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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



GUSTAVO CORÇÃO E O TEMPO


Escrevendo sôbre Gustavo Corção, posso dar-me ao luxo quase teológico de citar Santo Ambrósio sem temer a pedanteria da citação. De Santo Ambrósio é êste conceito, a meu ver admirável, do que deve entender-se pela relação com tempo daqueles homens que, sem deixarem de ser carne, são, principalmente, verbo: o caso do Corção. Para êsses homens o tempo - segundo o Santo - não conta. O que quer dizer - se bem interpreto Santo Ambrósio - que não conta como quantidade. Só como qualidade.

Gustavo Corção chega aos setenta e cinco anos, tendo nessa idade aquela parte de experiência da vida e do conhecimento dos homens que só se acumulam com o tempo como uma sucessão de passados alongados em presentes e projetados tríbiamente sôbre futuros. Mas guardando uma mocidade, um viço, uma veemência, um ardor combativo no que nêle é verbo talvez angélico que marcam no seu modo de ser homem, de ser brasileiro, de ser escritor, de ser Católico Romano e de viver no século XX, esta inconfundível condição ambrosiana: a de em todos êsses aspectos de sua personalidade exprimir uma alma para o qual o tempo, simplesmente cronológico, com suas modernices efêmeras e suas vogas transitórias é, no máximo, o que em matemática - a sua matemática, mestre Gustavo Corção! se chama - ou se chamava - "quantidade desprezível".

Esta uma das superioridades de Gustavo Corção sôbre aquêles modernistas faisandés que hoje pretendem fazer dêle um simples ou caricatural "reacionário" parado no tempo e até nêle atrasado a de pensar, sentir, agir, discutir, escrever, quase à revelia de contingências estritamente cronológicas. Porque sua identificação de católico com a sua fé é uma identificação de alma com o que, para essa alma, sendo trans-tempo, não deve reduzir-se àquela "coisa sociológica" - sociologia e aquém-tempo - que na própria sociologia moderna torna, neste particular, o insigne Durkhrim, um tanto arcáico.

Quem, neste breve comentário à figura extraordinária de Gustavo Corção, procura compreender e destacar em suas idéias, e em sua ação o essencial de uma personalidade superior a contingências estandardizáveis de homens em sub-homens, não o faz como católico; nem como sociólogo, porque talvez não seja estritamente sociólogo. São palavras, estas, inspiradas pelo autêntico escritor que é Gustavo Corção a um possível escritor, como êle, mais pessoal que caudatário em suas atitudes. Inclusive em suas atitudes para com o que é apenas imediato ou sòmente quantitativo no tempo que um homem vive.

Pois esta é uma das mais belas afirmações de personalidade que em Gustavo Corção transborda do homem no escritor: a de uma alma para quem o tempo imediato, o próprio tempo histórico, quase não conta, tantos são os seus compromissos com o trans-tempo.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Gustavo Corção e o tempo. Permanência. Rio de Janeiro, v. 4, n. 38, p. 29-30, nov. 1971.

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