EUCLIDES DA CUNHA, REVELADOR DA REALIDADE BRASILEIRA
De Euclides da Cunha se pode hoje afirmar que
é um dos escritores brasileiros que maior influência vem exercendo sobre a gente do seu
país e maior atenção da parte de estrangeiros vem atraindo para a cultura, em geral, e
para as letras, em particular, de um ainda obscuro Brasil. Dois seriam hoje seus rivais,
mais nessa espécie de influência do que nesse poder de sedução sobre estrangeiros:
José de Alencar e Machado de Assis. Ambos menos carismáticos que o, autor d'Os
Sertões. O que é certo também dos poetas nacionais que até hoje têm alcançado
maior irradiação dentro e fora do Brasil: nenhum deles parece igualar o estranho
ensaísta em carisma ou o exceder em influência.
É difícil de explicar a constância dessa
influência de Euclides. Difícil de explicar a irradiação do carisma ou do
quase-carisma que vem assinalando a presença de Euclides da Cunha tanto na vida como nas
letras do nosso País. Pois se há escritor brasileiro de quem se possa dizer que é
carismático, esse escritor é o autor d'Os Sertões: artista difícil, como
nenhum, de ser separado da sua condição de homem e da sua especialidade de técnico. Seu
perfil anguloso de homem terrivelmente magro emerge há anos das ilustrações dos
compêndios de literatura brasileira com alguma coisa de ascético e de profético a
acentuar-lhe o prestígio e a marcar-lhe a sedução que suas letras e o drama da sua vida
e a tragédia da sua morte vem exercendo sobre a imaginação de já mais de duas
gerações de brasileiros; e, ultimamente, até sobre estrangeiros voltados para
literaturas exóticas do sabor ainda indefinido da brasileira.
Entretanto, é escritor difícil, este:
ouriçado de adjetivos que antes o afastam que o aproximam do leitor moderno. Difícil e
arrevesado . Discípulo, a seu modo, do Gracián que foi o íbero até hoje de maior
influência sobre os pensadores germânicos, chega às vezes a um preciosismo que quase se
confunde com o dos escritores além de cientificistas, pedantes: de um cientificismo
pedante e irritante.
A verdade é que Euclides da Cunha escreveu
perigosamente. Transpôs para a arte de escrever o viver perigosamente de que falava
Nietzsche. Escreveu num estilo não só barroco - esplendidamente barroco - como
perigosamente próximo do precioso, do pedante, do bombástico, do oratório, do
retórico, do gongórico, sem afundar-se em nenhum desses perigos: deixando-o apenas tocar
por eles; roçando por vezes pelos seus excessos; salvando-se como um bailarino perito em
saltos-mortais, de extremos de má eloqüência que o teriam levado à desgraça
literária ou ao fracasso artístico. Que o teriam tornado outro Coelho Neto.
É um escritor cujo gosto, sem ser o
convencionalmente bom, dos clássicos medidos e claros, nos dá a idéia de estar sempre
em perigo: o perigo de tornar-se absolutamente mau. Mau segundo todos os padrões: os
clássicos e os anticlássicos. Apenas esse risco nunca se realiza de todo. Nunca passa
inteiramente de risco à desgraça literária. O autor d'Os Sertões nunca chega a
ser catastrófico em seus colapsos de má eloqüência. Euclides da Cunha não nos
desaponta em momento algum com uma só expressão de inconfundível mau gosto; ou de
indiscutível preciosismo; ou de absoluto gongorismo. O que nele é freqüente é o gosto
duvidoso, ambíguo e, por conseguinte, discutível.
Talvez por aí se explique a sedução ou o
encanto com que ele vem há mais de meio século envolvendo tanto o leitor brasileiro de
elite - que se inquieta com aqueles riscos mas se regozija com o quase constante triunfo
do autor d'Os Sertões sobre os inimigos das suas virtudes literárias - como o
leitor simplesmente atraído pelo que há de menos nobre nos jogos estilísticos do verbo
às vezes quase execravelmente oratório do grande escritor; na sua eloqüência por vezes
enfática; na sua adjetivação quase sempre crespa, estridente, mais aguda do que grave;
nas suas mais repetidas procuras ou recorrências de efeitos teatralmente musicais.
Euclides foi escritor que escreveu quase
sempre declamando: às vezes declamando tão alto que se tornou uma espécie de Hall Caine
- o Hall Caine de quem dizia Oscar Wilde que falava tão alto que não se fazia entender
direito: era apenas ouvido. Ouvido, Euclides vem sendo há mais de cinqüenta anos por
muitos dos que o vem lendo; entendido por outros tantos; admirado por quase todos. Pois é
escritor dos que, mesmo quando não são plenamente entendidos, são agradáveis de ser
ouvidos através do que escrevem. Escritores nascidos com boa voz. Nascidos escritores
sonoros e que potentemente sonoros se conservam, mesmo quando suas mensagens perdem a
potência intelectual.
Carlyle foi escritor desse feitio, e sua voz
ainda hoje é ouvida com entusiasmo por muitos dos que o lêem. Macaulay, também. E, em
língua francesa é não só o caso extremo de um Victor Hugo ou de um Chateaubriand como,
sobretudo, o de um superior Jean-Jacques Rousseau, cujas próprias e pungentes confissões
nos chegam aos olhos, ferindo-nos os ouvidos de modo tão saborosamente persuasivo que
perdoamos sem esforço ao pecador os pecados que confessa em voz tão bela e em palavras
tão lúcidas.
Euclides da Cunha não nos confessou em
página alguma os próprios pecados: denuncia com voz às vezes bíblica e de profeta mais
do Velho que do Novo Testamento - os crimes de alguns dos brasileiros, seus
contemporâneos; e opressões, a seu ver, sofridas de seus próprios patrícios por outros
brasileiros, com os quais se identificou de algum modo o escritor um tanto quixotesco em
seus rasgos empáticos. É que tendo se sentido vítima ou mártir, ele próprio, da elite
política, social, econômica, literária, dominante na jovem República de 1889, fácil
foi a Euclides identificar esse seu personalíssimo sentimento, com o dos sertanejos da
Bahia revoltados contra a civilização do litoral. Revolta justa, segundo ele. Tanto que
para justificá-la chegou ao extremo de diminuir as virtudes dos militares da República.
E certo de terem sido os sertanejos de Canudos
vítimas ou mártires de uma elite desorientada - a dos homens do litoral - é que
Euclides da Cunha escreveu suas páginas mais vibrantes de revelação de um Brasil - o
sertanejo - quase ignorado pelos próprios brasileiros: os da Capital Federal, os de São
Paulo, os de Salvador, os do Recife, os de Porto Alegre, os de Belém.
Precisamente a propósito de Canudos, acaba de
aparecer no Rio de Janeiro uma "análise reivindicatória da campanha de
Canudos", intitulada A Verdade Sobre "Os Sertões" que talvez deva
ser considerada, em vários pontos, retificação essencial à parte não só
convencionalmente histórica como sociologicamente interpretativa da obra máxima de
Euclides. É um livro em que o Sr. Dante de Melo considera a ação do Exército de
Canudos de modo um tanto diferente do que levou Euclides da Cunha a escrever o seu grande
livro-protesto.
É possível que o novo ensaio seja mais
reivindicatório do que analítico. Nem por isto deixa de ser obra interessante e
necessária: sobretudo nas páginas em que procura restituir aos seus exatos relevos fatos
que a retórica vem desfigurando há anos. Pois não há dúvida de que o livro-protesto
de Euclides concorreu para que a glorificação do sertanejo se consolidasse entre nós à
custa de excessivo desapreço pelo homem do litoral: inclusive o simples, porém bravo,
soldado do Exército. Talvez exagere o autor da "análise reivindicatória" ao
escrever do Exército que foi "a entidade mais honesta e mais sacrificada na
luta", isto é, na "guerra de Canudos". Mas parece certo ter o mau
estadualismo, inaugurado no Brasil pela República de 89, criado uma situação
desfavorável à ação do Exército - que era uma ação federal, nacional,
supra-estadual - e favorável a insurgentes cujo desenvolvimento em força quase-política
se verificou em grande parte em conseqüência daquele estadualismo.
O Sr. Vitor Nunes Leal - publicista brasileiro
que atualmente se dedica a análise de problemas brasileiros de sociologia política -
talvez devesse ter estendido seu estudo do fenômeno republicano do
"coronelismo" ao episódio de Canudos onde Maciel, a despeito do seu
monarquismo, parece ter sido uma das primeiras criações do estadualismo republicano.
Estadualismo que foi tornando necessário aos governadores dos Estados se apoiarem em
"coronéis" ou equivalentes de "coronéis", fortes e privilegiados.
Sendo assim, o Exército teria sido de algum
modo vítima, em Canudos, do próprio Exército: do Exército criador da República
perigosamente estadualista de 1889. É um aspecto político do problema que não vem
destacado no novo e sugestivo livro sobre Canudos; e que está a exigir a atenção de um
moderno homem de estudo que se especialize na análise do aspecto político do chamado
"drama sertanejo". Drama em que parece ter explodido, além de um conflito entre
culturas sub-regionais, semelhante ao do Pedra Bonita, um terrível desajustamento dentro
do recém-inaugurado sistema de relações políticas dos novos Estados com o poder
central.
Desse aspecto de sociologia política do
problema de Canudos não cuidou Euclides sem que, entretanto, se possa dizer do seu livro
que pelos exageros e pelas omissões deixe de ter valor sociológico para apresentar-se
como simples obra-prima de jornalismo literário. A verdade é que é livro complexo:
notável como literatura e notável como ciência: ciência ecológica e ciência
antropológica e até sociológica. Mas sobretudo obra de literatura. Obra de revelação.
Revelação, acentue-se bem; e não simples
descrição. Só o escritor com alguma coisa de poético no seu modo de ser escritor é
capaz de revelar de uma paisagem ou de uma época, de uma sociedade ou de uma
personalidade complexa, os seus característicos profundos e os seus traços decisivos. Os
puros cientistas não vão além da descrição - quantitativa, matemática, estética -
quando muito completada pela explicação, de qualquer dessas realidades. Só um escritor
daquele tipo mais alto, de que Gracián foi até hoje uma das expressões mais
vigorosamente sutis - o vigor ibérico acrescentado de argúcia jesuítica - consegue,
além de revelar, interpretar, o complexo que qualquer dessas realidades contenha. Dentre
os modernos, só um Hudson que escreva Green Mansions. Ou um Joyce que se
reconstitua em Stephen. Ou um Proust que escreva A la recherche du temps perdu. Ou
um Mann que interprete o drama de um adolescente. Ou um Strachey que ressuscite a Rainha
Vitória. Ou um Ganivet que evoque Granada la Bella. Escritores ao mesmo tempo
líricos e analíticos: combinação raríssima em qualquer língua ou em qualquer
literatura.
Vários foram os brasileiros da época de
Euclides da Cunha que descreveram e até explicaram, alguns já se servindo de números e
estatísticas, aspectos importantes da realidade brasileira em obras de considerável
valor científico: Couto de Magalhães, Nina Rodrigues, Sílvio Romero, José Veríssimo,
o Visconde de Taunay, Teodoro Sampaio, o Barão do Rio Branco, Clóvis Bevilaqua, Martins
Júnior. O que destacou de modo tão vigoroso a literatura de Euclides da desses outros
brasileiros, homens de estudo, sobre temas rasgadamente nacionais - e até da própria
literatura semisociológica de Joaquim Nabuco, de Eduardo Prado, de Oliveira Lima e de
Graça Aranha: quase-sociólogos, notáveis não só pela sua quase-sociologia como pelas
suas virtudes literárias de expressão - foi o caráter de obras não apenas descritivas,
ou somente evocativas, mas de revelação e de interpretação do Brasil, dos ensaios que
escreveu o autor de Os Sertões. Não só Os Sertões como Contrastes e
Confrontos, À Margem da História. Ensaios de quem se aproximou de temas brasileiros
com espírito científico e com preparação técnica: a própria e a de amigos que foram eminências
pardas do escritor absorvente, em relação com alguns aspectos mais turvos daqueles
mesmos temas. Mas não só com esse espírito nem apenas com essa preparação: também
com o gênio capaz de revelar dos assuntos analisados seus traços mais significativos.
Que nessa obra de revelação é que se define o autêntico, o genuíno, o grande
escritor; nela é que se afirma sua superioridade sobre os puros especialistas, por mais
perfeitos na sua ciência; ou sobre os puros técnicos, por mais exaustivos, no seu saber
apenas empírico do assunto versado.
Vários são hoje, na Espanha, os filólogos
especializados magistralmente no conhecimento técnico e no saber científico da língua
espanhola. Vários os arabistas espanhóis. Vários os orientalistas. Mas a um tempo
especialista no seu saber de filólogo, e generalista no seu domínio sobre assuntos
ibéricos de cultura, só um Américo Castro nos vem revelando dessa língua, nem sempre
latina no seu espírito, formas de expressão em que a cultura árabe e a cultura
israelita se juntam hoje quase em segredo, como se ainda se escondessem mourisca e
israelitamente dos Dominicanos da Inquisição para animar a mais moderna cultura
hispânica de possibilidades, únicas em cultura européia, de comunicação com algumas
das emergentes ou ressurgentes culturas extra-européias, em rápida e surpreendente
ascensão no mundo dos nossos dias: um mundo de tal modo diverso do de há um século - o
de exclusivo e imperial domínio da civilização européia sobre as demais civilizações
- que é quase uma negação do seu antecessor.
Foi dessa espécie de obra de revelação que
Euclides da Cunha - também especialista no seu saber de engenheiro aplicado ao estudo ou
ao conhecimento de problemas brasileiros mas generalista no seu domínio sobre assuntos
nacionais de cultura - realizou de modo genial. Revelação dos sertões aos brasileiros
do litoral e revelação do Brasil a estrangeiros por este ou por aquele motivo curiosos a
respeito do nosso País, e nem sempre satisfeitos com as respostas, à sua curiosidade,
dos geólogos, dos geógrafos, dos economistas, dos historiadores, dos sociólogos, dos
juristas; ou das estatísticas, dos mapas, dos diagramas.
Daí o triunfo alcançado em meios cultos do
estrangeiro pelo livro revelador do Brasil que Euclides da Cunha escreveu, a propósito do
drama de Canudos, como quem se definisse escritor mais de dentro para fora do que de fora
para dentro do assunto versado no seu ensaio. Do assunto - um assunto teluricamente
brasileiro - ele deixou de tal modo se impregnar, não apenas por simpatia, mas, por
empatia profunda, que conseguiu comunicar essa sua identificação empática com o seu
tema, ao próprio leitor estrangeiro. Pelo menos ao leitor em língua inglesa e ao leitor
em língua espanhola d'Os Sertões. São línguas em que não há exagero em
dizer-se que o leitor estrangeiro, a despeito do cientificismo por vezes arrevesado de
livro tão diferente do comum dos livros, vem tomando conhecimento mais íntimo de uma
literatura especificamente brasileira, que através de quantos outros livros de
brasileiros, sobre temas nacionais, tem sido publicados em idiomas europeus: os de José
de Alencar, os de Joaquim Nabuco, os de Machado de Assis, os de Rui Barbosa, os do
Visconde de Taunay, os de Graça Aranha, os de Mário de Andrade, os de José Lins do
Rêgo, os de Jorge Amado, os de Érico Veríssimo. E a razão parece a alguns de nós ser
principalmente esta: é um livro, a obra-prima de Euclides, em que o autor brasileiro não
temeu ofender o leitor europeu com o seu tropicalismo; ou picá-lo com o seu
brasileirismo. Ao contrário: ostentou-o. Exibiu-o quase escandalosamente. Não se fingiu
de inglês, como, de certo modo, o apolíneo Machado de Assis; nem de francês, como até
certo ponto o igualmente apolíneo Joaquim Nabuco, que até a um francês de longa
experiência literária de Faguet enganou com as sutilezas de Pensées Detachées.
Euclides da Cunha esplende de tropicalismo;
arde de brasileirismo. É dionisíaco e até exuberante no seu modo de interpretar-se e de
interpretar o Brasil aos olhos de outros brasileiros e aos olhos de estrangeiros voltados
para o Brasil.
Compreende-se que, assim dionisíaco, tenha
escandalizado não só puristas como um apolíneo da cabeça aos pés como foi, se não na
mocidade, na idade provecta, Joaquim Nabuco, a quem os livros de Euclides teriam dado a
impressão de escritos rudemente, agrestemente, com um cipó. Mas compreende-se, por outro
lado, que essa literatura agrestemente brasileira tenha dado a europeus menos
convencionais que tais quase-europeus ou subeuropeus nos seus gostos literários, a
aventura de uma nova conquista de paladar: aventura dificilmente encontrada pelos mesmos
europeus nos romances brasileiros de um Machado ou de um Graça Aranha ou de um Visconde
de Taunay. Romances nos quais vários desses europeus, em vez de novos sabores, têm
candidamente confessado a amigos brasileiros haver encontrado apenas sabores já seus
velhos conhecidos, com um ou outro salpico de tempero exótico. A verdade é que o tempero
brasileiro é às vezes mais forte do que se pensa em alguns dos romances e, sobretudo,
nos melhores contos de Machado. Mas são de uma força de tal modo sutil que às vezes
desaparecem quase de todo nas traduções ao francês e ao inglês daquelas obras-primas
brasileiras. Destino que dificilmente podem ter as cruezas tropicais e os ardores
brasileiros de Euclides - do seu verbo eloqüente e das suas técnicas expressionistas de
arte literária. São cruezas que se projetam nas próprias traduções, provocando
arrepios e até repulsas da parte do europeu mais cartesiano, ou mais renaniano; mas
acabando por se imporem ao paladar literário desses sofisticados como aventuras que lhes
trouxessem novas sensações do mundo e novas visões do Homem, através de uma arte
literária diferente da européia; com outro ritmo; com outras sugestões de doçura
dentro de outras sugestões de violência: as contraditórias sugestões de doçura e de
violência que Euclides soube estilizar, encontrando-as tanto na natureza dos ambientes
como no homem das terras quentes e tropicais mais do seu gosto: as regiões amazônicas, e
as áridas ou sertanejas do Brasil.
Quem lê os ensaios de Euclides da Cunha, não
precisa buscar um autor que se escondesse naquela niebla de ausencia de que fala,
em página recente, um crítico de língua espanhola a propósito de certo escritor
sul-americano do tipo do brasileiro Machado. Euclides pertence ao número de autores que
não se deixam buscar ou procurar pelo leitor: vem ao seu encontro. Apresentam-se.
Exibem-se. Nenhum escritor de língua portuguesa mais presente na sua literatura do que
ele. Nenhum mais ostensivo na sua presença. Seu próprio brasileirismo por vezes
enfático, talvez fosse uma expressão do que o autor julgava ser, em si mesmo, presença
ameríndia: tapuia. Admitia que fosse um "tapuio" modificado por outras
presenças - pela "grega" e pela "celta". Mas a consciência de ser
homem de sangue ameríndio parece ter-se tornado nele outra consciência: a de dever ser
um escritor com alguma coisa de não-europeu e até de antieuropeu em sua visão do
ambiente nativo e em sua expressão ou em sua interpretação desse ambiente. Não só
escritor: homem público. Daí seu nacionalismo ou, antes, brasileirismo: um brasileirismo
difícil de ser separado do seu indigenismo. Era nos "admiráveis caboclos do
Norte", por exemplo, que ele via o futuro da Amazônia brasileira: caboclos capazes
de sobrepujarem "pelo número, pela robustez, pelo melhor equilíbrio orgânico da
aclimação e pelo garbo no se afoitarem com os perigos" quantos estrangeiros
tentassem se estabelecer em terras de seringais. O que era preciso era que o
"engenheiro" - Euclides era engenheiro, além de "caboclo" -
amparasse, sob o comando de um governo consciente da sua missão, aqueles bravos, na sua
obra de integração da Amazônia no conjunto nacional brasileiro; e os amparasse pondo-os
em intimidade permanente com o resto do país "através de comunicações
fáceis": além de estradas de ferro, "a aliança das idéias, de pronto
transmitidas e traçadas na inervação vibrante dos telégrafos". É a mensagem
sociológica que nos transmite o seu ensaio "Entre o Madeira e o Javari",
incluído no livro Contrastes e Confrontos (Porto, 1913).
O Euclides da Cunha preocupado com o futuro
brasileiro da Amazônia era o mesmo Euclides da Cunha em quem o drama de Canudos
despertara o mais intenso dos brasileirismos, reclamando dele um esforço construtivamente
nacionalista em que ao "espírito caboclo" juntou-se a formação de engenheiros
e a preocupação do sociólogo. Ou do ecologista social. Esses três aspectos da
personalidade do autor d'Os Sertões foram os aspectos básicos de sua ação: sua
literatura está quase toda animada por estas três presenças. Ele nunca se contentou em
ser nem beletrista nem subeuropeu: o escritor, em Euclides, incluiu sempre o engenheiro e
implicou sempre em viva e até vibrante solidariedade do autor com o indígena do Brasil.
Com o caboclo. Com o "tapuio": um "tapuio" que dentro dele se
conciliasse com o "celta" e com o "grego".
Compreende-se assim que o tenham entusiasmado
aquelas páginas do primeiro Roosevelt nas quais o vigoroso político, misto, segundo
Euclides, de rough rider e de quaker, fez o elogio das civilizações
autênticas; e combateu as de empréstimo.
Essa espécie de regime colonial do espírito
que transforma o filho de um país num emigrante virtual, vivendo, estéril, no ambiente
fictício de uma civilização de empréstimo:
Para nós, brasileiros - pensava Euclides - é
que pareciam feitas aquelas palavras porque entre nós é que se faz mister repetir
longamente e monotonamente, mesmo, que mais vale ser um original do que uma cópia... e
que o brasileiro, de primeira mão, simplesmente brasileiro, malgrado a modéstia do
título, vale cinqüenta vezes mais do que ser a cópia de 2ª classe, ou servil
oleografia, de um francês ou de um inglês.
E outra de suas mensagens sociológicas que
nos transmite aquele seu livro de pequenos mais vibrantes ensaios.
Nesse seu elogio ao primeiro Roosevelt,
Euclides da Cunha como que resumiu o seu credo de brasileiro, inseparável do seu credo de
escritor: o que ele desejava para o seu país era um Brasil corajoso de suas
originalidades caboclas, mesmo modestas, que se realizassem mercê de modernas técnicas
de engenharia que o Estado pusesse a serviço do desenvolvimento nacional; o que ele
desejava para si próprio, Euclides da Cunha, era a coragem de desenvolver-se, em escritor
diferente dos europeus: consciente de sua condição de "caboclo" - embora sem
desprender-se da de "celta" e da de "grego"; capaz de juntar para
proveito do Brasil, à sua literatura, sua engenharia; observador do Brasil, através do
que fosse "empírico" no seu conhecimento sociológico da realidade brasileira,
como "os arquitetos" das "fórmulas empíricas da resistência dos
materiais". Assim se conformaria ele, por um lado, com os modernos triunfos da
ciência empírica; por outro, com as melhores tradições, senão literárias,
dinâmicas, da gente do seu e nosso País, certo como lhe parecia que "os nossos
melhores estadistas, guerreiros, pensadores e dominadores da terra" os que
"engenharam" - note-se o, verbo caracteristicamente, narcisistamente, euclidiano
- "as melhores leis e as cumpriram", "os homens de energia ativa e de
coração que definiram com mais brilho a nossa robustez e o nosso espírito - todos
sentiram, pensaram e agiram principalmente como brasileiros". É o que se lê num dos
mais expressivos dos seus pequenos ensaios reunidos em Contrastes e Confrontos: "O
Ideal Americano" - apologia de quantos brasileiros antigos souberam engenhar
brasileiramente o Brasil.
Assim agiram, sentiram e pensaram os próprios
construtores daquela civilização patriarcal agrária e escravocrática que deu ao nosso
País valores e originalidades que Euclides da Cunha - entusiasta sobretudo de
bandeirantes e sertanejos - nunca demorou-se em apreciar ou admirar: viu-as apenas de
soslaio. Noutro dos seus ensaios - "Entre as Ruínas" - fixou a tristeza das
ruínas dessa civilização, antes sedentária que andeja, sem muita simpatia pela
"arquitetura terrivelmente chata" das casas-grandes de fazendas e dos engenhos
antigos. Mas de qualquer modo, reconhecendo:
... malgrado o deprimido das linhas, essas
vivendas quadrangulares e amplas, sobranceando as senzalas abatidas, os moinhos
estruídos, os casebres de agregados, e alteando de chapa para a estrada os altos
muramentos de pedra, que lhes sustentam os planos unidos dos terrenos, conservam o antigo
aspecto senhoril.
Nenhuma palavra de lamentação para o
desaparecimento da gente senhoril e da população servil que animaram solares; e que
animando-as, criaram, mais que os bandeirantes, um Brasil autêntico em profundidade. Só
o registro da decadência do agregado:
O caipira desfibrado, sem o desempenho
dos titãs bronzeados que lhe formam a linhagem obscura e heróica ... uma ruína maior
por cima daquela ruinaria da terra.
Só o registro da decadência do caboclo das
fazendas: simples comparsa de um drama que teve por personagens decisivos os senhores
brancos e os escravos de cor. Por onde se confirma - um exemplo dentre vários - que foi
constante, em Euclides, o afã de idealizar e romantizar o indígena; o ameríndio; o
caboclo - isto é, o brasileiro mais próximo do escritor; mais seu irmão; mais do seu
sangue e mais da sua terra. Do mesmo modo que foi constante nele o critério de
caracterizar paisagens, reduzindo-as não só a expressões de "resistência de
materiais" - um critério de engenheiro - como a manifestações de violência do
homem contra a natureza: um critério de ecologista. Ecologista, engenheiro e caboclo
repita-se que são presenças constantes no escritor Euclides da Cunha: nos seus temas;
nas suas visões de terras e de populações brasileiras; no seu estilo. No seu famoso
estilo cuja originalidade parece decorrer, em grande parte, da fusão desses três homens
num só escritor: fusão que pela primeira vez aconteceu nas letras brasileiras realizada
pelo autor d'Os Sertões.
Não que antes dele não tivesse havido no
Brasil quem procurasse pôr a engenharia a serviço do desenvolvimento nacional: foi no
mais que se empenharam engenheiros como Rohan, Rebouças, Monteiro Tourinho, Pimenta
Bueno, Buarque de Macedo, Bicalho, Pereira Passos, os dois Mamede. Nem escritor animado do
afã de valorizar o indígena: José Bonifácio - foi o primeiro de uma série de
indigenistas notáveis - José de Alencar, Gonçalves Dias, Couto de Magalhães. Nem
ecologista preocupado em harmonizar o brasileiro com a natureza do interior do Brasil: a
Alexandre Rodrigues Ferreira se sucederam Azevedo Pimentel, Luís Cruls, Teodoro Sampaio.
Eram, porém, afãs separados e da parte de homens de vocações diferentes. Em Euclides
da Cunha esses afãs se uniram pela primeira vez dentro de um escritor de forte gênio
verbal; e que foi, ao mesmo tempo, indigenista, engenherista e ecologista nas suas
principais constantes de sentimento, de pensamento e de ação. Dessa fusão resultou não
só uma obra singular nas letras brasileiras como um estilo também novo, em língua
portuguesa, por ter se desenvolvido como expressão de um novo tipo de personalidade
criadora: uma personalidade complexa, na qual ao gosto pelos temas telúricos se juntava o
entusiasmo pelas soluções técnicas as mais arrojadamente modernas.
De modo que é uma presença, a de Euclides da
Cunha na vida e nas letras brasileiras, que inclui - repita-se - a presença de três
homens diversos, mas, no seu caso, complementares, fundidos ou reunidos num só e grande
escritor. Daí ser uma influência, a sua, que, complexa como é, talvez exceda em
importância, em extensão e mesmo em profundidade a de qualquer outro intelectual
brasileiro - sem nos deslembrarmos nem de José de Alencar nem de Machado de Assis; nem de
Rui Barbosa nem de Joaquim Nabuco; nem de Gonçalves Dias nem de Castro Alves. Nenhum
deles parece vir alcançando tantas zonas de sensibilidade ou de receptividade à
influência de um escritor.
Isto sem entrarmos em avaliações ou
comparações de mérito especificamente literário à base da influência de cada um:
considerando-se o caso de Euclides da Cunha o caso complexo que foi e continua a ser
dentro da cultura e da vida - e não apenas das belas letras - nacionais. Só considerado
assim - nessa sua complexidade - pode Euclides da Cunha ser estimado ou avaliado como
influência, ainda hoje viva, entre seus compatriotas.
Influência nem sempre saudável. Ao exemplo
do seu estilo se deve muito arrevesado de frase, na língua portuguesa do Brasil, em que,
da imitação de um ritmo, de uma pontuação, de um vocabulário extremamente pessoais,
resultou por algum tempo muita caricatura; e caricatura grotesca.
Por outro lado Euclides foi dos grandes
escritores brasileiros um dos que mais deixaram à mocidade do seu país o exemplo, de que
ser um escritor homem de estudo metódico e homem de trabalho sistemático não significa
escassear-lhe o talento ou faltar-lhe o gênio. Neste particular ele pertenceu ao número
dos Rui Barbosa, dos Joaquim Nabuco, dos Machados de Assis. Em vez de ter valorizado a
tradição do escritor boêmio e improvisador, valorizou a outra: a do escritor, homem de
estudo. A do escritor, homem de trabalho. Com o que prestou um serviço imenso à cultura
nacional, vítima, ainda hoje, do mito que associa ao escritor de gênio as boêmias de
café ou as bebedeiras nas cervejarias.
Euclides - recordou uma vez do autor d'Os
Sertões, o cronista João Luso, que o conhecia de perto - "escrevia com grande
lentidão". Não só com "grande lentidão": também à base de
conhecimento objetivo e de estudo honesto do tema que versasse. Era antes scholar
que diletante: ele próprio comparou-se uma vez - informa João Luso -
... com certos pássaros que para despedir o
vôo precisam de trepar primeiro o um arbusto. Abandonados no solo raso e nu, de nada lhes
servem as asas; e tem que ir por aí afora à procura do seu arbusto.
O seu arbusto, dizia Euclides que era "o Fato".
Foi outro exemplo, que Euclides da Cunha deu
aos seus compatriotas mais jovens: o de procurarem no conhecimento quanto possível vivo,
direto, dos fatos brasileiros, matéria para a criação ou expressão literária.
Estimulou assim o desenvolvimento, em nosso País, de uma literatura firmada na
observação, no estudo, na análise de fatos caracteristicamente nacionais: os sertanejos
e os amazônicos, principalmente. Por conseguinte, regionais.
Dessa literatura se pode dizer que vem sendo
ecológica ou sociológica nas suas tendências; mas salientando-se da de Euclides que,
por ter sido ecológica ou sociológica e até nutrida da ciência ou da técnica do
engenheiro de campo, que nunca deixou de ser arte; não deixou de modo algum de ser
literatura. É que o escritor dirigiu, em Euclides da Cunha, a colheita, a seleção e a
interpretação do material além de ecológico, sociológico, por ele utilizado como
combustível de suas criações literárias. E o escritor em Euclides não foi um
publicista apenas - o caso de Alberto Tôrres. Foi um artista. Foi um poeta. Foi escritor
dos grandes: dos animados do gênio da revelação. Portanto escritor daquele tipo do qual
escreve um crítico dos nossos dias, o Professor Leo Lowenthal, que é quem retrata da
realidade what is more real than reality itself. Só o escritor - acrescenta o
Professor Lowenthal no seu Literature and the Image of Man - sugestivo ensaio de
Sociologia da Literatura - ou, antes, só a literatura, presents the whole man in depth
... Foi o que conseguiu Euclides da Cunha: traçar do sertanejo um retrato em
profundidade em que a figura do homem se integra de tal modo na paisagem que a ninguém é
possível destacar o homem assim retratado do seu meio absorventemente materno. Só em
literatura acontecem tais revelações e tais interpretações de paisagens e de homens
porque só a literatura - voltemos a este ponto - é revelação. Só o escritor que seja
também poeta no Iato sentido alemão da palavra, revela dos personagens, das paisagens
das sociedades que a sua arte ressuscita ou surpreende ainda em movimento, as intimidades
mais características. Só o grande escritor: nunca o pequeno nem sequer o médio. Só o
grande escritor: nunca o cientista que sendo apenas cientista, escreva claro e correto;
nem o especialista incapaz de transpor sua especialidade, não para invadir especialidades
alheias, mas para dominar os assuntos que versa, como todos inter-relacionados. Daí, na
caracterização da paisagem dos sertões, Euclides da Cunha ter realizado - mesmo
resvalando em pequenos erros técnicos - uma revelação do caráter dessa paisagem que
nem o geólogo Orville Derby nem o geógrafo Teodoro Sampaio - suas principais eminências
pardas - teriam jamais conseguido sequer esboçar; menos, ainda, realizar. E ter
levantado um perfil antropológico do sertanejo que nem três Ninas Rodrigues reunidos
teriam sido capazes de levantar.
Euclides da Cunha nunca nos põe diante de
simples e perfeitas fotografias nem de sertanejos e de sertões; nem de seringueiros e de
seringais - fotografias reunidas para que ele apenas as colorisse a mão; e assim
coloridas, mas sem retoques nos seus traços, constituíssem o material científico de
algum vasto gabinete de identificação que em vez de policial, fosse sociológico. Mesmo
porque seu forte nunca foi procurar acentuar as cores dos homens e das paisagens; e sim as
suas formas. Foram precisamente os traços dos seus retratados que ele retocou e alterou,
para neles acentuar características a seu ver essenciais. Nos seus ensaios, ele nos põe
diante de retratos de homens e de interpretações de paisagens traçados por uma técnica
singularmente sua em que ao impressionismo se acrescenta por vezes um expressionismo
arrojado e personalíssimo: a intensificação na realidade do que nela o escritor
encontrou de mais real. Foi intensificando e até exagerando na realidade o que dela lhe
surgisse aos olhos e à sensibilidade como mais real que a realidade, que ele nos deixou,
além de um retrato, hoje clássico, de sertanejo, vários retratos menores, mas
igualmente significativos, de homens-símbolos. Não pode dizer-se conhecedor do Brasil
quem ignore esses retratos e essas interpretações; e conheça apenas fotografias
sociológicas ou geográficas dos homens e das paisagens que Euclides da Cunha retratou
através daquele seu método menos impressionista que expressionista.
Destaque-se ainda de Euclides da Cunha que
não se limitou a retratar indivíduos de uma só classe ou de um só grupo social mas de
vários, embora seu brasileiro-ideal fosse evidentemente o sertanejo completado pelo
seringueiro; e este, um meio-termo entre o burguês e o proletário, não podendo servir
para símbolo de reivindicações de uma classe contra outra. Nem foi um drama de conflito
de classes nem sequer de raças o que se verificou em Canudos, embora do verdadeiro
caráter de luta entre soldados e jagunços o autor d'Os Sertões não tenha se
apercebido de todo: o caráter de um choque entre culturas. Daí resvalar por vezes, tanto
quanto seu contemporâneo Sílvio Romero e, talvez, por influência do também seu
contemporâneo Nina Rodrigues, em incertezas quanto à exata situação biológica do
mestiço; o qual, biologicamente inferior, seria também sociologicamente incapaz de
concorrer para o progresso brasileiro com que sonhava a engenharia de Euclides. É
evidente que sua descrença no mestiço por preconceito cientificista era uma descrença
que alcançava principalmente o mulato e o cafuzo; e não o ameríndio que tivesse apenas
o seu toque de "celta" ou de "grego" e se conformasse, aos olhos de
Euclides, à sua imagem talvez um tanto romântica do sertanejo ou do nortista desbravador
da Amazônia. Mas não há dúvida de que, como Nina Rodrigues, e como, em certas fases de
sua vida, o contraditório Sílvio Romero, Euclides padeceu daqueles preconceitos
cientificistas contra mulatos e cafuzos, concorrendo, talvez, para o "arianismo"
dos Oliveira Viana: seus sucessores imediatos nos estudos de homens e populações
brasileiras. Resvalaram esses Oliveiras Vianas naquele preconceito, ao contrário dos
Roquette Pinto que, entusiastas de Euclides e do seu sertanismo, retificaram-no sem demora
neste particular, do ponto de vista antropofísico; e o fizeram, estando ainda quente a
presença do autor d'Os Sertões nas letras nacionais. Do ponto de vista
antropossocial ou antropocultural é que a retificação não só ao autor d'Os
Sertões como a Nina Rodrigues só se faria, de modo decisivo, mais de um quarto de
século depois da morte de Euclides da Cunha. Mas isto, é outra história, como diria o
inglês embora história não de todo estranha à avaliação que hoje se faça da
influência do grande escritor não só sobre as letras como sobre os estudos
antropológicos e sociológicos no seu país. Foram estudos que sua presença marcou de
modo tão notável como marcou as letras nacionais: o ensaísmo literário que, sob a
reorientação que ele deu a esse gênero de expressão ganhou novas perspectivas em
língua portuguesa. Tão novas que talvez não haja exagero em falar-se de um tipo
euclidiano de ensaio.
Diz-se da ciência que é analítica teórica
e impessoal, enquanto a arte é sintética, prática e pessoal, além de orgânica. Na
obra de Euclides da Cunha predominaram as virtudes artísticas sobre as científicas. E
sua própria maneira de ser cientista foi uma maneira hispânica ou ibérica, admitindo a
presença do analista na obra de análise: maneira que Nietzsche parece ter aprendido dos
espanhóis - sobretudo de Gracián - ao comunicar aos seus estudos filológicos alguma
coisa de psicológico que terminou sendo alguma coisa de poético. Não erraria, quem
dissesse do autor d'Os Sertões que foi, à sombra dessa tradição, mas
excedendo-a, uma antecipação do moderno humanista científico: tipo de ensaísta que na
língua inglesa vem se afirmando de Havelok Ellis a Julian Huxley, de Lawrence da Arábia
a Bertrand Russell, de William James a Herbert Read. Esse humanismo científico ele o
aplicou principalmente a temas brasileiros: à análise de homens ou de populações
regionais e nacionais à qual acrescentou não só a revelação de intimidades
características desses homens e dessas populações como a glorificação de valores por
eles, a seu ver, encarnados. Nessa glorificação se expandiu seu pendor para o que fosse
prático, orgânico e até pessoal nos mesmos temas, de preferência ao que neles se
prestasse apenas a análises impessoais e a generalidades abstratas.
Há quem pense de Euclides da Cunha que,
"embora nascido no Estado do Rio", ficou "intimamente ligado à literatura
nordestina, cuja civilização particularista estudou em suas páginas sensacionais".
É a opinião do Professor Alceu Amoroso Lima (Tristão de Ataíde) à página 59 do seu Quadro
Sintético da Literatura Brasileira (Rio, 1956). A propósito do que acrescenta o
eminente crítico:
A região nordestina no Brasil é tão
típica, em seus costumes, como a região amazônica, a mineira, a gaúcha ou a do litoral
central.
E lembra já haver outro crítico, o hoje
acadêmico Vianna Moog, "também romancista e ensaísta de valor", proposto uma
"divisão da literatura brasileira baseada nessas idiossincrasias regionais".
Com essas digressões - precedidas pelo reconhecimento de um "regionalismo"
mineiro (Afonso Arinos) a que se teria juntado um "regionalismo" paulista
(Valdomiro Silveira) sem que ao ilustre historiador do Quadro Sintético tenha
ocorrido a necessidade de desses regionalismos e do gaúcho e do mero
"pernambucanismo" de Joaquim Nabuco ou do superficial "sertanismo" de
Catulo da Paixão Cearense distinguir-se o muito mais complexo regionalismo em 1924
nascido no Recife - o Professor Alceu Amoroso Lima enche a meia página em que deveria ter
fixado seu julgamento sintético da obra de Euclides da Cunha. O que é pena pois nesse
julgamento sintético de Euclides pelo mestre atual mais admirado e mais respeitado da
crítica literária no nosso País teria se resumido a moderna atitude de toda uma elite
intelectual - a dos críticos literários nacionais - com relação ao autor d'Os
Sertões. Não se compreende que muito mais do que Euclides tenha merecido do
Professor Amoroso Lima, isto é, dos seus julgamentos sintéticos, Rui Barbosa, um tanto
arbitrariamente apresentado pelo crítico-historiador como "porventura a mais
internacional das nossas grandes figuras literárias, no sentido amplo do termo" (p.
47); primazia que evidentemente cabe antes a Euclides ou a Machado que a Rui. É uma
ilusão, essa, da parte de numerosos brasileiros, de ser Rui Barbosa - que tanto
significou, na verdade, para nós, seus compatriotas, e ainda significa, como invulgar
jurista-político em quem às virtudes acadêmicas de grande erudito nessas matérias, nas
letras clássicas e na filologia, se juntou o carisma de bravo homem de ação e de
incansável doutrinador de liberalismo, por um lado e por outro, de casticismo - um
brasileiro significativo para os meios cultos estrangeiros por qualquer motivo
interessados no Brasil. É uma ilusão acreditar-se na importância da repercussão, no
estrangeiro, de seus triunfos político-jurídicos e oratórios na Haia: muito maior foi,
na mesma época a repercussão das teses em prol do mestiço brasileiro defendidas em
Londres, em congresso internacional de cientistas, pelo Professor J. B. de Lacerda. É uma
ilusão imaginar-se Rui sob o aspecto de "figura literária" brasileira que
tenha impressionado ou impressione ou seduza hoje, estrangeiros, por suas virtudes
literárias. Ao afirmá-lo, o crítico e professor Alceu Amoroso Lima (Tristão de
Ataíde) resvala num mito que por sua condição mesma de crítico deveria ser o primeiro
a retificar. Pois semelhante repercussão de Rui no estrangeiro não existe senão em
meios europeus ou americanos influenciados diretamente pelo culto brasileiro ao mesmo Rui.
Para Euclides da Cunha tem se voltado, da
parte de estrangeiros interessados em literatura, ou nos trópicos, ou em gentes
exóticas, em geral - e não apenas no Brasil - senão sempre uma admiração, uma
curiosidade, que talvez se explique pelo fato de ser a literatura do autor d'Os
Sertões, mais do que a de Rui Barbosa ou do que a de Joaquim Nabuco ou mesmo a de
Machado de Assis, diferente das produções européias; tocada - ainda mais que a de José
de Alencar: seu predecessor mais importante neste particular - por alguma coisa de agreste
ou de tapuio em sua arte e em seus motivos combinados. Por conseguinte, uma literatura de
sabor um tanto novo para o estrangeiro, a quem o próprio, Machado de Assis desaponta
quando seu humour é o sub-inglês dos seus romances e das suas crônicas - humour
tão surpreendente para o paladar brasileiro - em vez de ser a graça já sutilmente
carioca que caracteriza, mais do que os seus romances e as suas crônicas, os seus contos.
E justamente pelos contos é que Machado de Assis vem competindo, com Euclides da Cunha na
sedução que os dois, muito mais do que Rui Barbosa, vem exercendo sobre estrangeiros.
Em resumo: se é exato o que aqui se diz ou se
sugere, compreende-se que à obra de Euclides da Cunha pareça destinada a missão de
abrir para europeus e para outros estrangeiros caminhos à compreensão do Brasil através
da literatura brasileira, que nenhum outro escritor já clássico do nosso País vem
conseguindo sequer desbravar. Pareceu que Alencar o faria, completado pela propaganda que
dele fez com não pequeno entusiasmo um inglês do prestígio de Burton. Mas a
repercussão de Alencar na língua inglesa enlanguesceu cedo. Difícil tem sido igualmente
aos brasileiros convencerem os estrangeiros da importância literária de Machado: a
importância que nós, com inteira razão, lhe atribuímos, à base do que Machado trouxe
para a literatura nacional, da literatura inglesa, acrescentando a essa difícil
importação alguma coisa de discreta e sutilmente seu, quase impossível de ser
transmitido aos estranhos através de traduções. A eterna história das conchas que
retiradas da praia perdem quase todo o encanto, tornando-se tristes e inexpressivas.
De Euclides, se sabe que em certas línguas,
como a sueca, vem sendo um fracasso absoluto. Na língua inglesa e na espanhola, porém,
já atravessou a prova de sobreviver às primeiras edições. Vem se afirmando, mais que
qualquer daqueles dois e do que Taunay ou Graça Aranha, escritor polivalente. Isto é,
escritor quase tão fascinante dos leitores sob a forma de escritor traduzido - bem
traduzido, é claro - quanto sob a forma de escritor na língua materna.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Euclides da Cunha, revelador da realidade brasileira. In: CUNHA, Euclides da. Obra completa. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1966. v. 1, p. 17-31.
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