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Artigos : Imprensa  



JAMES JOYCE


Em James Joyce surpreende e perturba, ao primeiro contato, o formidável poder criador.

Está a meio sua obra e entretanto parece a metade duma catedral. Ou uma catedral inteira. Porque Ulysses é talvez o livro mais gothico e mais complexo que desde a comédia de Dante se escreveu.

Nasceu James Joyce com esse sentido arquitetônico das coisas, a um tempo largo e intenso, que apenas se satisfaz em complexidade de catedral. Daí o vertical de concentração que assumiu em Ulysses seu poder criador. Sua força jovem e virgem de imaginação.

Ulysses é por isto, por esta concentração, de um simbolismo que perturba. De um simbolismo que exige Baedekers como o da Catedral de Toledo e da Catedral de Chartres. De um simbolismo como o das catedrais gothicas.

A fecundidade de Joyce não é de superfície: está na concentração vertical. Fecundidade de superfície chamou eu a do Sr. Blasco Ibanés, cuja obra tanto se assemelha a uma vila operária espralada sobre larga extensão.

Onde foi buscar James Joyce um sentido arquitetônico tão fora do tempo, ou talvez tão antecipado ao tempo, pelo seu rhythmo gothico e pelo seu fôlego épico? Nasceu com ele. Mas a eurithmia da educação por certo que o desenvolveu. Educou-se o romancista Irlandês num colégio de padres. De padres jesuítas. Na filosofia thomista, portanto. A qual se aproxima da arte como da vida com um critério ao mesmo tempo arquitetônico e melodioso: o de integritas e o de consonantica.

Também em Joyce há um senso agudo da melodia das coisas. Senso de melodia que também a influência católico-romano, sob a qual foi nascido e criado, o artista deve explicar pode-se falar assim da formação de Joyce porque ele próprio a fixou na desse menino doloroso que é Stephen Dedalus. O retratado de The Porirait of an artist. O retratado livro que antecipa Ulysses: e no qual trabalhou dez anos.

Nesse doloroso menino que é Stephen, a se amarfanhar de pudores e de sensibilidade aos primeiros contatos com a vida, deve-se Ter desenvolvido no colégio dos padres uma quase doença da melodia. Ele próprio confessa como ao encanto da música renunciava a consciência. E como resistir, na verdade, ao encontro dessas rimas em vogais da psalmodiabõas e doces como andas de rhythmo? "Cinnamon et balsamun", "palma exalta sum", "te Deus laudamus", "Beati immaculati" - há nesse luxo de vogais que se deixam bater voluptuosamente pela voz, uma escola da música da phrase.

No meio delas criou-se Stephen Dedalus. Criou-se James Joyce. Eram-lhes todas as manhãs e todas as tardes batidas aos lubricos ouvidos essas sílabas latinas de psalmodia. Sílabas que não são afinal puros valores melodiosos aristocratizados pelo tempo: trazem em si íntimos sentidos, forças que se concentram nas consonância das rimas, toda uma mística multi-secular, todo o drama litúrgico da Igreja de Nosso Senhor.

E ao contato dessas rimas místicas, aristocratizou-se em James Joyce o senso melodioso a que Walter Paterl atribuía a maior força de estilo. Tanto que o primeiro livro de Joyce - livro de versos, aliás, e um como exercício de caligraphia para a prosa - chama-se "Chamber Music"; e é na verdade um murmurio abafado e debussyano como o de um canto gregoriano acompanhado a frauta pagã.

Em James Joyce criador de um rhythmo novo para a prosa Inglesa, que conseguiu amolecer em valores musicais de um líquido de latim de Igreja, de um líquido de óleo quente e às vezes de sangue vivo, de sangue jovem, de sangue virgem; em Joyce é preciso não esquecer a influência da educação jesuítica. Da vida em colégio de padres, rhythmada pelos exercícios espirituais e pela psalmodia grave. Educação que o de predispondo para o mais intenso misticismo - o de padre S.J. - quando o crucifixo lhe caiu das mãos gothicas de adolescente; e partiu-se. Educação que o acabou predispondo para o esthetismo - o pan-esthetismo, diria, se o Sr. Graça Aranha não houvesse barateado a expressão - em que hoje se aguça a atitude de Joyce perante a vida.

Mas ao esteticismo do homem feito prendem-se, ainda raízes do misticismo de menino. É assim que no Stephen que em Ulysses se analisa e roe no mais podre da consciência e da sub-consciência, sente-se ainda o católico-romano do colégio de padres. Incapaz de rezar pela alma da mãe, o Stephen homem feito é também incapaz de refugir a sensação místicas as mais estranhas e até macabras que o surpreendem. Um dia, em sonho, sente repreender-lhe a perda da fé a própria mãe que lhe aparece com o corpo meio comido e um hálito cujo cheiro era como o de cinza molhada.

No Portrait já se analisara Joyce na crise religiosa de adolescência ligada à primeira experiência de amor físico. Experiência que lhe comunicará, com a impureza das masturbações em que antes se requeimara um senso de pecado de tal forma pungente que só a confissão o aliviaria. A confissão e a promessa de dedicar-se no serviço "ad maforem Del gloriam"

Intensas páginas são aquelas do Portrait em que Stephen, sob a aguda consciência do pecado, segue os exercícios do retrato do retiro dirigidos pelos padres jesuítas. A vos acre do pregador evoca os poema damni. O adolescente ouve-o em calafrios. E debruçado sobre o próprio eu, como sobre uma poça muito verde de podre, a si mesmo pergunta, surpreendido da tentação que o vencera, si de fato estava cheio e sujo dos terríveis pecados que levam ao inferno. "Coned it he that he, Stephen Dedalus, had done those things?" Agora, só o confessionário. Mas como confessor tanta imundice? E é uma cena de rara intensidade a que precede a confissão do adolescente: e a da confissão.

Dir-se-ia parte da obra formidável que é Ulysses uma como reportagem tachygraphica de flagrantes mentais. Do muito que se pensa sem ter coragem de dizer. Do muito que é recalcado na coragem de dizer. Do muito que é recalcado na vida mental do homem pelo "censor" da teoria freudiana. Joyce criou uma espécie de método tachygraphico para apanhar esses flagrantes de vida mental interior. Vida sem olhos e sem boca - porém vida. Vida sem disciplina moral. O "Carnaval dos miolos", na frase do Sr. Herbert Gorman.

Ao livro formidável que é Ulysses conheci-o em Oxford, onde sua atualidade intensa era a inquietação de certos chás. O puritanismo conseguiu de algum modo abafar-lhe a influência, aliás, destinada pela própria natureza do livro a aristocráticos limites. Mas o livro vai vencendo: e até sob as bananeiras do Rio já se vai pronunciando o inglês das suas obras, é que será o difícil de soletrar.

Ulysses traz um ritmo novo para o romance. Nunca se escreveu um romance assim. A análise de vida interior que ai se faz é duma transparência e duma complexidade perturbantes. Ao lado de Ulysses - escreve um crítico - "o satyricon é apenas o trabalho duma criança obscena. "It leaves Petronius out of sight" - observa o Sr. Arnold Berneti. E Ezra Pound, exalta-o sobre Cervantes, sobre Fraubert, sobre Proust.

Joyce quis tomar do fenômeno da vida um fôlego largo e forte; e para fixá-lo como que adaptou ao romance o ritmo da arquitetura medieval. Ulysses é complexo como uma catedral. Não lhe encontro melhor comparação. É a mesma concentração de símbolos e de aspectos da vida. Nas catedrais gothicas representam-se vícios, virtudes, o feio, o belo, as coisas da terra e as do céu e as do inferno. Ulysses é assim. Um livro duma amplitude que perturba. As vezes parece que é pouco chamá-lo um livro.



Fonte: FREYRE, Gilberto. James Joyce. Diario de Pernambuco. Recife, 11 dez. 1924.

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