O BRASILEIRO COMO HISPANO
"Espantou-se certa vez um alemão – como se espantaria um anglo-saxão – num hotel da Espanha, ao notar que um dos hóspedes pedira ao porteiro que o acordasse na manhã seguinte " entre as 10 e as 11 horas". Nenhum de nós, brasileiros, integrados no tempo psicologicamente brasileiro que é a extensão do tempo hispânico, ibérico, peninsular, em seu modo mais subjetivo de ser tempo, se espantaria de ouvir tal pedido da parte de um hóspede a porteiro de hotel, em vez de preciso, exato, germânico, saxônico, ianque, cronométrico: "Queira acordar-me amanhã às dez horas e vinte e cinco minutos". A chamada "hora inglesa" no seu extremo germânico ou ianque de hora cronométrica.
Evidentemente o hispano não criou para si, para sua vida, para seu espírito, para sua cultura, a mesma subordinação passiva ao tempo cronológico que faz de alguns povos modernos escravos de minutos e até segundos, dado o fato de, para eles, o "tempo" ter-se tornado "dinheiro" – "time is money" – e o dinheiro ser para muitos desses quase ex-modernos já um tanto ultrapassados na sua modernidade o valor supremo que parece não Ter –se tornado nunca para o hispano castiçamente hispânico. Talvez a identificação absoluta de ‘tempo’ com "dinheiro" esteja nos seus últimos dias não digo cronológicos, mas sociológicos, mas sociológicos e psicológicos; e sendo assim, quem mais perto está de nova modernidade é o hispano para quem tempo é principalmente vida e sempre foi principalmente vida e até, para os místicos, eternidade.(...)
Já mais de uma vez tenho salientado o fato, que não mereceu ainda a atenção demorada, muito menos a análise sociológica, de pensador algum nem de nenhum crítico, de ser o Brasil, ao contrário do que geralmente se supõe, a nação mais hispânica da América. Vede bem: a mais hispânica. A mais completamente hispânica. A mais integralmente hispânica. Amais plenamente hispânica. A única portuguesa, é certo. Mas não exclusivamente portuguesa, em sua formação: também espanhola. Também colônia por algum tempo da Espanha. E durante o seu inteiro período de formação portuguesa, particularmente influenciado em sua cultura, da mais erudita à folclórica – e sobre a penetração espanhola no folclore do Brasil há páginas magistrais do professor Sílvio Júlio -, colorido em sua condição étnica, marcada em seus ritos jurídicos e na sistemática do seu direito pela presença espanhola.
Presença que em subáreas brasileiras como a paulista chegou por algum tempo a rivalizar com a portuguesa e até a ultrapassá-la em prestígio. Presença que em Pernambuco e na Bahia deu sentido hispânico e não apenas português nem somente luso-brasileiro à luta contra a invasão holandesa do Norte do Brasil.(...)
É evidente que, como o povo mais hispânico da América, é o brasileiro que deve tomar a si a responsabilidade de tornar mais hispânica não só a América, dividida com demasiado rigor em América espanhola e América portuguesa, como a comunidade hispânica em sua totalidade: também ela rigidamente dividida em espanhóis e portugueses, em descendentes de espanhóis, em continuadores de espanhóis e continuadores de portugueses, quando nosso grande destino sociológico é formamos uma comunidade hispânica bilíngüe, multicultural, multinacional, mas articulada numa só e complexa civilização cujo tempo continue psicologicamente o mesmo; organizada, embora não ordenada nem arregimentada, num só e fraterno sistema de vida caracterizado pelo personalismo que impeça os homens de se despersonalizarem em números."
Trecho inédito, sem data
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