NÉLSON RODRIGUES, ESCRITOR
Dizem-me que um "colunista" - pobre
palavra de origem tão nobre quanto, quase sempre, degradada - estranhou que, em artigo
para uma revista do Rio, eu considerasse Nelson Rodrigues não só "um novo, Eça de
Queirós" como, na prosa jornalística, "mais vigoroso do que Eça".
Nada mais cristalinamente exato como
equivalência. Estou agora mesmo procurando desenvolver num pequeno ensaio o que chamo
"sugestões para uma sociologia das equivalências literárias". Uma sociologia
que, dentro da Sociologia da Literatura, considere equivalências de conteúdos sociais -
em poemas, em romances, em ensaios, em peças de teatro - ao mesmo tempo que
coincidências de formas de expressão literária. Aliás, no trabalho que acabo de
escrever para ser lido no Pen Club, no Rio, já me aventuro a esboçar algumas
dessas sugestões. Desenvolvidas, serão expostas noutra conferência, a ser proferida em
São Paulo.
As equivalências da espécie aqui sugerida
existem. Precisam, é certo, de ser identificadas com extrema acuidade. Mas, uma vez
identificadas, dão ao estudo comparado de literaturas que se faça sob um critério
sociológico, complementar do estético, uma extraordinária riqueza.
Nelson Rodrigues avulta na literatura atual do
Brasil, como o nosso maior teatrólogo. O maior de hoje e o maior de todos os tempos. Pode
ser considerado um equivalente, nesse setor, do Eugene O'Neil: do que foi O'Neil na
literatura, dos Estados Unidos.
Mas ele é também o mais incisivamente
escritor, sem deixar de ser vibrantemente jornalístico, dos cronistas brasileiros de
hoje. O maior dos jornalistas literários - potencialmente literários - que tem tido o
Brasil. Nesse setor é um equivalente do que foi e é - quem o superou? - Eça de Queirós
na literatura portuguesa. Apenas com esta diferença: no brasileiro há um vigor de
expressão maior do que em Eça - um Eça até hoje inatingido e, talvez, inatingível, na
graça artística que soube dar ao seu jornalismo literário.
Por jornalismo literário não se deve
entender o jornalismo que se ocupe de assuntos literários; e sim o que se caracteriza
pela potência literária do jornalista-escritor. Um característico relativamente fácil
de ser captado: contanto, que se dá tempo ao tempo.
O escritor-jornalista ou o jornalista-escritor
é o que sobrevive ao jornal: ao momento jornalístico. Ao tempo jornalístico. Pode
resistir à prova tremenda de passar do jornal ao livro.
As correspondências de Eça de Queirós, de
Paris e da Inglaterra, para jornais portugueses e brasileiros, passaram a ter seu maior
esplendor quando publicadas em livro. E esse esplendor continua. Enquanto artigos, para o
momento em que apareceram em jornais, magníficos - magníficos como pura expressão
jornalística - reunidos em livros não resistem à terrível prova: morrem. Fenecem.
Rosas de Malherbe. Conchas de Emerson. Vários exemplos poderiam ser invocados dessa
precariedade da expressão apenas jornalística: os artigos reunidos em livro de Costa
Rego - jornalista magistral; os de Annibal Fernandes - outro, jornalista magistral; os de
Plínio Barreto - ainda outro jornalista admirável. Mas admiráveis, os três, quando
lidos quentes e quase intoleráveis quando frios.
Em Nelson
Rodrigues, como em Eça de Queirós, o escritor vence o tempo como escritor, embora
servindo-se do jornal; da correspondência para jornal; do comentário ao acontecimento do
dia. Nelson Rodrigues é, dos dois, o mais vigoroso nessa espécie de expressão
literária: a transferível de jornal para livro. Ele é lido em livro, tão forte de
virtude literária, quanto lido em jornal. Repete Eça. Repete Eça neste particular, com
maior vigor do que Eça.
Fonte: FREYRE, Gilberto. Nelson Rodrigues, escritor. In: RODRIGUES, Nelson. O reacionário: memórias e confissões. Rio de Janeiro: Record, 1977. p. 9-10.
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