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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados em Outros Países  



CASA-GRANDE E SENZALA
Tradução do prefácio de Ricardo Sáenz Hayes

Gilberto Freyre e a formação Social Brasileira


I. Redescobrimento da Argentina e do Brasil em suas relações intelectuais

Não será redundância lembrar que os valores genuínos da literatura brasileira sempre foram louvados na República Argentina. Os viajantes de tempos perigosos, os proscritos da tirania que se estabeleceram no Brasil, oásis de paz laboriosa sob o Império liberal de Dom Pedro II, familiarizaram-se com os poetas, escritores e homens de ciência que freqüentavam os saraus do rei filósofo na torre palaciana de São Cristóvão. Esses compatriotas, expulsos pelo infortúnio da pátria órfã de liberdade, souberam de Antônio Gonçalves Dias, nativista por excelência e sublimador do índio, e em cujas veias ferviam os três sangues: do português colonizador, do lânguido indígena e do negro fiel e profícuo. Escutaram a palavra eloqüente do pregador Mont’Alverne, "arrebatado, sonoro e vazio" .

Enalteceram as traduções de Homero e Virgílio, produtos do apurado classicismo de Odorico Mendes, e admiraram, como bons românticos, a torrente de imagens com que Porto Alegre deslumbra e fatiga em seu poema Colombo . Conheceram, enfim, muito de perto, Domingo José Gonçalves de Magalhães, Visconde de Araguaia, que mais tarde veriam em Buenos Aires como ministro do Império.

De outras maneiras demonstramos nossa curiosidade pelo que perdura no tempo como fruto sutil da inteligência. Conhecemos algo além do sol de fogo, ingenuamente evocado como traço proeminente numa décima infantil, a gigantesca palmeira e o aromático café. A prova disso está nas traduções, feitas desde cedo, de Inocência, o romance do pulcro Visconde de Taunay; de Dom Casmurro, cálice amargo que contém o pessimismo irônico de Machado de Assis; e de O Mulato, de Aluízio Azevedo, talvez o primeiro e mais bem escrito dos romances brasileiros de corte naturalista. Graças a essa providencial facilidade que oferecem as línguas irmãs, não foi necessário um a rigorosa tradução para que fossem lidas no Rio da Prata as Histórias da Literatura Brasileira, de Sylvio Romero e José Veríssimo, e, mais recentemente, a de Ronald de Carvalho; ou para que degustássemos as deliciosas páginas de Minha Formação, nas quais Joaquim Nabuco ostenta, ao mesmo tempo, a arte de sua prosa e a orientação européia de seu espírito.

Embora geralmente pouco lembrado, não hei de esquecer o nome de Martín García Mérou, diplomata, viajante e homem de letras argentino. Seu livro El Brasil Intelectual é difícil de se encontrar, mesmo nas casas de leilão. Como explicar esta negligência ? García Mérou, espírito culto e perspicaz, era, por natureza, um catador de novos valores. A vida errante de diplomata facilitou-lhe essa predisposição. Mas, o que lhe conferia algo de jornalista era a urgência em revelar suas explorações bibliográficas num estilo solto, ágil, claro, bom para a compreensão do maior número de leitores. García Mérou é o mais qualificado comentarista da literatura brasileira na Argentina. é ele quem pergunta, em tom de assombro, em 1900 :

"E para falar dos homens da nova geração, quem suspeita sequer da existência de artistas distintos, de poetas refinados e pensadores eminentes, como Eduardo Prado, Coelho Netto, Raul Pompéia, Affonso Celso, Lúcio de Mendonça, Raymundo Corrêa, Olavo Bilac, Aluízio Azevedo, Medeiros e Albuquerque, Rodrigo Octávio, Fontoura Xavier e tantos outros ... ?"

Se García Mérou houvesse buscado um pouco mais no passado histórico da Argentina e do Brasil, teria descoberto o paralelismo conceitual existente nas duas nações quando concebem a independência política e econômica. Mas, o que o crítico literário não vê, talvez por não ser sua função específica, o pesquisador metódico exuma como venturosa descoberta. é Ricardo Levene quem apresenta, de modo insuspeitável na irmandade de pensamento, duas figuras extraordinárias: Mariano Moreno e José da Silva Lisboa, Visconde de Cairu, "economista e jurisconsulto, que traduz para o português, redige um prólogo magistral e publica no Rio de Janeiro, no mesmo ano que em Buenos Aires, a famosa Representación de los Hacendados y Labradores, para continuar fazendo, com esse texto, a campanha contra os monopolistas portugueses que pretendiam convencer João VI quanto à conveniência de fechar os portos".

Muito já percorremos e já compreendemos desde aqueles anos que a diligente cortesia de García Mérou considerou de escuridão recíproca. Hoje, ninguém afirmaria com exatidão que a Argentina e o Brasil se ignoram de modo absoluto. Os homens políticos estão no caminho da intensificação das relações econômicas entre ambas as nações, e por trás das sacas de café e de trigo, passarão os livros e as obras de arte que identificam os povos como civilizados. Quem pode desejar com prazer o destino de Cartago ? As viagens contribuem na empresa de melhorar o conhecimento dos vizinhos. Já não se concebe o governante sedentário que só conhece o horizonte de sua pátria. Viajar é educar-se, polir-se, aperfeiçoar-se. "Deve-se viajar para conhecer o espírito e os costumes dos países que se percorrem para roçar e polir o nosso cérebro com os demais".

Quantos erros não teriam sido evitados com o hábito de sair dos nativos domínios e partir em busca de alheias sugestões ? Os vínculos com o amigo serão mais fecundos, e mais prudente o trato com aqueles que, lamentavelmente, não nos queiram tanto bem...

O Brasil e a Argentina tendem a descobrir as próprias virtudes de raça e suas possibilidades futuras, graças a esse irresistível chamado que impele as levas de peregrinos curiosos por ar, mar e terra. O turismo é diplomacia prática, espontânea, sem protocolo nem prevenções. Complementa a obra da diplomacia oficial e, em certos casos, retifica-a quando aquela se inspira em preconceitos de política menor. Não é de todo ingênua a crença de que as guerras seriam menos freqüentes se os povos pudessem aproximar-se e olhar-se no íntimo, sem os intermediários que semeiam a discórdia. Some-se a isso a outra corrente pacificadora: a cultural. A esta corresponde o intercâmbio dos produtos sagrados da inteligência, com os quais a vida material se dignifica e embeleza. As letras, as artes e as ciências elevam a condição do homem, libertam-no de sua origem servil e do império das forças desprovidas de espiritualidade. Por isso, não conhecem fronteiras, e é crime de lesa sabedoria impor-lhes abismos que dificultem sua generosa difusão.

Alvissareiro é o fato de que livros argentinos estejam nas principais livrarias do Rio, São Paulo e Belo Horizonte – comprovei-o com o amor próprio em júbilo -, ao mesmo tempo em que os brasileiros encontram-se nas nossas, e ostentam nomes de pensadores que apregoam, como o de Gilberto Freyre, a cultura do Brasil moderno. é muito o que expressa, a meu ver, a obra, até hoje capital, do sociólogo do Recife, Casa-Grande & Senzala. Quando nos propomos a meditar sobre as condições especiais por que passa o mundo, é de admirar o valor moral que se requer para levar a cabo semelhante esforço. Tudo foi revolvido, e continua sendo abalado de alto abaixo, como nos tremores sísmicos. A liberdade costuma ser tida como palavra obscena, que não é prudente repetir demais, e a tolerância volta a ser definida como "uma fraqueza ou eunuquismo de entendimento. Deixando de lado a terminologia credenciada pelo liberalismo, o homem é normal e naturalmente intolerante. No terreno da política, não suporta discrepâncias de fundo ou de forma, e exige que estejamos a favor ou contra o princípio que defende. A fé tampouco admite exame. Para São Tomás de Aquino, é mais grave corromper a fé, a vida da alma, "do que alterar o valor da moeda com que se provê o sustento do corpo". No que diz respeito aos problemas postos pela filosofia, a confusão e a desordem se exacerbam: as verdades parciais transformam-se em verdades absolutas; a luz de um, em treva para o outro. Ninguém concorda em que lhe falte o bom sentido que é negado ao seu oponente ideológico. Os materialistas apontam como culpados de todos os males aqueles que confiam no poder das idéias. Os idealistas instauram processo e condenam sem apelação os cultores da matéria e de suas supostas leis inexoráveis. A desconfiança e o rancor apoderam-se do espírito e negam a razão, uma vez que a faculdade pensante descobre apenas um aspecto da verdade cósmica.

II. O conceito das diferenças raciais durante o século XIX

São presumíveis as reações provocadas por Gilberto Freyre com Casa-Grande & Senzala. Se a originalidade não se mostra de todo estrita, no que tange à valoração de raças, ela o será em solo americano, em razão do método utilizado em prolixa pesquisa, pelo tom e desenvoltura, pela liberdade e, às vezes, pela licenciosidade da linguagem, pela independência e as arrogâncias do pensamento diante de fatos históricos que a hipocrisia social geralmente evita e enterra. O sociólogo certamente suscitou a resistência dos historiadores convencionais, dos críticos frívolos e dos jornalistas melindrosos, aos quais não satisfaz esse tipo de indagação, muito menos quando, por seu interesse e profundidade, está destinada a devassar as fronteiras nativas.

Não comungo com essa maneira de classificar a verdade em dois níveis hierárquicos: o privado e o público, considerando uma dessas verdades adequada ao ambiente familiar, enquanto a outra é tida como perniciosa se se permite que transcenda ao plano da irrequieta curiosidade do forasteiro. A verdade é uma só, e indeformável. A verdade científica, a verdade histórica, a verdade política e social, todas resumem o mesmo atributo de nobreza que credencia o espírito civilizador do homem em qualquer época, nação ou clima. Ademais, a liberdade múltipla e una é sinônimo de liberdade absoluta. Para Kierkegaard, o conteúdo da liberdade, considerado intelectualmente, é a verdade, e a verdade liberta o homem. Por isso, a verdade é, também, o ato da liberdade, uma vez que esta continuamente produz a verdade .

Gilberto Freyre demonstra a integridade do pensador que busca o esclarecimento da verdade sem se deixar intimidar pelas conseqüências que tal atitude possa desencadear. Longe do torrão natal, concebe a tese que posteriormente sustenta em sua exegese sobre a formação social da nação brasileira. Ao ver atravessar a nevada ponte do Brooklin um grupo de marinheiros mulatos e cafusos, prováveis tripulantes de dois grandes vasos de guerra do seu país, veio-lhe à mente a idéia de estudar a fundo o problema das fusões étnicas no Brasil, daquilo que Sarminto chamou de conflitos e harmonias das raças, numa obra lamentavelmente incoerente e truncada.

Muito já se escreveu sobre o particular. Mas, na Europa e na América, parecia estar definido o princípio da desigualdade das raças, cunhado por Gobineau e outros pensadores da mesma orientação etnológica. O Conde de Gobineau, companheiro de tertúlia do Imperador Dom Pedro II e ministro da França no Brasil durante um ano, foi, sem dúvida alguma, quem mais influiu na generalização da teoria sobre a superioridade das raças germânicas e sobre a noção de decadência, degeneração e morte das raças superiores e puras quando mescladas com inferiores.

O agressivo arianismo contemporâneo tem em Gobineau seu profeta máximo, e no Ensaio sobre a Desigualdade das Raças, a obra magna que concede aos povos títulos de sobrevivência ou de morte ... A condição de perecível das civilizações e das sociedades tem uma causa geral e comum. Não é o fanatismo ou o luxo, não são os maus costumes ou a ausência de religião o que inexoravelmente determina o ocaso das sociedades e o desaparecimento dos povos que foram nobres artífices de feitos históricos. é a mistura de sangues, a que Freyre chama neologicamente, de miscigenação, a causa do descenso vertical da luz à sombra, do império do mundo ao mais miserável estado de baixeza humana. O que o Conde entende por degeneração ?

"Penso que a palavra degenerado, quando aplicada a um povo, deve significar – e significa – que esse povo já não tem o valor intrínseco que possuía antigamente, porque não mais circula por suas veias o mesmo sangue, gradualmente depauperado pelos sucessivos amálgamas".

Com base nisso, não é difícil supor o que Gobineau pensa das colonizações européias na América, em geral, e dos povos hispano-portugueses, em particular. São Estados corrompidos e agonizantes. Os governos da América do Sul são comparáveis apenas ao Império do Haiti" . é claro que entre esses governos está o do seu ilustre amigo D. Pedro. Mas seria demasiadamente injusto da parte de Gobineau "pretender que o cidadão da República Mexicana ou o general improvisado que surge a cada instante na Confederação Argentina, estejam no mesmo nível que o botocudo antropófago". é bom que o saibamos, embora um pouco tarde, já ao longo da vigésima centúria... O Conde sombrio e às vezes irascível, quando olhava para este lado do Prata, por cima do Pão de Açúcar, via-nos como um miserável povo indígena que vagava pelas selvas em busca de ouro, "meio branco, militar por acaso e mulato meio indígena". Nutria por nós indisfarçável ojeriza, talvez por confidências e temores de D. Pedro sobre o futuro do Império no Brasil. As correntes imigratórias, das quais esperávamos tantos excelentes resultados graças à transfusão de sangues, tampouco nos trariam nada de ótimo, segundo a teoria degenerativa de Gobineau:

"Nem um só elemento fecundo pode-se tirar daí, e, mesmo quando os produtos de séries indefinidamente combinadas entre alemães, irlandese, italianos, franceses e anglo-saxões cheguem, ademais, a reunir-se e a amalgamar-se, no Sul do Continente, com o sangue composto de essência índia, negra, espanhola e portuguesa que ali radica, não há como se imaginar que de tão horrível confusão possa surgir algo que não seja a justaposição incoerente dos seres mais degradados".

Gobineau fez escola. Também o faria Lapouge em sentido quase paralelo. Na Europa e até na América, chegou-se a acreditar nas conseqüências morbosas da promiscuidade originária de tipos dos colonizadores espanhol e português com índios e negros e da mais ampla confusão resultante das correntes imigratórias desde meados do século XIX e início do XX.

Como a rigor sucede, alguns antropólogos e sociólogos foram mais longe do que o aristocrata da seleção, e negaram ao negro o que Gobineau nele reconhece sem restrições. O homem branco, de sangue ariano puro, era o dominador absoluto, dotado de inteligência criadora, de espírito atento, de energia para o mando, de severidade para a conquista, de rispidez para a opressão. Mas esse exemplar de virtudes arquetípicas não era completo. Faltava-lhe algo maravilhoso, que a Providência, sábia distribuidora de instintos e qualidade, não havia querido dar-lhe. O homem branco carecia de gênio artístico. Diante da Natureza, era cego, surdo e mudo porque era incapaz de sentir a cor e a forma, e não conseguia interpretar o som. Mas, como intuía tudo, pôde ver no negro as faculdades artísticas de que o branco necessitava para alcançar sua integridade psíquica e estética. O branco, diz Gobineau, precisa do inconsciente impulso estético dos negros para poder criar:

"O manancial do qual brotaram as artes é estranho aos instintos civilizadores. Jaz oculto no sangue dos negros. Esse poder universal da imaginação que vemos envolver e impregnar as civilizações primitivas não tem outra causa além da influência sempre crescente do princípio melanésio"

A raça negra, em seu enlace com a branca, deu-lhe a faculdade soberana de criar obras sutis e artísticas, mas tirou-lhe engenho e beleza física:

"A raça branca possuía originalmente o monopólio da beleza, da inteligência e da força. Através das uniões com as outras variedades, pareceram mestiços belos, porém carentes de vigor; fortes, mas desprovidos de inteligência; e se inteligentes, extremamente feios e fracos".

Quando se conhece bem a copiosa bibliografia existente na Europa e no Norte da América sobre o que hoje se costuma denominar vulgarmente de racismo, pode-se apreciar o que quero sublinhar: o esforço considerável de Gilberto Freyre para abrir uma brecha na densa muralha de preconceitos. A superioridade do branco sobre o índio e o negro, e do índio sobre o negro, teve caráter de postulado científico que não admite revisão. Também tentou-se

argumentar sobre a superioridade entre as diversas raças brancas. Quantos escritores não defenderam o princípio da superioridade dos anglo-saxões sobre os latinos ? Mas, no nosso próprio Continente, muito antes de que Gobineau e Lapouge sonhassem com o arianismo e de que Spencer atribuísse à mistura de raças as revoluções da América hispânica, Bolívar se referiu às conseqüências do hibridismo com uma daquelas análises geniais que lhe eram tão peculiares. Em 1819, no Congresso de Angostura, faz esta declaração:

"Levemos em conta que nosso povo não é o europeu nem o americano do Norte; que, na realidade, é uma junção da África e da América, mais do que uma emanação da Europa; pois a própria Espanha deixa de ser européia pelo seu sangue africano, pelas suas instituições e pelo seu caráter. é impossível determinar com propriedade a que família humana pertencemos".

Na medida em que a mistura leva à degeneração social e à anarquia política, pensa Bolívar na possibilidade de elevar o nível moral inferior, fomentando a imigração laboriosa e culta da Europa e dos Estados Unidos para que venham mesclar-se com as classes não totalmente degeneradas. é a escola de regeneração espiritual e física, por obra do branco europeu, que seria escolhida com igual entusiasmo por estadistas à Rivadavia, Sarmiento, Alberdi y Mitre, na Argentina, e anti-espanholistas à maneira bolivariana.

O mesmo ocorre no Brasil. Sobre o português recaem as culpas da confusão de sangues. Tobias Barreto, a cujos avidentes traços negróides se atribui sua infelicidade amorosa, talvez seja o precursor do que se poderia considerar como a salvação pelo espírito. Em seus Estudos Alemães, refere-se à cultura germânica e sua invencível proeminência sobre a dos povos modernos, assinalando, de passagem, a triste e lamentável inferioridade de Portugal e do Brasil. Segue-lhe em importância Sylvio Romero, historiador e sociólogo, jurista e crítico literário, de certo modo pioneiro dos estudos africanistas. Em 1888, é Romero quem lamenta que no Brasil ninguém se dedique a aprofundar-se nas línguas e religiões africanas. " O negro, diz, não é só uma máquina econômica; é, antes de qualquer outra coisa, um objeto de ciência".

De visão ampla na apreciação dos fatos históricos, embora perigoso quando julga obras e autores, traça com pulso firme o que deve ser a história do Brasil, contrariamente àquilo em que antes se acreditava: sem a participação quase exclusiva dos portugueses nem a exaltação lírica dos índios, feita pelos românticos da época, nem a defesa tendenciosa dos negros para enfraquecer a dos índios. Romero antecipa que a história do Brasil é a história da formação de um novo tipo pela ação de cinco fatores, formação essa em que predomina o elemento mestiço. Todo brasileiro é um mestiço, se não pelo sangue, pelas idéias. Os autores desse fato inicial foram: o português, o negro, o índio, o meio físico e a imitação estrangeira.

Em seus Estudos Brasileiros, José Veríssimo também analisa a formação social do seu povo a partir da origem, a modalidade, os costumes e as instituições modernas. é o método de Tocqueville, de Fustel de Coulanges e de Taine: a indignação demonstrativa de que no presente o passado respira e revive. "A história do nosso país nos ensina que a sua primeira sociedade era composta de maus elementos – afirma Veríssimo. A sociedade brasileira primitiva, à qual faltava o mais poderoso dos elementos sociais, a família, não podia ser senão imortal". Quanto ao resultado da libérrima saturação do branco com o índio e o africano, aquela teria sido prejudicial na opinião de João Ribeiro: "o contato das raças inferiores com as que são cultas quase sempre desmoraliza umas e outras".

Advirto que venho navegando na agitada correnteza dos adversários da promiscuidade, dentre os quais há pensadores de exímia linhagem intelectual. Distingo agora o Dr. Nina Rodrigues, para quem "a raça negra no Brasil, por maiores que tenham sido seus serviços à nossa civilização, por mais ampla que seja a simpatia oriunda do iníquo abuso da escravidão..., há de constituir sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo". O futuro causa profunda inquietação no Dr. Nina Rodrigues. Se as nações lutam pela existência, como os homens na vida cotidiana, conforme o princípio da seleção natural, celebrizado pelos adeptos da escola do darwinismo social e pelos spencerianos de corte individualista, o sucesso coroaria as raças mais fortes, mais puras, menos contaminadas. Que seria do Brasil nessa contenda das raças inferiores, adulteradas e salpicadas de múltiplos cruzamentos e cada vez mais enfraquecidas do ponto de vista moral, além de fisicamente debilitadas pela tuberculose e o alcoolismo ? O Dr. Rodrigues não sabe ocultar a visão pessimista de um futuro que os acontecimentos internacionais atualizam inesperadamente. O homem de ciência e patriota dirige-se ao brasileiro mais desatento e desacautelado e pensa:

"... que não deixará de impressionar-lhe a possibilidade de uma oposição futura, que já se faz notar, entre uma nação branca, forte e poderosa, provavelmente de origem teutônica, que está se formando em nossos Estados do Sul, onde o clima e a civilização eliminarão a raça negra ou a submeterão, e, por outro lado, os Estados do Norte, mestiços, vegetando na turbulência estéril de uma inteligência viva e pronta, associada à mais decidida inércia e indolência, submetidos a pequenos ditadores. Para um brasileiro patriota, esta é a triste evocação do contraste maravilhoso entre a exuberante civilização canadense e norte-americana e a barbárie guerrilheira da América Central" .

Entre os que meditam com algum pessimismo sobre o destino da América, centro de populações heterogêneas e de tipos antropológicos diferentes, seria negligência esquecer Euclides da Cunha. Para o trágico pintor de Os Sertões, a mistura de raças muito diversas é prejudicial: "A mestiçagem exagerada é um retrocesso. O indo-europeu, o negro e o brasileiro-guarani ou o tapuia exprimem fases evolutivas fronteiriças". Não recorre a eufemismos quando perfila a psicologia do mestiço ou híbrido. Segundo Euclides, o mulato, mameluco ou cafuso é um intermediário e degenerado, "sem a energia física dos ascendentes selvagens, sem a elevação intelectual dos ascendentes superiores. No entanto, o mulato não é um degenerado nem um vencido, como provam as palavras de Paulo Maciel em Canaã, romance de Graça Aranha. Maciel é um branco que se considera vencido na luta pela vida por dois mulatos: Pantoja e Brederodes. Assim o exprime com vibrante rancor:

"Era preciso que do conflito de nossas espécies humanas se formasse um tipo mestiço que, conformando-se melhor com a natureza, com o ambiente físico, e sendo a expressão das qualidades médias de todos, fosse o vencedor e eliminasse os extremos engendradores. Perfeitamente... Notemos que Pantoja não é um caso isolado. Os que tendem a governar-nos e nos governam com maior aceitação e sucesso são desse mesmo tipo de mulato. Enfim, o Brasil é seu".

Depois de olhar suas mãos brancas e longas, Maciel prossegue em pesarosas reflexões:

"Não há dúvida... Se eu tivesse algumas gotas de sangue africano, certamente não estaria lamentando-me aqui ... Meu equilíbrio com o país seria então definitivo ... Pantoja, Brederodes ..., por acaso não marcham firmes e seguros? Não são os donos desta terra ? Por que não nasci mulato? .

Esta recapitulação, muito sucinta, embora pareça extensa, sobre o que se pensava e escrevia no Brasil em torno do problema das raças, era necessária para compreender o espaço de quarenta anos que precedeu o estudo de Gilberto Freyre relativo à formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Oliveira Vianna admite que os sociólogos, historiadores, naturalistas e médicos daquele período "haviam-se deixado impressionar pelas provas incontestes das diferenças raciais no nosso país".

Casa-Grande & Senzala oporia novos pontos de doutrina às escolas européia e brasileira das diferenças raciais.

III. Alcance sociológico e antropológico de Casa-grande & Senzala

Se não é possível ser mais brasileiro do que Gilberto Freyre, tampouco se pode oferecer uma cultura mais nutrida e universal do que a sua. Homem do Norte, da região onde a cana de açúcar teve auge maior, num sistema de monocultura com que o latifúndio favoreceu excepcionalmente o estabelecimento da sociedade de tipo patriarcal, estaria predestinado a ser o mais agudo e discutido historiador social da colonização, da mistura de raças, da família híbrida e dos complexos costumes que determinaram a estrutura da sociedade brasileira ao longo de três séculos. Mas, antes de ser o que é, um brilhante evocador do passado caótico, um cronista curioso de fatos esquecidos, um psicólogo à Proust, "em busca do tempo perdido", enfim, um sociólogo que especifica as causas dos fenômenos e os enlaça com os efeitos que percebe, Freyre foi um viajante inquisidor por terras estranhas. Seu apetite intelectual haveria de transformá-lo no scholar de claustros veneráveis, no assíduo freqüentador de bibliotecas centenárias, que conheceram as sandálias de Erasmo e o roçar das togas de Vives e de Andrés de Goubea, este último professor de Montaigne no Colégio de Guiena. Naqueles recintos de sugestão e recolhimento – pátios de Coimbra, salas de Oxford, seminários de Cambridge -, inicia Freyre sua formação humanística.

Contratempos e pesares, tão benéficos para temperar o caráter, fazem-no peregrinar e conhecer estados nostálgicos em países longínquos e estranhos ao seu torrão. O desterro sempre foi prolífico para os homens dotados de intenso mundo interior. Da Europa transfere-se para a América do Norte. é ali, na nação nova, onde se forja o pensador livre, o estudioso das culturas e o pesquisador das raças. O intercâmbio com professores da eminência de Boas, a exploração do deep South, comarca dos Estados Unidos onde imperou a escravidão, com regime patriarcal semelhante ao brasileiro, redirecionam a visão de Freyre e o transformam intelectualmente. O acúmulo, por vezes extremo, de citações e provas documentais revela a preferência pelas fontes anglo-saxônicas. As obras em língua inglesa, que servem de apoio às suas observações sociológicas e antropológicas, ultrapassam com vantagem as informações alemãs, francesas e latinas em geral.

Nos Estados Unidos, com os olhos postos no Brasil, Freyre amadurece e concretiza sua doutrina em virtude da qual a influência do meio social é superior à do meio biológico. Em outras palavras: o princípio da superioridade da cultura sobre a raça leva à conclusão, embora Freyre se empenhe em dizer que jamais concluiu, de que a cultura cria o meio social e, ao modificá-lo e superá-lo, condiciona a superação da raça. Não nega os efeitos sociais da mistura de sangues, a degeneração e suas inexoráveis conseqüências, a desnutrição e as enfermidades que o português introduz em suas relações com a mulher aborígine.

Apesar dos sintomas degenerativos que podem apontar-se quando um elemento superior cruza com outro inferior, Freyre considerou que a mistura cordial das raças portuguesa, negra e indígena foi benéfica para o Brasil em dois sentidos de extraordinária transcendência : ( i ) porque a escravidão teve a virtude de alquebrar o sistema escravocrata na base, bem como porque a promiscuidade física possibilitou a unidade psíquica, e, graças a isso, os senhores e patrões passaram a ser os avós e pais de seus servidores e explorados; ( ii ) porque do amálgama surgiu uma consciência nacional, igualitária e democrática, sem classes nem escrúpulos de origem. Freyre deixa que se pressinta a possibilidade de uma democracia social baseada numa mestiçagem capaz de criar uma cultura dinâmica, " formada pela fraternidade de raças, de povos, de valores morais e materiais diversos, com predomínio do sangue português e do cristianismo". Deduz-se daí outro postulado fundamental que convém lembrar. A formação brasileira e sua cultura constituem um longo e sábio processo que consiste em equilibrar os elementos étnicos díspares. O Brasil seria algo mais do que um cadinho; seria um permanente e maravilhoso equilíbrio de antagonismos. O princípio é válido para as três Américas, consideradas terras de aluvião.

A democracia social brasileira, igualitária, amistosa, fraternal, não exclui o princípio da prepotência política do conquistador sobre o conquistado. Freyre esboça esta doutrina, estranha nos países de civlização política, porém perfeitamente explicável numa nação que se enraíza no senhor de engenho, amo absoluto cujo sadismo de mando corresponde ao masoquismo do escravo.

Os termos de psicofisiologia patológica aplicados à sociologia política oferecem um aspecto de coisa nova, uma tentativa de aplicar aos fatos históricos a interpretação das relações sexuais dos povos. Mas, para que entre ambos os estados existam a fruição de mando no senhor, amo ou caudilho, e a voluptuosidade de obediência na massa anônima, que tolera prazerosamente, faz-se necessário, ademais da escravidão prolongada, o caráter servil das raças submetidas.

Sabe-se que entre nós, a Assembléia das Províncias Unidas do Rio da Prata, em 1813, declarou livres todos os escravos trazidos do estrangeiro, apenas pelo fato de pisarem num país que acabava de proclamar sua liberdade e lutava por ela. Apesar disso, os escravos não desapareceram, talvez porque, concedida de um dia para o outro, a liberdade lhes parecesse uma dádiva perigosa. Era a certeza da fome e do trabalho sem as vantagens da economia patriarcal.

A tirania de Rosas gozou de popularidade febril entre os negros, que, desde o princípio, viram no despótico gaúcho louro o amo supremo, vermelho e federal, o patrão magnífico e generoso que os protegeria do patrão unitário cuja excessiva frivolidade azul e branca não lhes trazia satisfação verdadeira. A sorte é que a Argentina prima pela tradição de turbulência. O espanhol trouxe ares de rebeldia, caráter de briga, constante predisposição para resolver as questões pelas armas. A psicologia do colonizador português difere nitidamente da do espanhol. A plasticidade do português parece a Andrade muito superior à do hispânico. Graças a essa ductilidade e à suavidade lusitanas, o índio e, sobretudo, o negro penetram na vida brasileira, nas artes, na economia, no temperamento. O espanhol, pelo contrário, se não é fidalgo de sangue, torna-se fidalgo quando exerce o mando. Não vem a terras da América para transigir com raças que de antemão supõe inferiores e com hábitos próprios de selvagens. O espanhol está representado por Cortés, Pizarro, Almagro, Francisco de Toledo, Juan de Garay e tantas outras figuras sem exemplo próximo na história da colonização portuguesa. Esses senhores, com sua fidalguia, com sua bravura e sua falta de plasticidade, trazem e deixam a discórdia em seus descendentes. O espanhol não procria escravos, mas rebeldes. Leiam-se as impressões de dois viajantes, homens de ciência que de imediato cativam-nos com os melhores atributos da narrativa, a forma límpida e o julgamento sereno, sem indício de prevenção. Refiro-me a Jorge Juan e Antonio de Ulloa. O que encontram na América hispânica aí pelo ano de 1735 ? Eles dizem:

"Não deixa de parecer coisa imprópria que entre gentes de uma mesma nação, e até do mesmo sangue, haja tanta inimizade, rancor e ódio, e que as cidades e grandes vilas sejam palcos de discórdia e de contínua oposição entre espanhóis e crioulos. Basta ser europeu, ou chapetón Q , como o chamam, para declarar-se contrário aos crioulos; e é suficiente haver nascido nas Índias para rechaçar os espanhóis. Nos filhos dos europeus, desde que nascem e sentem as luzes, embora fracas, da razão ... começa a oposição aos europeus. é coisa muito comum ouvir alguns repetirem que se pudessem tirar o sangue espanhol que provém dos seus pais, assim o fariam, de modo que não se misturasse ao adquirido de suas mães".

Com uma herança psicológica desse calibre, na América de origem espanhola não poderia existir o masoquismo do escravo. O gaúcho nômade, cuja figura é enobrecida nos poemas de Ascasubi, de Hernández, de Obligado, e nos folhetins de Eduardo Gutiérrez, prefere fugir e perder-se entre os índios ou lutar e morrer em contenda desigual a renunciar à ilusão de sua liberdade soberana.

A excursão que acabamos de fazer pelo campo da sociologia política é sugerida por Freyre com a exegese do que ele chama de "mandonismo". Segundo essa idéia, o povo brasileiro não veria com maus olhos o homem forte, o marechal de ferro na pessoa de Floriano Peixoto, por exemplo, ou o caudilho civil capaz de sujeitar vigorosamente os supostos marechais em potencial. A tradição revolucionária brasileira não impressiona, uma vez que o Brasil, no sentir de Freyre, é uma " espécie de Rússia americana", onde, se vê " menos a vontade de reformar ou corrigir determinados vícios de organização política ou econômica", do que " o puro gosto de sofrer, de ser vítima, ou de sacrificar-se". O mesmo conceito é repetido por Keyserling, como se o Conde germano não conhecesse o que fora afirmado por Freyre com prioridade comprovada:

"À primeira vista, o Brasil é surpreendetemente parecido com a Rússia dos Czares, o que não implica de modo algum um juízo negativo, mas, muito ao contrário; os povos atrasados e carentes de homogeneidade não podem ser governados conforme os princípios da democracia moderna".

Na afirmação de Keyserling há um paradoxo e um erro de historiografia. Existem nações com povos de raça homogênea, como é o caso da Alemanha, que não conhecem a democracia moderna praticada por outras, de múltipla urdidura racial, como os Estados Unidos.

Em que se diferencia o Brasil moderno do Brasil estudado por Freyre durante o regime da economia patriarcal ? Proclamada a República em 1889, o passado sobrevive com nomes diferentes ou formas atenuadas. O imensos latifúndios do Norte e a monocultura do açúcar continuam, como antigamente,

empobrecendo e dificultando a distribuição dos alimentos de primeira necessidade : carne, leite, ovos, legumes. Em certas regiões do Norte, ainda se come a carne ruim dos tempos coloniais. Em suma, do sistema econômico que a mudança republicana deveria ter abolido resta o que conspira contra o bem estar das classes trabalhadoras. O regime patriarcal amparava os escravos, alimentava-os e assistia-os na doença e na velhice. Com o novo regime, o escravo se transforma no operário que trabalha por um salário que é insuficiente para nutri-lo e vesti-lo. A senzala dá lugar ao mocambo, e o senhor de engenho, ao capitalista. Os filhos dos senhores, educados no ócio e com o sentimento de que o trabalho manual envilece o supostamente bem nascido – no fundo, é muito espanhol este conceito de vileza -, justificará a tendência, tão generalizada, para as profissões liberais e a burocracia administrativa.

Creio que nessa interpretação de sobrevivência do velho regime no novo há uma notável reminiscência de Tocqueville, para quem é difícil, se não impossível, cortar em duas partes o destino de uma nação, separando com um abismo o que foi do que se deseja ser. Segundo a teoria do pensador francês, o povo pode modificar-se e transformar-se conforme os acontecimentos, sem mudar de natureza e ressurgindo diante de nós com a fisionomia algo alterada, mas sempre com traços que permitem reconhecê-lo de imediato. A mesma continuidade histórica parece notar-se no Brasil. Em nenhum país o antigo regime se esfuma como por encanto.

IV. Gilberto Freyre, o brasileiro integral

À obra de tanta força e construção tão sólida não faltariam observações e reservas as mais diversas. Umas com respeito à essência e à tendência; outras sobre a forma e as fontes; algumas no que toca ao gênero propriamente dito.

Não tenho possibilidade de reunir e classificar essas objeções, que, por si sós, comportariam um ensaio. Há algumas, no entanto, que me provocam a tentação de comentar. Quando concluí a leitura das trezentas e tantas páginas em tamanho grande do volume em português, com uma multidão de notas explicativas em vários idiomas, fica uma certa sensação de materialismo que oprime os sentidos. Acabamos de presenciar o desfile de um povo ao longo de três séculos, como um afresco incomum, inesquecível e mutante, jocoso e trágico. Essa pintura de grossas pinceladas assemelha-se ao juízo final do povo brasileiro. Escravo, pobre, humilde, faminto, castigado, martirizado, bom e feroz, laborioso e lúbrico, Freyre o mostra durante o processo de amalgamento, na confusão dos instintos, na saciedade dos apetites, no verdadeiro estado natural, sublimado graças ao lirismo ingênuo de Pedro Mártyr, de Erasmo e de Montaigne. O sociólogo, que nada tem de sentimental, comprova a estreita relação entre o fato histórico e o fato material. Para construir seu imponente edifício, lançou mão, como método, do materialismo histórico, numa singular interpretação marxista e freudiana da sociedade brasileira. é Freyre quem se considera assim :

" Por menos inclinados que sejamos ao materialismo histórico, tantas vezes exagerado nas suas generalizações..., temos que admitir influência

considerável, embora nem sempre preponderante, da técnica da produção econômica sobre a estrutura das sociedades; na caracterização da sua fisionomia moral".

Aqui não há literatura. A arte de rabiscar e voltar a rabiscar até obter períodos fluidos, corretos, harmoniosos, não preocupa Freyre. Para o sociólogo, é essencial a descrição do homem, de sua vida material, da comida que o sustenta, da roupa que lhe cobre as carnes, da casa, palhoça ou guarida que lhe serve de moradia ou esconderijo, da forma como trabalha e do que compra, vende ou explora. E, como não se concebe o homem sem a costela que Deus lhe tirou para dar-lhe companheira, a vida sexual tem uma importância extraordinária em Casa-Grande & Senzala. Aqui experimenta-se a tristeza de todos os pecados, como se as paixões, as fúrias da alma andassem soltas, sem freio nem disciplina. As páginas de Freyre sobre este particular nada deixam a dever às de Freud, Havelock Ellis e Westermarck, cuja influência sobre o pensador brasileiro é inegável. Tão minuciosos são os pormenores da vida íntima do homem e da mulher que alguém já disse, com bastante acerto, que Casa-Grande & Senzala parece mais um livro de história sexual do que de história social. O mesmo crítico insiste em afirmar que Freyre costuma ir mais longe do que Pepys em seu divertido e licencioso diário...

Os críticos religiosos, em particular, os admiradores da obra cultural e evangélica realizada pela Companhia de Jesus na América hispano-portuguesa, reagiram com certa vivacidade. Isso se deve à estranha interpretação que faz, em primeiro lugar, dos Exercícios Espirituais, de Santo Inácio de Loiola, e também pelas opiniões sobre o jesuíta-missionário, que apresenta como " o grande destruidor de culturas não européias do século XVI". Segundo Keyserling, Loiola é o amador máximo e o maior técnico da vontade que a História registra". Assim não entendeu Chaberlain (H.S), citado por Freyre. Para não sentir perfume místico no que é místico por definição, e para procurar a ascendência do seu misticismo, é preciso não estar familiarizado com as fontes cristãs do Islam. Mas este não é o momento de indagar as origens do exercício espiritual ou exame interior, hábito de superação individual que encontramos nos filósofos e moralistas estoicos. Quanto ao que se pode fazer com os índios sem a Companhia de Jesus, que, segundo Freyre, contribuiu poderosamente para a corrupção da raça que pretendeu salvar, trata-se de um tema que sempre haverá de provocar calorosos debates. Montaigne também pensou no que teria sido dos povos americanos se a moral de Sócrates, de Platão ou Júlio César tivesse sido inculcada aos inocentes canibais... A cultura européia não veio ceder nada aos indígenas do Novo Mundo. A cruz introduziu uma moral inédita e um novo conceito do homem, filho de Deus, à sua imagem e semelhança, digno de ser respeitado apesar de sua condição de selvagem.

Das resistências que Freyre teve que vencer e das que ainda não venceu, inferem-se a responsabilidade e os obstáculos que surgem ao se escrever uma história social do Brasil. País tão dilatado, continente dentro de um continente, com tantas regiões quanto climas: tropical, temperado e frio, montanhoso, florestal e plano, com 9.000 quilômetros de costa, do Cabo Orange, na Guiana Francesa, à boca do Chuí, na fronteira com o Uruguai, o Brasil é uma confederação de povos com múltiplos dialetos e tradições; é uma nação de nações, bem ajustadas para tolerar-se e trabalhar pacificamente mediante a garantia do pacto federal.

Talvez por isso os homens brancos e suscetíveis do Sul negaram que a doutrina sociológica da cultura e da raça, de Freyre, seja válida fora da Bahia e da região pernambucana. Segundo o professor Arbousse-Bastide, os críticos mais exigentes procuraram o sociólogo na trilogia de Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos, e Nordeste, perguntando-se se estas obras são estritamente sociológicas. Historiador social, cronista de episódios picantes, compilador de miúdos fatos regionais, leitor de anúncios de jornal para captar reflexos de costumes passados, ressuscitador de climas extintos, tudo isso lhe concedem para negar-lhe o título de sociólogo. Vã tentativa. O sociólogo é tudo isso e muito mais. Não vou definir a sociologia à maneira de Comte, inventor do vocábulo, nem de Spencer, que fez o primeiro intento prático de revelar seu caráter científico. Estes ilustres nomes cheiram a livros úmidos e de páginas embaralhadas. Mas a sociologia, a ciência que trata das condições de existência e desenvolvimento das sociedades humanas, é o que Freyre faz. Nesse sentido, Casa-Grande & Senzala é um excelente tratado de sociologia prática aplicada ao Brasil, pelo menos nas regiões onde foi mais intenso o tráfico negreiro e mais decisiva a mistura de raças.

Freyre, sociólogo, pode ser muito bem, e sem demérito de seu valor sociológico, um exímio e ameníssimo historiador regionalista, como o demonstra com inegável maestria nas obras da trilogia acima mencionada. Como reabilitador do negro e do mulato sobre o índio e sua vaidosa descendência, Freyre tem o rancor do branco simbolizado no Maciel, de Graça Aranha, e no orgulho do caboclo, que se diz caboclo embora descenda de negro. Durante muitos anos de humilhação, o aporte do negro à formação da sociedade brasileira foi considerado não maior do que o do cavalo e do boi. Freyre enaltece o negro, cuja influência apregoa com emocionante ternura, e coloca no plano que lhe corresponde, por sua capacidade intelectual e artística, um homem de gênio – Antônio Vieira -, neto de uma negra, e mulatos da estatura de Caldas Barbosa, Gonçalves Dias, Machado de Assis, Montezuma, os Rebouça, José Maurício, Torres Homem, Olavo Bilac, Juliano Moreira. Ao evocar essas figuras, surge, sem querer, uma objeção. Em Casa-Grande & Senzala falta um capítulo essencial e complementar, dos quatro que constituem o ensaio sobre o regime da economia patriarcal: o das letras, das artes e das ciências ao longo do mesmo período. Nesse caso, a obra teria sido extraordinária, pois provocaria no leitor uma sensação de espiritualidade que não é fácil encontrar, hoje, entre tantos apetites de prosaica sensualidade.

Diz muito bem o escritor Roberto Alvim Correia ao apresentar Freyre como "um jovem Prometeu a quem tantas pessoas devem". Que podem dever-lhe ? Em que pode consistir essa dívida a um escritor e sociólogo que oferta bens e satisfações estritamente espirituais ? Posso imaginar. Trata-se dos que andaram sem alegria nem altivez, ressentidos sob o peso de uma condenação moral que parecia inapelável, e com relação à qual eles mesmos acabaram por sentir-se inferiores aos demais homens. São os negros e mulatos que repentinamente se agitam e se libertam do afrontoso complexo. Freyre se lhes apresenta como um novo Batista que, no meio das águas do Jordão, procede a lavá-los das manchas e pústulas que supunham ter. Eis aqui a verdadeira dívida de gratidão para com o ousado combatente; porque Freyre se autodefine não como um pregador de princípios

amorosos e suaves, mas como alguém que considera a luta como um bem necessário: "Sou um combatente para quem nem o negro, nem o judeu, nem o chinês, nem o mouro, nem o mulato, nem o filho natural são expressões pejorativas". Não seria de estranhar que de hoje em diante se estendesse do Recife ao Rio de Janeiro o narcisismo negro, em oposição ao narcisismo gaúcho que impera no Rio Grande do Sul, ou como resultado lógico do que Freyre chama de narcisismo nacional.

Há duas objeções que não incomodam a Freyre: ao seu realismo e ao seu regionalismo. Talvez porque o realismo, mesmo o mais agudo e impregnado de fatos materiais, prosaicos ou lascivos, não afasta totalmente uma certa sobrevivência romântica. Creio que assim o entende Freyre quando ensaia a demonstração de que os gostos contraditórios obedecem a estados de alma, antagônicos e múltiplos, graças aos quais a gente pode se interessar, sem amar, por teorias e pessoas mutuamente repugnantes: Pascal e Proust, Joyce e Maritain, Lucas Evangelista e Walter Pater, o esteta de Oxford.

No que se refere ao historiador regionalista ou tradicionalista, ambas as condições se irmanam em deliciosa harmonia porque a região e a tradição são elementos inseparáveis e substanciais. O modernismo, sem restar-lhe valor, tampouco pode excluir aquela tendência que leva ao estudo das origens no folclore luso-brasileiro e em tudo quanto se refere a negros, caboclos e mestiços no Brasil.

A muito mais incita o estilo de Freyre se já não fosse tempo de arrematar esta exposição preliminar. Para o senhor Álvaro Lins, o estilo do autor de Casa-Grande & Senzala lembra e se compara especialmente ao de Marcel Proust, na medida em que ambos se afastam dos estilos tradicionais nas respectivas línguas. é possível. Proust é o menos francês dos escritores que surgiram nos três primeiros lustros do nosso século. Faltam-lhe os atributos de uma boa prosa, a elegância, a clareza, as palavras eleitas e rítmicas, o movimento cadencioso, o método que qualquer construção requer. Proust é um memorialista difuso e emaranhado, digno descendente, no gênero, do Duque de Saint-Simon.

No Brasil, a influência de Freyre é considerável. Havendo completado apenas quarenta anos de idade, é considerado um mestre da sociologia e da história social brasileira. Tem ouvido elogios e diatribes. Ninguém pode triunfar sem a inveja de uns e a incompreensão de outros. Quando há no pensador substância perdurável, caudal de idéias, faculdade de sentir o regional e o universal, a obra acaba impondo-se, e triunfa no Recife, no Rio, em São Paulo, em Lisboa, em Buenos Aires ou Nova York. Não há mestres sem discípulos. Escritores, poetas, arquitetos, pintores; o lirismo, a cor, a pedra, a linha, a ciência, nas pessoas de seus mais conspícuos representantes, agrupam-se em torno de Freyre.

Além de homem de ciência que inspira respeito, pela sua capacidade de trabalho e pela beleza moral de sua energia posta a serviço da verdade, e apesar das sérias objeções que se lhe podem formular, há em Gilberto Freyre um poeta que reanima as épocas mortas, um infatigável viajante regional em busca de costumes esquecidos. E, sobretudo, há um grande brasileiro que honra a sua pátria dentro e fora do solo vernáculo, um brasileiro integral que ama com ternura inigualável a magnífica terra de seus avós, com a cor, as maneiras e os gostos que Deus lhe deu, saborosa em doces e em pratos de cozinha familiar, e perfumada de selvas que acendem a imaginação...



Fonte : HAYES, Ricardo Sáenz. In: FREYRE, Gilberto. Casa-Grande y senzala: formación de la familia brasileña bajo el régimen de la economía patriarcal. Traduzido por Benjamín de Garay. Buenos Aires: s. n., 1942. 2v.

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