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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



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Notas à ligeira, estas, sobre a Paraíba, onde acabo de estar um tanto às pressas. Notas à toa. Mas com um possível frescor impressionista. Uma Paraíba, a de agora, diferente da que conheci em 1915 ou 16. Diferente da que ao Sr. Oliveira Lima deu a lembrar a Caracas dos seus dias de Ministro na Venezuela.

Uma Paraíba, a de agora, que se vai deixando toda salpicar de alfenins na sua arquitetura nova. De alfenins dos mestres de obras.

Esta sua nova arquitetura dá a impressão de destilar um como mel. Mas não é mel. É alguma coisa de corrosivo. Alguma coisa a cujo contágio os edifícios à moda antiga parecem incapazes de resistir.

Inquieta-me por isso a sorte que venha a ter um desses dias a igreja vizinha do Palácio do Governo: a da Conceição; e o edifício que se segue: o antigo Colégio dos Jesuítas, hoje Liceu Paraibano.

A torre da igreja da Conceição é o que mais me encanta na Paraíba. Parece arrancada a Coimbra.

Mas começa a esverdinhar. E a Paraíba não se quer deixar esverdinhar. Quer, à maneira do Recife, arrebicar-se toda de alfenins de açúcar de segunda.

Da arquiteturazinha nova da Paraíba, insolente e sem gosto, é típico o edifício do jornal "A União". Aí, sobre uma cúpula rebarbativa, horrível águia pega pelo bico um globo de luz elétrica. No Recife, só conheço mais repugnante o prédio da Fiscalização Federal do Porto. Vamos, eu e uns amigos, ao Convento de São Francisco. É um convento secularizado. Deixou-se aí apodrecer o antigo altar-mor; o de agora, ainda úmido das mãos do "cementarius", dá toda a idéia de uma intrusão sacrílega.

Do primitivo resta uma capela lateral. Mas mesmo aí estão reduzidas a horríveis calungas, antigas pinturas ingênuas e boas. No côro, apodrecem assentos de madeira lavrada.

No sítio do Convento, sumida num bananeiral, resta uma fonte antiga cujo doce correr de água é ainda um refúgio do ardor dos meios-dias de verão. A água sai de uma grande bica ladeada de quimeras. É uma linda fonte - junto à qual se tem vontade de ficar, como outrora os frades, lendo e meditando. Da horrível arquitetura nova que vai deturpando a Paraíba, consola-me o esforço do seu atual Prefeito no sentido de arborizá-la.

Neste ponto a Paraíba chega a ser umas férias para os olhos cansados do Recife sem parques. A tisnar-se de sol. Nós não possuímos nem em esqueleto, e creio mesmo que nem em borrão de cartografia, um parque como o Arruda Câmara.

E são parques, os da Paraíba, de vastas árvores acolhedoras - como anteontem me fazia notar o Sr. Carlos Dias Fernandes. De árvores que se vão dilatando à vontade em largas umbelas hospitaleiras. Não se teve na Paraíba o requinte do canteiro escancarado ao sol. Requinte a que no Recife se sacrificou tanta gameleira, tanta árvore boa e amiga, das que encantaram Eduardo Prado quando viu a capital de Pernambuco. Numa praça da Paraíba ergue-se, creio que ainda por inaugurar, vasta estátua do tamanho do Balzac de Rodin. Talvez ainda maior. Verdadeira montanha. Glorifica-se aí um político local.

De Augusto dos Anjos deu-se o nome a um beco quase miserável.

Não posso acompanhar a Paraíba, que tanto estimo, nessa noção de valores.

Entretanto, menos depressa morre de frio a vocação desinteressada da Paraíba que o Recife. Daquela a temperatura mental estará uns dois ou três graus acima de zero. Acima da do Recife, portanto.

O próprio clero paraibano dá mostras de preocupações ausentes no de Pernambuco. Provam-no dois recentes livros de padres paraibanos que acabo de folhear: o Metafísica versus Fenomenismo, do Padre Barbosa, e A Religião e o Progresso Social, do Padre Anísio.

Recebo um convite gentil do engenheiro Baeta Neves para visitar as obras do saneamento da Paraíba. Atrai-me o lado social da organização. Esse Sr. Baeta Neves é "um raro" para o Brasil pelo seu talento de organização. Vai conseguindo milagres e os conseguindo sem grande espalhafato. Ele próprio dá a impressão de caminhar sempre em sapatos de sola de borracha. É muito mais que um mero técnico: um espantoso organizador. E um voluptuoso da estética cívica. Da paisagem rural da Paraíba recolho ligeiras impressões, indo com um amigo ao engenho, hoje usina Pau d'Arco; a. Paracatuba; a Massangana e a Itapuá, passando por Sant'Ana e Santo Antônio; e Outeiro. Paisagens de bambus, cajueiros, convulsos, tamarineiros, capazeiros; paisagens, às vezes, salpicadas do sangue fresco dum flamboyant; ou rajada de manchas também sangüíneas de murungu.

Igrejas e capelas branquejam nessa parte da Paraíba que foi quase toda de engenhos de açúcar e propriedades monásticas. Do velho engenho de frades apodrecem em Itapuá ruínas musgosas; restam uns azulejos com a efígie duma Nossa Senhora.

Contra essa paisagem tão doce, vê-se às vezes repontar, rebarbativamente, um bueiro enorme de usina nova; dá a idéia de um charuto insolente de novo-rico. E para as usinas tentaculares passam, dos engenhos, sob o sol forte, grandes molhes de cana madura.



FREYRE, Gilberto. 36. Diário de Pernambuco. Recife, 23 Dez. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 347-349.

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