A PROPÓSITO DE FRADES
Prefácio
Um livro publicado em Madrid em 1904, e intitulado Los Frailes en España, um publicista espanhol, Luis Morote, fêz-se o intérprete da opinião de grande número de seus compatriotas ao atribuir simplesmente aos frades a "decadência espanhola". Segundo ele, nada seria mais vantajoso para a Espanha do que ver-se livre dos seus frades com a mesma facilidade com que se estava desembaraçando então das suas colônias.
É justo admitir-se Ter havido por vêzes excesso prejudicial de frades na vida da Espanha, e, ainda mais, na de Portugal: frades sem vocação; frades estéreis; frades até obscenos, como os das caricaturas e os das anedotas. Mas sem que isto nos autorize a separar, do puro ponto de vista sociológico, a cultura hispânica, do frade; absurdo tão grande quanto e de separar-se o engenheiro-arquiteto, da moderna cultura anglo-americana; ou o engenheiro naval, da cultura britânica que culminou num império grandiosamente rival do romano e admirável por sua estética imperial: sobretudo pela combinação de fôrça e de elegância representada pelos seus dreadnoughts e pelos seus destroyers. Sem o frade não teria havido o esplendor de mosteiros, conventos, abadias, nem nas Espanhas nem nas suas colônias; e sem mosteiros, conventos, abadias, a arquitetura hispânica se empobreceria tanto quanto a anglo-americana sem as audácias técnicas representadas pelas pontes de aço e pelos arranha-céus dos seus engenheiros a serviço do seu capitalismo vigorosamente criador. Não só a arquitetura material das Espanhas se empobreceria sem o que nela é obra ou influência do frade: também a sua arquitetura moral, intelectual, cultural.
O próprio
Perez Galdós, tão inimigo dos frades em algumas das suas
páginas que o seu Electra tornou-se um quase breviário espanhol de
anticlericalismo, se foi quase sempre sistemático em seu combate por
vêzes injusto aos jesuítas, não deixou de reconhecer
virtudes em religiosos de outras ordens, profundamente ligadas, à vida
espanhola, como a dos agostinianos e a dos carmelitas: principalmente a virtude
de se conservarem poéticos em seu modo de ser frades, enquanto os
jesuítas se extremariam, segundo ele, em ser antipoéticos.
êsse modo antes poético que lógico, por um lado, ou
simplesmente dogmático, por outro, do frade, em particular, ou do
Católico, em geral, ser frade ou ser Católico, é
caracterìsticamente ibérico - de parte considerável
de gente ibérica: vem de Lulio; apurou-se em San Juan de la Cruz e em
Santa Teresa; chega a ser lírico em Luís de Granada;
romântico, em São Francisco Xavier e em São João de
Brito; está presente em Unamuno e na sua ânsia de imortalidade;
até Santayana foi tocado por uma espécie de religiosidade
poética em tôrno do amor do homem ao próximo, desabrochando
do amor do crente a Deus, à Virgem e aos Santos. Foi Ramon Lulio a
expressão suprema dêsse Catolicismo poético profundamente
hispânico; quixotesco, até; e de Lulio sabemos Ter sido frade
franciscano antes de se Ter tornado ermitão: ermitão
Católico na substância e maometano na forma, isto é sendo
uma espécie de trovador do cristianismo entre gentes islâmicas. Foi
para essas gentes e segundo suas formas de expressão que escreveu essa
obra-prima de literatura mística que é El Libre d Amic e d Amat.
Dêsse franciscano é que um ensaísta inglês, Havelock Ellis - que na sua mocidade muito viajou pela Espanha - destacou, em The Soul of Spain, que foi um como missionário perfeito cujos métodos de propagação da fé cristã entre populações pagãs deviam servir de exemplo tanto a Protestantes como a Católicos modernos. Pois Lull, ou Lulio, como bom franciscano, reconhecia, nos maometanos, superioridades de ciência e de virtude. Muito se empenhou pela fundação de institutos onde os missionários cristãos se preparassem para o seu trabalho entre os mouros, estudando as línguas e os costumes das gentes islâmicas antes de procurar convertê-las ao cristianismo. êle próprio foi o que fêz; aprendeu o árabe com pessoa idônea. Através da língua, inteirou-se dos sistemas filosóficos dos mouros. E no seu colégio de Miramar, na Majorca, na Majorca, esmerou-se em instruir os frades seus correligionários no estudo daquela língua e daquelas filosofias . Até que resolveu viver entre as gentes que ardeu do desejo de converter à fé cristã sem deixar de êle próprio imitar dessa gente costumes e dela assimilar artes e saberes. Morreu mártir do cristianismo entre os seus amados mouros. E hoje, beato da Igreja, da qual talvez devesse já ser santo, o túmulo dêsse frade na igreja dos franciscanos de Palma representa a recordação de um Dom Quijote que o inventado por Cervantes, porque foi um Don Quixotes em seu modo de ser frades. O que não significa que outros tantos frades não tenham sido Sanchos; e vários, uma mistura, aliás saudável, dos dois extremos.
Quixotes foram decerto vários dos frades que das Espanhas se espalharam pelos trópicos; mas nem todos. Além do que, raros terão sido totalmente Quixotes: a disciplina dos conventos obrigava-os a estudos; e o estudo quase sempre é prudência, método, organização. Dentro de Portugal mesmo, os frades de Alcobaça se fizeram notar como agricultores métodicos. O mesmo fizeram os jesuítas no Brasil: suas plantações chegaram a ser modelos de organização agrária. Os beneditinos dedicaram-se no Rio de Janeiro ainda colonial a experimentos científicos com escravos, cruzando negros com cafusos e negros com mulatos, para chegarem a resultados de interêsse social. E o professor Lewis Hanke já mostrou, em livro publicado em 1935 pela Universidade de Harvard - The First Social Experiments in America,- que o primeiro inquérito em tôrno da inteligência e das aptidões de ameríndios, executaram-no, por ordem de Madrid, frades espanhóis, muito antes que na América Inglesa começassem a florescer universidades; e que dentro dessas universidades se esboçasse qualquer comêço de antropologia experimental.
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Resumo neste livro um grupo de trabalhos que, escritos, de pontos de vista diversos, têm sido de comum : referirem-se todos a frades ou a religiosos e à sua presença, quer nas atividades européias de indagação filosófica e de pesquisa científica das quais resultaria a expansão da Europa em áreas tropicais, quer nas atividades ainda européias ou já eurotropicais nestas mesmas áreas - especialmente no Brasil - depois de conquistadas, por espanhóis e portuguêses, terras americanas e no sentido de aqui desenvolver-se um novo tipo de civilização predominantemente cristã em seus motivos de vida e em suas normas de convivência. Convivências de europeus com não-europeus, de ricos com pobres, de letrados com iletrados.
A
presença franciscana em tais atividades se fêz sentir
principalmente através de uma filosofia - a nominalista -
inspiradoras de indagações e de experimentos científicos e
desenvolvida, desde anos remotos, em Oxford e em Paris, por frades de
São Francisco que foram também, além de homens bons,
grandes mestres ou doutôres: tão grandes que a influência das
suas idéias transbordou da época em que atuaram em universidades e
em claustros para se prolongar por outras épocas e noutros centros de
estudo e de ação, numa verdadeira sucessão de ondas
renovadoras do pensamento e da cultura dos europeus e de cristãos.
Capuchos e capuchinhos participaram dos primeiros esforços não
só hispânicos como franceses, de cristianização dos
indigenas do Brasil, comunicando ideais e idéias franciscanas e a
êsses esforços, por vêzes heróicos, de
missionários que não tiveram, entretanto, quem lhes registrasse
os feitos nesta parte da América com o método ou com a
minúcia com que os jesuítas sàbiamente cuidaram de anotar,
êles, suas iniciativas e de fixar, em crônicas e cartas, suas
realizações. Talvez porque em cada franciscano, capucho ou
capuchinho, houvesse, além de um romântico - o ramantismo que
parece Ter se estremado em Thevet, quando o bom do frade se viu em contacto com
o trópico - um religioso com alguma coisa de frei José, de
"Eminence grise". Sabe-se, com efeito, que pelo menos um dos frades
capuchinhos que vieram da França para o Brasil no século XVII
- o François de Bourdemare, que publicou em Madrid, em 1617, um
hoje desconhecido Relatio de populis Brasiliensibus - chegou a desempenhar
missão importante por imcubência do próprio frei José
: da própria "Eminence grise". Portanto missão parece
que secreta, de quem se afirma hoje Ter pretendido acabar com as heresias da sua
época, em vigor na Europa, pela doçura, pela
persuação e - sendo necessário - pelo
subôrno. Foi pelo menos o que escreveu, no fim do século passado,
M. G. Fagmez, em livro sôbre aquêle famoso franciscano, lembrando e
citado por Gabriel Marcel no trabalho que publicou em 1908 no Journal de la
Société des Americanistes de Paris sôbre "Le
Père Yves d’Evreux". A d’Evreux atribui Marcel, nesse
ensaio, além de "dons de apóstolo", os de
"observador exato e preciso ": as qualidades que parecem Ter faltado
àquele outro frade - o francês frei André Thevet
- que escreveu sôbre o Brasil dos primeiros tempos coloniais
páginas que nem por isso deixam de ser ricas de sugestões; e de
gozar da estima de modernos antropólogos pelo que nelas há de
frescura e de candura; de negação mesmo, de malicia ou de
astúcia.
Tendo ocorrido em 1956 e em 1957 duas comemorações de remotas iniciativas franciscanas no Brasil - a fundação, há três séculos e meio, de um convento: o do Recife - e a restauração, há três séculos, de uma Província: a Província franciscana do Norte do Brasil, estendida da Bahia ao extremo Norte e, até então, administrada de Portugal - foram êsses dois anos assinalados pelo aparecimento, entre nós, de alguns ensaios e pela realização de várias conferências sôbre temas franciscanos. Conferências, algumas delas, memoráveis: a do professor Luís Delgado, em Olinda, em frente ao convento dos frades de São Francisco, por exemplo; a do Reitor Pedro Calmon, na Capital da Bahia, no cláustro dos seráficos. Entre essas conferências e êsses ensaios é que apareceram alguns dos trabalhos, aliás modestos e, quando muito, sugestivos, reunidos agora neste livro; e contemplados por ensaios mais recentes do autor, em tôrno de assuntos monásticos: ensaios inéditos.
A conferência proferida no Recife em 1957 pelo sábio jurista-sociólogo que é mestre Pontes de Miranda, deu àquelas comemorações extraordinário relêvo ;e não resisto à vaidade de recordar, neste breve prefácio, ter mestre Pontes de Miranda escrito aquêle seu inesperado trabalho sôbre franciscanismo - tema aparentemente fora das suas preocupações e dos seus estudos - por sugestão ou insistência minha. Nem ao gôsto, também vaidoso, de destacar que, em vários pontos, as idéias que venho esboçando em tôrno da influência franciscana naquelas atividades européias, de que resultaram as modernas civilizações por mim denominadas hispanos-tropicais, coincidem com as do insigne jurista-sociólogo, para quem é considerável a importância que se deve atribuir à influência nominalista sôbre a cultura européia em geral: inclusive sôbre o desenvolvimento do Direito na Inglaterra. Um desenvolvimento que teria se operado, em parte, sob sugestões ou perspectivas principalmente nominalistas.
Influências de frades, cuja simplicidade de vida nunca significou simplismo de idéias, a influência franciscana não deve ser esquecida no momento em que os religiosos de São Francisco comemoram, no Brasil, aquelas duas datas. Marcando acontecimentos significativos na história da Igreja no nosso país, são datas que marcam também acontecimentos importantes no desenvolvimento da cultura brasileira. Particularmente na parte do Brasil - a setentrional - cuja cultura tem irradiado dêsses dois velhos centros de estudos e de ação, hoje universitários, outrora monacais, no modo de exercerem sua atividade intelectual e sua influência educativa: o Recife e Salvador da Bahia. Tão monacais que a Faculdade de Direito do Recife - núcleo da Universidade - nasceu num convento de Olinda; e a Faculdade de Medicina da Bahia ainda hoje tem sua sede num quase canônico Terreiro de Jesus, enobrecido pela ciência dos médicos depois de Ter sido ilustrado pelo saber dos clérigos.
Santo Antonio de Apipucos, 1958
Fonte: FREYRE, Gilberto. A Propósito de frades: sugestões em torno da influência de religiosos de São Francisco e de outras ordens sobre o desenvolvimento de modernas civilizações cristãs, especialmente das hispânicas nos trópicos. Salvador: Aguiar & Souza, 1959. 190p.
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