O BRASILEIRO COMO TIPO NACIONAL DE HOMEM SITUADO NO TRÓPICO E, NA SUA MAIORIA, MORENO: COMENTÁRIOS EM TÔRNO DE UM TEMA COMPLEXO
Nossa condição nacional - a dos brasileiros - decorre de uma experiência histórica ainda em desenvolvimento: de um conjunto de fatôres étnicos, culturais, sociais que, dentro de uma ecologia, em grande parte, tropical, encontraram-se, chocaram-se, entraram em interrelações de vários tipos e em relações também diferentes com aquela ecologia. Dessas interrelações e dessas relações vêm resultando, através de um tempo que em parte se tornou histórico e continua dinâmicamente social, uma sociedade e uma cultura, a princípio, coloniais, de certa altura em diante, já pré-nacionais e, desde os primeiros anos do século XIX, antes mesmo de proclamada a independência política do nosso país como acontecimento histórico, já sociològicamente nacionais ou quase-nacionais. Processo, o da nossa passagem de uma situação pré-nacional a outra, nacional, que foi quase inteiramente pacífico, em contraste com o que ocorreu na vizinha América espanhola e mesmo na América inglêsa. Processo que continua.
Continua porque a condição nacional de uma sociedade que, como Estado-nação, não seja potência, é uma condição sempre em perigo, ameaçam-na mil e uma fôrças pacìficamente, sutilmente, suavemente, contrárias a êsse seu modo nacional de ser sociedade, algumas dessas fôrças partindo de dentro para fora da nação em desenvolvimento, em vez de virem de fora para dentro. Há, quase sempre, dentro de uma sociedade ou de uma cultura nacional, quem, com a melhor das intenções, contribua para a substituição maciça de seus valôres tradicionais, desenvolvidos com o tempo ou dentro de um tempo êle próprio já nacional, por valôres importados de outras sociedades e de outras culturas juntamente com técnicas das chamadas desenvolvimentistas. São valôres que, destruindo - se não forem assimilados - aquêles valôres nativos, ecológicos, telúricos, podem dar à sociedade ou à cultura que as importe e as adote passivamente, aspectos dos denominados progressistas. Mas tornando a cultura ou a sociedade nacional ou para-nacional de tal modo passivas que a sua condição de nacionais ou para-nacionais quase se reduz a insignificância: o caso extremo, atual, de uma Tcheco-Eslováquia ou de uma Polônia ou de uma Hungria com relação à União Soviética e o embora relativo - e não extremo - da mesma espécie, de um Pôrto Rico com relação aos Estados Unidos.
Não nos interessa, nestes comentários, considerar, na formação brasileira, de modo específico, nem os aspectos políticos, nem os aspectos econômicos, nem mesmo os étnicos, dêsse processo social; e sim, de modo breve - é claro - os mais amplos aspectos étnico-culturais, psicosociais, socio-culturais dessa formação vista, ou entrevista, na sua totalidade. Mais amplos porque para o antropólogo como para o sociólogo, o social inclui, entre seus elementos, o que é político, o que é econômico e o que é étnico no complexo formado por uma sociedade; o cultural também: inclui o que é político, o que é econômico, o que é de origem ou de aparência étnica, numa totalidade cultural afluente ou confluente.
É claro que a alguns especialistas em ciência política ou em ciência econômica ou em ciência etnológica repugna essa subordinação de suas matérias ao que seja complexamente social e compreensivamente cultural. Há economistas que consideram o social e o cultural aspectos secundários de um processo econômico. Há também quem repita, diante de qualquer assunto que se relacione com uma situação social ou com a formação de uma sociedade nacional, as palavras célebres de Maurras: "politique d'abord" . Há, ainda, quem pretenda que a etnia determina as formas sociais de um grupo humano e as suas expressões culturais. A verdade, porém, é que nas chamadas Ciências do Homem, ou Ciências Sociais, ou Ciências do Comportamento Humano, o critério mais geralmente aceito é aquêle que faz das sociedades, conjuntos sociais, e das culturas, complexos culturais dentro dos quais cabem os fatôres econômicos, políticos e étnicos. Fatôres importantes porém nenhum dêles soberano absoluto embora, em certas circunstâncias, de ação decisiva na formação ou no desenvolvimento de um sistema nacional de convivência.
Rara a nacionalidade - se é que existe alguma - formada ou constituída por um só tipo étnico e sócio-cultural de homem. De ordinário, vários são os tipos bio-sócio-culturais de homem que concorrem, ou têm concorrido, para formações dessa espécie. Tipos de personalidade contraditórios: dionisíacos e apolíneos, extrovertidos e introvertidos, ativos e contemplativos, racionais e intuitivos, conservadores e inovadores, sedentários e andejos. Tipos de origens históricas diversas, de adaptações diversas ao mesmo espaço nacional, ou a tornar-se nacional, de especializações também diversas em aspectos do seu comportamento que contribuam para a unidade, organização ou desenvolvimento nacional: a especialização agrária, a pastoril, a marítima, a urbana, a rural, a econômica, a intelectual, a artística. Não é só uma jangada que se faz com vários paus: também uma nacionalidade se faz com vários elementos humanos.
Nacionalidade no sentido sociológico de uma sociedade e de uma cultura organizadas com objetivos nacionais que cheguem até à sua autonomia como Nação constituída em Estado. Pois embora se saiba de nacionalidades que não atingem essa plenitude e são apenas minorias étnicoculturais, dentro de conjuntos imperiais, é em Estados-nações que, de ordinário, se pensa quando se fala em nacionalidades: assunto magistralmente estudado pelo Professor Carlton Hayes em obra que se tornou clássica.
Há um complexo nacional formado pelo Brasil - terra, água, espaço físico, ambiente, ecologia geral; pelo homem que, a princípio como pré-brasileiro, depois, como brasileiro, vem explorando, através do tempo histórico, essa terra e essa água, ocupando êsse espaço, harmonizando-se com êsse ambiente, com essa ecologia, com essa situação física; pela brasileiridade - digamos assim - que vem resultando, como conjunto bio-sócio-cultural de técnicas, de modos de vida, de hábitos de alimentação, de adesão a valôres éticos e estéticos, de tôda uma variedade de ligações dêsse homem, primeiro pré-brasileiro, depois brasileiro, com o espaço em que se situou, com o ambiente ou a ecologia com que se vem harmonizando e, também, com o tempo em que, històricamente, vem se prolongando de indivíduo, em pessoa, de raça em meia-raça, de meia-raça em meta-raça, de população em sociedade e em cultura: um indivíduo biológico, uma pessoa humana, uma meta-raça, uma sociedade que já se apresentam com característicos gerais nacionalmente brasileiros. Há um tipo já nacional de homem brasileiro para o qual vêm convergindo vários subtipos regionais que podemos considerar básicos na formação - que ainda se processa - dêsse tipo bio-sócio-cultural total.
Tal homem, tal meta-raça, tal sociedade, tal cultura, tal tipo, apresentam semelhanças com outros tipos nacionais. Mas sua singularidade, como tipo que possa ser denominado nacional, não é apenas um mito, embora tenha alguma coisa de mito e até de ficção como todo tipo dos chamados nacionais. Não há fantasia em pretender-se haver já uma singularidade brasileira que se exprime num tipo geral brasileiro caracterizado por um conjunto de modos, que lhe são peculiares, de andar, de falar, de sorrir; por preferências gerais, acima das regionais (algumas dessas regionais sendo muito expressivas), de paladar; por uma generalidade de aspectos físico marcada pela predominância de miscigenados, sôbre indivíduos de etnia pura, e de dionisíacos sôbre apolíneos, com essas predominâncias de modo algum significando exclusividade absoluta de aspectos e de modos de comportamento que excluam os contrários ou dêem, a êsses contrários, o caráter de aspectos e comportamentos antibrasileiros. Há brasileiros ruivos - nòrdicamente ruivos, até - sem que a êsse aspecto corresponda sempre o modo de comportamento apolíneo de ordinário associado ao tipo nórdico, do mesmo modo que há brasileiros de pele preta de um comportamento antes apolíneo - o dos inglêses clássicos - que dionisíaco, como o da maioria de negros africanos. Recordo três exemplos: o Arcebispo Dom Silvério, o psiquiatra Juliano Moreira, o engenheiro Teodoro Sampaio. Três pretos apolíneos: brasileiros e apolíneos. Enquanto o brasileiro de origem norte-européia Germano Hasslocker foi um quase puro dionisíaco.
Essa pluralidade antropológica de aspectos físicos, cromáticos, biossociais, é característica do brasileiro sem que falte ao homem, situado em espaço tão vasto como o do Brasil - considerado êsse homem menos como indivíduo biológico ou como aparência étnica ou cromática do que como pessoa no sentido sociológico da expressão - uma unidade geral que surpreende ao observador, tratando-se de gente, isto é, de homem, espalhado em sub-regiões diversas de um tão vasto espaço continental, embora quase todo êle favorável a essa unidade pela sua condição, quase tôda, de tropical e de subtropical. Condição à qual pensam alguns que se vem juntando, nas sub-regiões fìsicamente não-tropicais, a situação sociocultural ou psicocultural de sub-regiões tropicalizadas por contágio com as subtropicais e tropicais. Essa tropicalização viria importando em crescente processo de identificação - segundo parece a alguns analistas do assunto - com uma cultura nacional brasileira de vivências e convivências predominantemente tropicais.
O homem vivente e convivente não pode ser definido apenas em têrmos abstratos, matemáticos, estatísticos. Precisamos de nos defrontar com o que nêle seja o que Unamuno chamava "carne e osso". Precisamos de considerá-lo, o mais possível, na sua totalidade biossociocultural, não só o ser que pensa, sente, sonha, fala, ri, reza, dança, fabrica, pinta, toca viola, fuma, distinguindo-se, por essas aptidões humanas, dos demais animais como o que copula, come, defeca, sua, corre, grita, sobe às árvores, desce às águas, nada, sendo, nessas expressões de vida, ao mesmo tempo que universal como indivíduo biológico, particular, diverso, regional, pré-nacional, como pessoa, isto é, como indivíduo socializado e aculturado de acôrdo com uma ecologia, uma cultura, um grupo a que pertença, ou dentro do qual nasceu ou cresceu; e, de acôrdo com êsses condicionamentos, praticando atos animais - comendo, copulando, nadando - de diferentes maneiras biossocioculturais.
É em virtude dessas particularizações de comportamento, decorrentes de situações ecológicas e culturais particularizadoras da condição humana, que se pode falar de um homem brasileiro como de um homem francês, de um homem português, de um homem espanhol, de um homem russo, de um homem mexicano, de um homem paraguaio, de vários outros homens nacionais; de vários outros tipos nacionais ou regionais de Homem. Para êsse tipo nacional de Homem brasileiro - ainda em formação mas já bastante definido, antropológica e sociològicamente - sabemos que têm concorrido, e continuam a concorrer, vários subtipos regionais, alguns dinamizados em transregionais: o caso clássico do Bandeirante. O do nordestino. O do próprio gaúcho que se tem projetado sôbre o Brasil Central.
Se ao antropólogo Bastos de Ávila - refiro-me ao antropólogo, pai ilustre do sociólogo também ilustre - o tipo brasileiro de homem conhecido por gaúcho se apresenta como transitório, e não como básico ou essencial, é que para êle gaúcho tem um sentido restrito. Não se refere ao rio-grandense-do-sul em geral. Porque êste, o rio-grandense-do-sul, como um subtipo regional total, tem sido evidentemente um subtipo, além de básico, funcional, na formação da nacionalidade brasileira, como uma atuação que se tem projetado fora da província ou do Estado do Rio Grande do Sul e não apenas se afirmado na defesa ou no resguardo da fronteira meridional do Brasil formada pelo mesmo Rio Grande do Sul. Por essa atuação, o rio-grandense-do-sul - de ordinário branco, por vêzes com algum evidente salpico de sangue ameríndio, bem mais raramente tocado de sangue negro, (sangue, o negro, tão mais comum no brasileiro de Minas Gerais, do Rio de Janeiro ou do Nordeste) - pode ser considerado subtipo de homem essencial, dentre os que mais vêm contribuindo para a formação da nacionalidade brasileira: o Bandeirante, o mineiro, o paraense, o nordestino - no nordestino incluído o baíano - e, ainda, aquêle neobrasileiro do extremo Sul, de origem italiana ou alemã, que, sob alguns aspectos, vem se tornando paradoxalmente mais zeloso de tradições brasileiras que o brasileiro mais antigo.
Já está tardando, porém, uma definição quanto possível exata daquelas expressões antropológicas e sociológicas já utilizadas, ou a ser utilizadas, pelo autor dêstes comentários, nesta sua tentativa de apresentação de uma teoria que muito se presta conforme as expressões verbais por que seja considerado o assunto, a confusões de caráter semântico. Devemos, assim, procurar definir conceitos como o de Homem; o de Homem Situado; o de Ecologia geral; o de Indivíduo biológico; o de Meta-Raça; o de Pessoa; o de Sociedade; o de Complexo de Cultura; o de Cultura; o de Tropicalidade adquirida com que se completa o de Tropicalidade inata; o de Antropologia do Homem situado nos Trópicos. Alguns dêsses conceitos são próprios do autor, embora já submetidos à apreciação de mestres e analistas universitários do país e do estrangeiro e por êstes acolhidos e aprovados: o de Antropologia do Homem situado nos Trópicos, oficialmente, pelos mestres de Ciências do Homem da Sorbonne; o de Meta-Raça, por mestres da Universidade inglêsa de Sussex; enquanto com o de tropicalidade adquirida que se acrescente ao de tropicalidade inata coincide, no essencial, o critério que vem sendo seguido pela Academia Francesa de Ciências (do Ultramar), da qual o autor tem, aliás, a honra de ser membro. Com o de Ecologia, do autor, ou brasileiro, coincidem, no essencial, o do Professor Bews, da África do Sul, e o do Professor Mukerjee, da Índia, sem que ao brasileiro falte o que um estudioso anglo-americano do assunto, o Professor Edmonds, considera a sua ênfase: ênfase como que extra-sociológica, mas, na verdade, sociològicamente atenta à repercussão do telúricos sôbre o comportamento psicossocial do Homem ecològicamente situado. Por conseguinte, ênfase antropo-sociológica. Ênfase no aspecto telúrico da ecologia que condicionasse a existência e a cultura do homem nela situado.
Consideradas as referidas expressões nos significados, quanto possível exatos, com que delas se vem utilizando o autor dêstes comentários, poderão ser evitadas - repita-se - algumas daquelas confusões semânticas que tanto podem prejudicar o entendimento em tôrno de estudos antropológicos e sociológicos. O critério do autor, em face de estudos sôbre assuntos antropológicos combinados com os sociológicos, vem sendo, em grande parte, o de procurar abordá-los, quer com relação ao Homem, às Sociedade e às Culturas, em geral, quer com relação ao Homem, á Sociedade e à Cultura brasileiras, em particular, procurando notar o que nos encontros de formas e de processos que sejam antropológica e sociològicamente gerais, polivalentes, com substâncias ecológica, étnica, etnogràficamente diferentes, entre si, apresenta-se sob configurações existenciais, sem prejuízo das essenciais. O homem brasileiro apresenta-se sob configurações existenciais que precisem de ser compreendidas através de análises do que, nelas, ao essencial, se junte êsse existencial, com suas particularidades de espaço e de tempo. O homem existente, vivente, convivente, concreto, carnal, particularizado, situado, ambientado. Muito mais êste que o étnico. Ou que os étnicos[1].
Não deve, porém, o autor prosseguir em comentários, embora pertinentes, em tôrno do que, sendo consideração antropológica e sociológica do Homem como homem situado, oriente o estudo do Homem brasileiro como um homem a quem sua situação ecológica, social e cultural dá característicos que o distinguem de outros homens situados, sem o isolarem num homem único na sua singularidade, sem insistir em umas tantas definições daqueles conceitos fundamentais para qualquer tentativa de apresentação de assunto ou tema antropológico ou sociológico sob critério ao mesmo tempo situacional e existencial.
Homem, que é, considerado antropológica ou sociològicamente? É um indivíduo biológico que só adquire realidade plena socializado e aculturado em pessoa: pessoa humana. Homem situado é o homem concreto, específico, quanto à sua situação em espaço e em tempo, físicos e sociais. Sua situação racial é parte de sua situação concreta mas tende a ser quase anulada pela crescente ascendência, em algumas sociedades - a brasileira é uma delas - da substituição da consciência de raça, diluída, com a mestiçagem ou a miscigenação, pela consciência de meta-raça, isto é, pela superação do aquem raça pelo além raça. Conceito, aliás - o de meta-raça - brasileiro. O Indivíduo biológico é, no caso do Homem antes de social e culturalmente humanizado por um tipo de socialidade e por um tipo de cultura que façam dêle aquela já aludida Pessoa, um homem apenas em potencial. Pessoa repita-se que é êsse indivíduo biológico socializado em membro - socius - de um grupo e em participante, direto ou indireto, de uma cultura grupal: tribal, regional, nacional, transregional. Ecologia geral é a que, vegetal animal, humana envolva, como ambiente total, inclusive telúrico, um indivíduo biológico que esteja sendo, ou já esteja, socializado e aculturado em pessoa conforme, em grande parte, condições próprias dêsse ambiente total. Por Sociedade deve-se entender, em Antropologia Social e em Sociologia, a população que constitua uma unidade social com organização mais ou menos distinta das de outras sociedades. Por Cultura entenda-se o conjunto de invenções e de desenvolvimentos de aptidões humanas, tanto materiais - técnicas de construção, de abrigo, de caça, de pesca, de agricultura, de transporte, etc., como não-materiais, tais como crenças e idéias. Como conjunto geral, a cultura pan-humana se apresenta sob o aspecto de vários e diferenciados conjuntos culturais específicos, tribais, regionais, nacionais, transnacionais. Exemplos: a cultura maia, a bantu, a guarani, a cultura francesa, a cultura germânica, a eslava, a ocidental, a islâmica. Por complexo de cultura deve-se entender uma cadeia de invenções e de desenvolvimentos, associados funcionalmente, em tôrno de um motivo central ou principal como é, por exemplo, o trigo ou o café ou o vinho, podendo-se também falar de um complexo nacional de cultura desenvolvida, assim inter-relacionada e funcionalmente, em tôrno de motivos nacionais de existência, convivência, coesão e desenvolvimento: o complexo nacional de cultura japonêsa, por exemplo. Tropicalidade refere-se à ecologia tropical sôbre a qual se projete uma cultura por sua vez condicionada, embora não determinada, por essa situação de espaço físico, como é o caso da cultura indiana e de grande parte da cultura brasileira. Tropicalidade adquirida é a que, mais cultural que ecológica, seja adquirida por contágio, de uma cultura ecológica vizinha, como é o caso de vários valôres e usos tropicais que brasileiros de sub-áreas temperadas vem juntando aos seus valôres e usos não-tropicais, numa como solidariedade com os usos e valôres da maioria brasileira, tropicalmente situada e condicionada. Sendo assim, pela Antropologia do Homem situado no Trópico, da tese brasileira, deve ser compreendida aquela antropologia especial, originária do Brasil e consagrada oficialmente por mestres de Ciências do Homem da Sorbonne, que procura estudar o Homem situado no Trópico dentro das inter-relações de Ecologia e de Cultura que lhe estejam porventura dando um perfil antropológico, bio-social, próprio da sua situação. O Homem brasileiro, do qual Álvaro Osório de Almeida já sugeriu, após investigação memorável, que seria diferente no seu metabolismo do Homem das áreas temperadas, pode ser considerado exemplo, no setor fisiológico com repercussões no sócio-cultural de homem moderno, civilizado, predominantemente, mas não exclusivamente, europeu na sua cultura, situado no trópico. Homem, o brasileiro, também caracterizado, nesses setores, por sua crescente, isto é, crescentemente generalizada, morenidade[2] talvez protetora de sua maior adaptação ao ambiente tropical: espécie do que teria sido o urucu para ameríndios de pele menos escura. Tal morenidade, em grupos numerosos de brasileiros - o nordestino, por exemplo, e também os de certas sub-regiões do Centro-Sul - vem resultando, quer do amorenamento pelo sol tropical até de nórdicos, quer da considerável miscegenação em que se vêm unindo os sangues europeus, ameríndio e africano, com resultados além de eugênicos, estéticos. Resultados que já fazem do tipo moreno de mulher ou de homem um tipo atraente para brancos, por um lado, e para negros puros, por outro.
Quem fôr leitor de periódicos da África negra, para leitores negros africanos dos nossos dias, verá que nêles vêm aparecendo, em crescente número, anúncios - e a análise sociológica dos anúncios é outra inovação brasileira - de loções ou pomadas que amorenam a pele prêta. Não se trata - note-se bem - do embranquecimento da pele prêta e sim do seu amorenamento por meios artificiais correspondentes a um ideal estético-cromático de aspecto humano, particularmente do feminino. Sendo considerável, como parece ser, a receptividade de pretas africanas a êsses anúncios, de caráter principalmente estético, com implicações extra-estéticas, pode-se concluir que, entre um número nada insignificante de mulheres tanto pretas como brancas, o que domina, contra a mística da negritude, é o desejo do amorenamento. É o ideal - já tão brasileiro - da morenidade. Portanto, um desejo que as aproxima mais da tendência brasileira no sentido da morenidade que do ideal de pureza de pele intransigentemente prêta, contrário à miscigenação e favorável a um racismo prêto africano oposto, de modo radical, ao racismo branco europeu ou branco anglo-americano ou branco sul-africano[3].
Destaque-se, a esta altura, que a atual tendência brasileira para a valorização eugênica, estética e social da sua gente morena, inclusive para a representação, como morenos, do Cristo, da Virgem, de Santos, no seu cristianismo, retificando-se o pendor para a exclusiva apresentação dessas figuras sagradas como arianos, albinos, louros - pendor tão de Mestre Cândido Portinari e pelo autor dêstes comentários, tão denunciado como antibrasileiro e como subeuropeu, o que pôs em perigo a amizade do autor com o famoso pintor - teve num insigne poeta português do fim do século passado e do comêço dêste, quem a ela se antecipasse, revelando-se morenófilo ostensivamente lírico. "... olha que foram morenas... as môças mais lindas de Jerusalém e a Virgem Maria, não sei se não seria morena também. " Palavras de Guerra Junqueiro a uma morena, portuguêsa ou, quem sabe, lusotropical, talvez brasileira, que êle supunha acabrunhada pelo fato de ser morena numa época, como aquêle fim de século, de excessiva glorificação - excessiva por exclusivista - em Portugal como no Brasil, do tipo albino, róseo, louro, de mulher.
O brasileiro é uma gente crescentemente morena. Ao vaticínio, porém, de vir a ser o Brasil, dentro de algum tempo, uma "população de mulatos", falta idoneidade antropológica. O que é provável e até certo é a maior generalização de morenos, nessa população, a ponto de tornar-se, pelo ano 2000, a morenidade, uma predominância barrocamente, isto é, vàriamente como diria Camões - característica do Homem brasileiro com cada dia menor número de exceções[4].
Mesmo porque é possível que esteja para acentuar-se a valorização, quer por motivos biológicos, quer por motivos estéticos, dessa melanização e até de característicos não-estéticos que a ela possam ser associados. É também possível que para tornar efetiva essa valorização ou essa preferência - "a côr morena e côr de ouro", diz já a poesia popular brasileira - possam concorrer meios científicos já em experimentação, de alteração de formas e de côres de corpo ou da figura humana, conforme preferências estéticas e conveniências higiênicas ligadas a condições ecológicas. É um sábio da autoridade e da responsabilidade científica do Professor Carleton S. Coon quem o informa, em obra notável, The Living Races of Man, escrita com a colaboração de Edward E. Hunt Junior e publicada em Nova York em 1965, "Recent research on the actions of two hormones secreted by the pineal body" - escreve êste sábio mestre de Antropologia Física, à página 317 do seu tratado - "make it possible that before long people will be able to change their skin color whenever they like, by simple injections". O Professor Coon admite que as diferenças raciais mais ostensivas possam vir a ser superadas não só na sua anatomia como na sua fisiologia: inclusive quanto a desníveis de inteligência acusados pelos QI., através de tests que, entretanto, parecem corresponder principalmente a adaptações de capacidade mental a um tipo dominante de cultura. Êsse tipo dominante sabemos que atualmente é o europeu desdobrado no anglo-americano.
Em relação com êsse tipo dominante, mas não exclusiva nem sistemàticamente opressor de outros tipos de cultura, é que vem se processando o desenvolvimento do Brasil, como Estado-nação. Como Estado-nação, o brasileiro é senhor de vasto, vastíssimo território. Êsse brasileiro, como tipo durante algum tempo mais polìticamente nacional do que ecològicamente situado, vem se tornando cada dia mais consciente tanto de sua ecologia como que nacionalizante, como da sua definição, através do tempo histórico, em tipo nacional. Consciente, também, da sua brasileiridade, como conjunto menos de invenções do que de valôres e de usos culturais assimilados ou imitados de outros sistemas de culturas e crescentemente adaptados a uma ecologia como que, ela própria, nacionalmente brasileira. Telùricamente brasileira, até. Criadoramente brasileira.
Êsse desenvolvimento, podemos os brasileiros considerá-lo satisfatório? Estaremos já começando a nos desenvolver como um sistema nacional libertado de europeísmos ou de ianquismos excessivos que desprestigiem a imagem que de nós próprios devemos fazer como Homem, como Cultura, como Nação situados, em grande parte, em espaço tropical e, em grande parte, mestiços ou miscigenados em vez de isto ou aquilo, pura ou exclusivamente? Estaremos considerando nossa condição de gente em grande parte, morena, e até amarela, uma condição ecològicamente positiva, em vez de negativa[5], dado o fato, estabelecido pelos estudiosos mais profundos do assunto - como H. F. Blum, em seu "Light and the Melanin of Human skin" (New York Academy of Sciences, Sp. Vol. 4 (1948) e N. A. Barnicot, em "Human Pigmentation" (Man, n. 144, (1957) - de ser a pele escura, isto é, amarela, parda, prêta, morena, mais eficiente do que a alva na resistência ao que haja de deletério nos efeitos, sôbre o Homem, da luz mais intensa dos trópicos, podendo considerar-se saudàvelmente ecológico o amarelo - "the glossy yellow skin" - da pele dos mestiços da América tropical, em geral - inclusive do Brasil? Sendo, assim, é evidente, a vantagem fisiológica, sôbre brancos alvos, do chamado "amarelinho" brasileiro, a quem o folclore atribui qualidades que contrastam com a sua côr, aparentemente doentia, e com o seu franzino de corpo. Precisa o brasileiro de inteirar-se do fato de que a identificação, em têrmos absolutos, de faces côr-de-rosa de homem com saúde, vigor, viço, superioridade física, é um europeísmo convencional como é um ianquismo convencional a associação da estatura elevada ao vigor físico: mito já tão desmentido pelo vigoroso, enérgico e eficiente tipo nacional que, de arcaico, passou a moderno, que é o japonês pequeno e amarelo. Donde à elevação de estatura de americanos dos Estados Unidos, nos últimos decênios, como a de japonêses após longa permanência nos mesmo Estados Unidos e aí nutridos à maneira anglo-americana, não se poder atribuir vantagem que valorize de modo absoluto tal elevação.
O Professor José Bastos de Ávila, em sua excelente Antropologia Física, publicada no Rio de Janeiro em 1958, do mesmo modo que o autor destes comentários em trabalho que data de 1936 - intitulado Nordeste e hoje em 4ª edição e recem-aparecido em língua italiana - admite a existência, no Brasil, de subtipos regionais de Homem brasileiro "mais ou menos fixados, entre os quais o nordestino parece definitivo", em contraste com o gaúcho do Sul que seria, para Bastos de Ávila - repita-se - simples "tipo" - deveria dizer subtipo - "de transição ou de contacto". Repele o ilustre antropólogo a idéia de uma "raça brasileira" a que por vêzes levianamente se referem, sem mais aquela, antes curiosos da Antropologia que antropólogos autênticos. Não existe, a rigor, tal raça. Daí poder admitir-se que, em seu lugar, exista, no nosso país, uma meta-raça: tese que o autor dêstes comentários defendeu já, em conferência em língua inglêsa, proferida na Universidade de Sussex (Inglaterra) e publicada, nessa língua, pela mesma universidade.
O máximo a que se pode chegar, neste setor, é a reconhecer um tipo brasileiro, já nacional, de Homem, que se define mais por característicos psicoculturais, que lhe seriam próprios, do que por característicos biofísicos especìficamente brasileiros. Admite-se que a êsse tipo nacional de Homem possa já ser atribuída, além de uma média de côr trigueira ou morena, que vá do moreno escuro ao claro, amarelado - e que permite o uso atual da palavra "moreno", no Brasil, para designar até indivíduos de côr prêta que a delicadeza nacional evita chamar negros: outra tese defendida naquela conferência em Sussex - uma média de estatura antes baixa do que alta. Não basta, entretanto, a constatação dessas médias para poder um antropólogo caracterizar o brasileiro atual como tipo já racial, nôvo. O branco brasileiro - o leucodermo da classificação de Roquette Pinto no seu clássico Notas sôbre os tipos antropológicos do Brasil, publicado no Rio de Janeiro em 1929 - apresenta dois subtipos de estatura, em tôrno de 1,63 e 1,69. O faiodermo - vulgarmente chamado mulato - é, na sua grande maioria, indivíduo com a estatura média de 1,64. O xantodermo, ou seja o de ordinário denominado mameluco, apresenta-se com uma média de estatura também mais baixa do que alta: em redor de 1,63 e 1,69. Todos, portanto, indivíduos com uma média de estatura abaixo de 1,70, sem que essa predominância de estatura média venha impedindo o Brasil de produzir atletas de agilidade e do vigor de certos morenos brasileiríssimos - um dêles o hoje famoso Pelé - e morenas bem classificadas em concursos internacionais de beleza. Morenos e morenas meta-raciais: simplesmente brasileiros.
Por meta-raça entenda-se a superação de uma consciência de raça pela, senão inconsciência, indiferença, a essa situação puramente biológica. A consciência de uma morenidade ampla como característica nacional brasileira - embora admitidos como genuìnamente brasileiros albinos, em minoria que procura, por vários dos seus membros, abrasileirar-se cromàticamente amorenando-se ou bronzeando-se ao sol de Copacabana e de outras praias - é uma consciência que corresponde à crescente tendência do brasileiro para pensar de si mesmo como um tipo nacional de homem que, qualquer que seja sua origem étnica predominante, é um moreno cromàticamente, barrocamente, tropicalmente vário na sua morenidade, São essas variantes com efeitos e seduções de caráter estético que dão a uma cromàticamente vária, diversificada, múltipla, morena brasileira, característicos de um tipo já nacional de mulher. Pois ela se apresenta senão una, quase una, pelo modo de andar, pelo de sorrir e por um encanto ou uma graça, comum a tôdas essas variantes. Encantos que a situam entre os tipos femininos mais atraentes do tempo moderno, com alguma coisa - pode-se sugerir - de um tipo grego tropicalizado.
A morenidade brasileira, como uma concepção de tipo humano em que a raça é superada pela meta-raça, apresenta-se inseparável do conceito, também brasileiro, do lusotropicalidade: um conceito que, ao ser apresentado pelo autor, teve a apoiá-lo, de modo o mais expressivo, além de imediato, em reunião de caráter científico do Instituto Internacional de Civilizações Diferentes, a palavra lúcida e sábia do Professor Marcelo Caetano, da Universidade de Lisboa e a de vários outros sábios europeus como o Professor Kirkwood, de Oxford. Curioso que onde o conceito brasileiro de morenidade, combinado com o de tropicalidade, viria a merecer apoio mais entusiástico seria na Universidade suíça de St. Gaulen, quando o autor dêstes comentários apresentou algumas de suas idéias a professôres e estudantes de uma universidade que concilia magnìficamente tradição com modernidade. A um ouvinte, dentre o numeroso público universitário reunido para ouvir essa conferência de brasileiro, que revelou dúvidas quanto à validade do tipo mestiço, quer como tipo físico, quer como tipo sociocultural, três outros se levantaram, a proclamarem que o exemplo brasileiro, como outros exemplos lusotropicais, já não permitia tais dúvidas.
Quando à côr da pele - para voltar-se a êste aspecto do assunto com alguma minúcia - especifique-se, do branco brasileiro, que, homem de pele, em geral, trigueira ou morena (nº 10 a nº 19 da escala de Von Luschan ), a êsse moreno de pele correspondem cabelos, em geral negros, olhos, em geral, escuros e braquicefalia. Do outrora chamado "mulato" brasileiro, especifique-se que a sua pele é parda mais ou menos escura - do pardo ao amarelo (nº 20 ao nº 30 da escala de Von Luschan) - os olhos escuros, e que é mesocéfalo. Do "mameluco" - expressão crescentemente arcaica, em face do alastramento de sentido da palavra moreno - pormenoriza-se que se apresenta de pele entre parda e amarela ( do nº 20 ao nº 30 da escalo Von Luschan), cabelos negros, olhos escuros, e que é braquicéfalo. Do negro - outra expressão quase obsoleta no Brasil para designar tipo étnico - se esclareça que sua pele mais ou menos negra - como pele de subtipo cromático brasileiro (vai do nº 30 ao nº 36 da escala de Von Luschan) que seus olhos são escuros, seus cabelos escuros e é braquicéfalo. Compreende-se que com a predominância estatística, entre os brasileiros atuais, dos de pele ou aparência morena - parda, parda amarelada, amarela, preta - de cabelos e de olhos escuros, de braquicefalia, se possa falar no brasileiro como um tipo nacional de homem predominantemente - embora de modo algum exclusivamente: são numerosos os brasileiros brancos, alvos, albinos, quando muito apenas amorenados pelo sol - moreno, havendo algum apoio antropológico para o uso amplo, elástico, do qualificativo moreno para incluir os vários graus da escala de Von Luschan: do nº 10 ao 36. Compreende-se, mais, que, com essa extensão do qualificativo moreno para o homem brasileiro mais típico, quer prêto, quer apenas trigueiro, ou sòmente amarelo, esteja a desenvolver-se, inconscientemente, no Brasil uma como mística de morenidade - com o indivíduo moreno de côr amarelada dominante me algumas áreas do país - que se opõe, de modo sociològicamente significativo, a místicas de exclusividade racial: a da negritude e a de branquitude como expressões específicas de raça ou de etnia pura. Morenidade ou morenitude.
O Homem brasileiro apresenta-se atualmente, no maior número de casos, um homem antes baixo do que alto e antes moreno amarelado do que rosado, antes magro do que redondamente encorpado, sem que tais característicos signifiquem inferioridade de físico ou de biótipo. É um homem, em casos também numerosos, mestiço, ou miscigenado, em vários graus de mestiçagem ou de miscigenação sem que nos seja preciso nos desculparmos dessa condição crescentemente meta-racial de grande parte da população nacional, perante populações que ainda se ufanem de ser ètnicamente puras e pretendam associar essa suposta pureza a pretensões de positiva superioridade de sua cultura nacional. O mestiço já não é considerado uma vergonha para a humanidade mas, ao contrário, por alguns observadores idôneos - H. G. Wells foi um dêles, Boas foi outro - a antecipação de uma humanidade que venha a ser menos dividida, do que até agora, pelas chamadas fronteiras étnicas.
Ao Professor Arnold Toynbee impressionou o que lhe pareceu o aspecto favorável no grande experimento brasileiro da miscigenação. Em seu contato com o Brasil, deu êle ao autor dêstes comentários, a honra de uma visita, durante a qual êste e outros assuntos foram considerados. O Professor Toynbee não vê solução mais satisfatória para os problemas de conflito entre grupos étnicos que a miscigenação: a solução brasileira. Solução ampliada da portuguêsa, embora eruditos britânicos de menor porte que o Professor Toynbee, como o Professor Boxer, talvez desorientados no seu saber histórico por atualíssimas influências para-políticas, pretendam negar aos portuguêses essa constante no seu comportamento: constante outrora tão censurada nos mesmos portuguêses por outros Boxers.
Mais do que qualquer outra das grandes populações nacionais modernas, a população do Brasil de formação principalmente portuguêsa, é uma população miscigenada, com caucasoides e negroides presentes nessa comistão, sem que lhe tenham faltado ameríndios e sem que lhe falte, há meio século, o sangue japonês. Mesmo assim, a presença européia, nessa população, vai até 62%. Muito menos que os 80% que se fazem notar na população da Costa Rica, que os 90% que avultam na população uruguaia ou os 97% que sobressaem da população argentina, porém, superior, como percentagem, ao que é atualmente essa mesma presença, em qualquer outra população latino americana. Por outro lado, depois do Panamá, é no Brasil que a presença africana mais avulta como percentagem de população nacional na América Latina: 11%. Sabe-se, entretanto, que, no século XVI, o número de negros foi maior, no México, que o de europeus, tendo se reduzido a menos de 1%, absorvido pela numerosa população mestiça dessa grande república hispânica da América, onde os europeus são, atualmente, apenas 15% da população, os ameríndios, 29% e os mestiços - inclusive os descendentes de negros diluídos em mestiços - 55%. A superioridade da cultura mexicana sôbre outras culturas latino-americanas talvez decorra dessa assimilação de sangues e de valôres negros africanos que terão enriquecido os valôres ameríndios e europeus.
Da população brasileira, tão miscigenada em várias das subregiões do país, a mais miscigenada é a do Nordeste, estudada em São Paulo, num grupo considerado típico de nordestinos, e pelos mais modernos métodos de análise nesse setor, pelos geneticistas D. F. Roberts e R. W. Hiorns. Calculam êles a composição dêsse nordestino típico como sendo 65% portuguêsa, 25% africana e 9% ameríndia. Dão conta de sua pesquisa no trabalho "Methods of Analysis of a Hybrid Population" (Human Biology, vol, 37, nº 1 (1965). É precisamente êste o subtipo que antropólogos como o autor destes comentários, desde 1937, e Bastos de Ávila, em livro publicado em 1959, e intitulado Antropologia Física, e, mais recentemente, Mestre Froes da Fonseca, à base de observações diretas da situação nordestina, vêm considerando mais estabilizado como subtipo biossocial brasileiro, embora a todos os três repugne a idéia de haver uma "raça brasileira" pròpriamente dita.
Com o êxodo, que, na década 50, chegou a ser impressionante, de nordestinos para o Centro-Sul - nordestinos típicos e na idade biológica mais vigorosa - dessa presença de brasileiros grandemente miscigenados em sua situação biológica e profundamente telúricos em sua condição ecológica - muitos dêles, apresentando-se mais da coloração amarela do que da parda - entre populações, como as do Centro-Sul, desde o início da Segunda Grande Guerra, quase estáticas como populações predominantemente caucasoides ou brancas, vem resultando alterações nada insignificantes, nessa aparente uniformidade albina, à qual se vem sobrepondo não pouca, embora moderada nos seus graus mais extraeuropeus, de melanização. Se de tal êxodo se pode dizer que vem representando para o Nordeste um rapto de alguns dos seus melhores elementos biológicos, ou biossociais, por outro lado, essa migração interna vem pondo, mais uma vez, o brasileiro do Nordeste em função panbrasileira como elemento biológica e culturalmente unificador ou mediador entre expressões extremamente diferenciadas do Homem do Brasil. Função exercida outrora pelo mesmo nordestino com relação à gente demasiadamente ameríndia do extremo Norte: gente que, com a considerável presença nordestina na Amazônia nos grandes dias da borracha, abrasileirou-se em conseqüência de acréscimos ao seu número e de alterações às suas predominâncias de forma e de côr recebidas dêsses seus já miscigenados compatriotas. Alterações biológicas a que corresponderam modificações culturais e psicoculturais: as gentes amazônicas foram, naqueles dias, culturalmente enriquecidas de valôres euro-africanos que contribuiram para sua integração, desde então assegurada - embora necessitada agora de intensificação e de ampliação - ao todo biológico e cultural caracterìsticamente brasileiro. A sociedade brasileira. A cultura pan-brasileira. É uma integração já iniciada que precisa apenas de ser ampliada e aprofundada.
Abrasileiramento semelhante repita-se que vem se verificando, nos últimos anos, em certas sub-áreas do Centro-Sul, caracterizadas pela predominância, nas suas populações e nas suas culturas, de elementos neo-brasileiros. Abrasileiramento através da já referida presença nordestina, representada principalmente pelos já referidos machos na flôr da vida: homens, muitos dêles, antes eugênicos que cacogênicos, a despeito das anedotas em tôrno dos por vêzes tão caricaturados "cabeças chatas" ou "paus de arara" ou "amarelos de Goiana". Nessas sub-áreas, não poucos nordestinos têm unido à função biológica, de desvirginadores da pureza racial neo-européia, a cultural, de transmissores, a neo-brasileiros, daqueles usos, daquelas vivências, daquelas experiências, característicos da sua já longa integração no Brasil. Ao mesmo tempo, alguns dêsses nordestinos têm absorvido, de neo-brasileiros, valôres e usos suscetiveis de ser abrasileirados com vantagem para aquêle processo de desenvolvimento meta-racial e, até certo ponto, multicultural, do qual pode-se esperar que venha a emergir um Homem complexa e plenamente brasileiro, ao mesmo tempo singular e plural em sua brasileiridade e na sua generalizada, mas não exclusiva, morenidade.
Estará êsse homem como que ecològicamente ideal, agora apenas emergente se aprofundando noutras regiões, além da nordestina e de sub-áreas do Centro-Sul e do Sul, na sua adaptação à ecologia dos espaços que vem ocupando, da natureza que vem explorando, dos ambientes totais com que vem convivendo? Pode-se talvez responder que, sob certos aspectos, sim - considerado o Homem brasileiro como um tipo sociològicamente weberiano de "tipo ideal" - e admitidas exceções importantes ao que seja sua relativa normalidade de desenvolvimento ecológico.
Sua natalidade é, atualmente, das mais altas. Sua média de vida vem se elevando e, diminuindo a excessiva e humilhante percentagem, de indivíduos de menos de vinte anos na sua população. Suas vitórias sôbre a malária vêm se acentuando, embora, por outro lado, a esquistosomose continui a degradar grande parte das águas, outrora saudáveis, do espaço brasileiro mais ligado à presença humana; e á degradação das águas venha sucedendo a degradação física de numerosos brasileiros das populações ribeirinhas. Conseqüências da poluição de águas que com a do ar é atualmente um problema universal e não apenas brasileiro.
Hábitos de alimentação e de recreação, métodos e facilidades de educação e de higiene, quer pessoal, quer pública, vêm - aspectos positivos - nos últimos decênios, concorrendo para que se aprofunde, no Brasil, aquela adaptação do homem ao seu meio ou ambiente sem prejuízo de sua civilidade ou da sua europeidade: civilidade no sentido de vir sua cultura mais civilizada - a de origem européia - porém não antitelúrica, ganhando extensão sôbre áreas outrora àsperamente rústicas e de subculturas não só telúricas como arcaicas; agrária e pastorilmente arcaicas. Processo de extensão de formas civilizadas de cultura a áreas menos acessíveis a essa penetração que se deve à crescente intercomunicação física e cultural entre extremos - os rústicos e os urbanos - até há pouco tão física e social e culturalmente distanciados uns dos outros - por novas técnicas de transporte e de comunicação. Técnicas tão importantes num país da extensão do Brasil.
Insista-se, porém, a propósito dessa extensão de formas civilizadas de cultura, que ela não vem sistemàticamente implicando - nem precisa de implicar - em repúdio às formas telúricas de uma cultura ecològicamente brasileira. Semelhante repúdio seria desvantajoso à definição de uma cultura brasileira em têrmos de autenticidade ecológica. Como ecològicamente brasileira. Sem essa cultura autênticamente ecológica difìcilmente se poderá conceber um homem genuìnamente brasileiro. Ou um tipo efetivamente nacional de homem brasileiro.
Notas
1 - Sôbre a importância, não só da raça, como da côr da pele, para outros povos modernos - inclusive chineses e russos soviéticos - em contraste com a crescente insignificância de uma e outra para o brasileiro, veja-se a bibliografia que acompanha o texto da conferência proferida pelo autor na Universidade de Sussex (Inglaterra) em 1966, em solenidade presidida por Lord Fulton e após a qual foi doutorado h. c. pela mesma Universidade e saudado pelo Professor Asa Briggs. Essa conferência versou o tema The Racial Factor in Comtemporary Politics e foi publicada pela mesma Universidade. Nela o autor expôs, pela primeira vez, em têrmos sociológicos, seu conceito de meta-raça, destacando ser o brasileiro de hoje um povo para quem o tipo nacional se desenvolve como meta-étnico. A propósito do que destacou do Brasil que está "increasingly becoming what na inventor of words would perhaps be so bold as to describe as meta-racial. That is a society where instead of sociological preoccupation with minute characterization of multiracial intermediates or nuance types, between white and black, white and red, white and yellow, the tendency, or begins to be, for those not absolutely white, or absolutely black or absolutely yellow, to be described, and to consider themselves almost without discrimination, as moreno." Essa conferência, publicada, suscitou comentários inteligentes e favoráveis à atitude brasileira para com os preconceitos de raça e de côr, da parte de intelectuais britânicos autorizados ou idôneos. Infelizmente, o Itamarati ou o Serviço de Informações do Govêrno brasileiro não soube ampliar a divulgação, na língua inglêsa e noutras línguas, dêsse trabalho brasileiro prestigiado pela sua primeira publicação por uma universidade da importância da de Sussex. Explica-se assim que, diante da indiferença brasileira, elementos menos idôneos ligados à British Broadcasting, de Londres, não tenham hesitado, em recente programa, em mistificar o público de língua inglêsa sôbre a situação brasileira no tocante a preconceitos de raça e de côr. [voltar]
2 - É interessante recordar-se a definição de moreno que aparece em glossário paraense do comêço dêste século: "Moreno, ad. Eufemismo introduzido depois do advento da República pelos pardos quando falam uns dos outros. O mulato, o cafuz, o próprio prêto uiraúna, são pessoas morenas... Um moreno (cafuz) magoado pelo epiteto afrontoso de negro retorquiu que "agora na República não havia mais nem pretos nem brancos: todos cidadãos." (Glossário Paraense, de Vicente Chermont de Miranda, 1ª edição 1906. 2ª edição, Belém 1968). [voltar]
3 - O famoso Pelé, jogador de futebol, prêto retinto porém brasileiramente moreno, assim se manifestou, em recente declaração (1970), aparecida em revista do Rio de Janeiro, sôbre a insignificância do preconceito de côr no Brasil: " ... é muito engraçado o fato de os estrangeiros em geral sempre que fazem perguntas sôbre o Brasil e os brasileiros se preocuparem principalmente com o problema da côr da pele. Será que não sabem que aqui não há os problemas raciais como em algumas outras partes do mundo? Eu por mim não acho que um homem valha pela côr e sim pelo que é. " [voltar]
4 - Merece ser recordado aqui o pronunciamento de um intelectual anglo-americano da inteligência e do saber de Roy Nash sôbre o que, no princípio dêste século, já lhe parecia a tendência do Brasil para desenvolver-se em avançada democracia étnica: "More than in any other peace in the world, readmixture of the most divergent types of humanity is there injecting meanning into the egalité of revolutionary France and the human solidarity of philosophers and class-conscious proletarians. " Além do que a miscigenação brasileira parecia já a Nash um desmentido à superstição de importar êsse processo biológico em degeneração (The Conquest of Brazil, N. Y. 1926). [voltar]
5 - Quando estêve no Brasil, o escritor Aldous Huxley perguntou a brasileiros porque não se fazia, no Brasil, "um filme épico do livro Casa-Grande & Senzala", (do autor dêstes comentários), "dando-se "ênfase à mensagem que dêle poderia ser extraída." Essa mensagem, que o Brasil mais que qualquer outra nação moderna, poderia transmitir a um mundo mais dividido por ódios de raça do que por antogonismos de classe, seria a que consagrasse o valor da miscigenação, aqui favorecida por uma quase ausência de preconceito de raça ou de côr entre o grosso da população e prestigiada pelos efeitos positivos, da mesma miscigenação, como processo biológico com extensas e importantes implicações sociais. É processo hoje inseparável do que, entre nós, é definição de um tipo nacional, quer de homem, quer de sociedade, do qual os brasileiros têm já motivos para considerar um tipo, sob vários aspectos - eugênicos, estéticos, psicossocial, socioculturais - antecipado de homem e de sociedade pós-modernos. [voltar]
6 - Veja-se, do autor dêstes comentários, o livro, publicado em Lisboa em 1967, com o título Homem, Cultura e Tempo, o qual reúne traduções - não de todo exemplares como tradução: trabalho português de Lisboa - de alguns dos seus trabalhos publicados originàriamente nas línguas inglêsa e francesa. Entre êles, a sua conferência na Universidade de Sussex, sôbre o fator racial na política contemporânea, e o mais longo "Mistura de raças e interpenetração de culturas: o exemplo brasileiro no espaço e no tempo". O último é tradução do "basic paper" apresentado, em língua inglêsa, por solicitação da Organização das Nações Unidas, ao seminário internacional sôbre "apartheid" reunido em 1966.
Veja-se também, do autor, seu parecer, escrito por solicitação da Organização das Nações Unidas, sôbre a situação racial na União Sul-Africana comparada com a dos Estados Unidos e a do Brasil e as possibilidades de redução nestas noutras áreas de conflitos e tensões interraciais. Êsse trabalho se intitula em francês "Elimination des conflicts et tensions entre les deux races. Methodes employés dans divers pays, notamment ceux où les conditions se reprochent de plus de la situatioin dans l'Union Sud-Africaine. Étude preparé par le Professeur Gilberto Freyre A/AC. 70/3 25 Aôut 1954.
Fonte: FREYRE, Gilberto. O brasileiro como tipo nacional de homem situado no trópico e, na sua maioria, moreno: comentários em tôrno de um tema complexo. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1970. p. 41-57.
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