[BIBLIOTECA PÚBLICA DE NEW YORK]
Domingo passado, no Cosmopolitan Club, fiz
conhecimento com o sr. Edwin H. Anderson, director da Bibliotheca Publica de New York. O
sr. Anderson foi o orador da noite e, naturalmente, discorreu sobre a Bibliotheca. Alguns
dos factos por elle apresentados recolhi-os a lapis num cartão postal. Vou aqui
ajuntal-os, suppondo que hão de pelo menos interessar os bibliophilo-gente sensual a que
me ligam agudas affinidades.
A Bibliotheca Publica de New York é um dos
logares de que levarei saudades quando daqui me fôr. Será difficil dizer adeus a esse
casarão da Quinta Avenida. Nelle, preciosos contactos de espirito tenho gosado. Nelle,
hei experimentado gosos sensuaes de bibliophilo, diante dos mais lindos livros deste
mundo, com gravuras a aço e estampas a côres. Nós, os que amamos os livros e as cousas
darte, deixamos um pouco de nós mesmos pelas bibliothecas e pelos museus. É um
mal. No fim da vida seremos uns "deracinés", com o affecto espalhado por toda a
parte.
A Bibliotheca que o sr. Anderson dirige é um
colosso. Dirigil-a é quase governar uma republica. E, dando a cada livro na Bibliotheca
de New York o valor dum cidadão, teremos populosa republica de . . . . .2, 629,138
cidadãos. Mais populosa, portanto, que certas republicas de gente. Em tamanho, apenas
excedem a Bibliotheca de New York duas ou tres, europeas, e a do Congresso, em Washington.
De leitores é a que possue maior numero. Está sempre cheia - cheia de gente a sugar
o mel da sabedoria. O mel ou o fel? Creio que o mel. Pois não compara a Biblia o saber ao
fructo delicioso que é a maçã?
Lêem muito em New York. e existem leitores dos
gostos mais variados. Há porém departamentos da Bibliotheca que attrahem mais que
outros: o de genealogia, por exemplo. Nos Estados Unidos lavra verdadeiro furor
genealogico. É aqui gôso mui appetecido traçar a linha ancestral ao
"Mayflower" que foi, como se sabe, o primeiro navio de Puritanos aqui chegado
- elles de chapeus de castor e sapatos de fivella, as mulheres, de coifas hollandezas
e vestidos escuros.
A Bibliotheca possue excellente collecção
genealogica. Possue tambem collecções excellentes nos ramos seguintes: musica, arte,
architectura, sciencias physicas e mathematicas, economia politica e sociologia,
documentos publicos, publicações officiaes e periodicos. Magnifica é a collecção de
trabalhos sobre a historia da America, incluindo a de livros de viagens sobre o Brasil.
Desta me venho servindo ultimamente para um estudosinho historico que preparo. Há tambem
rica collecção de mappas e, sob montras, gravuras a aço, encadernações de luxo e
autographos. Pinturas historicas e cartões postaes enchem uma sala. Há outra sala para
leitores cegos e excellente secção de litteratura infantil. Que felizes, os meninos
americanos! Há para elles, desde que aprendem a soletrar uma litteratura especial:
historias de bichos encantados, como as de "Mother Goose", contos da carochinha,
livros de viagens e de caçadas, romances em que o heroe é um menino, biographias de
grandes homens, dando attenção particular aos dias de meninice. . . Um verdadeiro
encanto. E cheios, estes livros, de bonitas estampas a côres. Que menino, no meio de
tanto livro lindo, não ganhará gosto pela leitura? No Brasil não possuimos nem o
começo duma litteratura infantil. Por isto, entre nós, a meninice é tão triste e passa
tão depressa. Aos treze annos somos homenzinhos, graves, de calças compridas. Faltam-nos
livros infantis; faltam-nos brinquedos. Ah, os brinquedos! Porém, noto que os livros de
crianças me estão a puxar para fóra do assumpto.
Há na Bibliotheca Publica de New York secções
especiaes de litteratura extrangeiras. Grosso é o material que existe em francês e em
allemão. Tambem se acham representados dos idiomas chinês, dinamarquês, hollandês,
finlandês, grego, flamengo, hungaro, hebreu (antigo e moderno), norueguês, italiano,
polaco, russo, hespanhol, sueco, servio, etc. De litteratura portuguesa ou brasileira,
muito pouco, quase nada. Tem razão o sr. Coelho Netto em dizer que ninguem nos lê no
extrangeiro. "A culpa é de vocês, portugueses e brasileiros", escreveu-me uma
vês, meio rude, o meu amigo, o sabio John Casper Branner. E é. Neste assumpto de idiomas
temos levado a extremo mui tolo nossa bondade. O americano, com a sua mania de
simplificar, engloba-nos no hespanhol, e nós, desmanchando-nos de gentileza, acceitamos a
imposição. Si eu fosse negociante brasileiro mandaria para o diabo o americano que se
endereçasse a mim em hespanhol. Por outro lado, não assignaria revistas como a que
dirige meu amigo sr. Samuel G. Inman, que se dizendo representativa da America do Sul e
para a America do Sul é toda escripta em hespanhol. É o hespanhol que eclypsa o
português. Tanto que, sendo a do Brasil a melhor litteratura da America Latina é,
entretanto, ignorada.
Mas. . . "a culpa é de vocês, portugueses
e brasileiros". E que havemos de fazer fóra a resistencia á absorpção no
hespanhol? Devemos exportar nossos livros e nossos periodicos. No salão de periodicos e
jornaes da Bibliotheca de New York se acham representados quase todos os idiomas, quase
todos os paizes. Em português não há cousa nenhuma. Possue entretanto Lisbôa um jornal
que lhes faz honra, "O Seculo", e o Brasil, varios, incluindo este
"Diario". No salão a Universidade de Columbia é a mesma cousa: nenhuma revista
em português. Possuimos, entretanto, no Brasil, uma "Revista do Brasil" -
excellente; em Portugal, uma "Revista da Universidade de Coimbra" -
rigorosamente erudita. E a pedido do proprio sr. Anderson, o bibliothecario, e no
interesse da nossa cultura, é que eu daqui dirijo um appello aos meus illustres amigos
srs. França Pereira, da Academia de Letras, Ulysses Pernambucano, da Sociedade de
Medicina, Mario Melo, do Instituto Historico e Lyra Filho, deste "Diario" para
que mandem suas publicações á Bibliotheca de New York (The New York Public Library). E
até aonde chegue minha voz - ás Alagoas, ao Rio Grande do Norte, ao Pará, a S.
Paulo, ao Paraná etc. - que chegue tambem este appello.
Fonte: FREYRE, Gilberto.[Biblioteca Pública de New York]. Diario de Pernambuco. Recife, fev. 1922. Coluna: Da outra América.
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