MODOS DE HOMEM & MODAS DE MULHER: Um jeito inovador de ser brasileiro, na visão sempre inovadora de Gilberto Freyre
Lêda Rivas
Uma das inteligências mais privilegiadas deste
século, o filósofo Bertrand Russell legou ao mundo, nos seus quase 100 anos de vida, um
extraordinário exemplo de obstinação, não-conformismo, resistência e capacidade
criadora. Em constante ebulição intelectual, chegou às vésperas de uma centúria de
existência revolvendo a poeira que teimava estagnar algumas correntes do conhecimento
ocidental, revolucionando conceitos e renovando teorias que o transformaram no mais
fecundo pensador dos novecentos. Tudo, na obra de Russell, era inovador e, hoje, às
portas do terceiro milênio, permanece atual e vivo.
Aos 87 anos, Gilberto Freyre assoma no panorama
da cultura ibero-americana com igual vitalidade criativa. A exemplo do autor de History
of Western Philosophy, o sociólogo-antropólogo pernambucano exerce um singular
controle sobre o tempo. É um antecipador, um projetista do futuro e, como tal, da mesma
forma que Russell, resta a cada obra, surpreendentemente contemporâneo e vibrante. E é
exatamente assim que este "anarquista construtivo", paradoxal e polêmico, como
habitualmente se define, se nos apresenta ao lançar seu mais recente ensaio. Catalogado
como "o acontecimento editorial do ano", Modos de Homem & Modas de Mulher
(Ed. Record, 184 páginas, 329 cruzados) será entregue ao público leitor, no cair da
tarde desta terça-feira, no solar de Apipucos, que hoje abriga a Fundação Gilberto
Freyre, recentemente criada.
Trata-se de um fascinante painel de costumes e concepções, delineado pelo pincel iconoclasta e tropicocêntrico de Freyre, desnudando a cultura morena à luz de uma abordagem nitidamente sensual e ostensivamente brasileira.
MODOS & MODAS
Em 95 tópicos, Gilberto Freyre traça um perfil
dos valores culturais e de expressões comportamentais daquilo que ele compreendeu como
uma meta-raça. "Nova concepção de feminilidade", "Exibição de
pernas e seios", "Moda e complexos socio-culturais", "Sinhás e
mucamas brasileiras", "Ecologia e Modas", "Consagração da
Morenidade", "Uma Nova maneira de escrever-se a história do homem",
"O Amorenamento da gente brasileira", "O exemplo arquitetônico da
casa-grande", "Rede e Cafuné" são alguns dos instigantes e cativantes
temas questionados por Freyre.
- A Cultura brasileira é, para o brasileiro,
alguma coisa que lhe pertence quase como se fosse parte do corpo e do ânimo de cada um
explica o autor, na introdução do ensaio. A cultura espanhola que Unamuno
descobriu lhe doer, quando ultrajada, corresponde uma cultura brasileira com igual ou
maior sensibilidade: capaz de doer no brasileiro em dias de angústia para desígnios
culturais não correspondidos.
Aos que temem estar vivendo dias dolorosos para a
cultura nacional, o sociólogo adverte que há sinais de criatividade, nesses setores, que
compensam deficiências, noutros. Confrontando os modos do homem às modas da mulher, e
vice-versa, incursiona, então, pelo jeito brasileiro de ser no vestir e despir,
explora os influxos estrangeiros que afetaram e ainda afetam a nossa moda e
sua aclimatação ao trópico.
Mas, afinal, o que entende o escritor por moda?
Além de "hábito ou estilo geralmente aceito, variável no tempo e resultado de
determinado gosto, idéia, capricho", do sentido básico que lhe atribui Aurélio
registra Freyre , "uso passageiro" segundo o mesmo Aurélio
"que regula a forma de vestir, calçar, pentear etc." e "...arte e
técnica do vestuário". Uso passageiro acrescenta o autor ao dicionarista
como os sugeridos por expressões como "a cor roxa está na moda",
"tal perfume é o da moda", "sandália virou moda", "soutien
passou da moda".
- Dentro desses sentidos ecológicos
ensina Gilberto é que se vem afirmando, no Ocidente, dentro de normas gerais de
cultura ou de civilização ocidental, não só de vestir, de calçar, de pentear, as
quais se assemelham as modas como, as muito brasileiros, mas também as de outros países,
de se bronzearem ao sol, o europeu e o europeizado, residentes em cidades do litoral
atlântico. Amorenar-se a gente ao sol das praias. E também a de fumar-se cigarro, a de
ouvir-se rádio ou ver-se televisão e, de modo específico, a de vestir-se, calçar-se,
pentear-se a mulher ou o homem segundo a sua idade, sua atividade, seu lazer, seu biotipo.
E também de acordo com a ecologia ou o clima da região do país onde reside. Daí a
importância de passar-se a considerar o vestir-se, o calçar-se, o pentear-se do
brasileiro, em geral, da mulher, da criança e do homem, em particular, de acordo com a
ecologia em que está situada a maior parte de uma população. No caso, a brasileira, que
é, predominantemente, a tropical ou paratropical. Paratropical, por vir-se estabelecendo
a espaços não-tropicais, brasileirismos adaptados a trópicos e aí tão triunfantes que
vêm se expandindo. O caso tanto da música como da culinária.
SUBVERSÃO
Literalmente, Gilberto Freyre subverte os
conceitos ortodoxos de modas e modos. Busca, nos traços arabizantes da
nossa cultura, as respostas a determinados comportamentos que moldaram a mulher e o homem
recém-saídos da casa-grande e da senzala; mescla as aportações ibéricas às vagas de
negritude e ao sustentáculo indigenista, percorrendo períodos marcantes da nossa
história social. E, sobretudo, demole tabus num discurso apologético à anatomia
feminina, invocando conceitos nada preconceituosos para pintar o retrato da nossa
morenidade. Como nesta definição: "...a miscigenação brasileira tornou-se tão
vasta que as ancas de mulheres do Brasil constituem, talvez, a mais variada expressão
antropológica de uma moderna variedade de formas de corpos de mulher, com as
protuberantes é possível que avantajando-se à menos ostensivas".
Para Freyre é compreensível que o homem médio
brasileiro seja sensível "a essa imensidade de provocações que o rodeiam, não
tanto ao vivo, como através de anúncios de revistas ilustradas, que se vêm esmerando na
utilização de reproduções coloridas de mulheres nuas, como atrativos para uma
diversidade de artigos à venda".
Modas que se ligaram e se ligam a modos, desde os
tempos iniciais da nossa História, estão, finalmente, bem distribuídos nas quase 200
páginas deste livro original, confluindo, como lembra o próprio autor, "a serviço
do ser humano". Não poderia haver imagem mais cativante desta cultura polifacética
e trepidante, desafiando os ismos desagregadores, em terras centro-orientais da
América.
Fonte: RIVAS, Lêda. Modos de homem & modas de mulher: um jeito de ser brasileiro, na visão sempre inovadora de Gilberto Freyre. Diario de Pernambuco. Recife, 30 jun. 1987.
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