PIONEIRO NA DEFESA DA RAÇA NEGRA
Michelle de Assumpção
"O 1º Congresso Afro-Brasileiro do Recife foi o menos solene dos Congressos. Nele não brilhou um colarinho duro. Não apareceu um fraque. Não trovejou um tribuno. Não houve um só discurso em voz tremida. Foi tudo simples e em voz de conversa". O depoimento acima foi extraído dos anais do primeiro Congresso Afro-Brasileiro do Recife, realizado em 1934, um ano após a publicação do livro Casa Grande & Senzala. Trata-se do relatório de Gilberto Freyre, organizador do encontro, sobre os dias em que diversas pessoas da sociedade, pela primeira vez, se reuniram para discutir um assunto até então inédito no meio intelectual.
Apesar de toda polêmica gerada a partir das postura do sociólogo, historiadores, antropólogos e demais pesquisadores que estudam a obra de Freyre reconhecem a herança do pensamento freyriano nos estudos da influência da cultura africana no Brasil. E creditam ao Congresso um marco na visão sobre a participação do negro na sociedade brasileira.
Um desses é o antropólogo Eduardo Fonseca, ligado ao núcleo de estudos de Gilberto Freyre, da Fundação Joaquim Nabuco. Ele acaba de concluir a pesquisa Gilberto Freyre e as Religiões Afro-brasileiras, no qual discorre sobre a influência do sociólogo para os estudos das religiões e cultura afro-brasileira, a partir do 1º Congresso Afro-brasileiro do Recife. "Apesar de Freyre não ter deixado nenhum livro específico sobre esse assunto, ele vai tratar de dizer isso nas entrelinhas de sua obra", explica. O ensaio de Eduardo coloca, entre outros pontos, que pela primeira vez, no País e na América do Sul, se realizou um Congresso para avaliar a questão dos negros, a partir da visão dos próprios negros.
A impressão de Eduardo é de que a obra do sociólogo está sendo resgatada e relida por todo Brasil, depois de longos anos de discriminação. "As festividades em torno dos 500 anos colaboram para uma volta a si próprio, uma vontade de entender o país, o que temos de singular, o que faz com que este país seja tão fascinante para os estrangeiros", acredita Eduardo. E Gilberto Freyre foi o primeiro a dizer isso.
REVOLUÇÃO CULTURAL - Numa época onde a orientação marxista dominava, o pensamento sociológico e os modernistas exaltavam e colocavam o índio e não o negro como maior contribuidor para a formação de uma identidade nacional, Freyre foi odiado por muita gente. Subversivo, conspirador e comunista. Estes, entre outros, foram os adjetivos usados para definir a postura de Gilberto Freyre e a equipe formada por ele, para realizar no Recife o 1º Congresso de Estudos Afro-Brasileiros.
"O Congresso do Recife, com toda a sua simplicidade, deu novo feitio e novo sabor aos estudos afro-brasileiros, libertando-os do exclusivismo acadêmico ou cientificista das 'escolas rígidas€, por um lado, e por outro, da leviandade e da ligeireza dos que cultivam o assunto por simples gosto do pitoresco, por literatice, por politiquice... A colaboração de analfabetos, de cozinheiras, de pais de terreiro, ao lado dos doutores, deu uma força nova aos estudos", escreveu Freyre, nos mesmos anais citados no início desta reportagem.
Fonte: ASSUMPÇÃO, Michelle de. Pioneiro na defesa da raça negra. Diario de Pernambuco. Recife, 15 mar. 2000. Viver
|