[IMPRESSÕES SOBRE OS PRIMEIROS ONZE DIAS EM NEW YORK]
Nesta primeira carta de New York procurarei
espremer o succo das impressões aqui recolhidas, em onze curtos dias, pela minha gana de
"mirar algo nuevo". As sensações desta semana e meia de gula intellectual
- que é talvez peccado, como a do estomago - não sei como as reunir:
apresentam-se-me baralhadas e confusas como os arabescos e as côres de um tapete persa,
misturados pela arte do tecelão. O que se segue, portanto, é uma idéa vaga, toda em
meias tintas, da New York que se me revelou "au premier abord". Provinciano
encontrado na maior das cidades, minha situação é psychologicamente a mesma de menino
guloso diante de enorme travessa de cangica ou de pudim; sem saber por onde começar.
Nestes onze dias tenho procurado vêr o mais
possivel, gananciosamente. E neste afan tenho gasto todas as minhas horas vagas - ora
á manhã, ora á noite, ora ás tardes, que agora, em pleno inverno passam depressa
- a furtar pela cidade, em busca dos seus recantos de côr e de interesse.
Muito tenho aprendido e gosado, New York está
cheia de opportunidades educadoras e de gosos intellectuaes.
É só saber buscal-os. No mesmo dia pode o
curioso volver os olhos da azafamada Wall Street, onde os reis da finança estudam as
cotações da Bolsa, para o Ghetto, o bairro pobre, com seu pittoresco napolitano, seus
garotos esfarrapados, suas velhotas gordas, de chale encarnado, vendendo fructos e legumes
e os seus restaurantes, onde italianos palreiros comem macarrão a garfadas; ouvir missa
na Cathedral de St. Patrick, entre vitraes de côr e pilastras magestosas e descer a um
"cabaret" alegre de Greenwich Village, o bairro da folia e da pandega; vagar
encantado pelas salas do Metropolitan, entre quadros preciosos arrancadas á Europa pelos
tentáculos do Senhor Dollar Todo Poderoso e atravessar a pé a ponte de ferro de
Brooklyn, orgulho da engenharia yankee; assistir a uma comedia de Bernard Shaw num theatro
de Broodway ou Times Square e visitar a casa humilde, feita de taboas em que Goe escreveu
"O Corvo"; furar pelas ruas estreitas do bairro chinez, entre caras amarellas e
lanternas de papel de sêde e parar ás montras faustosas de Fifth avenue...
Não se exgottam com estes os exemplos de
sensações de côr e de exemplos de sensações variadas de côr e de paizagem que se
recebem em New York, em vinte e quatro horas de estudo facil. A colheita de typos humanos
interessantes é farta. E como elles variam!
É como si folheassemos um livro de estampas.
Vêem-se, recolhendo á casa dos theatros, em automoveis de luxo ou vittorias com
bolieiros de cartola e libré, mulheres bonitas envolvidas em pelles que lhes protegem do
frio a nudez dos decotes; "snobs" de fraque e corpo esbelto, elegantes como se
alguem os tivesse recortado a tezoura das paginas de côr de um figurino; provincianos
endinheirados do Middle West, de chapeus de abas largas, assombrados dos vultos enormes
dos "skyscrapers" e do vae-vem de ondas humanas, a mover-se e a estacar, como os
vehiculos, ao aceno do policia; barbudos judeus, de curvos narizes e gestilação
burlesca; italianos pallidos, de palitós cheios de buracos, tocando ás esquinas peças
alegres em realejos velhos; escriptores de monoculo folheando revistas, com o ar de
"habitués", na livraria Bretano, que é o Garnier, o livreiro de luxo de New
York.
E há a variedade de architectura, New York não
é toda "skyscrapers". Os "skyscrapers" são "parvenus"
- "parvenus" victoriosos, é certo porém "parvenus". "New
York tem trezentos annos".
Possue casas velhas, de ar quase medievo. Há
nella cantos pittorescos, virgens de febre de "skyscrapers", e que gritariam á
intrusão de um desses monstros.
Basta ir aos bairros onde o hollandez, antigo
dono de New York, pois foi quem a comprou aos indios pela somma de 24 dollars, deixou,
como Recife, um pouco de si proprio. Washington Square com suas arvores velhas e
acolhedoras e seus sobrados de telhado vermelho dá mesmo a lembrar a nossa velha
Lingueta. Nesses sobrados vivem familias antigas, conservadoras, ainda enamoradas do
logar, como seus bisavôs. Nas aguas-furtadas e nos sotãos moram escriptores e artistas,
tambem tocados pela poesia intima do velho recanto.
Visinha á Washington Square, está a falada
Greenwich Village, que é o "quartier latin" de New York.
Á noite, seus "cabarets" e tavernas,
enxameiam de alegres rapazes e raparigas.
Desci uma noite, com um camarada, a um desses
"cabarets", e lá deixei-me ficar até tarde. Nelle a gente fingia -
crianças de vinte annos! - que estava numa cova de piratas. A sala illuminavam
fumorentas velas de cêra, em tigellinhas, e a rapaziada divertia-se de varios modos: uns
dançando, outros cantando trovas, outras tomando goles de chá com rodelas de limão, em
redor de toscas mesas de taboa, ou fumando cigarettes. Varios vestidos de piratas. Romance
sorvido das historias de Robert Louis Stewenson. Genero de vida alegre e bizarro, na
verdade, o desses foliões de Greenwich Village. Tão bizarros ás vezes e tão fóra das
convensões burguezas que praticam o amor livre. Fica, porém, para Greenwich Village, um
artigo especial, breve. Um joven sulista que alli vive há sete annos, num sotão de 13th
St., escrevendo "short stories" - genero de ficção tão querido ao
publico americano - e que, ao nome magico de um amigo comum, fez-se logo meu
camarada, prometteu tomar-me á intimidade do bairro bohemio.
Hontem subi ao minarete do Woolworth Burilding, o
mais alto dos "skyscrapers" de New York, feio e arrogante, um desafio a Deus e
ao mundo. Vêem-se de lá, em redor, os outros monstros - isto é, os outros
"skyscrapers", fumando com insolencia de "parvenus", de arrivistas, de
novatos espaventosos, os chamados negros de suas chaminés. O resto de New York, - seus
edificios, suas pontes de ferro, suas igrejas - tudo, reduzido ao tamanho de uma
cidadesinha de brinquedo, feita por menino engenhoso, com caixas de bombom e de charuto.
Philosophei: New York, uma cidade de brinquedo. Lembrou-me que V. Blasco Ibanes, chamou-a,
quando a avistou do navio, com emphase de meridional, "cidade de gigantes".
Questão de ponto de vista. Do minarete de Woolworth, por cima de quarenta andares, é na
verdade uma "cidade de brinquedo" a que nos parece a "cidade de
gigantes". Aos olhos de Deus, que mora num lugar mais alto que o minarete de
Woolworth, New York deve parecer menor ainda - talvez pouco mais que um pontinho
negro, no azul da distancia. . .
Fonte: FREYRE, Gilberto.[Impressões sobre os primeiros onze dias em New York]. Diario de Pernambuco. Recife, jan. 1921. Coluna: Da outra América.
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