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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



IMPERIALISMO ASSIMILATÓRIO


" Os ibéricos ou hispânicos em geral e os portugueses em particular têm sido por um logo tempo vítimas da "lenda negra" que inclui uma crítica severa e um tanto injusta sobre o seu comportamento nos trópicos. Seria um exagero dizer que eles foram uns anjos como colonizadores de áreas tropicais. Eles certamente não foram. Cometeram crimes hediondos na Índia bem como no México e no Peru. E também – em menor grau – no Brasil.

Mas já é tempo de alguém escrever um ensaio um tanto apologético sobre o comportamento dos ibéricos nos trópicos.(...) Muito antes do homem moderno ou contemporâneo Ter reaprendido a apreciar os valores tropicais, os ibéricos em geral e os lusitanos em particular aprenderam a valorizá-los e orientar sua expansão e domínio por meio mundo através de uma política, sistema ou método ibero-tropical ou hispano-tropical, ou melhor ainda, através de uma modus procedendi não calculado e não planejado, o qual, em parte, marcou as paisagens tropicais bem como os povos dessas áreas, da Índia à América, passando pela África, como uma civilização admiravelmente uniforme e semelhante em muitos aspectos, a qual só pode ser chamada de ibero-tropical, porque ela foi, em parte, ibérica, cristã e européia e, em parte, tropical no clima, nos valores naturais nos valores sociais básicos, manifestados em inúmeras nuanças.(...)

O Tratado de Tordesilha: ibéricos incorporaram a cultura dos colonizados

Nisto parece estar à força do ibérico em geral e do português em particular: uma condição fundamental para sua permanência num mundo como dos trópicos e do Oriente. Ele é um homem que se deseuropeíza e de algum modo rejeita o jugo imperialista usados por outros europeus. Nos trópicos o português nem foi um autêntico europeu nem um imperialista ortodoxo. O seu europeísmo foi diluído, até mesmo na Europa, pelas misturas com os árabes e judeus, que os orientalizaram.(...)

O contato com os árabes e mouros na Espanha e em Portugal, bem como com os escravos negros, serviram para preparar os ibéricos para o aprendizado de lições valiosas no relacionamento com os povos de outras terras, crenças e cores.(...) Foi com os árabes, ou com os mouros, que eles aprenderam os processos de assimilação: o exemplo dos árabes ou dos mouros de absorverem o sangue e a cultura dos povos africanos e integrá-los ao complexo de civilização maometana – o sistema patriarcal árabe, polígamo, com uma escravidão familiar mais do que uma mera escravidão industrial, na qual o sangue dos pais nas terras alienígenas foi suficiente para maometanizar, islamizar, arabizar e enobrecer a prole mestiça, tanto os filhos de escravos quanto os filhos de mulheres nativas. Para que esses filhos pudessem ser considerados iguais em status social eles tinham simplesmente de adotar a crença, os rituais e os costumes dos seus pais. Era um " imperialismo assimilatório", conforme a denominação do professor Rená Maunier, sociólogo francês. Os islâmicos realizaram entre as populações africanas uma assimilação apocalíptica quase instintiva, através do empenho de indivíduos ou grupos teocráticos. Tal e qual o ibérico, particularmente o português que, depois, mais metodicamente, empenhou se na prática de assimilação ao Cristianismo dos povos de cor.

Trecho inédito do ensaio
"Uma Visão quase apologética do
comportamento hispânico ou ibérico
nos trópicos". Provavelmente
escrito nos anos 60.

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