UM ENGENHEIRO FRANCÊS NO BRASIL
Prefácio
O Ms do diario intimo de Louis Léger Vauthier, contendo observações tão interessantes sobre o Brasil, em geral, e, em particular, sobre factos acontecidos durante os seis annos de residencia em Pernambuco como engenheiro e, por algum tempo, chefe da Repartição de Obras Publicas, foi adquirido em Paris pelo escriptor Paulo Prado, meu bom amigo, de quem o recebi como amavel lembrança. Traduzido esmeradamente do francês por pessoa tambem amiga, que teve a pachorra de decifrar a letra muida e terrivel, mais de medico do que de engenheiro, do ex-aluno da Escola Polytechnica de Paris, é agora publicado em português pelo Serviço do Patrimonio Historico e Artistico Nacional, empenhado, sob a direcção do sr. Rodrigo Mello Franco de Andrade, numa obra intelligente de affirmação da cultura brasileira pelo melhor estudo do nosso passado, e não pela simples exaltação de reliquias gloriosas ou sentimentaes.
O diario do engenheiro francês interessa particularmente á historia da architectura, da arte de construcção civil e da administração de obras publicas em nosso país.
É, ao mesmo tempo, um depoimento sobre a vida brasileira na primeira metade do seculo passado, a que não falta a sinceridade, o calor humano, a nota confidencial e até indiscreta dos bons diarios - a ponto de ter sido necessario deixar sob iniciaes varios nomes de pessoas.
É material novo e bom para o estudo da nossa vida naquelle periodo, observada em alguns dos seus aspectos mais caracteristicos por um estrangeiro illustre que deixou o seu nome ligado a obras importantes e a iniciativas notaveis na historia do progresso material e do desenvolvimento technico do Brasil.
Tornava-se necessario, entretanto, esboçar deante do leitor do diario do engenheiro francês, sua figura de technico, sua actividade, em nosso país, de administrador, de homem de espirito publico e de senso politico - que tudo isso foi Vauthier, e não apenas o architecto do primeiro Theatro Santa Isabel do Recife, cujo plano, cujas bases e cujo material mais nobre o segundo conservaria na sua remodelação. O segundo, isto é, o de hoje: o Santa Isabel das companhias italianas do melhor tempo de Pedro II, dos namoros de viscondessas pallidas com barões galanteadores, dos grandes discursos de Joaquim Nabuco. O Santa Isabel onde "se venceu a Campanha da Abolição".
Esboçar a figura de Vauthier, tal como ella ficou ligada ao meio brasileiro e á historia da actuação, sobre esse meio, na primeira metade do seculo XIX, da technica, do commercio, da industria e de outros elementos franceses de cultura, será o fim do ensaio que se segue. Uma contribuição para o estudo da influencia francesa no Brasil.
Encarregara-me, por suggestão do director do Serviço do Patrimonio Historico e Artistico Nacional, de escrever para o diario de Vauthier as notas que fossem precisas para esclarecer a actividade do engenheiro francês nos seus seis annos de Brasil. Actividade de que os lançamentos no caderno intimo soa o reflexo, mas não a historia. Esta teria que ser feita sobre outras evidencias da acção de Vauthier. E haveria, por força de transbordar daquellas notas, como transbordou. A publicação do diario intimo teria de ser completada pelo que resultasse do estudo em documentos, em papeis officiaes e principalmente nos diarios publicos da epoca - diarios em que o nome do illustre francês tomou por vezes o relevo de um nome de politico, festejado por uns e combatido por grande numero - de traços daquella personalidade inquieta e da sua acção, ás vezes inquietante, de innovador. Dahi este volume, ao lado do que acaba de publicar o Serviço do Patrimonio Historico e Artistico do Ministerio da Educação e Saúde: Diario intimo do engenheiro Vauthier ( 1840-1846).
Menos interessado no estudo puramente historico de factos que no historico-social e, quanto possivel, sociologico, de processos, na tentativa de reconstituição da figura de Vauthier, tal como ella se projectou sobre o meio brasileiro, procurei ver principalmente o que essa actuação teve de caracteristico da influencia de uma cultura nitida, definida, adeantada - no caso, a francesa dos principios do seculo XIX considerada de preferencia nos seus aspectos menos grandiosos e mais quotidianos - sobre uma cultura incipiente e ainda verde: a brasileira da mesma epoca, igualmente considerada de preferencia naquelles aspectos menos illustres. Dahi a larga utilização feita dos annuncios de jornaes do Brasil em geral e do meio que soffreu a actuação mais intensa de Vauthier, em particular durante os annos da sua residencia em nosso país e um pouco antes: em alguns casos, desde a abertura dos portos do Brasil aos estrangeiros. Mas principalmente durante o reinado de Pedro I e o periodo da Regencia. Os jornais foram tambem estudados na sua parte editorial, por onde e encontram igualmente traços caracteristicos da personalidade e da acção do engenheiro francês e de outros "agentes technicos" da França no Brasil daquella epoca.
Outro material utilizado largamente para o presente estudo foram os Mss de officios relativos a orçamentos de projectos de obra e outros papeis burocraticos e technicos que restam da actividade de Vauthier pelos archivos brasileiros. Principalmente no Archivo Publico do Estado de Pernambuco, no da Repartição - hoje Secretaria - de Viação e Obras Publicas, do mesmo Estado, na secção de Mss da Bibliotheca Publica e na do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, conservada pelo zelo do sr. Mario Mello. Nesse trabalho, sempre penoso mas, noutros países, abrandado por facilidades que raramente se tem a felicidade de encontrar no Brasil, tivemos de enfrentar, eu e meu auxiliar de pesquisas Diogo de Mello Menezes, obstaculos serios. A principio foi-nos negado o accesso ao Archivo Publico de Estado de Pernambuco sob a allegação de que ali nada existia a respeito de franceses. Foi preciso que houvesse uma mudança radical de governo para termos o accesso áquelle archivo. No archivo da Secretaria de Viação e Obras Publicas o nosso estudo cercado de embaraços taes, que não houve jeito, a certa altura senão abandoná-lo, sem o exame das plantas e mappas de Vauthier e dos engenheiros franceses seus collaboradores. Plantas e mappas que apodrecem em rolos e em albuns, sem que os pesquisadores empenhados em investigações que interessam á cultura nacional possam estudá-los ou sequer tocar nelles com a ponta do dedo. Allega-se que não estão em ordem; que não estão isso; que não estão aquillo. Mil e um disfarces para o que talvez não seja senão pouca vontade - ou nenhuma - de servir o proximo. Sobretudo quando, por este ou aquelle motivo, não se gosta do proximo.
Felizmente se
encontram pelos archivos e bibliothecas de provincia deste vasto Brasil, nosso e
do bom Deus, empregados modestos e até de alguma categoria, que
são uns santo-antonios, em contraste com os outros: bons e prestaveis. A
estes, deixo aqui, como da vezes passadas, meus agradecimentos. Mas é
preciso que se saiba no Rio, em São Paulo, na Bahia, no Rio Grande do Sul
- onde nos archivos o pesquisador idoneo é já tratado com o
espirito de collaboração a que tem direito, e não como um
inimigo das almas e principalmente de determinadas instituições,
um terrivel inimigo á procura de documentos que possam comprometter ou
pôr em perigo as pobrezinhas, ou - peor ainda - querendo
anteceder-se, na analyse de certos assumptos, a algum literato semi-official
encatarrhado, mas sempre com projectos de "obra notavel" sob
"elevado criterio philosophico"—que nem todo o Norte é
aquelle "país de Cocagne" para os gulosos de documentos, de
ineditos, de Mss, imaginado, num momento de ingenuidade surprehendente, pelo sr.
Agrippino Grieco. Em Pernambuco, como noutros Estados do Norte, a colheita de
dados em archivos publicos, ecclesiasticos e particulares é ao contrario,
difficilima. Muito mais difficil do que no Sul. Obstaculos enormes, resistencias
manhosas, mesquinharias, intolerancias, reflexos de partidarismo politico ou de
sectarismo religioso, se interpõem entre o investigador e o material que
noutro país estaria tranquillamente á disposição de
qualquer pessoa idonea, e nunca reduzido a papeis particulares dos bachareis ou
engenheiros seraphica e esterilmente installados em chefias burocraticas.
Entretanto, em quanto isto se passa, não só cupim como o que bem
quer dos archivos, como documentos e mappas raros desapparecem das
repartições publicas.
Parece-me que seria de toda a conveniencia - e neste sentido appello para o presidente Getulio Vargas - que o Ministerio da Educação, pelo seu Serviço do Patrimonio Historico e Artistico Nacional, fizesse sentir sua acção em Estados como o de Pernambuco - o da Parahyba acaba de tomar a esse respeito attitude mais intelligente - para salvar o que ainda resta dos estudos, projectos e plantas, não só de engenheiros estrangeiros como Vauthier e dos "agentes technicos" seus collaboradores, como de brasileiros, educados na Europa, homens do typo dos dois Mamedes, grandes technicos e administradores cuja obra deve ser conhecida de tal modo interessa á historia da administração de serviços publicos em nosso país e ao estudo de outros aspectos do nosso desenvolvimento social e de cultura. Que seja, quanto antes, catalogado tão valioso espolio e publicada, sob direcção competente - no caso, me parece, a do Serviço do Patrimonio - a parte mais interessante.
Não é pouco o que já se tem perdido em Pernambuco, em Alagoas, na Parahyba, em Sergipe, na Bahia, no Maranhão, de archivos publicos, ecclesiasticos e de familia, com material interessantissimo para a historia social e administrativa do Brasil. Basta recordar o fim melancolico da livraria e do archivo do Mosteiro dos Benedictinos de Olinda, "vasto repositorio - diz o velho Pereira da Costa - de documentos historicos da nossa vida colonial, tão frequentemente citados por nosso chronistas"... Enquanto portugueses e luso-brasileiros, os bons padres de São Bento guardaram com grande carinho documentos e papeis velhos: o proprio Foral de Olinda lá é que foi encontrado depois da Restauração. Mas essa tradição perdeu-se sob os padres estrangeiros. E é com extremos de paciencia, não sei se diga benedictina, que o digno director da Bibliotheca Publica do Estado de Pernambuco, sr. Olympio Costa, vem preparando para publicação, com o auxilio do abbade D. Bonifacio, os restos de Mss da chronica do illustre Mosteiro.
Sem cuidados especiaes, inspirados no amor pelo passado luso-brasileiro do país, como esperar que os livros e papeis antigos resistam á umidade, á traça, ao cupim do Brasil tropical? Deixados á sua sorte, elles se esfarelam de podres. Ou acabam como o archivo do Convento de Santo Antonio, do Recife, do qual em 1876 os frades - ao que parece impacientes deante da acção vagarosa do tempo e dos bichos - queimaram, no quintal, grande parte. Essas fogueiras no quintal, de papeis e livros preciosos, teem sido communs no Brasil: não só no quintaes de conventos como principalmente nos das casas particulares e até das repartições publicas.
Tambem me foi possivel consultar o archivo da familia Vauthier, na França, através de reproducções photographicas de documentos que o sr. Affonso Arinos de Mello Franco teve a amabilidade de me trazer de Paris, juntamente com o retrato do engenheiro francês. Se os documentos colhidos na França adeantam pouco sobre as actividades tecnicas de Vauthier no Brasil - pois os melhores delles se referem aos seus estudos, sempre brilhantes, em escolas francesas, ao seu casamento, ás suas relações com brasileiros depois da sua volta á França - não deixam de ter interesse. Alguns vão reproduzidos no presente estudo. Quanto ao Archivo do Instituto Historico do Rio de Janeiro, ainda menos conserva sobre Vauthier, sobre as suas actividades technicas em nosso país, apesar do engenheiro francês ter sido membro da respeitavel associação, tão em evidencia no tempo de Pedro II. Interesse maior é o que offerece a collecção da Revue Générale d’Architecture, de Paris, onde appareceram varios artigos e cartas de Vauthier sobre problemas de construcção no Brasil, revista que me foi gentilmente indicada pelo director do Serviço do Patrimonio Historico e Artistico Nacional.
Agradeço ao sr. Honorio Rodrigues a pesquisa que, a meu pedido, realizou no archivo do Instituto Historico do Rio de Janeiro, e ao sr. Max Fleiuss, as attenções que mais uma vez me dispensou. Ao meu amigo Aurelio Buarque de Hollanda, meus agradecimentos pelo trabalho de revisão deste ensaio.
Devo lembrar ao leitor, a esta altura, que na copia e transcripção de annuncios ou trechos de annuncios de jornaes, de cartas, officios e outros documentos, o criterio adoptado foi o de respeitar sempre o original. Dentro desse criterio foi tambem respeitada a graphia abrasileirada de certos nomes de pessoas, ingleses e alemães.
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O estudo sobre o processo de influencia de uma cultura sobre outra, através de agentes technicos - "agentes technicos" : a expressão é do proprio Vauthier - e de outros agentes de cultura material e immaterial, tentado neste trabalho, tem por centro, ou ponto de apoio historico, a figura de um engenheiro francês no Brasil, estabelecido em Pernambuco de 1840 a 1846. Os limites de tempo e de espaço criando peculiaridades, não parecem prejudicar o que o caso historico do contacto de Vauthier com o Brasil apresenta de geral, de caracteristico, de typico, e por conseguinte de susceptivel de tratamento sociologico. Tanto mais quanto se procurou fazer o estudo historico, estendendo-o a outros pontos de Imperio sensiveis ás mesmas influencias da cultura européa que agiram sobre Pernambuco. Particularmente a influencia francesa.
O methodo seguido foi o historico-social de procurar destacar as repetições, ou, melhor, as recorrencias, ou as regularidades, de significação sociologia. E estas, quanto mais intensamente estudadas numa região, melhor.
Quanto ás primeiras paginas do ensaio que se segue, sobre antecedentes de acção da cultura e principalmente da technica francesa sobre o Brasil - acção que se accentuou naquella epoca, vindo entretanto de longe, da madrugada mesma da nossa vida colonial - dellas se procurou destacar apenas um ou outro traço de influencia mais quotidiana e menos grandiosa: por conseguinte de interesse menos historico no sentido convencional da palavra historia; e mais social.
A Missão Artística de 1818 estaria mais do lado do grandioso que do lado quotidiano; mas tambem deste. Se apenas me refiro a ella, é que o seu estudo está feito magistralmente pelo sr. Affonso de E. Taunay no seu A Missão Artística de 1816 (Rio de Janeiro, de 1912). O mesmo não ouso dizer da missão que teria trazido ao Brasil o conde de Pontécoulant; tratar da fuga, para o nosso país, de Napoleão Bonaparte, então prisioneiro dos ingleses em Santa Helena. Episodio romantico - aliás já estudado por um mestre de pesquisa historica em nosso país, desordenado mais diligente: o velho Pereira da Costa - quase nenhum interesse offerece para o estudo do contacto da cultura francesa com a brasileira, considerado nos seus aspectos mais caracteristico.
A alta cultura francesa - a arte, a literatura, a sciencia,, a philosophia - ninguém ignora que tem produzido no Brasil exaggeros de francesismo. Mas sem ella algumas das melhores obras brasileiras não teriam sido escriptas nem teriam se realizado algumas das nossas maiores vocações de artistas e de homens de sciencia. Basta que se recorde, dentre os ultimos, o caso do inventor Santos Dumont.
Há quem só saiba exaltar as vantagens do maior contacto, na verdade desejavel, da intelligencia brasileira com a cultura alemã, procurando ingenuamente diminuir e até negar as virtudes da cultura francesa ou da inglesa, da espanhola ou da norte-americana. Mas principalmente da francesa. Tobias Barreto não soube exercer seu apostolado germanizante sem extremar-se em inimigo da arte, da sciencia e das letras francesas. O exemplo do eloquente "teuto-sergipano" tem tido seguidores lamentaveis. Há hoje quem faça questão de só citar autores alemães - ás vezes lidos primeiro em confortaveis traducções espanholas; e em geral taes exclusivista se excedem numa pedanteria de erudição que talvez se abrandasse a um contacto mais intimo com as letras francesas, tão boas mestras de discrição, de sobriedade, de equilibro, e não apenas de nitidez de expressão, de clareza de idéas, de lucidez na analyse dos problemas. O facto é que dos devotos brasileiro da erudição germanica, raramente se tem visto obra que nos faça pensar nas vantagens do exclusivismo em que elles se requintam, num desprezo pela cultura francesa que está longe de ser a attitude dos melhores intellectuaes alemães de hoje, para não falar nos de outrora.
No ensaio que se segue - diga-se, ainda uma vez, para conclusão deste prefacio - não é tanto da alta cultura francesa - cujas virtude são tão claras - que se apresentam traços ou evidencias de actuação sobre o Brasil, mas da technica, da industria, da arte commercial. Embora Vauthier, e depois delle Gorceux, Fournier, Dombre, Beringer e outros engenheiros ligados á modernização de vida brasileira no seculo XIX, tenham sido entre nós não só "agentes technicos", mas tambem representantes da cultura francesa em alguns dos seus aspectos ideologicos e estheticos mais puros, o que se procura destacar, nas paginas seguintes, é principalmente a influencia, sobre o Brasil da primeira metade do seculo XIX, da technica e dos technicos franceses. Mesmo dos menos espirituaes desses technicos, como os cozinheiros e os padeiros. Elles tambem diffundem cultura e modificam paisagens sociaes.
Uma ultima palavra: sei que devo pedir aos criticos mais exigentes - principalmente os estrangeiros - desculpas de me valer, nos meus trabalhos de historia e anthropologia sociaes, de archivos officiaes, ecclesiasticos e particulares do Norte do Brasil, cujo material nem está classificado ou posto em ordem, nem sequer a salvo de deterioração ou extravio; e muito menos em condições de ser facilmente consultado ratificado, verificado e esmiuçado por outros pesquisadores. Que os rigoristas tenham paciencia e comprehendam a situação. Sou o primeiro a lamentar que elles difficilmente possam assumir outra attitude deante de trabalhos baseados em material tão escorregadio e tão sujeito a desapparecer da noite para o dia, senão esta: ter ou não ter fé na honestidade do investigador.
Quanto ao caracter regional deste estudo, que se veja nelle menos o reflexo do bairrismo de que tenho sido accusado com alguma razão e muita leviandade, que uma preferencia por um methodo scientifico de analyse historica e anthropologica que não me parece invalidar a possivel universalidade das possiveis conclusões dos estudos apenas dar-lhe base mais firmemente scientifica. é, de resto, uma especialização moderna do methodo casuistico empregado há tanto tempo - e com tamanho successo - pelos mestres magnificos de analyse não só dos motivos como dos actos humanos que foram sempre os padres jesuitas.
Alguns criticos podem querer ir além nas suas restricções ao methodo do autor deste trabalho; e insistir em que seus estudos não teem senão um interesse muito limitado : "pernambucano" ou, quando muito, "nordestino", "nortista", "brasileiro". O que é certo, certissimo até. Mas não em consequencia do methodo, e sim da debilidade de quem o põe em pratica ineptamente. O methodo, nos seus traços geraes, é hoje o seguido em toda a parte onde os estudos de anthoropologia historia sociaes, e os de sociologia genetica, veem se desenvolvendo scientificamente. Desenvolvimento que, convem não esquecer, é qualquer coisa de diverso do scientificismo sociologio: o peor dos scientificismos.
Se áquelle methodo, hoje victorioso, alguns trabalhos recentes de historia e anthoropologia sociaes emprehendidos no Brasil teem accrescentado alguma coisa de novo, a ponto de um delles - uma tentativa de caracterização anthropologico-social dos escravos negros no Brasil através dos annuncios de jornaes do tempo do Imperio - ter tido esse seu aspecto salientado por criticos estrangeiros conhecidos e competentes, tal originalidade não é em opposição ao que o methodo offerece de essencial, mas uma especialização, uma intensificação, um alongamento um tanto audacioso do mesmo methodo. Para esse fim, foi utilizado um material regional pela primeira vez aproveitado sociologicamente - ou anthropologicamente - nas suas recorrencias, nas suas regularidades, nas suas constantes. O autor poderia recordar com alguma vaidade que certas de suas especializações, com material concentradamente "brasileiro", "nordestino", "pernambucano", ou "recifense", do methodo regional de analyse historico-social e anthropologica, teem sido utilizadas, ou vão sendo aproveitadas, em areas as mais distantes da antiga area açucareira do Brasil e por pesquisadores estrangeiros ou mais alheios a essa area, com resultados interessante de confirmação e retificação de conclusões pela primeira vez alcançadas ou, pelo menos, esboçadas, entre nós. Portanto, com possibilidades de universalização vagarosa porém segura.
Rio - 1939
Gilberto Freyre
Fonte: FREYRE, Gilberto. Um Engenheiro francês no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1940. 218p. (Documentos Brasileiros, 26).
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