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Assinatura de Gilberto Freyre
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SOBRADOS E MUCAMBOS
Tradução da introdução à edição de 1986 de E. Bradford Burns


Poucos autores tem feito contribuições mais originais ao estudo do passado brasileiro do que Gilberto Freyre, um historiador de grande visão e interpretações desafiadoras. Morando no Recife, a cidade proeminente do Nordeste do Brasil, ele tem sido um escritor prolífico. Sua produção, abrangendo agora mais de meio século, influenciou gerações de intelectuais não só no Brasil como internacionalmente.

Freyre foi catapultado para a fama em 1933, com a publicação de Casa-Grande e Senzala. Neste estudo social sobre o longo passado colonial do Brasil, ele concentrou-se no surgimento de uma civilização brasileira singular criada pela amalgamação de contribuições européias, africanas e ameríndias. As raças e as culturas se mesclaram e se misturaram à sombra das grandes casas das plantações, dominadas por patriarcas onipotentes. A tese de Freyre atraiu atenção global. Desde então, historiadores vêm perseguindo este tema intrigante como ponto de partida básico para o estudo do Brasil. Ao mesmo tempo, os argumentos de Freyre com relação à relativa indulgência da instituição luso-brasileira da escravidão e da difundida democracia racial no Brasil acenderam uma viva controvérsia, que perdura até hoje. Claramente, Freyre tinha arrancado o véu que ocultava a Ameríndia e, principalmente, a participação africana neste processo histórico. Sua audácia e seu sucesso continuam a enriquecer nossa compreensão do gigante sul-americano.

Gilberto Freyre: Sua Ciência, Sua Filosofia, Sua Arte, um testemunho marcante das contribuições de Freyre foi publicado por José Olympio em 1962, em comemoração ao jubileu de prata de Casa-Grande e Senzala. Nas suas mais de quinhentas páginas, os principais intelectuais do Brasil renderam uma homenagem eloqüente ao seu colega e ao seu impacto sobre a auto-percepção brasileira. Seus ensaios revelam até que ponto as viagens das elites ao Velho Mundo, assim como as visitas de europeus interessados ao Brasil, colocaram o Império em contato cada vez maior com o mundo exterior.

A França contribuiu fortemente para a formação da vida intelectual, social e cultural do Brasil. Três missões culturais francesas, a primeira em 1816 e a última em 1840, conseguiram fortalecer a preferência pelos valores parisienses. As classes instruídas abraçaram o Francês como segunda língua. A visitante inglesa Maria Graham relata em seu Journal of a Voyage to Brazil and Residence there during Parts of the Years 1821, 1822, 1823 (Diário de uma viagem para o Brasil e residência lá durante parte dos anos 1821, 1822, 1823) que conversou com senhoras da alta sociedade em Francês. A literatura francesa eclipsou a brasileira assim como a de qualquer outra origem. Quem possuía instrução discutia animadamente os romances de Gustave Flaubert, Honoré de Balzac e Emile Zola. Suas obras dominavam as livrarias. Nas lojas das cidades mais importantes era possível encontrar qualquer artigo de luxo de Paris. A Rua do Ouvidor, uma das principais zonas comerciais, era quase exclusivamente francesa. As damas rivalizavam entre si ao copiar a última moda parisiense.

A influência inglesa não era menos dominante, especialmente no comércio, nos bancos e na política. Embora a monarquia parlamentária do Brasil era sui generis, encontrou um modelo no sistema britânico, cuja ordem, estabilidade e exclusividade agradava aos aristocratas. A Inglaterra exerceu um poder econômico esmagador no Brasil.

A emergente classe média urbana adotou as preferências da elite. Na medida do possível, também copiava modelos europeus, depreciando assim hábitos, costumes e a cultura tradicional brasileira. Joaquim Manoel de Macedo ofereceu provas convincentes desta e de outras características dessa classe incipiente em sua A Moreninha (1844), o romance brasileiro mais popular do século dezenove. Através dos estudantes, comerciantes, burocratas da corte, médicos, advogados e os seus familiares, que povoavam suas páginas, surgia o perfil da nova sociedade burguesa dos primeiros anos do Segundo Império. Suas conversas, até seus pensamentos, dos quais o leitor era partícipe, tudo parecia limitar-se a eles mesmos, suas rotinas, suas ambições. Embora possam ter lançado um olhar para seus concidadãos, o outro, certamente estava virado para a Europa.

Esta atenção renovada à Europa, esta influência crescente e predominância da Europa constituíam o que Freyre denominava de "re-europeização da sociedade." Ele se refere ao impacto português sobre o Brasil no século dezesseis que foi seguido da amalgamação de culturas européias, ameríndias e africanas que resultou em uma civilização brasileira fascinante e singular. A influência renovada e crescente após 1807 desafiava os valores brasileiros. Deu-se início a uma reconfiguração da sociedade para amoldá-la mais aos padrões ingleses e franceses. Freyre realça "a intensa re-europeização da sociedade brasileira no início do século dezenove que coincidia com o declínio do sistema patriarcal nas suas tradicionais áreas rurais" (p. 301).

A "re-europeização" desencadeou um "conflito de culturas", um tema significativo e recorrente na trama do texto de Freyre. Ele merece estudos posteriores. Por um lado, é de fundamental importância para a compreensão do nacionalismo, especialmente do nacionalismo popular. Amplos segmentos de pessoas comuns, partidárias dos costumes brasileiros, se debateram com aqueles determinados a modernizar o país de acordo com os padrões europeus. Por outro lado, o conflito cultural em muitos aspectos confere um significado transcendental ao curso da história brasileiro do século dezenove. Estudiosos do passado brasileiro estão começando a pesquisar este tema na atualidade. Os ricos veios históricos dos movimentos messiânicos e do banditismo dos sertões permanecem quase inexplorados. As dimensões da revolta popular, a exemplo da Guerra dos Cabanos, os enfrentamentos físicos entre os plantadores de café em expansão e os pequenos agriculturas do Vale do Paraíba, ou a Revolta do Quebra-Quilo, apenas foram insinuadas. Eles revelam dois Brasis em conflito. Lealdades culturais separaram ambos.

Até o final do século era amplamente evidente que os modernizadores tinham vencido. Talvez a derrota dos seguidores religiosos de Antônio Conselheiro nos sertões da Bahia por tropas do governo, em 1897, simbolizasse esta vitória. O brilhante intelectual Euclides da Cunha, testemunha da eliminação dos seguidores de Antônio Conselheiro em Canudos, refletiu: "Estamos condenados à civilização. Ou avançamos ou morremos. Isso é certo, e a nossa escolha é clara." Em Canudos, os canhões do exército aparentemente abriram o vasto interior à "civilização".

Qual era a escolha clara mencionada por da Cunha? Politicamente era a república com uma constituição que imitava a dos Estados Unidos; economicamente era o capitalismo. A ascensão da cidade vinculada ao rápido crescimento das exportações de café prenunciavam ambas escolhas.

Boa parte da modernização, urbanização e industrialização navegava no mar da prosperidade do café. No século dezenove, a produção de café e, consequentemente, a prosperidade concentrava-se no Rio de Janeiro, em Minas Gerais e em São Paulo, os focos do crescimento econômico no Brasil. À época da independência (1822), o café já era responsável por um quinto das exportações do Brasil, aproximadamente 190.000 sacas. Este número aumentou para 5.600.000 sacas, cerca de dois terços do total das exportações, à época da queda da monarquia, em 1889. Já em 1841, Pedro II homenageou os produtores da nova riqueza do Império ao alçar, pela primeira vez, um plantador de café à nobreza. Posteriormente, no decorrer de cada década, a classe dos fazendeiros do café ocupava um espaço cada vez maior ao interior da nova aristocracia. Alguns representantes desta nova aristocracia usufruíam de grande fortuna. Eles dominavam a sociedade, ao menos no dinâmico Sudeste. Construíram mansões na capital para rivalizar com o palácio real. De fato, o "palácio" de um barão do café, o Barão de Nova Friburgo, tornou-se residência do Presidente do Brasil após a proclamação da República.

Em muitos aspectos, o "boom" do café, as cidades florescentes e uma orgulhosa nova república condenaram as instituições vinculadas ao passado colonial: a sociedade patriarcal, a escravidão e a monarquia. O relato de Freyre concentra-se na sua derrocada. Paradoxalmente, e este é um aspecto que recebe menos atenção em Sobrados e Mucambos, a transformação também fortaleceu algumas instituições familiares de longa data assegurando, assim, a continuidade com relação ao passado - o controle da política e da economia pelas elites, o predomínio das grandes propriedades, a dominância do setor exportador e a monocultura - assim como as inevitáveis conseqüências da dependência tanto econômica quanto cultural.

Os centros das grandes cidades pretensiosamente copiavam a Europa. Uma modesta industrialização estava-se desenvolvendo. Estradas férreas e navios a vapor desafiavam as distâncias marcantes que caracterizavam o Brasil. Como conclui Freyre: "O boom do café representa a transição da economia patriarcal para a economia industrial" (p. 131). A nova classe cafeeira prosperava e, em escala muito menor, também a classe média urbana. Aos olhos de alguns, o progresso tinha triunfado.

Contudo, surge uma pergunta importante: Quais foram os benefícios que adviram para a maioria? Aqueles brasileiros pareciam sofrer a estagnação e o declínio de sua qualidade de vida. O acesso à terra diminuiu; a produção de alimentos não conseguiu acompanhar o crescimento da população; as desigualdades na distribuição de renda aumentaram; o poder de compra dos salários dos trabalhadores caiu. Em seu romance sobre o proletariado urbano, O Cortiço (1890), Aluízio Azevedo retrata um Rio de Janeiro infestado de prostituição, alcoolismo, miséria, exploração, criminalidade urbana e insanidade. O tema da disseminação da pobreza e da limitação da mobilidade social domina o romance. A re-europeização e qualquer que seja o progresso que a tenha acompanhado, obviamente não favoreceu os pobres no Brasil do século dezenove, e a esmagadora maioria era empobrecida.

Ao analisar o século dezenove em busca de sinais de desenvolvimento econômico - o uso do potencial de uma nação para o bem maior do maior número de pessoas - o pesquisador sairá desapontado. A economia cresceu. Ocorreram transformações. A dependência e a pobreza, no entanto, continuaram dominantes. O escritor brasileiro Graça Aranha concluiu em seu romance Canaan (1902) que o Brasil era uma colônia dos europeus: "Os senhores falam de independência", observou o magistrado com sarcasmo, "mas eu não a vejo. O Brasil é, e sempre foi, uma colônia. O nosso governo não é livre. Somos um protetorado." Uma década mais tarde, o eloqüente nacionalista Alberto Torres alertava: "Não poderemos ser livres se não controlarmos as nossas próprias fontes de riqueza .... Para manter a independência de uma nação é preciso que ela preserve os órgãos vitais de sua nacionalidade, entre eles seus principais recursos." Obviamente, as mansões das cidades trouxeram tão poucas soluções para o legado do subdesenvolvimento do Brasil quanto as casas das fazendas do passado rural.

Los Angeles, California
E. Bradford Burns
Setembro de 1986



Fonte: BURNS, E. Bradford. In: FREYRE, Gilberto. The masters and the slaves: a study in the development of brazilian civilization. Traduzido por Samuel Putnam. New York: Alfred A. Knopf, 1946. 537p.

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