A DEMOCRACIA NOS ESTADOS UNIDOS (*)
Agita, neste momento, os Estados Unidos, uma forte corrente de opinião antidemocrática. Basta percorrer os livros de George Santayanna (Charater and Opinion in the United States), Lawrence Lowell, Henry L. Mencken e Franklin Giddings - o último sociólogo bem conhecido pela sua teoria de "consciência de espécie" para ter uma idéia da força dessa reação crítica contra o "jeffersionismo" imoderado.
Aliás, nunca faltou, nos Estados Unidos, às tendências igualitárias de Thomas Jefferson (que pregou, como se sabe, a conveniência das revoluções periódicas, mas foi na prática, isto é, na Presidência da República, mui diverso do que até então fôra nos panfletos) fortes contrapesos ou, se quiserem, corretivos. O mais poderoso, vamos encontrá-lo na própria "psyché" do anglo-saxão, no seu natural pendor para reconhecer e acatar superioridades de competência, virtude e capacidade de ação. Neste sentido, Carlyle foi profundamente representativo ao proclamar a filosofia do "Real superior", que é uma filosofia de bom senso.
Outro contrapeso a grandes desmandos tem sido, nos Estados Unidos, o "espírito histórico", de que nos fala, em estudo brilhante, o Sr. Fidelino de Figueiredo. O americano, cuja capacidade inventiva é notória, cujo amor à aventura é das notas mais vivas do seu caráter, tem, entretanto, sabido alimentar o culto pelo passado. Nele, a ânsia de modernismo, a vontade de adaptar-se a condições novas de vida, não exclui o respeito pelas experiências prévias, sem o qual as aventuras passam a perigosas e às vezes trágicas alucinações. (O exemplo da Rússia aí está vivo, rubro, ainda a sangrar.)
Sendo um povo aventuroso é, ao mesmo tempo, um povo tradicionalista e sua saúde e social resulta desse justo equilíbrio de qualidades.
* Transcrição no "Diário de Pernambuco" de 3 de abril de 1923 do artigo publicado na coluna de honra do "Correio da Manhã". de Lisboa, por Gilberto Freyre, quando de sua passagem por aquela capital. Portugal estava então sob uma onda de furioso "democratismo".
O Visconde de Vogue escreveu que á história do inglês, de suas aventuras políticas e coloniais, é a história de Robinson Crusoe. Também o é a do americano. Aventura e senso prático à base da experiência.
Nos Estados Unidos o espírito histórico parece cada dia ganhar em vivacidade e profundeza. Já Paul Bourget o registra em Outre mer e o Sr. M. de Oliveira Lima, no seu livro de impressões dos Estados Unidos, não só o constata como o salienta, confrontando-o com o desapego pelas coisas do passado, notável entre os latino-americanos. Hoje o tradicionalismo nos Estados Unidos é talvez mais forte e generalizado do que no fim do século décimo-nono. Nas universidades e escolas os estudos históricos atingiram grande desenvolvimento e, livres da mania especializadora, seu poder dinâmico é maior e seus horizontes são mais vastos.
Preza-os o americano, reconhecendo neles a base de sua força. Porque o tradicionalismo americano, longe de ser um como saudosismo coletivo, vago e passivo, é ativo, dinâmico, pragmático. Reconhecendo a influência dos mortos sobre os vivos, o povo que, em tantos sentidos, é mais contemporâneo da posteridade do que do nosso tempo, volta-se constantemente para o passado, como para um velho mestre. Isto é talvez paradoxal. Mas é pelo paradoxo que o bom senso muita vez se manifesta.
Recordarei ainda que o regime de presidencialismo, consagrado pelos constitucionalistas americanos sob a influência daquele grande pensador, Alexander Hamilton, de tendências. rasgadamente monárquicas, faz dos Estados Unidos mais uma realeza eletiva que uma pura democracia política. Um tipo de organização cujo ar de parentesco com as suas supostas congêneres é tão remoto, que não exageraria quem o definisse como "sui generis".
Têm, entretanto, os Estados Unidos sofrido certos males da democracia desvairada e até da demagogia, notadamente nos últimos sessenta anos. Daí a reação crítica contra o que naquele país é costume chamar "democracia jeffersoniana", para a distinguir da outra, a de Hamilton, aquela que, na prática, chegou ao extremo, sob a empolgante presidência de Theodore Roosevelt, de absoluta e efetiva realeza. Efetiva e não apenas eletiva.
De fato, depois da Guerra Civil, cujo resultado foi o aniquilamento da aristocracia de "gentlemen farmers" do Sul, que vinha fornecendo à República, desde o seu alvorecer, estadistas de tão brilhante capacidade, começou o afastamento dos negócios políticos, dos homens de talento e caráter. Passou a política a ser considerada atividade indigna de um "gentleman". Começaram a concorrer aos cargos de importância - à parte exceções notáveis - ou refinados patifes ou criaturas simplórias até a boçalidade.
Theodore Roosevelt fez sensação quando entrou na vida política. Ele, Roosevelt, bacharel de Harvard e da ilustre família Roosevelt, entrar na política? (Lord Bryce notou, com a argúcia que lhe é peculiar, o fenômeno, consagrando-lhe um dos capítulos mais interessantes do seu American CommonweaIth: "Why great men are not elected".) E a onda de "jeffersionismo" - do mau mais que do bom - cresceu nos Estados Unidos, durante a última metade do século décimo nono e os primeiros anos do atual até que, contra ela e a xaroposa ideologia com que se disfarçava, ergueu-se o profundo bom senso da raça de Robinson Crusoe. Ergueu-se o seu instinto de "Real Superior". Ergueu-se o fantasma de Alexander Hamilton, esse como anjo tutelar do pensamento político norte-americano.
Hoje, o espírito antidemocrático é, nos Estados Unidos, ativo, vivaz, combativo e chega a ser em certos escritores como o vulcânico sr. Henry Mencken, violento. Notamo-lo não só nos livros dos pensadores políticos e dos psicólocos sociais. Notamo-lo igualmente em ação, na tendência, por exemplo, para o plano de "city manager", nos governos municipais, que significa a vitória da competência técnica sobre a demagogia blandiciosa, sinuosa e incapaz dos politiqueiros.
Incapaz, sim. As condições nos Estados Unidos, país onde o industrialismo já chegou aos últimos requintes da organização e complexidade, exigem, mais que nunca, o governo de capacidades técnicas que, naturalmente, reúnam a esta as qualidades de caráter e as nobres virtudes que fixam o tipo do "Real Superior" e tão dos bons homens públicos ou políticos. De modo que, na suposta "terra clássica" da democracia, assistimos, neste momento, à reação de forças nitidamente antidemocráticas ao organizar-se duma aristocracia técnica, mas não tecnocrática, semelhante à que delineou Jules Lemaitre.
FREYRE, Gilberto. A Democracia nos Estados Unidos. Diário de Pernambuco. Recife, 3 abr. 1923. Coluna: Da outra América.
Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 235-237.
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