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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



O NORDESTE BRASILEIRO:
a marca ibérica ou hispânica na sua formação


Diga-se de início do Nordeste brasileiro que, considerado numa perspectiva histórico-social que seja também antropocultural, além de ecológica, é não um só, porém dois ou três: um tropicalmente úmido, outro tropicalmente árido, um terceiro intermediário; que do seu homem do litoral - área canavieira ou agrária - se pode dizer vir sendo, à sua maneira, tão válido quanto o sertanejo glorificado pelos Euclides da Cunha; que é região que se apresenta, quanto à biologia da sua população, como a mais amplamente miscigenada do Brasil, com a mistura europeu-ameríndio-africana variando em proporções, numas sub-regiões predominando, depois do europeu, o ameríndio, noutras, o africano; que assim miscigenado o Nordeste vem dando ao Brasil, desde os dias coloniais, líderes políticos, líderes militares, intelectuais, religiosos, artistas; que essa capacidade de liderança, ao lado da combativa, antecipou-se em revelar-se no século XVII, quando a gente nordestina, nem sempre auxiliada, como devia ter sido, pelas metrópoles, portuguesa ou espanhola, expulsou do Brasil o invasor norte-europeu e protestante. Liderança, então, significativamente de um banco já da terra - Vidal de Negreiros; de um ameríndio - Felipe Camarão; de um negro ou africano de origem - Henrique Dias.

Na história econômica do Brasil, o Nordeste, desde os começos de sua colonização por portugueses, destacou-se como região por excelência cultivadora de cana e produtora de açúcar. Na história social, alongada na cultura, como a primeira área brasileira de civilização ao mesmo tempo que democratizada em sua população, pela mistura de três sangues e pela interpenetração de três culturas, distinguida pelo complexo casa-grande-senzala completado pela capela. Um complexo aristocratizante sem deixar de ser democratizante.

Em arbitrário resumo, são os traços que caracterizam o Nordeste como supercomplexo antropocultural e como formação étnico-social. São traços que explicam algumas de suas antecipações dentro do conjunto brasileiro. Exemplo: o fato de ter ocorrido aqui o começo da literatura brasileira, com o poema Prosopopéia; o começo do teatro no Brasil; um dos começos da assistência social; um dos começos de uma medicina de origem européia adaptada ao trópico; um dos começos de uma culinária euro-tropical brasileira; e um dos começos de uma arte barroca de igreja, de ponte, construção civil abrasileirada; um dos principais pontos de introdução e aclimatação ao Brasil de plantas de várias origens, assim como de combinação, na arquitetura doméstica de cidades e na arte do móvel, valores de procedência luso-mourisca ou hispano-árabe com condições ou recursos tropicais peculiares ao Brasil.

O Brasil, como sociedade estável, nasceu no Nordeste: em Pernambuco e na Bahia e nos seus, durante algum tempo, satélites. No verde, úmido e quente, do seu litoral e das suas terras de massapê, ideais para o cultivo da cana. À sombra de bons e retorcidos cajueiros nativos.

Aí desembarcou Pedro Álvares Cabral com Pero Vaz de Caminha um Pero atento ao que se ia passando para de tudo dar notícia ao seu rei e aos portugueses de Portugal em carta memorável: já literatura em vez de ofício apenas burocrático. No Nordeste Frei Henrique de Coimbra disse a Primeira Missa, com indígenas morenamente nus repetindo os pelos-sinais, repetindo os améns, repetindo os gestos liturgicamente católicos do frade e dos cristãos lusitanos. Mas sem nos esquecermos de que nesta parte do Brasil já estivera o espanhol Pinzón. Sem nos esquecermos de que a esta, como a outras partes do Brasil, não faltam presenças ou estímulos espanhóis, acrescentados aos portugueses na definição de suas origens como hispânicos e não somente portugueses.

Foi no Nordeste canavieiro que o Brasil, já nascido como Terra de Santa Cruz ou Vera Cruz, na futura - desde seu início, gloriosamente brasileira - Bahia, firmou-se sob formas decisivamente pré-nacionais. Incisivamente pré-nacionais. Irredutivelmete pré-nacionais.

Aqui - em Pernambuco - é que se escreveria a sangue o endereço do futuro nacional de um Brasil. Seria uma só nação e não duas ou três. Uma só nação, e esta reunindo fraternalmente três sangues, noutras regiões separados e até inimigos; e começando a constituir-se, desde então, na maior - embora ainda hoje imperfeita - democracia étnica que o mundo já viu. Mais do que numa democracia étnica: numa democracia transracial. Numa além-raça. Numa pátria de novo tipo em que a condição de brasileiro seria - como é - bastante para definir um homem ou uma mulher: sem ser preciso, aos censos sócio-geográficos, anotarem-se oficialmente os característicos de raça ou de cor dos componentes de sua população.

Esta a grande significação, mais do que política, social e humana, da repulsa nordestina - com uma colaboração paulista que não deve ser esquecida - ao invasor holandês: livrou o Brasil de, partido ao meio, ou em três ou quatro, tornar-se no Nordeste uma outra Java, na qual, desde o século XVII, uma minoria de brancos passasse a dominar e explorar uma maioria de gentes de cor. É uma significação nacional, uma significação social, a que se deve atribuir o fato de, no século XVII, o Nordeste brasileiro, com indígenas, africanos, portugueses desde o século XVI vindos da Europa, mas principalmente pelo seu ânimo já transeuropeu, ter-se mantido hispano-tropical em face de vigorosa invasão nórdico-protestante.

Não nos esqueçamos de que, nessa vigorosa repulsa ao invasor nórdico e protestante, estiveram unidos a pré-brasileiros, do próprio Nordeste, aos quais se juntaram pré-brasileiros paulistas, espanhóis, na época, pela conjugação das duas coroas, a de Portugal e a da Espanha, dominadores hispânicos do Brasil. E, durante anos, influentes sobre destinos brasileiros. Responsáveis pela situação hispânica e católica do Brasil, em geral, e do Nordeste, em particular, em face do imperialismo nórdico-protestante em conflito com o Império espanhol e com o Império português, detentores de colônias em várias regiões tropicais economicamente atraentes pelos seus recursos minerais e pelas suas possibilidades agrárias: sobretudo a representada pela cana-de-açúcar. Produto tropical que tinha então no Nordeste brasileiro - onde se adaptara idealmente ao massapê da região - sua principal fonte de produção. De onde ter atraído de modo tão direto a cobiça holandesa que, para conquistar esse Nordeste tão economicamente vantajoso, não hesitou em enfrentar portugueses e espanhóis, provocando cuidados especiais da parte desses hispanos quanto à defesa de um - naqueles dias - tão disputado Nordeste.

Foi no Recife, em dia memorável, que cessou um domínio ao qual resistiram, durante anos, aqueles pré-brasileiros como as duas nações hispânicas. Prolongado esse domínio teria impedido o Brasil, e não apenas Pernambuco ou o Nordeste, de realizar seus justos destinos nacionais; de cumprir suas predisposições extra-européias; de realizar no mundo sua missão; de criar, como vem criando, um novo tipo de homem e uma nova expressão de beleza de mulher; de desenvolver um novo e original tipo de civilização. E, com ele, um novo e brasileiríssimo estilo de vida, com suas formas próprias de devoção, de arquitetura, de culinária, de doçaria, de música, de artesanato, de pintura, de escultura, de medicina doméstica, de recreação e até com suas, muito suas, formas de adaptação do homem civilizado à natureza tropical. Adaptação à base de raízes européias, principalmente hispânicas: as espanholas acrescentadas às portuguesas.

Sob o jugo holandês, o Brasil teria possivelmente se tornado, do Maranhão à Bahia, uma outra e imensa Java. Essa Java da qual alguém disse, nos seus dias de glória como feudo colonial, que possuía os mais bem cuidados coqueiros e, ao mesmo tempo, os mais maltratados nativos do Oriente. Possível exagero de retórica anticolonizadora com o qual concordaria a observação do historiador indiano Pannikar sobre as situações dos nativos no mesmo Oriente, quando quase todo constituído de colônias européias. Segundo esse historiador-sociólogo oriental, os mais maltratados seriam os das colônias holandesas. Mais: teria sido o Nordeste, sob um longo jugo holandês, parte de um Brasil mutilado ou despedaçado, em vez do magnificamente uno, de reino passaria a império e de império a república, sempre constituído de vários Brasis dentro de um só Brasil. Um só Brasil sempre exemplo de uma unidade dinâmica como o mundo moderno não conhece igual, tratando-se de vastos territórios de populações numerosas e dispersas.

Esta, a grande realidade: não teria se tornado o Brasil um exemplo sociológico de nação una se, no século XVII, tivesse faltado ao Brasil o apoio hispânico à resistência dos próprios pré-brasileiros: resistência decisiva. Dentro dessa bravura, a união dos Vieira, dos Vidal de Negreiros, dos Camarão e dos Henrique. De brancos, ameríndios e negros já abrasileirados sob domínios hispânicos. Mais: a madrugadora consciência de nacionalidade numa então ainda colônia. A também madrugadora pernambucanidade dos pernambucanos a serviço de um futuro Brasil-nação. Inclusive sua madrugadora modernidade. Antecipações que teriam sido difíceis sob domínios europeus que não fossem os hispânicos.

A Restauração Pernambucana foi a primeira grande afirmação de que o Brasil, ainda aparentemente só colônia, já optava por um futuro brasileiro de nação na sua maioria moderna. Morena não como raça, mas como tipo nacional metarracial de homem e de mulher. Como metarraça. Como além-raça. Os heróis da Restauração foi o que representaram de mais socialmente expressivo: uma nação que se projetava sobre o futuro sobrepondo-se a qualquer espírito de raça - branquitude ou negritude amerinitude - o de além-raça.

Repita-se que os lucros de hispanos - portugueses ou espanhóis - e de pré-brasileiros, senhores de engenho, com a sua cana e com o seu açúcar, é que despertaram a cobiça holandesa. A cana-de-açúcar a revelar-se ouro em forma de vegetal. Mas ouro do melhor. Ouro que Mellos e Albuquerques descobriram nesta parte da América.

Nunca se vira amor mais efusivo e mais fecundo de um vegetal penetrante por uma terra úmida, quente, receptiva, tropicalmente voluptuosa, que esse do transplante de cana-de-açúcar trazido da Ilha da Madeira pela terra de massapê nativo do Nordeste. Era plantar e dar. Dar triunfalmente: rebentando de viço.

Todo um novo tipo de gente, desde o século XVI, se formaria em torno das núpcias festivas desse vegetal com essa terra. Os donos de engenhos banqueteando-se, com vinhos finos e iguarias vindos da Europa. Os senhores vivendo como nobres. Casas com fechaduras de prata. As mulheres indo às missas vestindo sedas e ostentando jóias. Luxos semelhantes - dizem as crônicas - aos de Lisboa. Aos de Portugal e da Espanha. E não poucos desses Mellos e desses Albuquerques unindo-se a mulheres da terra.

A cobiça holandesa quis se apoderar do que esse novo tipo de gente hispano-tropical, criadora de uma também nova civilização católica e tropical, sabia já ser seu, amorosamente seu. Sensualmente seu. Mulheres indígenas. Novas mouras encantadas como as das lendas portuguesas e espanholas. Terras e rios. É o que proclamam igrejas cheias de Nossas Senhoras e de santos adornados de ouro e prata. De modo que foi natural ter o Nordeste se levantado, como se levantou, contra o intruso ou contra o usurpador anti-hispano e anticatólico. O massapê continuaria seu. Pernambucano. Nordestino. Brasileiro. Hispânico. Pois essa gente modesta era formada, em grande parte, ao alvorecer do século XVII por hispano-tropicais. Por Jerônimos de Albuquerques, unidos a Marias Arcoverdes. Ou a Marias africanas. Com a reconquista, a cana-de-açúcar, na sua variante pernambucana, continuaria de hispano-tropicais. O açúcar que dela se extraísse em suco que se transformasse em cachaça da melhor não poderia passar a mãos estranhas: seria dos brancos, dos pardos, dos pretos, dos morenos já hispano-tropicalmente brasileiro. Seria nosso. Seria pernambucano. Seria brasileiro. Porque a cana já se abrasileirara. Já se pernambucanizara. Sobre ela se edificaria uma nova nação: a nação brasileira.

Compreende-se a cobiça holandesa. Os negociantes holandeses eram calvinistas e pensavam nos assuntos humanos em termos principalmente econômicos. Reduzindo quase tudo a dinheiro. Deus abençoava os ricos, segundo Calvino. O homem abençoado por Deus era, para os calvinistas, o homem próspero em bens materiais. O pobre era pobre por ser mal visto por Deus. A prosperidade que o açúcar estava proporcionando na América do Sul aos portugueses e brasileiros de Pernambuco era decerto um equívoco de Deus. Fazia-se preciso retificar tal equívoco divino. O Pernambuco capaz de dar tal prosperidade a quem nele plantasse cana, fabricasse açúcar, levantasse casas-grandes completadas por senzalas repletas de escravos vigorosos trazidos das Áfricas, não era terra que devesse ficar em mãos de papistas: deveria pertencer a gente ativa, operosa, dinâmica, da religião de Calvino. Era a religião que consagrava como eleitos de Deus os mais prósperos em valores do mundo.

Esta, em traços rápidos e simplificados - talvez um tanto injusta - a filosofia calvinista com relação ao eldorado que era o Nordeste do século XVII. Que nesse Pernambuco deixassem de soar sinos de igrejas católicas, convocando sinhás para missas. Ou gente para batizados e casamentos. Que dessas igrejas fossem expulsas imagens de santos: idolatria de papistas. Que as terras, as águas, as matas, as casas, o gado, e sobretudo os canaviais do Nordeste - ou do Brasil - passassem ao domínio, decerto mais produtivo, mais eficiente, mais progressista dos bons calvinistas holandeses.

Filosofia logo posta em prática por um povo que sempre teve entre suas inegáveis virtudes a capacidade das difíceis realizações. Que na Holanda vinha se batendo - batendo-se valorosamente - contra próprio mar. Que nos mares quentes vinham enfrentando, com vantagens técnicas a favor de suas naus mais rápidas que as ibéricas, portugueses e espanhóis como donos desses mares quentes e senhores de algumas das terras às suas margens. De terras e de populações.

Entretanto, o que pareceu tarefa fácil aos empreendedores calvinistas, metódicos e como que já tecnológicos nos seus esforços, depois de alguns anos, para eles, constantes de triunfos, tornou-se, nesta parte do Brasil, um dos maiores fracassos de europeus do Norte em espaços tropicais. Espaços aos quais esse invasor calvinista, nos seus vários anos de sucesso, não conseguira se adaptar. Fora sempre um invasor. Um intruso. Um hóspede. Diferente do hispano-católico nessa capacidade de transeuropeizar-se. De tropicalizar-se. De hispano-tropicalizar-se. Criando Nossas Senhoras pretas como no Brasil a do Rosário e, no México, a de Guadalupe, parda, que também apareceria no Brasil.

A grande exceção a essa incapacidade de adaptação nórdica a ambiente tropical se revelaria, no Pernambuco do século XVII, com a presença do alemão Maurício de Nassau. Nassau era antes um europeu da Renascença, meio mediterraneizado, que um nórdico absoluto. Talvez calvinista, mas um tanto simpatizante do catolicismo. Tinha coisas de latino. Coisas até de hispano. Outras tantas - repita-se - de não-calvinista. Esse homem-negação do tipo calvinista de conquistador intolerante desta parte do Brasil, mal pisou terras tropicais, foi logo se enamorando do trópico brasileiro. Procurando valorizá-lo na sua natureza. Sentindo suas possibilidades. Trazendo para cá sábios que fossem assessores científicos e intelectuais, dele, príncipe, no conhecimento de terras e gentes estranhas com que teria de lidar no seu governo. Trazendo, para o Nordeste brasileiro, artistas, sobretudo pintores, que desde esses dias nassovianos dão relevo a Pernambuco na história da pintura, nos países quentes e luminosos, cheios de não-europeus fotogênicos e nus nas suas populações puras ou já mescladas. Além do que, o Conde de Nassau fundou aqui jardim zoológico. Plantou coqueiros. Construiu observatório. Edificou novos tipos de pontes sobre os rios. Deu ao Recife o primeiro plano de urbanização de cidade euro-tropical. Mais: tolerou procissões hispano-católicas nas ruas do Recife. Anulou proibições calvinistas a esse respeito. Pode-se dizer de Nassau ter sido quase católico.

Aos calvinistas interessados só em dinheiro não convinha, é claro, um governador tão não-calvinista do Brasil holandês. Tão tolerante de coisas hispano-católicas que Nassau chegou a admirar na gente nordestina. De modo que não tardaram em substituí-lo por mediocrão qualquer que cumprisse suas ordens e fizesse suas vontades. Tornaram-se assim, indiretamente, aliados do movimento, que já havia, de restauração de Pernambuco às suas origens católico-hispânicas.

Insisto em contrapor católicos e calvinistas porque quem estudar a história da Restauração de Pernambuco nas suas origens verá que grande foi então a importância do embate entre suas concepções sociologicamente religiosas de vida e de nação. Quanto a católica venceu, venceu a formação de um Brasil predominantemente latino ou hispânico e católico. Católico, nas suas preferências e em suas concepções de vida contra sua descaracterização - perigo que se esboçou - numa Java americana. Mais: venceu um Brasil já então ecológico, no principal de sua civilização, tropicalizado nos seus estilos de vida. Não só de religião como de arquitetura, de alimentação, de recreação. Venceu um Brasil já extra-europeu em vários desses estilos de vivência. Já quase nacional, sendo colônia. Já impossível de ser mantido em simples sujeição passivamente colonial. Já capaz de autocolonizar-se. Tal sujeição não seria possível depois do que se consumou na Campina do Taborda, no Recife - a capitulação holandesa - em dia particularmente significativo para Pernambuco e para o Nordeste; mas na verdade significativo, para o futuro do Brasil inteiro como nação. Como nação livre, independente, senhora dos seus destinos, que começa a ser de modo incisivo e definitivo depois da vitória da causa hispano-católica sobre a nórdico-protestante nas batalhas dos Montes Guararapes.

Observe-se não terem sido os holandeses os primeiros norte-europeus e protestantes - prestigiando judeus de origem portuguesa de Amsterdam, com um dos quais se iniciou, no Recife, a literatura israelita no continente europeu - a quererem disputar a hispano-católicos a posse do Brasil, do trópico brasileiro. Houve Villegaignon no Sul. Houve, no próprio Nordeste, La Ravardière. Tentativas de conquista do Rio de Janeiro e do próprio Nordeste: com La Ravardière no Maranhão.

Comentando tais investidas, o historiador alemão Ernst Samhaber, em seu Sudamérica, Biografia de um Continente - tradução do seu, no original, intitulado Sudamérica, realizada por Ramon de la Serna - destaca quanto na competição protestante-francesa com o pré-Brasil português - um pré-Brasil hispânico e católico - atuou a fé religiosa junto ao motivo econômico: era preciso, para induzir franceses a empresa tão áspera como a de disputar o Brasil ao colonizador português católico, "o impulso da fé religiosa que buscasse terra livre onde (o francês) se firmasse e enraizasse", atuando a fé sobre sentimentos e ânimos, e os endurecendo para enfrentar os perigos tropicais. O opulento e belo paraíso tropical envolvia um verdadeiro inferno. Samhaber toca em 1946 ponto importante: o de que o motivo econômico não seria suficiente para levar norte-europeus protestantes a competirem na disputa do trópico brasileiro, com católicos hispanos. Tese já do livro brasileiro Casa-Grande & Senzala: Rio, 1933.

Outro fator pode ser posto em destaque como tendo favorecido norte-europeus protestantes em sua competição com católicos hispânicos em torno de paraísos - paraísos a que não faltariam aspectos infernais - das Américas: a como que superburocracia espanhola, junto à qual tem que se admitir uma menos absorvente burocracia imperialmente portuguesa. Característico, essa superburocracia espanhola que, entretanto, observe-se, em retificação ao que possa haver de excesso simplificador no reparo de Samhaber - não se estendeu de todo ao esforço colonizador do português quando senhor, em lugar do espanhol, do Brasil. Teria vigorado, entretanto, da parte do português na Índia. Não vigorou quanto à forma, entre quase feudal e quase capitalista, que caracterizou o esforço imperial português com relação ao Brasil canavieiro. Foi um esforço, este, a que não faltou certo ânimo suceptível de ser definido como de iniciativa privada com o apoio, é certo, quer do poder parateocrático representado por jesuítas e franciscanos, quer com o apoio do poder real d'El-Rei, isto é, de monarcas portugueses animados daquele espírito mercantil tão desses chefes de Estado transeuropeus. Mas sem que esse poder real português atingisse o extremo do que foi, na Espanha colonizadora de várias Américas, o poder monárquico-superburocrático dos Felipes. Nordestinos de Pernambuco chegaram, no século XVII, a mandar de volta a Portugal um governador reinol, segundo eles arbitrário.

O assunto - o confronto, neste particular, entre o esforço colonizador nas Américas, do português com o espanhol, ambos católicos - continua a prestar-se a análises e a interpretações que considerem, nos dois esforços hispânicos e católicos, característicos comuns e divergências entre o sistema português e o sistema espanhol, seguidos na realização de sua tarefas imperiais. Daí a importância do recém-publicado estudo sobre o assunto da professora Célia Freire de A. Fonseca, que se junta às páginas, estas magistrais, em que os já clássicos quanto à matéria, Francisco Garcia Calderon, peruano, Carlos Pereira e Silvio Zavala, mexicanos, Oliveira Lima, Joaquim Nabuco, Capistrano de Abreu, brasileiros, Salvador de Madariaga, espanhol, para não falar do mestre português Oliveira Martins, abordaram aspectos da matéria tão aliciantes. Principalmente com relação ao Nordeste brasileiro.

O fato é, entretanto, que na disputa do Nordeste canavieiro - a cena tendo sido uma das grandes opulências tropicais do Brasil, em geral, e do Nordeste, em particular, no século XVII - o holandês calvinista não levou, com relação ao seu modo extraburocrático e já economicamente privativista de agir, inteira vantagem sobre o colonizador luso-católico de um Nordeste, desde o século anterior, célebre pelo sucesso, em suas terras, de um esforço colonizador menos oficial que de particulares um tanto feudalmente, ao mesmo tempo que capitalisticamente empreendedores. Um paradoxo: certo feudalismo avivado por algum certo capitalismo.

Aqui se destaque a presença desse capitalismo emergente, de origem neo-européia, na colonização ibérica ou hispânica do Nordeste. Ponto - repita-se - abordado pela professora Célia Freire de A. Fonseca, em seu recentíssimo A Economia Européia e a Colonização do Brasil ( A experiência de Duarte Coelho), Rio, 1978: trabalho de nível doutoral apresentado à Universidade de São Paulo e, talvez, no gênero, o que de mais autenticamente universitário se produziu nessa universidade nos últimos vinte e cinco anos. Trabalho em que a criatividade se junta ao saber sério. Digno de brilhante discípulo brasileiro de Mestre Braudel que é a historiadora Célia Freire, como que reabilita a ilustre Universidade dos Ellis, dos Sérgio Buarque de Holanda e dos Fernando Henrique Cardoso, de farfalhantes mas ocas produções no setor da História ou das ciências do homem que dela têm aparecido ultimamente, sob repiques de sinetas suspeitamente apologéticas vibradas em semanários e em jornais sem sempre de todo responsáveis do ponto de vista intelectual.

Foram católicos, os hispanos, no Nordeste, aos quais não faltou o auxílio financeiro-comercial de judeus ou cristãos-novos, também portugueses. Um auxílio capitalista. Daí a vantagem, para a época, do esforço colonizador no Brasil canavieiro, sobre o que vinha sendo, sob o ponto de vista sócio-econômico, o esforço espanhol em outras áreas americanas. Daí, também, a muito holandesa Companhia das Índias Ocidentais - tão representativa do capitalismo norte-europeu e do seu calvinismo não só místico como aplicado - ter encontrado no Nordeste brasileiro uma terra americana que, hispano-católica - uma de suas vantagens em frente ao calvinismo norte-europeu - pôde enfrentar esse calvinismo eficientíssimo em seu ânimo econômico. Um Brasil, esse Nordeste hispano-católico, desembaraçado de excessos monárquico-burocráticos no controle de suas energias e de seus poderes psicossociais, além de materiais, de resistência.

A resistência do Nordeste canavieiro do Brasil à invasão holandesa foi assim uma como antecipação - acentue-se - de um ânimo ao mesmo tempo em parte autocolonizador e até pré-nacional e em parte misticamente hispano-católico na sua motivação psicossocial, valorizadora da economia. O fenômeno, assim considerado, foge a exageros de interpretação economicista, a que são tão apegados - atualmente, menos do que outrora - intérpretes marxistas de ocorrências históricas, nas quais só enxergam motivações e fatores econômicos. São interpretações, as economicistas de tais ocorrências, nas quais não é possível desprezar ou minimizar a força da motivação econômica. Mas reconhecendo-se contrários como o manifesto, no caso da defesa hispano-católica do mesmo Nordeste, através de uma, para a época, já pós-moderna aliança da iniciativa econômica privada com empenhos oficiais, teocráticos e mesmo burocráticos. Daí a resistência, já pré-nacionalmente brasileira, além de econômica, do Nordeste à tentativa holandesa de fazer dele colônia quase simplesmente econômica, oferecer-se a modernos estudiosos de passados sociais sob critério psicossocial ao mesmo tempo que sob critério econômico, como fenômeno interessantíssimo pela sua complexidade e com aspectos diferentes das - para a sua época - invasões européias de terras tropicais, realizadas somente como esforços de exploração econômica.

Lembre-se, em sua formação étnico-cultural, o Nordeste canavieiro constitui-se no que talvez tenha sido, até hoje, no Brasil, o caldeirão em que houve maior mistura de sangues - europeu, principalmente ibérico, negro africano e ameríndio - e das culturais correspondentes a esses sangues. Predomínio, nos dias decisivos da emergência, no Nordeste, de uma civilização canavieira na América - que se prolongaria de modo notável durante a fase imperial do País - marcado, nesses dias, pela presença ibérica.

Seja acentuada a influência do Nordeste sobre os próprios rumos políticos e intelectuais do Brasil, através de figuras notáveis de líderes, vários deles homens de sangue não-europeu junto ao europeu: Gonçalves Dias, Tobias Barreto, o Barão de Cotegipe. Foi a região do Brasil que deu ao Império um regente: quase um outro Pedro, além dos dois dinásticos, com o nome de Pedro de Araújo Lima, Marquês de Olinda. Homem nascido e criado em engenho. Vários outros estadistas, intelectuais, homens ilustres em vários setores, tiveram essa origem.



Fonte: FREYRE, Gilberto. O nordeste brasileiro: a marca ibérica ou hispânica na sua formação. Cultura - MEC. Brasília, n. 8, v. 30, p. 18-24, jul./dez. 1978.

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