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URUGUAIOS PREPARAM BIOGRAFIA
Mário Hélio
Embora gostasse de biografias - individuais e coletivas - Gilberto Freyre ainda não tem a sua. As duas que existem, uma de Vamireh Chacon e outra assinada por Diogo de Mello Meneses, são mais encômios do que "vidas". Essa lacuna está para ser preenchida, em breve. Dois uruguaios - Guillermo Giucci e Enrique Larreta se ocupam da tarefa.
O propósito deles é ambicioso. Talvez o mais ousado dos livros envolvendo uma análise de Freyre. Projetando três volumes, os autores já estão a concluir o primeiro e pretendem realizar uma completa investigação sobre as diversas fases da vida do sociólogo, em seu contexto cultural.
A primeira parte abrangerá a vida e a obra de Gilberto Freyre, do seu nascimento, em 1900 até 1936, data da publicação de Sobrados e Mucambos. "Houve uma pequena demora na coleta do material, que é muito disperso. Pesquisamos em Stanford e Columbia, e em jornais de época", explica Giucci, em entrevista por telefone. Será abordada nesse estágio a formação do intelectual.
Um novo Gilberto Freyre começa a se delinear do retrato desenhado pelos uruguaios. Ou, pelo menos, um autor menos conhecido pela maioria. Acostumados a um homem alegre, seguro, vaidoso, encontrarão um jovem com crises de depressão, duvidando das possibilidades de Casa-Grande & Senzala.
Se Freyre costumava definir-se como contraditório, a biografia irá comprovar isto fartamente. Não sendo um historiador, foi, decerto, um grande criador de histórias, as da vida privada, cotidiana, íntima dos brasileiros. Mas também foi um inventor de anedotas e situações imaginárias também na sua vida pessoal. Esse traço da sua personalidade tem os seus melhores exemplos na juventude.
"Ele gostava de inventar histórias sobre si mesmo", diz Giucci. "Fazia circular, por exemplo, a informação de que ia se casar, mas era tudo invenção". O biógrafo esclarece que não era esse um hábito somente seu, e sim característica da época. Os modernistas como Oswald de Andrade faziam o mesmo. Com este, Freyre manteve convivência cordial, o mesmo não se diz com o outro Andrade, o Mário. Se nunca houve amizade entre eles, as relações se azedaram por completo, no final da década de vinte, quando o autor de Macunaíma visitou o Recife.
A idéia geral do livro Gilberto Freyre: Uma Biografia Cultural é mostrar as diversas faces do biografado. Por isso,está sendo feito a quatro mãos. Giucci, crítico literário e professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Larreta, antropólogo. Reúnem ambos as condições fundamentais para estudar um autor que tinha um pé na ciência e outro na literatura. Foi, aliás, pelas letras que ele começou. Não a de língua portuguesa, e sim, inglesa. Somente a partir de sua estada em Columbia é que começa a nascer o cientista social. "Queremos um Gilberto Freyre total, combinando as suas diversas dimensões, a única maneira adequada de tratar um autor de uma obra que vai além das disciplinas", afirma Giucci.
O que vai emergir dessa pesquisa é um Gilberto Freyre muito mais humano, um jovem em formação, usando a escrita como laboratório. "As fontes literárias são muito importantes para entender Freyre", diz Giucci. "É impossível pensar Casa-Grande & Senzala sem o impacto do decadentismo e do imagismo, que ele filtrou de modo particular".
Essa literatura que transborda para a escrita de sua obra mestra, está inteiramente tomada do espírito da modernidade. Ou, como assinala o seu biógrafo, contaminada pelas tendências modernas, apesar da defesa que o autor faz da tradição. "As formas que ele elege são modernas, nunca reacionárias", define.
Se nessa capacidade de fazer cultura e literatura, Gilberto Freyre tem um ilustre par latino-americano em Octavio Paz, não se encontra, no entanto, nenhum autor uruguaio que lhe seja equivalente. "Os ensaístas uruguaios são espiritualistas e idealistas, Freyre é materialista, no sentido de que parte de situações concretas e não de ideais", compara Giucci.
O exemplo certamente mais vigoroso de que não há nada semelhante entre o papel de Freyre no Brasil e algum intérprete uruguaio do seu próprio país, Guillermo Giucci encontra em Martinez Estrada. Ele escreveu uma obra, publicada no mesmo ano de Casa-Grande & Senzala, e que se intitula Radiografia do Pampa. "É o contrário da obra de Freyre. Uma escrita ressentida, de denúncia, que mostra como os índios são párias, a desintegração provocada pela colonização."
O tom geral da work in progress dos uruguaios é de pura pesquisa acadêmica. Sem julgamentos críticos nem elogios impressionistas. Sem defesas nem ataques. Querem os autores reconstruir o âmbito das épocas, não qualificar Freyre. Quem eram os seus professores? e os seus amigos? como se formou o seu mundo, além da escrita?
Para isso, as fontes investigadas na Fundação Gilberto Freyre têm sido fundamentais. Não somente a correspondência (ativa e passiva), mas até a sua biblioteca. Vendo-se os livros que ele leu. Como estão anotados. Os caminhos da sua gênese pessoal.Guillermo Giucci já arrisca algumas conclusões. "Gilberto Freyre era um leitor muito rápido. Muitas vezes usa fontes secundárias". Ele informa que é comum em Freyre o trabalho sobre anotações de outros, não a própria obra primária. Emprega muito material já digerido.
Que a primeira biografia efetiva de Gilberto Freyre seja escrita por uruguaios e não por brasileiros parece natural. Sendo estrangeiros, Larreta e Giucci têm um distanciamento de questões locais - como as posições políticas do biografado - que interferem numa leitura e interpretação isentas do que produziu. "Houve preconceitos em torno de Freyre. Na década de trinta, ele vinha com uma escrita quase pornográfica, que escandalizou o contexto cultural conservador. Na década de 60, o ataca duramente porque ele se confundiu com o aristocratismo", explica.
Somente nos anos 80 e 90, quando aspectos políticos e morais já não têm tanto peso para as novas gerações, é que Freyre começa a ser redescoberto por um viés menos ideologizado e parcial. Giucci reconhece que as universidades brasileiras deram as costas a Freyre. "Os professores na década de 70 não liam Gilberto, liam Caio Prado; hoje, começa a acontecer o contrário".
Mas entre leituras e não leituras, Gilberto Freyre padece dois paradoxos. Ou não é lido por preconceito. Ou não é lido porque já é um clássico - aquele tipo de autor que todo mundo cita, e quase ninguém leu. Certamente, a biografia de Giucci e Larreta vai contribuir para mudar esta situação.
Fonte: HÉLIO, Mário. Uruguaios preparam biografia. Jornal do Commércio. Recife, 15 mar. 2000.
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