Biblioteca Virtual Gilberto Freyre - voltar à página inicial
busca       galeria       mapa do site       softwares       créditos       e-mail

Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



[SOBRE UM LIVRO DA PROFESSORA MISS SCARBOROUGH]


Outro dia, num chá em casa de Miss Scarborough - auctora de um livro que é uma delicia sobre "o supernatural na ficção ingleza" conversamos de viagens e de livros de viagem. Fiz, um tanto receioso com o taça de chá a tremer entre os dedos, porque a roda era quase toda de senhoras sulistas, esta observação: o americano ainda não aprendeu a viajar e dahi serem pobres, em geral, os livros de viagem que aqui se publicam ás rumas. Porque? Borboletêa pelos hoteis e pelas ruas, á maneira facil do "touriste". Demais é ainda provincial: pensa que é inferior tudo que encontra differente do que está acostumado a vêr em "Broodway" ou em "Main Street".

Approvou-me a escriptora a observação e resumiu-me o methodo que seguirá na viagem que planeja fazer em 1922 á America do Sul, tendo em vista um livro de observações e de impressionismo litterario. "A primeira cousa é que fugirei dos hoteis e das proprias casas de pensão sempre quê for possivel. Já tenho recomendações para certa familia de Santa Fé de Bogotá, cidade da montanha, a qual subirei a trote de burro. Quero ver na intimidade, dentro de casa, no lar, os sul-americanos da alta classe. Quero sentir-lhes o espirito e as qualidades. Estas não se surprehendem, como o senhor diz, na promiscuidade das ruas e dos hoteis". Assim falou-me a professora de litteratura na Universidade de Columbia, a quem, alli mesmo, offereci a hospedagem simples da minha casa, isto é, da de meus paes, na sua passagem por Pernambuco. De uma pessoa como Miss Scarborough é de esperar o mais saboroso, o mais colorido dos livros de viagem, sem ser entretanto superficial e leviano.

Não é livro facil de fazer, o impressões de viagens. O simples artigo para jornal apresenta difficuldades á pessoa conscienciosa. A tentação de generalizar é forte. Raros, os que a ella sabem esquivar-se. Em alguns é mania, terrivel mania.

Creio que, entre nós, o exemplo mais frisante de mania generalizadora, de ligeiresa de opinião, é do Commendador Medeiros e Albuquerque. O Commendador veio aos Estados Unidos, limitou sua viagem a New York, e desta viu apenas a casaria gigante, as pontes de ferro sobre o Hudson o interior de um hotel. Talvez tenha ido a Washington, D. C., e visto o Capitolio. Com estas quatro ou cinco impressões superficiaes voltou ao Rio, e generalizou escandalosamente sobre os Estados Unidos!

Levianos como o Commendador são outros viajantes menos conspicuos. Alguns ficam-se por aqui mezes e até annos porém sempre nos ares, obstinados em viver á parte, esquivos á hospitalidade, quando esta se lhes offerecem, mal aprendendo a falar o inglez, e raro parando a um kiosque de revistas e jornaes para comprar um simples diario. Neste sentido conheço um caso interessantissimo. Parece phantazia e é pura realidade, o heroe sendo um excellente rapaz peruano, meu camarada, em Texas. Este joven cidadão informava-se do que se passava nos Estados Unidos pela leitura dos maços de jornaes de Lima, que lhe mandava regularmente o bom pápá. . . São as vezes baseados nesse systema de informação as "impressões" de certos viajantes e as generalizações que fazem.

Confessava-me outro dia um amigo, tambem hispano-americano, que antes de vir para os Estados Unidos julgava os americanos todos, dos senadores aos limpadores de rua, "unos rufiones". Acostumara-se a essa idéa desde criança. Um juizo correcto? Não, uma generalização á tôa, formulando por algum "touriste" ou jornalista do genero facil a que pertence, no Brasil, o illustre Commendador Medeiros e Albuquerque, e repetida por outros inconscientemente. A terrivel mania de generalizar! A terrivel mania de dar a um povo inteiro um rotulo ou um titulo!

Hoje a idéa do meu amigo é outra. É o reverso. Admira os americanos, dos limpadores de rua aos senadores. Admira os "policemen" das grandes cidades, esses titans com cara de criança, pela bondade com que fornecem informações ao extrangeiro que as pede gaguejando; admira os bolieiros dos carros de praça e os "chauffeurs" dos "taxi-cabs" pela presteza do seu serviço; admira os caixeiros e os empregados que nos "guichets" dos bancos, das agencias, dos theatros, nas lojas, nos logares publicos attendem rapida e cortezmente, muitas vezes até com um sorriso, a clientela gananciosa e apressada; admira os guardas da alfandega, os guardas dos museus, os guarda-nocturnos, os pretos que servem a mesa nos wagons-restaurantes e fazem as camas nos wagons-Pullman; admira... Que não admira o meu amigo? Seu enthusiasmo pelos "yankees" é tal que em vez do de "rufiones" dá-lhes a todos o rotulo de semi-deuses. É demais. É ir de um extremo ao outro. Vá lá a gente admittir, por exemplo, a semi-divindade desses divertidos maganões, os senadores de Washington!

Em viagem ou em estudo em terra extrangeira precisa o individuo guardar-se da ligeiresa de opinião, trocando-a pelo que o americano chama "earnestness" e que é a vontade de ir ao fundo das cousas. Disto o proprio americano precisa quando em viagem pelas nossas terras, especialmente si pertence, como o sr. Grawford, á profissão borboleante de jornalista, ou ahi vae como sisudo missionario, esperando encontrar a edição viva e talvez melhorada e augmentada do "Inferno", de Dante. É a "earnestness" que livra um "touriste", ao desembarcar no Caes Martins de Barros, ou no Caes Mauá no meio de catraeiros de pés no chão, homens de côr quase todos, alguns rôtos, e todos a berrar, de logo escrever a lapis no seu "carnet": "No Brazil todo o mundo é mulato, anda descalço, meio rôto e berra".

Á "earnestness" junte-se o eclectismo de opiniões moraes, disposição de lêr os proprios jornaes da terra (que é um meio de informação mais seguro e o mais rapido que seguido pelo meu camarada peruano), de misturar-se com o povo, de aprender-lhe o idioma e os habitos e termos as qualidades de que precisamos todos - que escrevemos. . . sobre "os outros". Belisquem-me os censores quando eu me afastar desses principios. O que se passa talvez, commigo, é que já me sinto tão a vontade nos Estados Unidos que seus excellentes cidadãos, em vez de "os outros", me parecem mais gente de casa. Dahi critical-os francamente, porém sempre com sympathia.



Fonte: FREYRE, Gilberto.[Sobre um livro da professora Miss Scarborough]. Diario de Pernambuco. Recife, mar. 1921. Coluna: Da outra América.

Topo
Voltar Página inicial