|
FREYRE NA PILHÉRIA
Josué Montello
À mesa do chá da Academia, lembram-se dois episódios de nossa história literária, que estão a reclamar registro neste diário.
O primeiro é contado por Manuel Bandeira:
- Em certa fase da luta modernista, Gilberto Freyre criou um pseudônimo coletivo, para todos nós. Este pseudônimo era Esmeraldino Olímpio. Esmeraldino Olímpio tinha de ser um velho caturra, que escrevia empregando os mais sovados lugares-comuns, inteiramente contrário a qualquer espécie de renovação estética. Um dia, Assis Chateaubriand me pediu um artigo. Eu fiz, no estilo de Esmeraldino Olímpico. E assinei com o pseudônimo. No dia seguinte, tive uma surpresa, ao ver o artigo publicado. Em vez de pseudônimo, trazia minha assinatura.
E mostrando mais os dentes e pigarreando, Bandeira conclui:
- Chateubriand, ele mesmo, riscou o pseudônimo e pôs meu nome, dizendo que me pediram um artigo a mim e não a Esmeraldino Olímpio.
Fez uma pausa. E logo depois:
- Quando encontrasse um artigo cheinho de lugares-comuns, O Jornal, com o meu nome, é esse o artigo do Esmeraldino.
O outro episódio é narrado por Peregrino Júnior:
- O Gilberto Freyre, quando moço, faz uma pilhéria dos diabos com o Nestor Victor. Querendo zombar do crítico do Simbolismo, Gilberto mandou copiar à máquina todo o Eusébio Macário, de Camilo Castelo Branco, e uma noite apareceu na casa do Nestor Victor, dizendo-se um escritor novo, recém-chegado do Piauí. E deu um nome suposto. Acrescentou que trazia uma novela para submetê-la à apreciação do crítico, lendo-lhe uns trechos. Homem bom e afetuoso, com a preocupação de estimular a juventude, Nestor Victor mandou o Gilberto entrar. E o jovem escritor piauiense, pilhando-se instalado numa cadeira, no gabinete de trabalho do crítico, principiou a leitura. E foi lendo, lendo, sem pressa nem cansaço. Ali pelas duas horas a madrugada, terminou de ler. E com toda a serenidade perguntou pela opinião de Nestor Victor.
- Está bem, meu filho - respondeu com docilidade o velho, a sua novela, para quem está começando, é boa. Mas você precisa melhorar um pouco. Principalmente o seu português. - E fazendo uma pausa, para bater afetuosamente no ombro do jovem: - Olhe, leia Camilo, Camilo lhe vai ser muito útil no domínio da língua.
Peregrino Júnior afiança que ouviu o episódio da boca do próprio Gilberto Freyre.
Fonte: MONTELLO, Josué. Freyre na pilhéria. A Tarde. Salvador, 25 mar. 2000. Ilustrada.
|