[VISITA DE ANNA SHAW A BAYLOR]
A visita de uma mulher admirável agitou Baylor, a semana passada.
O nome dessa mulher - a doutora Anna Shaw -
trouxe à capella um oceano de gente: estudantes e pessoas de fóra. Todo o mundo tinha
curiosidade de escutar a doce palavra apostolica da rival de William Jennings Bryan, o
maior orador nos Estados Unidos.
Anna Shaw tem feito de sua vida um apostolado.
Bate-se pelos direitos do seu sexo.
Aos setenta annos é ainda uma mulher de vigor.
Sua velhice rija, amável, sã, lembra a daquella outra mulher de genio, a bôa rainha
Victoria, com quem ella se parece até no physico. É uma velhice activa.
O discurso de Anna Shaw foi o melhor que ainda
ouvi desde que cheguei nos Estados Unidos. O melhor e o mais longo. Durou uma hora e
quarenta minutos póde ser um nada no Brazil. Mas nos Estados Unidos - o paiz em que
os relogios sahem dos bolsos de cinco em cinco minutos - é uma eternidade. A gente
aqui não tem paciencia para os discursos compridos. A proposito, contava-me um professor
da universidade, de um seu collega, no norte - um lettrado de eminencia - que
terminara um discurso sem ouvintes.
Cheia de confiança em si, corajosamente,
victoriosamente, Anna Shaw falou quasi duas horas. E fez esse milagre que só os genios
fazem, com as suas varinhas de condão: o de converter uma eternidade num nada. Da
primeira á ultima palavra que disse, do primeiro ao ultimo gole de agua com que molhou o
labio secco, dominou e prendeu a attenção do seu auditorio.
Naturalmente "Dr. Shaw", que é como
ella é conhecida em todo o paiz, falou sobre a causa a que tem dedicado o seu tempo e a
sua energia: os direitos da mulher. Seu argumento principal foi esse: que os Estados
Unidos não serão uma pura democracia emquanto as mulheres não votarem. "Porque é
que o homem vota? perguntou ella. Porque é homem? Não. Porque é um ser humano pensante.
Tambem o é a mulher". "A unica maneira de refutar o argumento a favor do
direito de voto das mulheres, é provar que ellas não são gente".
De vez em quando, no discurso repontava uma
graça, um bom dito chistoso que fazia a gente rir. É um caracteristico do orador
americano, o dizer graças. Talvez o único discurso que ouvi aqui sem uma graça foi uma
oração funebre. O presidente de Baylor, - orador de nota em toda a "Southland"
- é fertil em chistes e em anecdotas humoristicas. O proprio William Jennings Bryan,
que é um homem com a physionomia moral de um bom pae puritano, gosta de dizer os seus
chistes e contar as suas anecdotas. É um meio de amollecer a rigidez dos discursos
moralistas. Vê-se, que nisso, como em tudo, Anna Shaw é uma americana typica.
Sim, uma americana typica. O que ella préga é
esse americanismo que o sr. Woodrow Wilson anda a prégar aos representantes das potencias
em redor da mesa da conferencia da Paz.
O sexo a excluir a participação de metade do
povo nos negocios do paiz é uma cousa que se não concilia com o americanismo. É verdade
que, amanhã, os negros terão direito de dizer o mesmo com relação ao exclusivismo da
côr, em direitos politicos. Veremos como o americanismo, ou seja, o idealismo nacional,
revigorado pela guerra, fará face a um movimento dessa ordem.
Ao movimento em favor dos direitos da mulher esse
idealismo, essa consciencia, é favoravel. O movimento vae vencendo. Vae-se tornando uma
idéa natural a de que a mulher tem direito, como ser pensante, inteligente que é de
exercer esse dever sagrado de cidadã de uma democracia: o de votar. É o ideal de
"equalization of opportunities", em pratica, em acção.
Quando é que, no Brazil a mulher sem arrogancias
tôlas, sem bulha, reclamará fóros de cidadania? Ser cidadão não quererá dizer
negligenciar os deveres impreteriveis do sexo. Preocupar-se inteligentemente com os
negocios do seu paiz não fará a mulher menos carinhosa como mãe, menos terna como
esposa, menos diligente como dona de casa.
Fonte: FREYRE, Gilberto.[Visita de Anna Shaw à Universidade de Baylor]. Diario de Pernambuco. Recife, abr. 1919. Coluna: Da outra América.
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