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Artigos : Imprensa  



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O ensino da história é, em geral, uma história. O que é de fazer pena. Porque, quando feito às direitas, sob guia competente, não há estudo que o exceda: disciplina a faculdade crítica, excita a imaginativa, move idéias, desfaz preconceitos. O recriar inteligente de tempos idos, tão íntimos nos faz do passado que, sem esforço, chegamos à realidade filosófica de que tudo é presente. A situação é parecida à do viajante que, percorrendo o globo inteiro, chega a esta realidade: a humanidade é uma só. Varia e muda, o superficial: poligamia, aqui, ali monogamia; monarquia entre estes, entre aqueles república; ontem escravidão, hoje exploração do proletariado; o gentil, entre parisienses, desgracioso entre os hindus; o mulherio de 1830 tapando as pernas, o de hoje, mostrando-as até aos joelhos. Isto é quanto varia, com a distância de tempo e espaço. O essencial não varia.

Não seria má a comparação da história à tia ricaça, muito viajada, que nos toma a viajar consigo, e nos ensina a simpatizar com o que é diferente, isto é, com o que parece diferente. Pelo menos é o que a história tem sido para mim. E disciplina alguma há feito mais para me alargar os horizontes mentais. Daí a minha pena dos que a estudam mal - sob guias verbosos, que apenas sabem falar de reis e de generais, de batalhas e de revoluções políticas, de datas e de nomes, tendo antes assombrado os rapazes com arrogantes generalizações sobre pré-história e o homem terciário. E que patrióticos, esses guias, quando ensinam história pátria!

Bem, é justamente disto que desejo ocupar-me. E a propósito do assunto de cavaco aqui em New York: a gente que governa a cidade quer reformar os compêndios de história dos Estados Unidos ensinados nas escolas públicas. A objeção aos compêndios atuais não é que sejam mal escritos ou não disponham bem o material. É, simplesmente, esta: confessam derrotas militares dos americanos, na guerra contra os ingleses: confessam os esforços de Benjamin Franklin para conservar a todo preço a união com a mãe-pátria, a quem ele tanto queria; confessam, sem desrespeito, a chatice demagógica de Patrick Henry. E a atitude dos críticos é esta: "Assim não. O que nós queremos são compêndios que falem só de nossas vitórias, glórias e virtudes; que nos apresentem como o povo-deus, imaculado, sempre a vencer os estrangeiros maus; que façam os meninos, os cidadãos de amanhã, patriotas até a raiz dos cabelos." Em outras palavras: compêndios com as chamadas "mentiras patrióticas".

Sumam-se Michelet, os metafísicos da Grécia, Carlyle, Hegel, Comte, Nordau, Karl Marx, Croce, Giddings, estes e todos os mais que têm produzido teorias e interpretações da história. A que se quer é esta: a história reduzida a vaca de leite de patriotismo. Ou melhor, e parodiando a Fradique: que se ensine a história patrioticamente mal.

Felizmente, esse rasgo de patriotismo da gente que governa a metrópole dos Estados Unidos está encontrando reação; o que prova, ao meu ver, a existência de gente culta nos Estados Unidos. Pois convenhamos em que seria, pelo menos, demonstração de ruins maneiras, reformar os tais compêndios, por dizerem, candidamente, a verdade.

No Brasil, isto de mentir patrioticamente é comum - dentro e fora de compêndios escolares. Fora do Brasil, o mentir patriótico da parte de brasileiros é desculpável: é a válvula das saudades e o meio de neutralizar as mentiras desfavoráveis de viajantes, de repórteres e de outros senhores de opinião ligeira que a gente está sempre a encontrar. Não me irritam muito os patrícios e amigos que tenho ouvido dizer, aqui, mentiras patrióticas; como não me irrita o falar patrioticamente mau, à boa moda fradiqueana, o idioma inglês, por compatriotas meus - mesmo os ligados à Embaixada em Washington e a Consulados. Porém aí - nos nossos livros escolares, nos jornais, nos discursos - para que mentir? Temo que me haja embotado o patriotismo a permanência no estrangeiro, porém não vejo, palavra de honra que não vejo (e por mais que simpatize com as pessoas e admire o talento dos autores), o valor de ensinar aos pequenos a "Nossa Pátria" e o "Por que me, ufano do meu País". Pinta-se aí o Brasil, país de todas as virtudes imagináveis, com todas as riquezas, das Mil e Uma Noites, jamais tendo encontrado quem o vencesse, com a Europa constantemente a curvar-se diante dele. Trata-se da Guerra do Paraguai, sem uma palavra de elogio aos heróicos caboclos de Solano Lopez, nem às fortes mulheres paraguaias. Exatamente como os compêndios de história que se usam em Texas: faz-se aí da luta que entre mexicanos e texanos se travou - aqueles longe do seu centro (como nós na Guerra do Paraguai) e estes a um passo de suas casas - a mais injusta relação.

Isto não é história: duvido que seja patriotismo. Porém história não é. Pode ser histórias. Ora, para histórias não há como as das Mil e Uma Noites e de Mother Goose. Ou as que a avozinha sabe contar. Reduzir a mero instrumento de patriotismo um estudo que tanto pode fazer, quando livre, para criar, entre os povos, visão católica e simpatia mútua, é roubar-lhe a virtude, além do valor cultural. Livre, solto, desatado de preconceitos, o estudo dos "tempores acti", leva-nos perto, o mais perto possível, dessa eterna fugitiva, sempre a esvair-se, deixando apenas o perfume: a Verdade.



FREYRE, Gilberto. 47. Diário de Pernambuco. Recife, 5 fev. 1922. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 189-191.

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