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Assinatura de Gilberto Freyre
Artigos : Imprensa  



UM POETA PERNAMBUCANO


O Sr. Faria Neves Sobrinho mandou-me do Rio seu novo livro. Um livro de versos: Sol Posto. Espécie de post scriptum a Pôr do Sol.

O Sr. Faria Neves Sobrinho foi na sua mocidade um parnasiano. Teve a obsessão de que já se chamou "frieza saxca". E seus trabalhos dessa fase de parnasianismo dão a idéia de cadernos de exercícios na caligrafia do verso. Tem-se a impressão de que ele os escrevia todo sério, num esforço de colegial aplicado. Alguns deles, bonitos versos. Chegaram a entusiasmar Alfredo de Carvalho. Alfredo de Carvalho, sem ter sido muito apurado de gosto, possuía, entretanto, traços dessa aristocracia do espírito que primeiro distingue o talento crítico do simplesmente criador. De sua geração ninguém praticou melhor o ofício da crítica nesta terra de bananeiras e mamoeiros.

Mas foi em Pôr do Sol, já no outono da vida, que o Sr. Faria Neves se revelou, numa deliciosa surpresa, poeta gentil e espontâneo - interessante pelos refinamentos do seu sentir. Muito mais que mero calígrafo. Poeta dos estados d’alma e de paisagens que apenas servem de espelho a estados d’alma poeta na nostalgia da mocidade, triste.

Mas não dessa tristeza tão vulgar no nosso lirismo e no português. De alguma coisa servira ao Sr. Faria Neves a caligrafia parnasiana. A obsessão da frieza saxca. Ensinara-lhe a velar certas intimidades de sentimento. Ensinara-lhe a só não apresentar perante o público - por mais amigo - chorando dissabores, em lágrimas baratas e fáceis. O parnasianismo teve o mérito de ensinar a muitos que chorar em versos é quase como arrotar numa mesa de jantar. Porque há indivíduo que se deleitam em arrotar tristezas até pelas cervejarias. A vida foi para eles farto jantar de tristezas; é preciso que todos os saibam. Nesta reclame tomam um mórbido deleite. E é um prazer, o deles, muito parecido ao desses senhores gordos e moles que arrotam sem cerimônia depois do jantar, com sinal de terem jantado bem.

O Sr. Faria Neves revela-se-nos tanto em Pôr do Sol, como no seu post scriptum, Sol Posto, poeta triste, sentido às vezes o que o Sr. Antero de Figueiredo, sutil psicólogo, chamou uma vez "a saudade de suas saudades". Mas tem o bom gosto de não descer a esse vale de lágrimas que é a vida, sem uma capa de borracha e umas botas impermeáveis.

Não se depreenda, entretanto, destes reparos, que aos últimos trabalhos do Sr. Faria Neves falte o "leite da ternura humana". Ao contrário, há que registrar neles muita ternura e muita espontaneidade. As vezes são de um carinho comovedor.

Tive, certo dia, a temeridade de sujeitar à dura prova versos do Pôr do Sol: a de lê-los a um amigo peruano que me acabara de recitar José Asuncion Silva. Mal deixou-me o peruano que acabasse a leitura. "Tu, amigo, de um poeta, um verdadeiro poeta!" E tomou-me das mãos a horrível brochura em que estão reunidos os lindos versos do poeta pernambucano; queria copiar alguns no seu caderno.

Não era então minha amizade com o Sr. Faria Neves mais que epistolar. Pessoalmente vim a conhecê-lo depois que aqui cheguei, uma tarde, na oficina de ourives dum amigo comum. Abracei-o com a maior simpatia - a esse poeta carinhoso e triste; mas com o pudor da ternura e da tristeza - que é um tão nobre pudor.

Gilberto Freyre



Fonte: FREYRE, Gilberto. Um poeta pernambucano. Diario de Pernambuco. Recife, 26 set. 1923.

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