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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



"NEGRÓFILO" SEMPRE ATUAL


Gilberto Freyre tirou o foco da história do Brasil dos grandes acontecimentos, como as guerras e revoluções, para colocá-lo sobre a formação das mentalidades - a partir, sobretudo, da valorização da figura do escravo negro trazido da África. Essa afirmação é feita pelo amigo e maior conhecedor da vida e da obra do sociólogo Gilberto Freyre, o escritor pernambucano Edson Nery da Fonseca, 79 anos. A opção de Freyre pelos estudos da sociedade brasileira a partir das relações travadas pela família patriarcal rendeu-lhe a denominação de negrófilo, pelos padres jesuítas, pelo então governador Agamenon Magalhães, entre outros líderes revolucionários, como conta Edson Nery.

"Ele mostrou como o Grito de Independência ou a Guerra do Paraguai não tinham importância do ponto de vista histórico e social. Estudar a escravidão foi sua opção. Os que eram contrários a ele estavam convictos de que Freyre era comunista e, junto com os negros, planejava fazer uma revolução social no Brasil", revela Edson Nery.

O próprio Nery é, muitas vezes, consultor de trabalhos que estão sendo feitos e publicados Brasil afora. A reportagem do DIARIO conseguiu listar algumas destas pesquisas, que certamente oferecem às gerações atuais um panorama da obra do mais polêmico sociólogo brasileiro.

Os uruguaios Enrique Rodriguez Larreta, professor de Antropologia da Universidade de Estocolmo (Suécia), e Guillermo Giucci (professor de Antropologia na Universidade de Standford, EUA) foram contratados pela Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro, há cerca de quatro anos. Lá eles escrevem a biografia de Gilberto Freyre em três volumes, cujo primeiro tem lançamento previsto para março. Os pesquisadores entraram em contato com o professor Edson Nery e pediram seu parecer. "Eu fiquei entusiasmadíssimo com o projeto", afirma o escritor.

INGLATERRA - Na universidade de Cambridge, na Inglaterra, o inglês Peter Burke e sua mulher, a brasileira Maria Pallares Burke, fazem um estudo sobre Freyre. A linha central do trabalho discorre sobre o sociólogo como precursor da Ecolé des Annalles - cujos seguidores começaram seus estudos logo após a publicação de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, também fomentando seus estudos a partir das relações na família patriarcal. Entre estes seguidores estão Fernand Braudel - considerado o maior historiador francês - e Lucian Febure, que prefaciou a edição francesa de Casa Grande & Senzala.

Herói Literário e Historiador: Caminhos Cruzados nos Prefácios de Casa Grande & Senzala é o título do trabalho da historiadora francesa Ria Le Maire, que está sendo desenvolvido no Centro de Estudos Sobre o Brasil, da Universidade de Poitiers, na França. Nos EUA, existe ainda a pesquisa do estudioso Jeffreys Neidell, que já publicou o trabalho Identidade, Raça, Gênero e Modernidade nos Originais de Gilberto Freyre. O ensaio faz parte da Associação Americana de História dos EUA.

O antropólogo Roberto Mota, da UFPE, faz um trabalho sobre A Valorização dos Cultos Afro-Brasileiros na obra de Gilberto Freyre. No Museu Nacional do Rio de Janeiro, o pesquisador Ricardo Benzaquen de Araújo também continua a investigar a obra do mais universal dos antropólogos que o mundo já conheceu. (m.a.)



Fonte: "NEGRÓFILO" sempre atual. Diario de Pernambuco. Recife, 15 mar. 2000. Viver.

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