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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Periódicos Científicos  



TEMPO, ÓCIO E ARTE: REFLEXÕES DE UM LATINO-AMERICANO EM FACE DO AVANÇO DA AUTOMAÇÃO (*)


Vivemos hoje num ritmo de desenvolvimento tecnológico que não é bastante, nem ao homem de ação nem ao de estudo, que considerem problemas das suas ciências ou das suas indústrias, da sua política ou da sua engenharia, fixarem sua atenção apenas no que êsses problemas apresentam de atual, de imediato, de estritamente moderno. O prestígio desta palavra - moderno - é um prestígio em crise.

Em crise porque é um moderno a que falta, atualmente, tempo e condições sociais para prolongar-se como moderno o bastante para se impor como um fenômeno tecnológico e sociològicamente ou filosòficamente significativo. É assim que com a valorização excessiva que se fêz de semelhante modernismo está prestes a dissolver-se a glorificação exclusiva do trabalho e do trabalhismo, como filosofia básica de civilização industrial; enquanto a arte parece pronta a, associada com outros empenhos, ao lazer, tomar, sob vários aspectos, o lugar psico-socialmente vazio, do trabalho assim glorificado. Trata-se de filosofia - a de glorificação do Trabalho - vinda do que se convencionou denominar de início de uma época moderna no desenvolvimento humano: a marcada pela emergência do capitalismo urbano-industrial e pela reação aos abusos, quer no plano econômico, quer no social, dêsse sistema. Época quase de todo ultrapassada. Daí, com a crescente automação, estarem sendo ultrapassadas também ideologias como a trabalhista, a laborista, a proletarista marxista. São ruídos em tôrno de ex-realidades já fantasmas em grande parte do mundo: o Burguês gordo e de charutão na boca; o Proletário magro e de macacão azul, todo melado de graxa de uma era agora paleotécnica: a da máquina servida, em vez de tecnològicamente, dominada pelo Homem; ou cibernèticamente orientada, segundo a mais adiantada ciência transformada em super-técnica.

Antes de prosseguirmos nestas considerações em tôrno do que seja ócio em relação com trabalho nas sociedades e nas economias atuais mais desenvolvidas, um pouco de semântica. Lembremo-nos de que ócio é o positivo de que negócio é o negativo. O positivo é o tempo livre de trabalho, de comércio, de preocupação com assuntos apenas úteis. O negativo é o tempo ocupado exclusiva ou quase exclusivamente por essas preocupações de trabalhos e de comércio, com os ágapes rotarianos como uma expressão da predominância do senso de negócio sôbre o espírito do ócio.

Quanto ao sinônimo de ócio, lazer, deriva-se, como se sabe, de palavra grega que significa escola: isto é, refere-se a estudo livre daquelas mesmas preocupações utilitárias, comerciais. Ambas as palavras parecem ter desde as suas raízes implicado numa caracterização de uso não só desinteressado de proveitos econômicos, como recreativo, de tempo. O que sugere suas afinidades com o sentido, também, em grande parte, recreativo, da palavra arte, como significando aquela expressão de personalidade ou de grupo humano que importa em afirmação de sua criatividade: criatividade pessoal por vêzes prolongada em coletiva.

Atentemos, mais, no seguinte: a palavra recreação não significa, em sua raiz, passatempo frívolo, porém contínua criação, criação repetida: re-criação. Compreende-se assim que a arte seja, principalmente, desfrute recreativo ou lúdico de tempo que implique em criações, singulares ou repetidas, capazes de transmitir sentido de beleza ou visão, mais profunda que a comum, de realidade mais obscura, atingida pioneiramente por artista ou por indivíduo de gênio, e transmitida a espectadores, ouvintes, leitores, seus contemporâneos e, em vários casos, também a seus pósteros.

Quanto a lúdico não é preciso que se recorde aqui ser palavra que vem do latim ludus, que significa brinquedo. Quem desfruta lùdicamente o tempo brinda com o tempo, no sentido de gozá-lo, recriando-se, quando não criando.

O problema das relações entre ócio é trabalho em economias e sociedades modernas é preocupação cada vez maior de sociólogos tanto quanto de homens de govêrno e de homens de emprêsa e de educadores.

São cientistas sociais da responsabilidade de um Ernest W. Burgess que se pronunciam sôbre o assunto reconhecendo estarmos de fato no fim de uma época de que a motivação predominante de vida foi o trabalho e no início de outra época em que o gôzo do lazer é que começa a ser o motivo central de vida. Trata-se nada menos do que de uma revolução. Mas revolução que não parece implicar, como pretendem os retardatários que se extremam na glorificação da figura do chamado proletário sôbre o chamado burguês, na extinção do capitalismo e sim na sua provável substituição pelo que se vem denominando capitalismo cibernético que, modificado pela automação e reinterpretado por Keynes, supera de tal modo a filosofia do "laissezfaire", que aceita a presença do Estado nas atividades econômicas. Esta presença, porém, não para dirigir mas para regular tais atividades, no interêsse geral, visando menos a cura que a prevenção de crises ou de desajustamentos entre produtores e mercados, já que as crises nas relações entre o chamado Capital e o chamado Trabalho, tendem, com a automação, a se tornarem quase impossível com a crescente presença do trabalhador, sob o crescente aspecto de técnico, nas organizações industriais de produção e de transporte.

Temos todos - homens de ação e homens de estudo atuais - que considerar, em vários problemas aparentemente modernos, as projeções dêsse futuro quase presente, sôbre êles, problemas efêmeramente modernos. Esta a exata situação do homem de hoje em face do que seja moderno tanto na sua ciência como nas suas técnicas: é um moderno efêmero.

Um problema à base de vários dêsses problemas que sendo modernos são também, por antecipação, pós-modernos, é o da transição, em que parte considerável do mundo já se encontra, de uma civilização mecânicamente industrial, em que o problema máximo foi - ou é ainda em algumas áreas - o da organização do trabalho, nas indústrias, para outra, supra-industrial, em que o problema máximo começa a ser o da organização do lazer entre as populações das áreas mais adiantadamente industriais. São populações, essas, responsáveis, em várias categorias, pelo funcionamento de indústrias em vias de passarem do estado de simples mecanização ao de arrojada automatização.

A repercussão dessa revolução tecnológica será imensa no plano da organização de relações de caráter econômico entre os homens. Mas será igualmente imensa no plano psico-social das relações interumanas; no plano cultural dessas relações; nos estilos de convivência humana; nos objetos em que se fixará a preocupação, a criatividade, a atividade lúdica do homem - quer do médio, quer do estética ou intelectualmente superior. Não há exagêro algum em esperar-se dêsse nôvo tipo de civilização um tipo também nôvo de homem; e das suas relações com a arte, um nôvo tipo de relações.

Podemos até contar com a revalorização de certas expressões atuais de comportamento humano que, de serem consideradas principalmente defeitos, - defeitos latinos em contraste com virtudes anglosaxônicas, em alguns casos - poderão vir a ser consideradas menos defeitos do que virtudes. Há Pireneus no tempo semelhantes aos Pireneus no espaço, dos quais não cogitou Pascal e sôbre os quais deixou de escrever Montaigne. Nem por isto deixam êsses outros Pireneus de ser realidades. O ardor excessivo no trabalho incessante, por exemplo, está entre virtudes a pique de se tornarem defeitos. O afã na conquista da fortuna, de sucesso, de prestígio social, pelo trabalho assim absorvente, com sacrifício de outras expressões de vida no indivíduo e das suas relações com a comunidade, é outra virtude em estado de crise aguda.

São virtudes, essas, e algumas outras, que já não se apresentam inteiramente como virtudes, aos olhos do sociólogo ou do psicólogo social que, alongado em filósofo social, considere as crescentes projeções, sôbre os atuais estilos de convivência humana, da crescente projeções, sôbre os atuais estilos de convivência humana, da crescente automação e do crescente aumento de média de vida entre os homens, tornando o tempo-lazer muito mais largo que o tempo-trabalho. Defeitos como os dos indivíduos que trabalham sem se deixarem, porém, matar pelo trabalho e escravizar pelo tempo-dinheiro - o " time is money" dos anglo-saxões - estão a pique de poder ser, em parte, reinterpretados como virtudes, dada a relativa rapidez com que o próprio Brasil tropical - tropical e quase tropical - poderá ser atraído, de modo considerável, para a automação; e com que o próprio brasileiro, a despeito de homem situado em clima tropical (ao qual se vem associando, além de uma patologia, que seria inseparável dêsse clima, um pendor, também inseparável, segundo alguns, da gente do trópico, para a inatividade, volutuosa ou não), poderá graças aos avanços de ciências médicas, higiênicas, sanitárias, ter prolongada a sua média de vida tanto quanto essa média já se acha prolongada nos Estados Unidos e no Norte da Europa: nos paises de clima frio, de civilização industrial à base de incessante atividade na grande maioria dos seus habitantes, de religião ou de ética, principalmente Protestante, na sua expressão mais ou menos Calvinista, glorificadora do trabalho útil e remunerado e detratora do tempo inocupado e nem sempre remunerado.

Sucede que caminhamos precisamente, com a crescente automação, para uma época de imenso tempo desocupado: de preponderância dêsse tempo sôbre o ocupado, identificado com o ganho, a remuneração, o trabalho produtor de riqueza individual e não apenas de bem estar coletivo. É assunto, êste, que já versei perante um auditório brasileiro constituído principalmente por líderes industriais e por líderes operários. Venho hoje ferí-lo de nôvo, em artigo de revista, para um público mais amplo considerando aspectos do mesmo problema sob pontos de vista de possível interêsse para aquêles que, em vários países, começam a viver ou breve viverão, senão em cheio, quase em cheio, a maior parte da sua vida, numa época de imensa preponderância do tempo desocupado sôbre o ocupado.

Pode-se prever uma democratização de nôvo tipo nas relações interpessoais que venha a ser, senão trazida, favorecida, por êsse crescente tempo, desocupado, ou livre, para todos os componentes de uma sociedade de tipo industrial cuja técnica de produção e cujo regimento de trabalho passem de mecanizados para automatizados, tendo por conseqüência a automação. Isto porque a tendência em sociedades dêsse tipo vai ser provàvelmente no sentido de cada sociedade suprir os seus componentes de espaços para recreação e para lazer e de facilidades recreativas ou lúdicas de diferentes tipos, permitindo a mais ampla liberdade de escolha de recreações da parte dos mesmos componentes. Sendo assim, é de esperar que, nesses espaços recreativos, prováveis substitutos, em escala mais larga, dos atuais clubes recreativos e esportivos, misturem-se indivíduos de procedências diversas, quanto às suas categorias nos seus respectivos lugares de trabalho - a categoria empresarial, a burocrática, a técnica - e de vários graus de qualificação. Também dos dois sexos e de diversas idades.

Reunidos por gostos idênticos quanto ao modo, da sua livre escolha, de gozarem o tempo livre, o lazer, o ócio desprendido de negócio, nesses espaços recreativos, a associação dêsses indivíduos de procedências, categorias e idades diversas e dos dois sexos, possivelmente se verificará antes à base de tais preferências de caráter lúdico do que do prolongamento, nos mesmos espaços, de categorias hierárquicas em vigor nos espaços de tempo ocupado. Teríamos, assim, a tendência para um reajustamento de relações interpessoais, nos espaços recreativos, capaz de retificar desajustamentos causados por divisões de caráter hierárquico em espaços de trabalho. Uma tendência saudàvelmente democrática sem que, em tais casos, a democratização de relações interpessoais importasse no desconhecimento de diferenças de aptidões, de inteligência, de capacidade de aprofundamento no estudo e no saber, dos diferentes membros de um complexo industrial, sabido, como é, que, no lazer e nas atividades lúdicas que preencham o tempo ocioso, podem se verificar aproximações e se definir afinidades entre indivíduos desiguais no grau de inteligência, no saber e na cultura. São célebres as amizades que se têm formado, entre indivíduos assim desiguais - e essa espécie de desigualdade é provàvelmente irredutível entre os homens, por motivos antes biológicos do que sociológicos - reunidos, durante meses ou semanas, para êles memoráveis, pelo mesmo gôsto ou entusiasmo em tôrno de aventuras ou experimentos de pesca, de caça, de navegação, de alpinismo, de colheita de plantas agrestes em matas ou florestas, de criação de canários, de galos, de galinhas de raça. A tourada tem sido um dêsses gostos lúdicos, comuns a indivíduos de camadas sociais diversas, entre latino-americanos.

Destaque-se, a esta altura, de automatização - isto é, "mecanização avançada", "substituição progressiva do trabalho humano pela máquina", como a define o Professor Wilson Batalha, à página 15 do seu "Automação, Segunda Revolução Industrial", publicado em 1961 em Cadernos da Indústria (Rio de Janeiro) - que se distingue hoje da automação, em que a substituição vai além, não apenas de trabalho, mas de contrôle: o contrôle humano substituído pela super-máquina. Tanto um como o outro processo tendem a concorrer de tal modo para o aumento de tempo livre nas sociedades industriais que essa dilatação de tempo livre é já forte motivo de inquietação para industriais, sociólogos, juristas, psiquiatras, educadores, líderes religiosos. Refere-se ao assunto João XXIII. "Automatarias operationes" é como a automatização é considerada no texto latino da sua monumental Mater et Magistra.

Na Grã-Bretanha pareceu-me, na última vez que lá estive, haver excessivo receio das conseqüências sociais da automação sôbre o sistema britânico de economia industrial. Na República Federal Alemã, não me impressionou a inquietação dos seus líderes em tôrno do problema: preocupam-se com êle mas não o consideram de aspectos principalmente negativos e sim positivos. Em 1967, fui convidado para participar num dos maiores centros industriais dos Estados Unidos - Corning Glass - de um conclave de homens de ação e de homens de estudo em que um dos temas considerados pelos organizadores de tão interessante reunião - da qual participaram, ao lado de industriais como David Rockfeller, e de líderes operários, homens de estudo da eminência de Julian Huxley, John dos Passos, Raymond Aaron, Salvador de Madariaga - foi o dos prováveis efeitos da automação sôbre sociedades industriais supra-desenvolvidas. É claro que o que mais parece inquietar certos líderes industriais e certos homens de govêrno, preocupados atualmente com o problema da automação, é a possibilidade de, com a intensificação dêsse processo de produção, desenvolver-se, nas mesmas sociedades, o desemprêgo. Á verdade, porém, é que, se com a automação, diminuem as oportunidades de trabalho para os operários não-qualificados, aumentam essas oportunidades para os qualificados, aumentando também, com o aumento de qualificação e de responsabilidade, a participação de técnicos de um nôvo tipo e de vários graus - pois a figura convencional do operário tende a desaparecer - no trabalho industrial de produção. É claro - advertem estudiosos do assunto - que, alargando-se com a automação, com a maior utilização da energia atônica, com as possibilidades que se abrem ao homem para obter produtos sintéticos por processos químicos, as possibilidades de produção industrial, alargam-se também as possibilidades de aproveitamento de técnicos de vários graus em novas indústrias. Claro é, também, que, com o aparecimento de novas indústrias ao lado das tradicionais, será necessário que êsses dois tipos de indústrias se harmonizem, quer através de novas formas de planejamento, em que colaborarem com os elementos empresariais de manageriais os técnicos, quer através de intervenções em conflitos de atividade econômica da parte de governos que, vigilantes pela predominância do interêsse geral sôbre os particulares, não se excedam dessa vigilância, passando ao dirigismo mais ou menos totalitário de que as conseqüências podem ser - ou são, sem dúvida - válidas, em certos setores de atividade técnico-econômica, ou política e limitar; mas não nos de vida psico-social e de criatividade cultural mais amplos. Os exemplos da União Soviética e da China Popular parecem a alguns observadores ser, neste particular, muito expressivos. São países em que, com o tempo dos homens dirigido por um Estado interessado principalmente - em sua fase atual de reconstrução - em trabalho útil, das populações, a êsse Estado, e na recreação de tal modo ideològicamente condicionada que seja, também ela, atividade a exclusivo serviço do Estado totalitário, as artes têm - várias delas - declinado e com essas artes, quase tôdas as ciências e quase todos os estudos menos relacionados com o desenvolvimento tecnológico dos mesmos países. Aqueles avanços se tem verificado, na Rússia Soviética, de modo notável, em setores técnico-científicos; em estudos de física e de química agrária, principalmente. Sua arquitetura, porém, do mesmo modo que sua pintura, sua escultura, sua música, para não nos referirmos à sua literatura, à sua filosofia, à sua sociologia, apresentam-se, segundo vários observadores, deficientes em arrojos de criatividades e de livre originalidade. Sendo assim, parece que a Rússia - ou a União Soviética - vem caminhando para a época de automação preparando espectadores para espetáculo, jogos e concertos dirigidos pelo Estado e sem cuidar de prepará-los para um diversificado uso de tempo livre que, resultasse, em alguns setores, e da parte de alguns indivíduos, em criações ou expressões de caráter artístico, condicionadas por uma diversidade possìvelmente anárquica.

Mas não será a automação - já adiantada nos Estados Unidos, nas áreas mais industriais da Europa Ocidental e na própria União Soviética -tecnològicamente tão avançada - assunto de interêsse apenas platônico para países ainda em grande parte, técnica e econômicamente sub-desenvolvidos, como o Brasil? Como os da América Latina situada em espaço tropical? Parece que não. Lembremo-nos de que, num mundo em que grande parte de lavouras e de indústrias dependia de trabalho escravo, como o mundo do meado do século XIX, verificou-se quase repentina propagação do sistema de trabalho a áreas onde se supunha que o regimen de trabalho escravo se prolongasse até os últimos anos daquele século e possìvelmente até os primeiros anos do XX. O plano de gradual extinção do trabalho escravo no Brasil baseava-se nessa relação de tempo: relação que fracassou, com resultados nada vantajosos para lavouras e indústrias, ainda demasiadamente dependentes, no Brasil da Segunda metade do século XIX, do então crescentemente arcaico braço escravo.

O mesmo pode suceder com o modo por que venha a comunicar-se a áreas brasileiras de alguma indústria, como o próprio Nordeste, o sistema automizado de produção industrial e a própria automação, criando de repente problemas de transição de um tipo de trabalho para outro que apanhem de surprêsa líderes industriais, homens de govêrno, educadores. Digo educadores porque cada dia se torna mais evidente a necessidade de reorientar-se a educação de jovens e dos próprios adultos, da era que o mundo começa a viver em suas áreas mais industrializadas, a fim de que essa educação deixe de ser, quando técnica, para funções especializadas relacionadas com o manejo de máquinas ainda demasiadamente dependentes de trabalho humano. Semelhante especialismo não o quer nem o reclama a automação. Reclama maior responsabilidade técnica e dentro dessa maior responsabilidade mais amplo conhecimento, pelo técnico, da várias funções do sistema de produção industrial a que se ligue e não de uma só. Como, porém, a responsabilidade, assim alargada terá de exercer-se num número muito menor de horas de trabalho industrial, a educação do homem pós-moderno que se destine a êsse tipo de trabalho é problema do qual já é tempo de andarem governos e homens de emprêsa, até em países como o Brasil, tendo em vista esta realidade que do futuro já se projeta sôbre a atualidade, em áreas industriais de vanguarda; começamos a viver uma época de civilização mais de lazer do que de trabalho. O homem pós-moderno precisará de ser educado - por mais fantástico que isto ainda pareça à maioria da gente de hoje - mais para o lazer do que para o trabalho. E dessa educação tende a fazer parte uma educação artística que habilite o indivíduo a encher o seu tempo desocupado com atividades lúdicas ou criadoras - criadoras e não apenas espectadoras - de caráter artístico.

Daí um pensador da lucidez do Professor Sidey Hook sugerir, no seu recente Education for modern man, que o problema da educação de caráter criador deslocou-se do plano em que a criatividade estimulada pela educação, vinha se associando ao preparo de homens segundo vocações específicas, para o de preparação dos homens para o uso de lazer em sociedades automatizadas. Lembra o Professor Hook que já se verifica há alguns anos o fato de os técnicos em eletricidade na cidade de Nova York trabalharem apenas vinte horas por semana. O problema para o educador é: o que vão fazer com o seu imenso tempo livre técnicos dessa e de outras especialidades que venham a trabalhar apenas dez horas por semana? É certo que se prevê que à crescente redução de horas de trabalho industrial se junte verdadeira multiplicação do que Hook chama "oportunidades vocacionais", embora duvide que essas oportunidades, à proporção que aumentem os desenvolvimentos tecnológicos, se ampliem em posições que permitam, pelo seu grande número, completo aproveitamento dos indivíduos mais capazes pela sua mais alta instrução e pelo seu mais elevado saber de nível universitário. Nesse nível talvez venha a verificar-se um desajustamento entre o que outrora se chamava oferta e procura. De qualquer modo, porém, impõe-se o desenvolvimento de um tipo de educação que prepare não só indivíduos de quem as indústrias reclamem cada dia menor número de horas de trabalho, como indivíduos que dificilmente serão aproveitados, com vantagem econômica para êles e para o sistema social de que sejam membros, em posições adequadas ao seu saber ou à sua instrução de nível superior, para o lazer, o ócio, o tempo desocupado, em que passarão a viver. É provável que nesse nôvo tipo de educação os estudos humanísticos venham a recuperar, sob novos aspectos, sua importância, ao lado dos científicos. Provàvelmente, também, que se desenvolva a educação não só para as artes superiormente criadoras como para as artesanais que, numa sociedade industrial de abundante tempo livre para todos os seus membros, são atividades que tendem a ser notàvelmente valorizadas ou revalorizadas.

Sendo assim, talvez, haja certo simplismo sociológico no clamor do Professor Uslar-Pietri, ao qual se junta o do Professor Cosio Villegos - dois brilhantes professôres latino-americanos - por um nôvo tipo de educação para a América Latina que se liberte de elementos, segundo êles, parasitários, concentrando-se em ser educação científica e técnica. Para êsses dois críticos do regímen de educação atualmente predominante na América Latina, o que há de mais alarmante nêsse regímen é o fato de, ainda agora, numa universidade tìpicamente latino-americana, como a Nacional, do México, haver sete mil estudantes de Direito para apenas mil de engenharia e cento e cinqüenta de física. Mas êsse desajustamento da realidade talvez seja transitório. Os elementos humanísticos no estudo do Direito não são todos parasitários se os considerarmos sob o critério de uma educação que venha a ser adaptada às sociedades já automizadas em que os empresários, os técnicos e os cientistas, reclamados por um tipo industrial democrático de civilização, ao seu saber relativo a máquinas, a operações automizadas e a processos químico-sintéticos, precisem de acrescentar outro - humanístico, artístico, religioso - que os habilite a viver o tempo desocupado que a técnica e a ciência lhes começa a proporcionar com tanta largueza.

Não só que os habilite a viver êsse tempo lùdicamente, criadoramente, saudàvelmente: também que os habilite a impedir que seu sistema político-industrial se aproxime dos totalitários através de excessos daquele planejamento político-conômico que, até certo ponto, a automação exige dos dirigentes, quer do govêrno, quer das indústrias, numa sociedade automatizada.

Sôbre êste ponto é bom que se leia o que tem a dizer no seu Liberal Education in an Industrial Democracy (1957), o Professor Mortimer Adler, sem nos esquecermos do que adverte o já citado Sidney Hook: o primeiro, neo-tomista na sua filosofia social; o segundo, discípulo de John Dewey. Hook salienta dos indivíduos de formação exclusivamente científica e técnica, que são, quase todos, pouco sensíveis aos valôres e à defesa dos valôres democráticos, inclusive a liberdade de criação artísticas e de ideais, políticos e culturais da sociedade em que vivem. Daí destacar que as vozes que hoje se levantam em algumas das modernas sociedades de industrias em processo de automatização - embora de agricultura terrìvelmente arcaica - são menos vozes de cientistas físicos, de matemáticos e de técnicos, do que de poetas, de dramaturgos, de artistas, de humanistas. De Hook é também o reparo de ter sido o grande físico-matemático que foi Albert Einstein homem de idéias de todo simplistas com relação à assuntos políticos: a sua formação quase exclusivamente científica não o tornara sensível aos valôres político-sociais mais necessitados de consideração e de compreensão numa democracia industrial. Daí a necessidade que educadores de hoje, dentre os mais idôneos, salientam, de uma educação para o lazer que se junte à educação para o desempenho pelos homens de um futuro já extremamente próximo de nós, de funções ou responsabilidades técnicas, e que inclua a sua iniciação, quer em artes - para que êle possa escolher a da sua preferência que se torne companheira direta dêle, em grande parte do seu tempo desocupado - quer no conhecimento de assuntos político-sociais e jurídico-políticos, sob critério quer científico-social, quer humanístico. Pois sem êsse conhecimento, sem que se desenvolva nêles a sensibilidade a valôres libertários e democráticos através de estudos livremente humanísticos de História, de Filosofia, de Religião, de Sociologia, de Antropologia, de Economia, de Direito, os indivíduos de formação exclusivamente técnico-científica correm o risco de se tornarem, numa sociedade industrial automatizada, quase robots submissos a dirigentes de feitio rigidamente totalitário ou absolutamente ditatorial, de um nôvo tipo.

Que artes - artes no sentido mais amplo da expressão - tendem principalmente encher o tempo-ócio de um homem moderno? Que artistas são por êle mais estimados ou desejados? Depende, por um lado, das tradições psico e cócio-culturais da sociedade a que pertença êsse homem moderno e, por outro, das próprias predisposições dêsse mesmo homem como indivíduo que, moderno, pode guardar dentro de si arcaismos artìsticamente significativos. Tudo indica, com relação ao Brasil, em particular, com relação à América Latina, em geral, que a tradições psico e sócio-culturais da sociedade brasileira se juntam predominâncias de predisposições individuais no sentido de um gôsto pela arte da música - tão dos africanos e dos indígenas desta parte da América e tão da Igreja Católica, civilizadora principal dessa mesma sociedade - maior que o gôsto por outras artes. Entretanto, há tradições outras, de arte, que, dentro de um maior tempo-ócio para um maior número de brasileiros, poderão se exprimir em atividades artísticas consideráveis. Entre essas tradições, a da cerâmica, a da escultura em madeira, a da renda, a da marcenaria, a da culinária.

Aqui tocamos num ponto merecedor de atenção especial. É êste: com o aumento do tempo-ócio para um maior número de brasileiros, apresenta-se, sob nôvo aspecto, o problema de atividades artísticas social e culturalmente condicionadas pelo sexo puro ou pelo meio-sexo de cada um. Trata-se, nas expressões dêste último tipo, de um possível afastamento de convenções que vêm abafando vocações em grande número de indivíduos: vocações de homens para bordar, por exemplo; ou para cozinhar; ou para costurar. Ou de mulheres, para marcenaria ou carpintaria.

O aumento de tempo-ócio, numa civilização em que homens e mulheres se encontrem livres para dispor da maior parte do seu tempo, segundo suas predisposições mais íntimas, pode resultar em forte modificação nas convenções de rígido condicionamento de atividades artísticas pela suposta expressão sócio-cultural do sexo do indivíduo apenas em determinado sentido. Poderá o indivíduo do sexo masculino, dono dêsse maior tempo-ócio, sentir-se livre para utilizá-lo na satisfação fora de quadros rìgidamente profissionais e rìgidamente sexuais de atividade, de desejos nêle reprimidos pelo império das convenções dominantes; e entregar-se com todo o gôsto e até todo o afã à arte de bordar ou de fazer renda; ou de cozinhar; ou de inventar novas combinações de dôces; ou de costurar. O mesmo poderá acontecer, em sentido contrário, à mulher, que poderá dedicar-se, dentro de um maior tempo-ócio, a artes a que se sinta inclinada, em desacôrdo com as convenções dominantes com relação ao que seja atividade profissionalmente masculina ou atividade profissionalmente feminina. A desprofissionalização dessas atividades criará, provàvelmente, condições favoráveis a uma maior liberdade na satisfação, por indivíduos dos dois sexos, e de meio-sexo, de desejos de caráter artístico, nêles abafados por convenções mais ou menos tirânicas, ainda fortes em sociedades modernas, segundo as quais determinados trabalhos são próprios apenas de um sexo e vergonhosamente impróprios de outro.

Também é de esperar-se que, com o aumento de tempo-ócio, se acentue nas universidades, em cursos quer de artes, quer de ciências, a presença de indivíduos já idosos, dos dois sexos. Há muito de convencional na idéia de ser a universidade apenas para jovens; e de o aprendizado de artes, assim como o de ciências, constituir um privilégio de adolescentes e de moços. Não constitui.

A cada ano maior extensão de média de vida humana, que é um dos fenômenos mais significativos da nossa época, começa a dar a numerosos indivíduos um período de quase completo ócio entre as idades de 65 a 75 anos, que vários dêles vêm aproveitando para o aprendizado de ciências e, principalmente de artes, em cursos universitários, quer regulares, quer de extensão. Sabe-se de Winston Churchill ter, já homem de idade proveta, começado a dedicar-se à pintura. Vários são os indivíduos idosos que, aposentados ou jubilados nas suas profissões, vêm adquirindo, em cursos universitários ou por correspondência, conhecimentos de jardinagem e horticultura e, à base dêsses conhecimentos, constituindo-se em rivais de especialistas no cultivo, em suas chácaras ou quintais, de orquídeas, de rosas, de hortênsias: ocupações de um acentuado caráter artístico, lúdico, recreativo. O ex-Governador Carlos Lacerda, sem ser já homem de idade plenamente proveta, constituiu-se num cultor sistemático, durante os seus ócios, de rosas que sabe fazer desabrochar de seus jardins de modo verdadeiramente artístico. E não nos esqueçamos dêsses quase artistas que dedicam o seu tempo ocioso a colecionar obras de arte: obras de arte que, a certa altura, são incorporadas a museus com grande vantagem para o grande público. Foi o que sucedeu com as preciosidades que Guerra Junqueira todos os seus ócios a colecionar, viajando, montado biblicamente num burrico, por velhas estradas rústicas de Portugal e da Espanha. Estão hoje, essas obras de arte, num museu do Pôrto, dirigido por uma filha do poeta-colecionador.

Vários dos chamados "hobbies" têm o seu que de atividade artística a encher tempo ocioso: antigo professor de Economia Política da Faculdade de Direito do Recife dedicava seus ócios a duas pequenas porém difíceis artes muito diferentes da ciência da sua especialidade: a arte de consertar relógios e a arte de verter para o português trechos de clássicos latinos. Enquanto de outro mestre da mesma Escola se sabe que vem consagrando os seus lazeres à arte da poesia.

Do que já pode e deve cuidar tôda universidade que se preocupe não só do tempo presente como dêsse tempo - considerado por alguns estritamente presente - projetado em futuro próximo, dentro do intenso ritmo em que, nos nossos dias, êsses dois tempos se interpenetram, é de facilitar aos estudantes de diversas especialidades a iniciação, quer em estudos cívicos e sociológicos que habilitem especialistas ou técnicos a estimar, em democracias, os valôres de que essas democracias vivem e que são valôres de execução ou de aplicação ao cotidiano político-social ou econômico-social menos simplista que a aplicação a êsse cotidiano de valôres totalitários, quer em estudos das mais diferentes artes recreativas, lúdicas, religiosas, solidaristas, umas, individualistas, outras. É preciso que o técnico em Direito ou em Medicina ou em Engenharia seja iniciado, durante a sua formação universitária, num conhecimento de artes várias - pintura, escultura, música, marcenaria, cerâmica, carpintaria, construção, culinária - que o habilite a escolher uma, de sua preferência, em que se inicie; e que assim adquirida venha a ser companheira sua, no tempo-lazer, habilitando-o até, em alguns casos, a ganhar algum surplus com sua arte lúdica. O útil acrescentado ao agradável.

Noutros casos, será uma arte que desempenhará, para o indivíduo que a adquira e encontre nela agradável companheira durante o crescente tempo-lazer que vai caracterizar a civilização pós-moderna já quase diante de nós, o papel saudàvelmente psico-cultural de uma laborterapia: um resguardo, portanto, dêsse indivíduo e da sociedade particular a que êle pertença, do perigo - de que já hoje há evidências de existir em sociedades como a sueca, célebre tanto pela sua quase perfeição econômico-social ou tecnológico-social como pelo número de suicídios entre sua gente - da insipidez, da monotonia, do tédio de vida sempre que o homem não sabendo matar o tempo - o tempo desocupado - cujo excesso o oprime, mata-se a si mesmo.

(*) Êste ensaio já aparecido nas línguas francesa, inglêsa, espanhola (Diogène, Paris) é agora publicado pela Revista Brasileira de Cultura, no original português.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Tempo, ócio e arte: reflexões de um latino-americano em face do avanço da automação. Revista Brasileira de Cultura. Rio de Janeiro, n. 2, p. 3, p. 47-58, jan./mar. 1970.

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