UM POETA PERNAMBUCANO
O Sr. Faria Neves Sobrinho mandou-me do Rio seu
novo livro. Um livro de versos: Sol Posto. Espécie de post scriptum a Pôr do
Sol.
O Sr. Faria Neves Sobrinho foi na sua mocidade um
parnasiano. Teve a obsessão de que já se chamou "frieza saxca". E seus
trabalhos dessa fase de parnasianismo dão a idéia de cadernos de exercícios na
caligrafia do verso. Tem-se a impressão de que ele os escrevia todo sério, num esforço
de colegial aplicado. Alguns deles, bonitos versos. Chegaram a entusiasmar Alfredo de
Carvalho. Alfredo de Carvalho, sem ter sido muito apurado de gosto, possuía, entretanto,
traços dessa aristocracia do espírito que primeiro distingue o talento crítico do
simplesmente criador. De sua geração ninguém praticou melhor o ofício da crítica
nesta terra de bananeiras e mamoeiros.
Mas foi em Pôr do Sol, já no outono da
vida, que o Sr. Faria Neves se revelou, numa deliciosa surpresa, poeta gentil e
espontâneo - interessante pelos refinamentos do seu sentir. Muito mais que mero
calígrafo. Poeta dos estados dalma e de paisagens que apenas servem de espelho a
estados dalma poeta na nostalgia da mocidade, triste.
Mas não dessa tristeza tão vulgar no nosso
lirismo e no português. De alguma coisa servira ao Sr. Faria Neves a caligrafia
parnasiana. A obsessão da frieza saxca. Ensinara-lhe a velar certas intimidades de
sentimento. Ensinara-lhe a só não apresentar perante o público - por mais amigo
- chorando dissabores, em lágrimas baratas e fáceis. O parnasianismo teve o mérito
de ensinar a muitos que chorar em versos é quase como arrotar numa mesa de jantar. Porque
há indivíduo que se deleitam em arrotar tristezas até pelas cervejarias. A vida foi
para eles farto jantar de tristezas; é preciso que todos os saibam. Nesta reclame tomam
um mórbido deleite. E é um prazer, o deles, muito parecido ao desses senhores gordos e
moles que arrotam sem cerimônia depois do jantar, com sinal de terem jantado bem.
O Sr. Faria Neves revela-se-nos tanto em Pôr
do Sol, como no seu post scriptum, Sol Posto, poeta triste, sentido às vezes o
que o Sr. Antero de Figueiredo, sutil psicólogo, chamou uma vez "a saudade de suas
saudades". Mas tem o bom gosto de não descer a esse vale de lágrimas que é a vida,
sem uma capa de borracha e umas botas impermeáveis.
Não se depreenda, entretanto, destes reparos,
que aos últimos trabalhos do Sr. Faria Neves falte o "leite da ternura humana".
Ao contrário, há que registrar neles muita ternura e muita espontaneidade. As vezes são
de um carinho comovedor.
Tive, certo dia, a temeridade de sujeitar à dura
prova versos do Pôr do Sol: a de lê-los a um amigo peruano que me acabara de
recitar José Asuncion Silva. Mal deixou-me o peruano que acabasse a leitura. "Tu,
amigo, de um poeta, um verdadeiro poeta!" E tomou-me das mãos a horrível brochura
em que estão reunidos os lindos versos do poeta pernambucano; queria copiar alguns no seu
caderno.
Não era então minha amizade com o Sr. Faria
Neves mais que epistolar. Pessoalmente vim a conhecê-lo depois que aqui cheguei, uma
tarde, na oficina de ourives dum amigo comum. Abracei-o com a maior simpatia - a esse
poeta carinhoso e triste; mas com o pudor da ternura e da tristeza - que é um tão
nobre pudor.
Gilberto Freyre
Fonte: FREYRE, Gilberto. Um poeta pernambucano. Diario de Pernambuco. Recife, 26 set. 1923.
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