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Assinatura de Gilberto Freyre
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CÍCERO DIAS, SEU AZUL E ENCARNADO, SEU "SUR-NUDISME"


O pintor Cícero Dias desarruma as coisas, as pessoas e os animais da terra para juntar depois figuras e objetos que nunca ninguém viu juntos: às vezes os deste mundo com os do outro. Bois voando e peixes de camisa de mulher. O Pão de Açúcar e a Matriz de Escada. E tudo numa nova escala. Alteram-se as proporções e as relações mas muitas das coisas, das pessoas, das mulheres, dos animais que andam descasados pelos quadros de Cícero são nossos conhecidos velhos, gente de casa, pessoas da família, tias gordas, bacharéis de pince-nez, primas filhas de Maria, negras velhas, cabriolets de engenho, vacas de leite, carros de boi, censores de colégio, cabras-cabriolas, mula-sem-cabeça, luas de Boa Viagem, pitus do Rio Una. Coisas brasileiras, nortistas, pernambucanas.

Das novas relações e proporções é que sai avivado pelo mais recifense dos azuis, - o do mar, o dos azulejos, o dos olhos das sinhás descendentes de Wanderley e de Arnau de Hollanda - pelo mais pernambucano dos verdes - o de cana-de-açúcar, o de folha de cajazeira, o do capim de beira do rio - pela mais nortista dos encarnados, - o dos xales de mulher, o das bandeiras de papel dos pastoris - o de lirismo profundo como em nenhum pintor que eu conheço, de Cícero Santos Dias. Esse pintor não tem requintes de colorido nem luxos, mas quase que só azul e encarnado, verde e amarelo, como os pintorezinhos pobres de barcaças e de ex-votos e de casas de porta e janela.

Outro dia, na casa de Antônio, meu barbeiro, vi n’A Careta não sei se o esteta Peregrino, se outro, dos cronistas do Rio, elogiando muito o Recife porque no Recife, dizia o esteta, a nova comissão de censura municipal ou o arquiteto urbanista Nestor Figueiredo - aliás meu velho conhecido - ou esse príncipe hierático do bom gosto que é o Prefeito Góis - não me lembro qual dos três ou se os três reunidos em superior tribunal - teria resolvido acabar com o mau hábito recifense de se pintar casa de azul e de encarnado. De cores berrantes, dizia o esteta apologista da nuance, de meio-tom, do gris, todo ancho e enganjento de sua finura verlainiana pas-de-couleur-rien-que-la-nuance. E por ai fiquei eu sabendo, com o atraso dos que em casa de manhã não tem jornal, mas só aos sábados A Careta, na barbearia, de mais esta novidade: que no Recife não se pode pintar de novo casa nenhuma que não seja em cores desmaiadas. Ah, requintados, ah, estetas, ah, regeneradores!

Por esse critério, creio que a comissão ou o prefeito que não quer casa pintada de azul ou de vermelho vivo, também não, deixará aquarelas tão cruas como as de Cícero Dias em exposição numa cidade fina e requintada como o novo Recife.

O pintor faz bem em ir logo se arranchando, com os seus calungas na maternal Escada que lhe compreenderá melhor os azuis e encamados, os mesmos cordões de pastoris, dos vestidos das mulheres alegres, dos lenços de rapé, das flores de papel dos tabuleiros de bolos, dos caixões de defunto de anjos e de moças; o "sur-nudisme" - perdoem-me o neologismo - do Cícero pintor é que talvez não agrade Escada. Mas isto é outra história.

Cícero Dias é bem de Escada: mais do que o Dr. Tobias Barreto de Meneses que na cidade pernambucana do interior quase só fez aprender alemão e escrever artigos contra padres e contra juristas velhos.

É daqui, na verdade, que Cícero tem arrancado inteiras ou pela metade casas-grandes de engenho que vamos encontrar esparramadas pelas suas telas; árvores, igrejas, mulheres prenhes, moleques, vacas de leite, padres dizendo missa, moças morenas de tranças compridas dormindo em rede, meninos nus, caixões de defendo indo se enterrar, lapinhas indo se queimar, fandangos, catimbós, papagaios de papel, corrupios, bumba-meu-boi - para recriar com realidades assim locais e tradicionais um outro mundo em que toda essa vida e todos esses elementos se sublimam, se universalizam em novas relações e proporções. Mas nós sabemos, que são elementos nossos; e os reconhecemos nos desenhos mais desadorados do pintor. Mesmo, naquele em que um cavalo - que não é outro senão o marinho - desce pelo fio do Pão de Açúcar.

Os corredores mal-assombrados de Jundiá, o quarto em que Dona Chiquinha amanheceu morta enforcada com os cordões de S. Francisco, o quarto dos padres, o quarto dos santos, a cadeira de balanço que de noite se balança sozinha sobre um tijolo solto que de manhã ninguém descobre (talvez dinheiro enterrado do tempo dos flamengos), os retratos de parentes em grandes molduras douradas, pastoris, são-joões, santo-antônios, são-pedros (com vivas ao Coronel Pedrinho de Batateiras e a Pedro Filho também), os Milhões de Ar1equim tocados no piano pela mãe de Cícero, agora morta, botadas, batizados, casamentos, enterros, carros de boi, cabriolets rodando pela areia frouxa, deslizando pelo barro mole, afundando gostosos em grandes e macias poças de lama, saltando pelo empedrado das ruas, um lorde inglês - o Lord Carnavon de Tutancâmon? - visitando o major, acompanhado pelo padre inglês vestido de preto; o Almirante Ferreira do Amaral (o português) besta de ver tanta comida e tanta bebida junta em Jundiá, o vigário, as Santas Missões, as festas, a avó baronesa, Doutorzinho, os tios, as tias, os primos, as primas, a mãe, a mãe de criação, os irmãos de criação, parentes pobres, formigões, filhas de Maria, capangas, beatas, coceira de bicho-de-pé, cafuné, ranço de caju, muleque, muleca, negras, crioulas, mulatas - toda essa massa, todo esse mundo pernambucano, toda essa riqueza brasileira, rural, patriarcal de antagonismos que no íntimo se compreendem e fraternizam - casa-grande e senzala, senhor e escravo, sala de visita e bagaceira, branco e preto, carnaval e Sexta-Feira da Paixão, azul e encarnado - tudo isso, esses contrastes, tem de ser experimentados e compreendidos à Inácio de Loyola - isto é, pelos sentidos, para se compreender se sentir toda a pintura extraordinária de lirismo e sensualidade de Cícero Dias. As coisas, as pessoas, os animais que ele tira do lugar em que Deus os colocou certo para recolocá-los diferente, num errado, às vezes pujante de poesia, não perdem nunca a sua marca de origem pernambucana, o carimbo da agência postal de Escada ainda que com a data difícil de se ver, borrada. Mil novecentos e ... Impossível ver o resto.

Cícero Dias é todo de antagonismos como tem de ser por muito tempo o brasileiro - antes da uniformização cultural e das clínicas psiquiátricas acabarem com o dualismo, com a extraordinária riqueza às vezes mórbida de contrastes em que nos mergulharam quatro séculos de escravidão, de sadismo e de masoquismo, de Europa procurando sufocar a África.

Ele não é de um lado nem de outro mas dos dois - com esse sentido lírico, bissexual, essa compreensão de branco e preto, de senhor e escravo, de pessoa e animal, de homem e coisa, de macho e fêmea, de santo e fetiche, de adulto e menino de azul e encarnado, a que o poeta - e Cícero Dias é acima de tudo um grande poeta - consegue atingir, - e que lhe dá o poder de interpretar pela pintura a vida brasileira no seu conjunto, na sua profundidade, no seu todo.

E por isso, talvez que o sexo é na pintura de Cícero Dias, tão desigual e tão místico - umas vezes irrompendo livre, desembestado, solto, "sur nudisme", em nus brancos de doerem na vista da gente; mas outras vezes disfarçando-se em passarinho, em tubarão, em piaba, com reminiscência do escuro das noites de internato; ou brincando de esconder com os psicanalistas de pince-nez.

O que o sexo não é nunca para esse grande lírico sexual é a mesma coisa frívola que para os poetas, os pintores e os escultores que gostam de brincar levianamente com mulher nua; que se divertem com o amor como quem se divertisse com um boneco ou uma boneca de carne, que apertada dançasse ou abrisse as pernas. Mané-Gostoso.

Cícero Dias sente lorencianamente o sexo alongado em mistério, em grandes claridades, em labaredas místicas mas também em grande sombras. Uma enorme beleza que às vezes faz medo, dói nos olhos, dá vertigem, como tudo que é fundo ou que voa ou é alto, como a água do mar em que já se toma pé ou o cocuruto do Pão de Açúcar. Ele é diante do sexo um pouco o selvagem que Rimbaud quis ser na África, e um pouco o colegial com medo, que nele permanece desde os seus dias de interno de colégio. Um grande lorenciano.

Seu "ismo" por isso não é nenhum "ismo" vulgar e só o define mesmo a expressão que ousei inventar com esse fim: "sur nudisme". Cícero Dias para a glória sua e do Brasil criou o "sur-nudisme". E um nudismo, esse, que nada tem do obsceno dos cartões-postais franceses com 24 posições nem do nu esportivo das revistas, ilustradas da Europa de após-guerra.

Escada deve sentir uma alegria imensa em acolher mais uma vez o seu grande filho: cada vez mais seu e menos do Recife, que está hoje um burgo com pretensões a requintado sem querer saber dos azuis e encarnados, dos verdes e dos amarelos do povo, da terra e da região.

Do "sur-nudisme" de Cícero pode-se sem exagero dizer que não é a repercussão de nenhum "ismo" da Europa, já conhecido dos japoneses, mas coisa de inspiração regional; coisa própria e pessoal. Um nu além do nu. Um nu de quem tem visto muita gente nua - menina, moça, mulher, adolescente, homem - tomando banho nos rios de engenho do Nordeste.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Cícero Dias, seu azul e encarnado, seu "sur-nudisme". In: DIAS, Cícero. II exposição Cícero Dias na Escada. Recife: Oriente, 1933. p. 1-6.

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