publicação desse seu livro (Rio de Janeiro, 1962).

Voltando, contudo, ao ensaio de T.E. Skidmore, vale salientar a criteriosa crítica nele feita a Ordem e Progresso, livro que trata da decadência da sociedade patriarcal rural brasileira durante as últimas décadas do século XVIII e a primeira metade do século XIX, redigido por Gilberto Freyre, tomando por base respostas autobiográficas a um questionário enviado a quase mil brasileiros de todas as classes e antecedentes, nascidos entre 1850 e 1900, reunidas durante 30 anos.

Nele, o brasilianista, após afirmar haver se tornado Gilberto Freyre "a figura mais influente dos últimos 30 anos na história intelectual brasileira" e informar haver esse livro sido considerado pelo próprio autor, seu "mais importante trabalho", esclarecendo ter sido seu objetivo ao escrevê-lo, "compreender o que fora mais significante no período, o que mais impressionara aqueles homens como um grupo - chegando assim a uma abstração sobre a verdade", conclui que essa sua opinião poderá "vir a ser partilhada por outros, não só pela original fonte de material, mas também por causa da importância do período"; chama a atenção para deverem os estudiosos de agora "ir além de sua admiração pela originalidade e pela operosidade de Freyre... [para] perguntar a si próprios quais as lições que Ordem e Progresso oferece àqueles que estudam o Brasil moderno"; esclarece, afinal, que a intenção da sua crítica foi "mostrar que a contribuição de Freyre à historiografia brasileira está nas questões que ele levantou, nas fontes únicas que explorou e na original interpretação que antecipou; e não no método e estilo altamente pessoais que desenvolveu"[10].

Notas

1 - Trabalho traduzido por Waldemar Valente, ampliado em forma de livro e publicado, em Recife, sob o título Vida social nos meados do Sec. XIX (Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais/ Ministério da Educação e Cultura, 1964). [voltar]

2 - CHACON, Vamireh. História das idéias sociológicas no Brasil. São Paulo, Grijalbo, E. da Universidade de São Paulo, 1977, p. 110: nota nº 16. [voltar]

3 - LEITE, Dante Moreira. O caráter nacional brasileiro, 4ªedição definitiva. São Paulo, Livraria Pioneira, 1983, pp. 299/301. [voltar]

4 - CHACON, Vamireh. Opus cit., p. 113. [voltar]

5 - Publicado em Revista Brasileira de Estudos Políticos, nº 22, Faculdade de Direito, Universidade Federal de Minas Gerais, 1967. Incluído, posteriormente, sob o mesmo título, em SKIDMORE, Thomas E. O Brasil visto de fora, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1994, pp. 9/31. [voltar]

6 - SKIDMORE, Thomas E. Opus cit., p. 23. [voltar]

7 - LEITE, Dante Moreira. Opus cit, pp. 305 e 311. [voltar]

8 - Publicado em Revista Brasileira de Estudos Políticos, nº 22, Faculdade de Direito, Universidade Federal de Minas Gerais, 1967. Incluído, posteriormente, sob o mesmo título, em SKIDMORE, Thomas E. O Brasil visto de fora, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1994, pp. 9/31. [voltar]

9 - SKIDMORE, Thomas E. Opus cit., p. 23. [voltar]

10 - LEITE, Dante Moreira. Opus cit, pp. 305 e 311. [voltar]



Fonte: OLIVEIRA, Waldir Freitas. Gilberto Freyre: mais na originalidade que no método e estilo. A Tarde. Salvador, 25 mar. 2000. Ilustrada.

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