O PRINCIPE DE MÔNACO E O BRAZIL
23 de Abril, á noite. Na sala de conferencias
do Club de Engenharia da America. Está finda a sessão da Sociedade de Geographia em
honra de Sua Altesa o Principe Alberto I. de Monaco, que fez interessante conferencia
illustrada sobre seus trabalhos de sondagem do oceano. Rodeiam-no. Cuprimentam-no.
Approximo-me com o meu amigo S. Whittemore Boggs. Acho-me em face de um homem de sessenta
e tantos annos, ainda vigoroso, queimado de sol, olhos pequenos e vivos, sem parecer á
vontade na casaca e na camisa de peitilho duro. Falo-lhe em francês, depois de uma
mesura: "Tenho a honra de cumprimentar Vossa Altesa em nome do Diario de
Pernambuco, antigo jornal do Brazil." E logo, amavel, diz o principe: "Ah,
oui!" E fala sobre o Brazil: "Seu paiz não é desconhecido dos scientistas
europeus. Absolutamente. São-me familiares varias contribuições de brazileiros á
sciencia. E tenho ouvido falar de sociedades scientificas do Brazil."
Mencionei o Instituto Geographico que tanto
devia ao nosso ultimo e bem amado imperador. E a proposito comparei Sua Altesa a Dom Pedro
II, tambem homem de sciencia. Naturalmente Sua Altesa ouvira falar de Dom Pedro ... E
logo, o principe: "Si ouvi falar? Conheci-o em pessôa em Paris. Fomos juntos a
sessões de sociedades e academias scientificas. Tive o prazer de sua intimidade. Um
grande homem e um sabio, seu imperador." Eu ia contar ao principe que uma vês, posto
de castigo não sei por que travessura ou macreação, na sala de livros de meu pae,
achara delicioso allivio numas rumas de "Je Sais Tout," especialmente nuns
artigos illustrados sobre o principe e seus trabalhos de sondagem do mar. Desde então -
era menino de nove annos - interessava-me Sua Altesa. Porém outros o rodeavam. Ao lado o
presidente da Sociedade de Geographia, um homenzarrão, torcia os fartos bigodes a von
Hindenburg. Tremi á idea de que, cansado de minha intrusão, me fizesse ir embora pela
gola do palitó. Por isto disse apenas ao principe: "A vida de Vossa Altesa é um
romance de Julio Verne por que me interesso desde menino." Gostou Alberto I de Monaco
do elogio que era justo. E rio mostrando uns dentes sãos. "Meu trabalho scientifico
é minha grande alegria. Vou reatal-o o mais breve possivel. Com a guerra perdi seis annos
que preciso recuperar."
De novo cumprimentei Sua Altesa em nome da
imprensa do Brazil. Alberto I. agradeceu, amavel, sorrindo. E estendeu-me a mão para um
aperto á americana porque o principe em Roma é romano. Mão sem anneies e grossa, a sua.
Apertei-a respeitoso, desvanecido da honra que me dava o principe não só de Monaco
porém dos oceanographos.
Fonte: FREYRE, Gilberto. O Príncipe de Mônaco e o Brasil. Revista El Estudiente Latino-Americano. New York, v. 3, n. 9, p. 15, 1921.
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