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Dizia-me em Londres o Sr. Antônio Torres, de um escritor brasileiro já falecido, que era um caso muito curioso: sem saber ler, conseguira escrever. E ha casos assim, isto e, de indivíduos que mal sabendo ler, mesmo o fácil francês de "Vie Parisienne", sabem colocar em tiras de papel, pronomes, vírgulas, nomes de autores estrangeiros e até idéias, embora alheias. De modo que somos quase obrigados a concluir que ler é mais difícil do que escrever. Por onde se vê que um paradoxo nos surpreende, com o seu guincho de clown e a sua perna para o ar, quando menos o esperamos.
Tenho encontrado na vida um número muito reduzido de indivíduos que saibam ler, isto é, capazes de soletrar idéias. O número dos que sabem soletrar palavras este é que me parece exagerado, principalmente no Brasil.
Soletrar uma idéia é deveras penoso, não sendo ao menos possível atenuar ou suavizar a dificuldade por meio de reduções, como na ortografia. É sabido o ar simples e fácil que adquirem, em português, as palavras de que se eliminam o ph, o y e as consoantes dobradas.
"Filosofia" com f, sem o arcaico ph, é como um primeiro-ministro que nos recebesse de mangas de camisa ou de pijama.
Com as idéias não é possível fazer o mesmo. Elas são rebeldes à vulgarização. Ninguém ainda conseguiu o milagre de tornar acessível aos iletrados de fato a teoria de relatividade; ou os versos de Mallarmé; ou as ironias de Anatole France, G. B. S. ou do nosso Santo Thyrso; ou a música de Wagner; ou a filosofia de Robert Browning.
Infelizmente nem tudo é acessível às garras felinas da estatística; se o fosse, creio que se poderia provar esta aparente blague: maior é o número dos que escrevem do que o número dos que lêem compreensivamente. Informava-me há pouco o Sr. Monteiro Lobato, com a sua formidável autoridade de livreiro-editor, que no Brasil há poeta e meio por quilômetro quadrado. Acrescentem-se aos poetas os cronistas de rodapé de jornais, os redatores de batizados e casamentos, os biógrafos de atrizes de cinema e outras celebridades universais, os romancistas e os gramáticas e eis-nos diante de escritores a dar com o pau. Naturalmente, do número dos que lêem haveria que eliminar milhares de pessoas. O uso de lunetas ou mesmo de monóculo, podendo ser mero luxo, não constitui garantia absoluta de inteligência compreensiva; nem o uso de lunetas nem a muita leitura.
Se o futuro quer realmente dizer progresso - o que duvido haverá para os nossos netos uma higiene de leitura semelhante à que hoje nos vai regulando a economia animal. Creio que as bases de semelhante higiene já as lançou um alemão ferozmente triste: Arthur Schopenhauer. Continuando o paralelo já sugerido entre ler e comer poderia, de passagem, acrescentar, de Schopenhauer, que é escritor hors d'oeuvre: mero estimulante do apetite. O perigo de muito ler a Schopenhauer, como a Nietszche, é a dispepsia, não da leitura deles mas das leituras a que nos excitam; como o perigo de muito ler Anatole France é a anemia.
Há em Parerga um forte ensaio onde excelentes coisas vêm ditas acerca de livros e da leitura. São, na maioria, advertências que só de leve nos dizem respeito; advertências para povos-sugadores-delivros, como do de Boston escreveu Emerson. Por exemplo: o homem que passa o tempo a ler, e só a ler, perde a capacidade de pensar; como o homem que sempre se deixasse conduzir por um cavalo, acabaria esquecendo como andar a pé. Outro símile que o filósofo apresenta é o da mola, a qual, sob a constante pressão de corpo estranho, perde a elasticidade. Nisto está de acordo com Schopenhauer o Visconde de Santo Thyrso, quando diz que um livro é tanto melhor quanto mais sugestivo, embora de idéias contrárias. "Desta forma", conclui o Visconde, "o leitor é de fato um colaborador do autor."
Entre nós, não creio que o perigo seja propriamente o de excesso de alimento ou de combustível, como falando de um fidalgote livresco disse uma vez Macaulay - ele próprio livresco e fidalgote. O perigo entre nós é de mau combustível ou mau alimento. Não são tão grandes nossas facilidades bibliográficas que permitam o pecado, sutil entre os sutis, da gula livresca. O que vai estragando o brasileiro alfabeto é a leitura ruim, e imprópria. Sejamos francos: aqui não se lêem as obras-primas. Destaque-se o fato com mais nitidez ainda: é nossa gente aliteratada, ou com pretensões à cultura fina, que não lê as obras-primas. D. Quixote tem entre nós raríssimos leitores - espantosa verdade que uma vez surpreendi em inquérito dissimulado. Shakespeare é mais um nome - que aliás em geral soletram errado. E o mesmo é certo quanto a Goethe. E quanto ao florentino.
Ir adiante é supérfluo: é supérfluo ir aos três grandes trágicos gregos. Porque neste caso as exceções viriam penosamente, como as gotas que ao muito aperto de persistentes dedos destila um pobre limão seco. Entretanto, há quem fale destes trágicos; e simule intimidade com oradores helenos.
Eu não participo da grave caturrice dós c1assicistas. Mas não vejo outro modo de aguçar o gosto, ou simplesmente de educá-lo e discipliná-la, a não ser pelo contacto direto com as obras-primas. Depois desse contacto, e só depois, tem-se o direito de fazer gala de fastio ante clássicos maçudos ou antipáticos ao nosso temperamento; como diante de Balzac e de Shakespeare, Jean Cocteau.
A mocidade de São Paulo que eu suponho a mais culta do Brasil, sofre neste momento a nevrose do que entre nós se chama indistintamente futurismo. É pena. E esta mocidade devia estar a ler o D. Quixote, Romeu e Julieta e Menina e Moça. Mas está, sem nenhuma noção do ridículo, arremedando Dada. Compreende-se, explica-se, justifica-se até Dada na Europa, onde o cansaço do museus, das bibliotecas, das grandes coisas estratificadas amolece o espírito criador que não é senão o espírito da juventude. Mas entre nós!
Ou estão os moços de São Paulo, como os de todo o Brasil, a ler-se uns aos outros nos romancezinhos e nos livros de versos que o Sr. Monteiro Lobato vai publicando às centenas. Agora mesmo ele prepara cento e tantos livros. Cento e tantos romancezinhos e volumes de versos que vão tomar o lugar de leituras sérias. Há nisto um travo de humour; humour no sentido swiftiano. É como se Mr. Hoover mandasse a Cruz Vermelha Americana distribuir entre as crianças russas, rotas e com fome, pacotes de chewing gum e lequezinhos de celulóide.
FREYRE, Gilberto. 5. Diário de Pernambuco. Recife, 20 Maio 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade o autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 259-261.
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