DON JUAN DAS AMÉRICAS
Assim como há um barroco espanhol e outro português
diferente do espanhol. (O escritor e pensador) Miguel de Unamuno talvez dissesse que o Dom Juan português tende sempre ao amor vário, porém sentimental, em contraste com amor vário, as passional, do espanhol.
Um aspecto do donjuanismo que parece Ter se acentuado mais no português que no espanhol foi o da conquista da mulher de cor pelo homem branco, sob a forma de uma como que missão civilizadora que o peninsular teria se sentido obrigado a cumprir no Oriente e nos trópicos através de métodos poligâmicos aprendidos talvez com árabes. Aceito como donjuanismo o furor com que o português tornou-se no Oriente, na África e no Brasil um grande procriador de mestiços, teríamos que aceitar também este paradoxo: o donjuanismo - tão considerado pelos moralistas da igreja – serviu a causa da expansão cristã em terras exóticas. Causa com a qual tão fervorosamente se identificou o conquistador ibérico: quer o de terras, quer o de mulheres, populações, civilizações.
Neste ponto me parece haver matéria nova para a consideração de antropólogos, psicólogos, historiadores: até que ponto a palavra "conquistador" à qual tão associada se acha desde o século XV a figura do hispano, significa um donjuan de terras? O donjuanismo, considerado sob esse critério, se tornaria a expressão de uma afã civilizador da parte ibérica, em que cada hispano exuberantemente másculo, conquistando no Oriente ou na África ou no Brasil dez, vinte, trinta mulheres nativas, não o fazia para gozo exclusivo do seu sexo desbragado, mas em proveito de uma causa por assim dizer sagrada: a da expansão do Cristianismo entre os gentios"
Trecho de conferência lida na
Universidade de Oxford em 1922.
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