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Assinatura de Gilberto Freyre
Livros Publicados em Outros Países  



CASA-GRANDE & SENZALA
Tradução do prefácio de Lucien Febvre


Gilberto Freyre sempre desejou que eu apresentasse ao mundo francês a primeira das suas grandes obras - Casa-Grande & Senzala - que se tornou para nós, simplesmente Maîtres et Esclaves : um bom título para um romance russo dos anos 1900. Mas será que vou me apresentar como um bom prefaciador ? Tive um enorme prazer em reler este livro que tornou célebre seu autor. E que, felizmente, não concluiu. Quero dizer, não disse ao leitor, em forma de três parágrafos de cinco linhas (1º, 2º, 3º ) - tudo o que se deve dizer, muito menos pensar (não percamos nosso tempo com exercícios inúteis), mas saber, e mesmo, saber "de cor" sobre o Brasil para conseguir a chave única e mágica, tirá-la do bolso num gesto descontraído e forçar a admiração das mulheres abrindo diante delas algumas dessas fechaduras que não guardam senão o vento: "O Brasil, minhas senhoras, é muito simples...".

O livro de Gilberto Freyre não é simples. É uma sociologia e uma história ao mesmo tempo. Um memorial e uma introspecção . Um vasto panorama do passado, originado de uma meditação sobre o futuro. Ensaio de um novo escritor que força o menos culto dos leitores a perceber o seu talento : o seu extraordinário dom de visão e de ressurreição, feito de lucidez e de sensualidade. A mais bela das caças para um caçador de idéias, hostil às deduções inúteis e às sonoridades ocas. E contente por entender enfim - sejamos mais modestos: contente por tentar explicar - algumas das coisas que os melhores guias esquecem sempre de mostrar e que no Rio e em São Paulo, nas grandes cidades, o visitante estrangeiro durante semanas suspeita que existem sem, entretanto, conhecê-las : pobre viajante, preso a um Brasil falso, artificial, como se usasse ema apertada gravata e uma jaqueta digna de um lorde inglês. No entanto, à noite, ele respira os odores violentos que saem das terras ressequidas pelo sol - essas terras cortadas ao norte pelo Equador - ao sul, na periferia mesmo de São Paulo, por Capricórnio. Terra imensa, o que já constitui um enorme problema: o de uma unidade política e cultural mantida há cinco séculos, de Porto Alegre a Belém - o que significa de Gilbraltar a Estocolmo- e dos limites entre o Peru e Recife (isto é, quase de Paris a Moscou). Terra imensa, compacta, de potência continental.

Acreditamos tê-la percorrido. Da encantadora Rio, demos um salto até a devoradora São Paulo, procurando, inutilmente, nos seus arrabaldes, um porto visitado há vinte anos, um porto com aspecto de burgo, Santos : ruas com intermináveis docas, incluindo uma cheia de cordagem, um pequeno hotel e, diante do oceano, numa praia deserta, um pequeno e nostálgico café. No lugar de todas essas coisas simples, surgiu, hoje, uma Nice duplicada em dez anos, com Palácios, garagens, cafés, lugares de passeio ao longo do Atlântico - até com uma prisão modelo ..... Pequeno começo. Um passeio nos campos paulistas. Tempo de ver os eucalíptos enfileirados olhando para o céu, eretos, plantados no que outrora fora a boa terra do café. E de compreender, nas grandes distâncias que as separam, estas casas-grandes dos senhores que conservam suas paredes : mas árvores crescem nos salões mal apresentados e cantam o orgulho humilhado dos fabulosos plantadores. - Um vôo de avião, um desses pequenos aviões comerciais que se superlotam e se esvaziam nas escalas, com passageiros cada vez mais diferenciados nas suas roupas, entonação e pouca bagagem : eis aí Belo Horizonte, que os Stieler de vinte anos atrás não conheciam as avenidas, as praças, e quarteirões inteiros que surgirão amanhã. Este é o Brasil que interessa ao historiador, o Brasil que não existe mais. Sabará, no fundo de um vale, com seu charmoso e pequeno Museu. Ouro Preto e suas beatas, seu palácio municipal, a sombra de Tiradentes evocada por Diego de Rivera. E para além de um deserto coberto de enormes blocos de pedra, a inesquecível visão de Ouro Branco : um longo retângulo arruinado, com casebres cercados, a alta palmeira crucificada dominando a fonte; diante da velha igreja, cheirando a perfumes rústicos, crianças curiosas e de bonomia patriarcal; velho mundo, o de Minas, tão atraente para quem vive do passado. - E, novamente, um brusco salto. E é a Bahia, sua luz, os grandes barcos que deixam a baía, seus três mastros de vela, tal como no século XVIII. Barulho de homens, sobretudo de mulheres, as mulheres que ninguém descreveu tão bem como Gilberto Freyre : negras ou mulatas de porte real, enroladas nos seus xales da Costa, cheias de penduricalhos, de conchas, de pulseiras, as lindas saias cobrindo as anáguas brancas - o peito forte, pronto para saltar por cima das rendas. E essa seqüência violenta, uma noite, numa noite quente, os ouvidos atentos aos apelos de um batuque longínquo : inútil procura de um candomblé perdido em algum lugar, no campo. Mas como os olhos dos animais brilhavam sob a força das frases ? Acabou ? Eis o Recife, com seus ares venezianos, suas magníficas colunas de coqueiros ao longo de um mar espantosamente verde - que viu flutuar,"inflados como os ventres de mulheres grávidas" muitas naus cheias de despojos orientais que os Senhores de Engenho disputavam entre si. Recife, Olinda e suas igrejas. Em seguida, passando por muita terra, ao longo de uma faixa saturada de história colonial, Goiana, sua feira cheia de odores fortes e de comidas exóticas, sua antiga cerâmica exposta no Museu, as freiras francesas na escola de suas filhas - orgulhosas de terem ensinado a Marselhesa, porém tristes porque o alface de Touraine se recusa a crescer nos seus jardins: Goiana e, pela graça titular de Gilberto Freyre, o deslumbramento das crianças diante da brincadeira do Cavalo Marinho....

Tantas cidades, tantos mundos - para passar de um a outro, um vôo sobre essas duas imensidades : uma, verde, de um verde sombrio cortado aqui e acolá por espelhos d'água. A outra, vista do alto, azul - de um azul mesclado de branco que orna com guirlandas praias sem fim ....

Muitos Brasis num Brasil... Que Brasil ainda falta ? O de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, reservatório de energias que não pude avaliar. O de Mato Grosso, objeto de cobiças viris. O dos Selvagens, nos confins das Guianas, na nascente do Rio Amazonas ... Terras dominadas na floresta, violentamente, selvagemente, pelas queimadas. Ou terras vizinhas da inesgotável, da indestrutível floresta. Dessa floresta que Gilberto Freyre, no seu livro impregnado de aromas animais e vegetais não se cansa de mostrar, a sombra forte se projetando sobre o homem, saturando-o com suas ondas temerosas, mergulhando-o nos seus medos : fantasmas, animais imaginários e sem nome - o mistério "da coisa", do negotium perambulans in tenebris ... Nunca acabaríamos de ver e possuir tudo isso. Pois uma vez encerrado o passeio, seria preciso recomeçar. E com boas bússolas, porque tudo teria se transformado no intervalo.

Tantos Brasis .... Mas que significação tem essa variedade de aspectos junto da diversidade dos homens ? E essa surpreendente junção de pessoas, de raças, de civilizações, única, creio, na superfície do globo ?

Há os Ruivos. Ou o que subsiste, o que sobrevive do velho estoque indígena. Destes povos que, no começo do que chamamos século XVI, possuíam essas águas e essas madeiras, esses escarpamentos e planaltos.

Há os Brancos. Os descobridores, os conquistadores vindos da Europa. Não só os Portugueses, Franceses também, entre outros. E para não esquecer, recordaríamos as crianças de olhos azuis, cabelos loiros, gritando a esse ancestral normando ou bretão, saído de sua embarcação e doador desse perpétuo legado. - Mas Gilberto Freyre evoca esses Portugueses várias vezes, com um extraordinário poder de síntese. E nos mostra, em São Paulo, sobretudo, trabalhando não "como negros", mas "como mouros" (mourejar - palavra significativa em língua portuguesa) - estes artesãos moçárabes, plebeus enérgicos e criadores, vindos da Ibéria e trazendo com eles, sob novos céus, tudo o uma civilização fortemente marcada pelos contatos voluntários ou forçados, traços mouros e mouriscos. "Europeus", apesar de tudo. Mas de que Europa, a impura e complicada ?

Enfim, os Negros. Os Africanos. Os aristocratas do Sudão. Os do Congo e os de Angola. Os Hotentotes em cima de enormes garupas . Outros, vindo das Ilhas. Um material humano prodigioso, classificado pelos etnólogos, segundo suas origens e aptidões, com tal cuidado que nos deixa um pouco confuso. Mas, igualmente ele, é de uma estranha variedade ...

Os Ruivos, os Brancos, os Negros .... Ainda se eles tivessem permanecido negros, brancos e ruivos, da maneira mais pura e tranqüila ! Cada um vivendo sua vida tradicional. Guardando com grande zelo os bens herdados : instrumentos e habilidades manuais, ritos e cerimônias, casas e cozinha, remédios, usos, costumes, modos de falar, de pensar, de raciocinar... Porém os Brancos não eram muitos. Eram uma porção, disseminada através das enormes extensões de terra. Quando, após um primeiro e rápido inventário, (nada de ouro, pérolas nem de pedras preciosas nas mãos dos indígenas; simples ornamentos de plumas sobre homens nus - o que significava : nada para levar, nada para vender, nada para trocar, nem trocar bugigangas) - eles decidiram, por uma mutação violenta, se transformar de traficantes em colonizadores, recolhendo madeira nas florestas, em seguida em produtores de açúcar - a conclusão foi evidente. Para ocupar, para cultivar o solo, era preciso povoar. Crescer em número. Ora, os Europeus ainda viriam, sem dúvida, ao Brasil : em pequeno número e cuja vinda seria recompensada pelas partidas. Viriam homens - e as mulheres ?

Era o grande problema. Os Brancos que, atravessando o Oceano, se lançavam à aventura num mundo desconhecido. Desde o começo, as mulheres foram cruelmente ausentes. No entanto, a Índia se oferecia. Bem feita, robusta, limpa, ainda sã e nova de instintos. Sem pudor importuno. Completamente nua. Podemos avaliar o poder de apelo destas duas palavras para estes marinheiros, padres, noivos, esposos de mulheres mais que vestidas, escondidas, enterradas nos tecidos, dotadas por conta da religião, de um pudor estrito ? Completamente nuas; olhemos os frontispícios dos livros, das descrições, dos mapas : o Branco, vestido dos pés à cabeça, seu astrolábio e instrumentos na mão, a cruz na outra para assegurar melhor sua virtude, passeia - e em torno dele apetitosas selvagens, robustas, sem nada cobrir, se dedicando placidamente a suas ocupações, que são dormir numa rede ou algumas vezes cozinhar um de seus semelhantes ... Livros de ciência : mas as confidências de homem a homem? "Tu desembarcas e, na praia, lá estão elas, como você quer, que te fazem sinais, te acariciam, te levam para debaixo das árvores..." Folclore de seres simples aos instintos ferozes. Alguns, fortemente seduzidos por tanta facilidade esquecem de retomar à nave - trocando sem escrúpulos seus bens de tradição por uma onda de delícias carnais...

Bruscamente liberados dos controles sociais pela viagem, e filhos de uma época na qual, em muitos domínios, se mostravam impacientes por liberdade - começaram sem dúvida por se satisfazer. Os marinheiros. Os primeiros colonos, que não estavam forçosamente saturados do ascetismo cristão, nem incapazes de abalar o jugo da moral imposta. Nasceram crianças. Uma petizada mista, de pele clara, espalhada na floresta. E, depois, as volúpias da mudança extenuada. Eles refletiram. Não seria melhor ter, cada um em sua casa, sua Índia ? Tanto para a cozinha como para a cama - quero dizer, a rede, logo adotada pelos Brancos e que inspira a Gilberto Freyre uma de suas evocações mais fascinantes .... A Índia se tornou concubina . E, algumas vezes esposa, legítima. É que os padres também desceram dos navios : religiosos, Franciscanos, Dominicanos, Carmelitas, Jesuítas - todos sonhando com uma tomada de posição definitiva do cristianismo sobre o mundo insólito : como diz Gilberto Freyre, um certo imperialismo religioso precedeu o imperialismo econômico no século XVI. E o padres, os religiosos aprovavam essas uniões regulares - esperando que a Índia se convertesse. Estaria tudo em ordem se as ligações se tornassem de fato em casamentos cristãos. Uma ordem que se acomodava, sem muita variação, às satisfações que exige "la Papillonne", como dirá mais tarde nosso velho Fourier. Dupla vantagem : de prazer, um prazer que não ignora nenhuma perversidade, e de interesse também. Basta um texto para ilustrar, um texto tirado por Joaquim Nabuco de um manifesto dos escravos, citado por Gilberto Freyre : " o ventre, que dá a luz, é a parte mais produtiva da propriedade escrava"...

Em pouco tempo, em algumas décadas, não se sabia mais, neste Brasil, quem era puramente branco e quem era puramente ruivo ? Algumas décadas, ainda, e o mesmo problema iria ocorrer entre os Brancos e Negros - sem excluir os Ruivos. Em pouco tempo, cada célula da nova sociedade que se criava entre e Equador e Capricórnio, oferecia aos olhos um pano de fundo em tons degradê, do vermelho acobreado ao branco róseo . Nuances da pele ? Outra coisa ainda : nuances da alma.

Então, compreende-se porque, no corajoso livro de Gilberto Freyre, a questão sexual tem um lugar de tanto destaque. É que ela está no centro desta questão - que não é "a história do Brasil, do desembarque ocasional de Cabral no fim da supremacia açucareira - mas o estudo das relações, muito complexas, entre três massas humanas. Não das relações de justaposição, mas da fusão progressiva de sua íntima mistura. No fim da qual esse resultado: o Brasileiro. Que, mesmo Branco, fundamentalmente e visivelmente Branco, é uma obra prima da complicação racial e mental desenvolvida nos Trópicos. E (tirando toda conotação moral da palavra) - uma vitória psicológica e também histórica.

Ainda aqui evitemos o simplismo. A vida dos Índios no contato com os colonos não foi um idílio. Nem a dos Negros, que vieram quando a indústria açucareira tinha se implantado com enorme utilização de uma força física exigida por ela própria. Era preciso usar uma mão-de-obra com resistência diferente da do indígena. Não, nada de idílio. É fácil acumular os depoimentos, as narrações permeadas de atos terríveis : negros presos vivos na boca dos canhões e baleados, ou mulatas amantes dos senhores, com a mulher branca, ciumenta, ordenando que lhes furem os bonitos olhos - e que essas infiéis se lhe apresentem, na hora da sobremesa, ensangüentadas. Não podemos mais nos queixar do paternalismo quando é preciso denunciar o sofrimento humano. Porém, ao lado dessas cenas, há outras, muitas outras, mais consoladoras para a humanidade. E, diria, numa visão de historiador, de maiores conseqüências para o futuro.

Criou-se, nas casas-grandes, sobre as quais o livro de Gilberto Freyre nos apresenta uma viva e forte descrição - uma espécie de sociedade tampão, um círculo de privilegiados e mais ainda de privilegiadas. Belas mulatas que conquistavam, umas, seus senhores e outras, as senhoras - incultas, analfabetas e que viviam intelectualmente ( se assim podemos dizer) das conversações familiares, em companhia das camareiras de cor, dava em troca dos preconceitos das Africanas ou, mais raramente, das Índias mestiças, seus próprios preconceitos de ignorantes etiquetadas de Européias. Assim, com a mesma facilidade e com o mesmo frenesi que as carnes, restos de crenças e de concepção do mundo e da vida se misturam e dão fruto. Surgem maneiras de ser, de sentir, de pensar - que aproximam, numa fraternidade de indigência mental, as sensibilidades originariamente as mais diversas - mas que se desgastaram a ponto de todas as esfinges se tornarem particularmente apagadas, o curso disso é universal ......

O que finalmente a cultura brasileira deve à civilização indígena, como os invasores puderam observar por ocasião dos primeiros desembarques - Gilberto Freyre nos mostra ao longo de seu livro. A seu modo, que é o de se deter sobre as coisas. De não se abster ao formalismo de ordem exterior. A seu modo, eu diria pensando nas páginas onde ele descreve a ilusão dos Jesuítas procurando ensinar às crianças índias gramática, cálculo, a lógica escolástica, a abstração, e tudo em vão - que não é ( posso dizer, felizmente ? ) de um excelente aluno de Padres. Seguindo seu próprio ritmo, seu pensamento desdenha os ritmos aprendidos. Ele vai e volta, recomeça, coloca aqui uma pitada de cor que, dez páginas antes, não tinha ainda encontrado seu verdadeiro lugar e está pronto um inventário. Em seguida, outro. E ainda um outro. Empréstimos e trocas : de plantas, de animais, de ferramentas, e muito mais de palavras. Com a ajuda de seus alunos indígenas, que os Padres sonham transformar em seminaristas de cabelos lisos, os Jesuítas não fabricaram uma língua, o Tupi ? Uma língua que serviu de meio de comunicação entre os Índios e entre Brancos e Índios? Uma língua que, como toda língua, criará hábitos, modos de raciocinar, toda uma vida mental ?

Os Índios - e os Negros ? Com uma deliciosa ironia a um crítico que o acusa de ter atribuído aos Negros uma parte importante na edificação de uma sociedade brasileira; de lhes ter tratado como colaboradores, quando era mais lógico tê-los tratado como cavalos, bois ou outros animais - Gilberto Freyre responde, docemente, o que leremos mais adiante. A seu crítico ele pode, muito melhor ainda e mais peremptoriamente, lembrar um fato de importância singular. Ele mostra ao leitor negros fugitivos escondendo-se na mata, que, no Brasil se chama Sertão, se reunindo às índias roubadas, influenciando os Caboclos incultos e miseráveis - finalmente tornando-se, eles, os escravos, em ruptura com os Brancos, os primeiros e, num certo sentido, os agentes eficazes de uma europeização, para não dizer de uma cristianização, reveladora de tantas misturas de mentalidades que se produziram no Brasil. - O Negro, um animal, e nada mais que isso, um amontoado de vícios grosseiros. Mas, esses vícios, Gilberto Freyre diz com justiça - não podem ser imputados à raça, esse mistério, mas à escravidão. E depois, nós sabemos agora : nunca foram cortadas as pontes entre os Negros do Brasil e suas respectivas civilizações africanas de origem. Gilberto Freyre multiplica as provas - e não vai ser seu tradutor, Roger Bastide, quem vai contradizê-lo ... Não se trata ainda somente de plantas, de objetos, de ingredientes, de adornos. Mas de ritos, de danças - e, por outro lado, de modos de pensar, de sentir, de representar o mundo e o destino. Não devemos nos esquecer, além disso, que há no Brasil, entre os Negros, os muçulmanos de origem. E que o Islã, em certos lugares, na Bahia, sobretudo, pode representar, em diversas ocasiões graves, um excitante papel .

O livro de Gilberto Freyre - não é somente porque ele é cheio de talento; porque nos faz compreender o Brasil e, através dele, Portugal; porque é nobre na sua inspiração e corajoso em tudo o que diz respeito ao racismo, à sexualidade, à escravidão - não é exclusivamente por estas razões, aliás, excelentes, que é bom colocá-lo ao alcance dos Franceses. É bom, digamos, que a tradução atenta de Roger Bastide, um sábio nosso conquistado no Brasil por uma longa permanência de estudos, possa apresentá-lo no círculo dos pensamentos familiares aos que, preocupados com o futuro do mundo, voltam-se para uma procura angustiante dessas imensas terras sul-americanas - tão ricas de promessas e tão marcadas por vazios. É porque ele apresenta, a seu modo, o maior entre os problemas que se levantam, em 1952, diante dos condutores da velha civilização européia.

Por toda parte vêem se revoltar contra eles, esses povos de cor (e, de alguns, no dizer dos antropólogos, a cor é branca) - que não quiseram destruir nem fisicamente, nem moralmente, mas com uma infantil leveza acreditaram poder na sua hora, na sua vontade, e na medida que lhes convinha, assimilar e, para falar a linguagem deles, elevar ao nível do Branco civilizado. E eis que esses povos abalam seu jugo . Não que tenham força para tanto. Provisoriamente, ela permanece nas mãos dos Ocidentais. Mas empregar essa força - a coisa, moralmente, se mostra muito ruim. E esse gens iguala, num certa medida, as chances e os poderes . Os não-européus têm força suficiente para reivindicar contra os Brancos da Europa o direito humano de serem livres. De se fazerem responsáveis por seus próprios destinos. De remontar o fio rompido com as velhas civilizações - essas civilizações que, frequentemente, os Brancos, pelo nobre esforço de seus intelectuais, salvaram do esquecimento e restituíram a seus legítimos herdeiros.

Então o Branco enlouquece. Tateia. Hesita. E, prisioneiro de sua admiração por tanto que pensou, construiu, inventou e realizou - esses homens, revoltados contra uma civilização que achavam estangeira - não encontram para oferecer senão invenções de Branco, criações de Branco, que persistem em chamar "progresso". Panem et Circenses? Avançamos; o boletim de voto, digamos, e de cinema. Com prudência, entenda-se, quanto ao boletim de voto.

Se após esses presentes ( ou pelo menos dessas ofertas), eles não estiverem contentes ......

Contentes ou não contentes, o problema não está aí. O erro não está aí. É possível que os homens possam encontrar a pátria cultural numa única civilização ? Pode-se imaginar que com muito pouco custo, a civilização européia, da qual somos muito orgulhosos, poderá tornar-se um bem comum de todos os povos ? - Não, mas, temo que uma alimentação própria a todos os homens não poderá se estabelecer, sem indefinidas precauções, da Groelândia ao Niger, do Kamtchatka a Bornéo. Nossos governantes, nossos dirigentes, tão eloqüentes quando exaltam nos seus discursos as conquistas da Ciência --se quisessem se aprofundar mais, ensinariam a nova ciência da alimentação, o número das catástrofes ocorridas no século XIX pela boa vontade, pela generosidade dos europeus bem intencionados e que, para salvar as crianças da Groenlândia da fome, deixaram-nas sofrer em massa lhes oferecendo alimentos de Brancos, alimentos muito ricos, muito "energéticos". Rompendo brutalmente o equilíbrio imemorial do gênero de vida delas, eles as destruíram em poucos meses, por um mecanismo que começamos a compreender. E o papel da Ciência ? - Permite que se invente a cada dia meios mais infalíveis de destruir a Humanidade. A do Homem ? Brincadeira. Vive-se sem ela. E o mundo entra em revolução...

O livro de Gilberto Freyre não traz solução para esses problemas. Ele nunca se propôs a isso. Mas nos convida, de modo premente, a refletir sobre o que eles significam. Porque ele nos mostra o Brasil- que magnífica experiência étnica realizada pela história - com suas vitórias, com seus fracassos, ainda mais instrutivos que suas vitórias. O fracasso dos Jesuítas mostrando que o humanismo cristão, à base da lógica escolástica, de juridismo romano, de matematismo abstrato, se revelaria dotado de um valor universal - próprio a formar, ou a reformar o modelo ideal de Homem, os espíritos deformados dos pequenos "selvagens". Fracasso dos juizes e dos padres, dos legistas e missionários esforçando-se para imprimir aos homens de cor, nítido ou degradê, o escrupuloso respeito das virtudes essenciais e das instituições fundamentais. A seus olhos compreende-se que não eram olhos de mestiças nem de mulatas. Pobre gente a quem se atribuíam dois crimes. Dois crimes que recusavam aceitar como crimes. Porque não tinham nem a noção romana da propriedade, tal como tentavam imprimi-la - nem, muito menos ainda, as exigências de castidade que o ascetismo cristão pretendia impor. Propriedade, castidade, duas noções que queriam lhes impor de forma ridícula - como se cobrissem com calças ou saias longas a livre nudez. Mas chegada a noite, os senhores adormecidos se livrariam disso tudo para encontrar a alegria de seus corpos nus. Os que, no século XVI e, mesmo mais tarde, se surpreenderam com isso, deveriam ter pensado que, dessas duas noções a seus olhos fundamentais, os homens de Deus e os homens da Lei, desde muito tempo, trabalharam constantemente para caiar, pintar e repintar os pais, os avós os bisavós dos anabatistas de Münster, até a vigésima quinta geração. O que não impediu em plena Alemanha do século XVI, que esses homens e estas mulheres fizessem pouco caso da moral ensinada, de proclamar a liberdade sexual e a comunidade dos bens. Eles entre muitos outros. Então, se surpreender, se indignar dos fracassos dos legistas e dos missionários ?

Grande lição a dessa história brasileira que Gilberto Freyre nos coloca sob nossos olhos. Trata-se de uma grande experiência, uma experiência privilegiada de fusão de raças, de intercâmbio de civilizações. Não se debruçar sobre ele com uma curiosidade apaixonada e é bobagem de Ocidentais, apresentando-se, sempre, com fatuidade, com desprezo natural pela Ciência do Homem, na qual os cientistas acreditam mas não compreenderam, ainda, quais os serviços ela pode prestar. Não seria mais simples agir sem pensar, intervir sem saber, resolver todos os problemas humanos e se lamentar em seguida dos resultados .....

É tudo ? Porém, como historiador, mesmo desejoso de deixar o leitor começar sua leitura - como não lhe dizer uma última palavra ?

Casa-Grande & Senzala : um livro de historiador ou de sociólogo ? Disse no início desse prefácio: a questão é inútil. Casa-Grande & Senzala é um livro do homem sobre o homem. E este problema de definição me inquietava. É que tive a infelicidade, a grande infelicidade de ser historiador e, ao mesmo tempo, Europeu.

Lá, os homens são livres pesquisadores da América meridional e tentam reviver a mais rica, talvez, das histórias culturais - são felizes e não duvidam disso. Para ir direto à realidade, não têm que atravessar, duramente, o caminho terrível de suas instituições, o árduo matagal das papeladas administrativas e políticas que, num pequeno esforço, podemos atravessar, vestidos com nossas botas, antes de encontrar, para além de tantos obstáculos, o homem vivo, o homem sensível, o homem pensante, agente, reprodutor, executando suas funções de homem e recriando, constantemente, sua civilização. A história transatlântica, seus arquivos à moda européia só começam no século XVI. E como foi, primeiramente, politicamente falando, a história de organismos subordinados - desprovidos de poder e soberanos na preparação dos conflitos, na negociação das alianças venenosas e, finalmente, de fazer a guerra para concluir a paz e recomeçar - os Sul- Americanos preocupados de se conhecerem, de encontrar no passado homens cujo sangue corra nas suas veias, não têm mais que jogar para o alto essa prodigiosa massa de papel e de pergaminho sobre o qual repousa toda a história da França que se preza - da França, ou da Inglaterra, ou da Espanha ...

Ah, tomara que os Brasileiros possam compreender esta felicidade. Possam não mais trocar esaa liberdade, esse acordo, essa intimidade simplesmente retomada, sem tratamento processualista, com seus pais, com os que os criaram, com os que depositaram neles tantos sentimentos instintivos e profundos, tantas maneiras de ser e de agir, sempre muito vivas - tomara que não troquem esses benefícios pelas regras pedantes de uma história de velho, paradoxalmente orgulhosos de suas artérias doentias e de suas escleroses. De uma história para diplomatas cansados - uma história de pobres diabos que têm a ilusão de ser alguma coisa repreendendo Philippe II, retificando Luís XIV, corrigindo Napoleão. Mas esquecendo de procurar o Homem que vive neles. - E, de todo coração, para esta última lição que não é a menor : obrigado a Gilberto Freyre, e boa sorte para seu livro

Lucien Febvre

Fonte: FEBVRE, Lucien. In: FREYRE, Gilberto. Maîtres et esclaves: la formation de la societé brésilienne. Traduzido por Roger Bastide. Paris: Gallimard, [1952]. 550p.

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