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UM TESOURO DE RECORDAÇÕES
Lêda Rivas
Para o pensador espanhol Julián Marías, o melhor livro de Gilberto Freyre não é Casa-Grande & Senzala. Disso saiu convencido após visitar a Vivenda Santo Antônio de Apipucos, numa tarde de primavera em 1983, e deixar seu autógrafo - como já o fizera, anos antes - no Álbum de Recordações da primogênita dos Freyres. Seria Sonia Maria, no dizer do mestre galanteador, a obra maior de Gilberto.
O elogio encerra o livro precioso, do qual a homenageada tem o maior e mais justificado orgulho. Nele está registrada a passagem de nomes ilustres - e outros não tanto, mas, igualmente, bem-vindos - pelo solar oitocentista, por quase 40 anos. Mania de menina, que, tímida, escondia-se atrás das portas, quando o pai famoso recebia visitantes. Para assinalar tão nobres presenças, vindas de tantas partes do mundo, Sonia Maria mandava o álbum para que os hóspedes ali deixassem suas impressões. Só aos poucos foi se libertando do acanhamento e partilhando aqueles momentos raros, que ela considera inesquecíveis:
"Na hora, eu não tinha a idéia da importância dessas pessoas. Sabia que eram amigas de papai e isso bastava. Que freqüentavam a nossa casa e elogiavam os pratos que mamãe fazia. Hoje sei da preciosidade que tenho nas mãos. O meu Álbum de Recordações não tem preço", avalia. O livro foi inaugurado, no Rio, no dia 30 de dezembro de 1948, pelo poeta Manuel Bandeira, que, em letra firme e tinta preta, escreveu a Sextilha de frei Manuel:
"Sonia, filha de Gilberto
E filha de Magdalena,
Cumprirá em moça, de certo,
O que promete em pequena.
Não verei isso de perto,
Serei bem longe...Que pena!"
No Recife, quatro meses depois, o também poeta e amigo da família, Odilon Nestor, ensaiaria um acróstico:
Sonia é a menina encantada,
O que ela quer, se adivinha.
Não crendo que seja fada
Imagina-se rainha,
A querer que seja amada
Mas Gilberto e Magdalena
Acham bom que ela, sozinha,
Reine enquanto for pequena.
Inda diriam sem pena:
A princesa é que é rainha."
MARAJÁS, RABINOS, ARTISTAS...- Em um de seus livros mais encantadores, Apipucos: que há num nome?, Gilberto Freyre fala do variado cortejo, habitué do velho solar. Classifica-o como "visitantes de várias espécies, de várias tendências e de vários característicos". São, segundo Freyre, marajás da Índia e rabinos ilustres, embaixadores, scholars e escritores, geógrafos, sociólogos, artistas, editores, políticos, religiosos, juristas, pais e filhos-de-santo. "Gente contraditória", no dizer do dono da casa, mas toda ela entusiasta do conhaque de pitanga, generosamente servido pela família, e dos pitus ao molho de coco preparados por dona Madalena.
Se dependesse de Gilberto Freyre, a vida seria uma festa. "Todo dia era dia de receber os amigos", comenta Sonia, lembrando as lautas refeições oferecidas. A cozinha brasileira, principalmente a pernambucana, predominava, com os cozidos, peixadas, sarapatéis, frutos do mar, sucos de frutas tropicais. O início e o fim das refeições eram o momento escolhido pela filha do sociólogo para abordar os convidados e deles obter um registro no seu Álbum de Recordações. Alguns, além de palavras, deixavam imagens, como os pintores Elezier Xavier, Lula Cardoso Ayres e Cícero Dias. Quadros em miniatura, carinhosamente preservados por sua dona.
Dos estrangeiros famosos, Sonia guarda uma lembrança especial do poeta norte-americano Robert Lowell, que deixou no seu álbum, em junho de 62, o único poema que, possivelmente, escreveu no Brasil. Lowell tinha, então, 45 anos, ganhara o Prêmio Pulitzer aos 30, e vinha incensado pela crítica internacional, que o considerava o mais importante poeta de língua inglesa da segunda metade do século XX:"For Sonia, who rings a bell in my mind/ Though I lack words to desenbre/Describe what I hear."
São versos simples, mas de grande significado para a filha de Gilberto, que considera, todavia, todos os demais autógrafos importantes. Entre eles, estão Heitor Villa-Lobos (que, entre desenhos de claves, aconselha: "Ame a vida para amar a todos"), Luís Jardim, Jorge de Lima, John Dos Passos, Georges Gurvitch, Aldous Huxley, Paulo Mendes Campos, Álvaro Moreyra, Carolina Nabuco, João Cabral de Melo Neto, Gustavo Capanema, Carlos Chagas.
Orgulhosa do seu pequeno tesouro, Sonia Freyre Pimentel lamenta, apenas, que dele esteja ausente um certo jovem poeta, que costumava freqüentar a casa de Apipucos e por quem Gilberto tinha uma grande admiração. "Eu sempre adiava a oportunidade de pedir a Carlos Pena Filho o seu autógrafo. Achava que devia esperar, para quando ele fosse mais velho...". O poeta morreu em 1º de julho de 1960, aos 31 anos.
Fonte: RIVAS, Lêda. Um tesouro de recordações. Jornal do Commercio. Recife, 15 de mar. de 2000.
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