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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



LUDUM PUERIS DARE
Da Outra América


Em setembro do ano passado, viajando pela Alemanha, cheguei a uma cidade muito velha. Num instante me enamorei do lugar. Mentalmente já eu conhecia uma cidade como aquela - com aquele ar acastelado, com aquele arvoredo azul à beira do rio, com aquelas pontes em arco e aquelas torres gordas. Conhecia-a dos romances e das estampas a cor nos livros de história da carochinha. Era noite e a gente da velha cidade alemã começava a recolher à casa; daí a pouco toda ela estaria a dormir sob a bênção de Deus e o sorriso claro da Dindinha Lua. E eu saí a vagar pelas ruas à espera que o relógio da catedral batesse meia-noite. À meia-noite - pensei com os meus botões - quando todos estes alemães gordos e róseos tiverem recolhido das cervejarias e acabado de fumar seus cachimbos de louça e de comer, entre goles de cerveja, rodelas de salame com fatias de pão, à meia-noite, quando estiverem todos a dormir sossegados, esta velha cidade se povoará como por encanto de fadas e beldades, de cavaleiros com as suas cotas de malha e de escudeiros a trote, de físicos caturras com as suas seringas e as suas ervas e de pajens louros. Mas veio meia-noite e nenhum destes personagens de história apareceu; apenas, no recuo de uma viela, vi passar devagarinho um gato de bruxedo, de pêlo hirto. Creio que foi por causa da lua que a tal gente não apareceu; estava tudo tão claro que parecia dia. Mas o certo é que recolhi ao hotel desapontado.

No dia seguinte, era já manhã alta quando, depois de tomar meu chocolate, saí à rua. Como me pareceu bonita a velha cidade rindo ao sol! Era o sol de outono - o mais belo dos sóis. Viam-se agora mais distintos os encantos todos da paisagem medieval. Na água parada, as casas da beira do rio projetavam sua imagem meio triste. À distância, torres de castelo, dominando. Mas o que me foi chamando a atenção particular foi, nas montras das lojas, a nota viva, brilhante, colorida de brinquedos - bonecos, bichos de madeira, caixas de soldadinhos, locomotivas de lata, blocos para fazer castelos e "chalets".

Lembrei-me então que estava em Nuremberg: célebre pelo seu passado que vai aos dias do rei Carlos Magno, célebre pele seu padroeiro São Sebaldo, celebre pela sua paisagem gótica, celebre pela sua indústria tão poética e tão útil de fazer brinquedos. Nuremberg faz brinquedos para as crianças alemãs e de fora. É a cidade-papá Noel, a cidade-Santo Claus, a doce cidade-vovó que passa as horas a recortar na madeira, na lata, no papelão os calungas, os bichos, as locomotivas, os carros, os brinquedos todos que fazem o encanto da meninice.

Zurich faz relógios; Buffalo faz sapatos; Amsterdam faz queijo; Lausanne, chocolates; Pesqueira, aqui perto, faz doces e geléias. Mas se fosse possível recolher os votos dos meninos sobre a cidade que mais os interessa estou que todos eles, mesmo os gulosos, votariam na cidade que faz brinquedos. O menino infeliz não é aquele a quem falta um relógio para ver as horas; ou que não possui botinas ou sapatos para ir à escola; ou latas de geléia com que se regalar à hora da merenda. O menino mais infeliz é aquele a quem falta um brinquedo por mais humilde: um tosco navio de pau feito a canivete ou um simples "mané-gostoso" de papelão.

O gosto pelo brinquedo é um gosto instintivo a que os instintos e impulsos instintivos mais importantes do homem se acham ligados: o paternal, o doméstico, o religioso, o gregário, o criador, ode aventura, o artístico. :É um gosto que deve ser estimulado e desenvolvido. Há pais - bem o sei - que o procuram reprimir e matar. Merecem semelhantes pais uma boa sova. É verdade que Maomé proibiu entre seus sequazes o fabrico de bonecos e, mais recentemente, na Rússia, repetiu Lenine o gesto cruel do profeta. Há que perdoá-los; eles não sabem o que fazem. Melhor fora privar uma criança de sapatos ou de merenda ou mesmo de travesseiro em quc repousar à noite a cabecita que privá-la do brinquedo, por humilde que seja. Bem o compreendem os japoneses: no Japão, quando nasce um nenezinho, com as suas mãozinhas papudas e seus olhinhos oblíquos, os pais logo o presenteiam com uma coleção de bonecos representando o imperador e a imperatriz, deuses da mitologia nipônica, músicos.

Acerca do desenvolvimento da personalidade da criança por meio de brinquedos muito poderia dizer. O assunto sempre me encantou e me interessou. Limito-me, nestas notas à ligeira a apontar para o valor educativo das bonecas entre as meninas. As bonecas são uma como iniciação nos futuros deveres domésticos da mulher. É pela influência da sua boneca de estimação que a menina começa ti cortar e a coser, aproveitando figurinos e retalhos das costuras da gente grande; a bordar; a fazer remendos; a arranjar chapéus. Conta o Sr. Afrânio Peixoto - já não me lembra onde - que um seu amigo encontrou uma vez uma pequena da família procurando amamentar a boneca. O Dr. Gulick, médico americano que passou a vida a estudar a psicologia do brinquedo, afirma que suas filhas aprenderam a harmonizar as cores dos vestidos com a aparência pessoal, fazendo vestidos para bonecas louras e morenas, gordas e esguias. Estou firmemente convencido de que o feminismo não será perigo sério enquanto as meninas brinquem com bonecas e, atingida a adolescência, com bonecos. Discursos e teorias não conseguem o milagre de mudar a natureza das coisas e, muito menos, a nossa mesmo quando esses discursos e essas teorias saem. da boca dum J. J. Rousseau.

Quando eu era menino possuí várias caixas de soldadinhos de chumbo. Eram o meu encanto. Não me envergonha confessar que brinquei com os ditos até os treze anos - quando já era redator-chefe do jornal do colégio. Devo aos tais soldadinhos muitas horas de alegria e, ao mesmo tempo, valor educativo. Não brincava de batalhas; sem querer fazer gala de bom gosto posso afirmar que a vontade de sei general ou palhaço de circo jamais me empolgou. A maior parte dos soldadinhos, desmilitarizava-os por meio de sobrecasacas, fraques e paletós de papel. Individualizava-os também, dando a cada um um nome e função, que ia, a princípio, de rei a ordenança, passando depois de presidente de República a redator de jornal oposicionista. Neste meu mundo, à maneira dum quase-deus, eu fazia acontecer, conforme o humor do dia, banquetes, passeios em automóveis de caixas de fósforos, revoluções (nas quais, seja dito de passagem, meu prestígio de quase-deus estava sempre ao lado do princípio de autoridade e disciplina), paradas, terremotos, enterros, batiza dos, casamentos. Era - eu vos asseguro - um mundo muito mais humano que o de certos romances e fitas de cinema.

O brinquedo data, segundo sisudas pesquisas de antropologia, do homem primitivo. Não direi do primeiro homem, porque nosso pai, Adão, teve a infeliz originalidade de nascer homem feito - já pronto para o solene papel de noivo de Eva.

Os bonecos mais primitivos de que há conhecimento histórico - sabeis de que eram feitos? De pedaços de ossos. Conhecem-se também bonecos de espigas de milho, de flores, de palhas secas.

Os antigos egípcios parecem ter sido grandes apreciadores de bonecos. No Museu Metropolitano de New York, cuja seção egípcia tive uma tarde o gosto de percorrer com um entendido na matéria, o famoso poeta Vachel Lindsay, há grande número de bonecos encontrados no túmulo dum nobre de remota dinastia. Representam soldados, padres, padeiros, canoeiros. etc.

A Rainha Mary, da Inglaterra, possui um grupo de bonecos muito interessantes, que se acham instalados num palaciozinho feito pelo arquiteto Sir Edward Saytens, mobiliado, com piano e biblioteca e até luz elétrica. Entre estes bonecos, um representa o rei com sua coroa e o seu manto; outro um jornalista de cartola e livro de notas na mão; um terceiro, um gordo cozinheiro. .. Há ainda príncipes, almirantes, bispos, médicos. Mas todo esse luxo não vale o afeto que à sua boneca de pano, suja e em farrapos, dedica qualquer meninazinha pobre do East Side.

Eu quisera que os meninos meus compatriotas soubessem resistir à mania que aqui se tem de fazer das crianças homenzinhos o mais depressa possível. Já basta o fato de ser este burgo, como os demais burgos do Brasil, uma triste cidade sem áreas de recreio para os pequenos, sem gramados por onde eles possam correr, sem tanques onde possam brincar com navios de papel, sem coisa nenhuma que estimule neles a alegria. E, ao contrário das crianças que a gente vê, em revoadas alegres, pela relva dos parques de Londres e de Berlim, nas Tulherias e nos "play-grounds" de qualquer cidade dos Estados Unidos e do Canadá, os meninos daqui são umas tristes criaturas, candidatos ao fraque e à calvície precoce.



FREYRE, Gilberto. Ludum Pueris Dare. Diário de Pernambuco. Recife, 15 abr. 1923. Coluna: Da outra América.

Artigo publicado em: FREYRE, Gilberto. Tempo de aprendiz: artigos publicados em jornais na adolescência e na primeira mocidade do autor 1918-1926. São Paulo: IBRASA, 1979. v.1, p. 238-241.

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