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PINTURA É EXTENSÃO DE OBRA LITERÁRIA
Lêda Rivas
Para os pais, o menino parecia irrecuperável. Aos oito anos, cursando o Jardim da Infância no Colégio Americano Gilreath - depois Americano Batista -, tinha dificuldade de ler e escrever. Mas passava o dia enfurnado nos cantos da casa, rabiscando. Desenhava compulsivamente.
Ansiosos por verem desabrochar o talento precoce e por, quem sabe, instigar o aprendizado primário por meio de métodos não convencionais, os pais contrataram o professor Jerônimo Teles Júnior, ex-diretor do Liceu de Artes e Ofícios, e paisagista famoso, para aulas particulares de Desenho.
À influência do mestre - cuja pintura era profundamente marcada pelo ambiente rústico do interior de Pernambuco, sobretudo os vilarejos despovoados e longínquos - o pequeno aluno acrescentou o toque singular das visões pessoais.
Ao contrário dos quadros quase "vazios de gente" do professor, os desenhos do aprendiz eram habitados por figuras que transitavam pelo seu cotidiano.
"Recuperado" para as Letras - para a felicidade do professor Alfredo Freyre e de sua mulher, dona Francisca - o menino Gilberto aprendeu, rapidamente, a ler e a escrever... em Inglês. Idioma no qual se tornou fluente, antes de incursionar pelo abecedário da língua materna.
Era garoto de calças curtas quando estreou na leitura da literatura universal: As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, foi o primeiro livro que leu, a este seguindo-se os clássicos romanos.
Quando Teles Júnior morreu, em 1914, Gilberto Freyre ensinava Latim (que aprendera com o pai) no Colégio Americano Gilreath. Tinha, exatamente, 14 anos, quase a idade do século. Começava a delinear o seu destino intelectual, sem, todavia, afastar-se das tintas e dos pincéis.
INDISCIPLINA - Gilberto jamais conseguiu imitar o traço seguro e a técnica minuciosa do mestre Teles Júnior. Impôs seu jeito próprio de criar, desordenadamente. Dispensava a disciplina.
"Pintava da maneira como escrevia e com o que escrevia: caneta, lápis grafite, lápis de cor", informa a filha Sonia, lastimando que parte dessa obra pictórica esteja se deteriorando, por ter sido produzida com e em material muito frágil. "Papel, para ele, era qualquer papel: guardanapos, sacos de embalagem, envelopes usados", diz a primogênita.
A biblioteca do Solar de Santo Antônio de Apipucos - local preferido da casa, para o sociólogo - servia-lhe, também, de ateliê. Ali estão seus apetrechos de criação - pincéis, hoje, carcomidos, paletas já ressequidas, caixas guardando pontas de lápis, esferográficas em desuso -, alguns dicionários de Artes Plásticas, álbuns de outros artistas, como os amigos Cícero Dias e Lula Cardoso Ayres, seus pintores preferidos.
Não que se limitasse a esse espaço. Quando batia a inspiração,Gilberto Freyre pintava a qualquer hora e em qualquer lugar.
Hábil em trabalhos manuais, ele mesmo desenhava e recortava as caixinhas de cartolina que decoravam as mesas dos aniversários dos filhos. Sonia Freyre acredita que ainda restem alguns desses adornos infantis, nos baús e armários da casa.
Íntimo de celebridades do mundo das Artes, Freyre nunca demonstrou frustração por não ter trilhado, paralela e profissionalmente, a carreira de pintor. "O que ele queria ser, desde que se entendeu de gente, era escritor. Acho que ele se realizou", comenta a filha.
Ela ressalta que, do currículo artístico do pai, constam, apenas, quatro exposições: uma na casa da família, em Apipucos, outra na Galeria Nega Fulô, no Recife, a terceira no Rio de Janeiro, sob os auspícios de Maria do Carmo e José Nabuco, e a última na Galeria Bonino, em São Paulo.
Se Gilberto, no dizer da filha mais velha, pintava como escrevia, pintava para ser compreendido. A cor era um novo canal de comunicação que ele abria com o seu público.
ALEGORIA - Abusava dos tons fortes, dos amarelos tropicalmente incandescentes, com os quais compunha uma interpretação alegórica da obra literária que estava construindo. As imagens fauvistas dos quadros de Gilberto bem poderiam ter ilustrado todos os seus livros, como um prolongamento deles mesmos.
São estas imagens que, hoje, espalham-se, sem nenhuma ordem especial, pelo solar oitocentista de Apipucos. Retratos de casas-grandes, sobrados, muxarabis, portões, igrejas, jangadas, mucambos, cenas familiares, auto-retratos (hieráticos, solenes, invariavelmente trajados de negro), meninos e meninas, mulatas, o Brasil multicultural, polifacético, o Brasil que Gilberto Freyre ajudou a descobrir.
Quadros em lápis de cor, aquarela, tinta a óleo, guache, grafite distribuem-se pelas paredes da casa, expostos à visitação pública. Produções (algumas) assinadas por "Gil" e (quase todas) sem registro de datas, que serão, em breve, classificadas e catalogadas, do mesmo modo que as coleções de artes sacra e africana e de mobiliário da família do sociólogo, inventariadas pelo antropólogo Raul Lody, curador da Fundação Gilberto Freyre.
Por ora, uma amostragem do universo pictórico de Freyre pode ser conferida no Calendário 2000, distribuído entre personalidades e instituições culturais, pela FGF. Impresso na Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), com projeto gráfico de Jan Souto Maior, o calendário traz 12 trabalhos, em técnicas diversas e uma só temática - o regionalismo - , correspondentes aos meses do ano e aos quais foram associados textos do sociólogo.
Na apresentação que faz da "folhinha", o artista plástico José Cláudio resume e adverte que essa arte, em Gilberto Freyre, foi "o ponto universal de partida e o caminho por excelência para a descoberta de tudo. A obra pictórica de Gilberto pode ser compreendida como uma extensão da sua obra literária. As cores incadescentes dão um tom fauvista à criação de Freyre."
Fonte: RIVAS, Lêda. Pintura é extensão de obra literária. Jornal do Commercio. Recife, 15 mar. 2000.
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