O PADRE CARAPUCEIRO
Recorda o autor do valioso estudo de história
social que é este O Padre Carapuceiro, e a Critica de Costumes no Brasil da Primeira
Metade do Século XIX - o Professor Waldemar Valente - que um dos seus primeiros
contactos com o Mestre Miguel do Sacramento Padre Lopes Gama - o "Padre
Carapuceiro" - foi através do livro de autoria de quem escreve este prefácio, Casa-Grande
& Senzala. Isto em fins de dezembro de 1933.
Dez anos antes, já poderia ter encontrado em
artigos de jornal deste prefaciador e, principalmente, no seu ensaio "Vida Social no
Nordeste: aspectos de um século de transição (1825-1925)", publicado no Livro
do Nordeste comemorativo do primeiro centenário do "Diario de Pernambuco", Recife
1925, referências ao "Padre Carapuceiro". Referências aos seus numerosos
reparos críticos, alguns tão agudos, à sociedade brasileira, em geral, pernambucana, em
particular, da sua época de maior atividade intelectual e política.
Essa época foi a segunda metade do século
XIX, transbordando nos meados do mesmo século. Época interessantíssima. Uma das épocas
de maior esplendor recifense, com a presença, entre nós, de um Maciel Monteiro, de um
Dom João da Purificação Marques Perdigão, de um Jerônimo Serpa, de um Feitosa, de um
Nabuco de Araújo, de um Soares de Azevedo, de um Abreu e Lima, de um Antônio Pedro de
Figueiredo, de um Joaquim de Aquino Fonseca, de um Louis Leger Vauthier e seu séquito de
técnicos franceses, de uma Alves da Silva - a inspiradora dos célebres versos de Maciel
Monteiro - dos socialistas da "Rebelião Praieira".
Não destaco o fato para reclamar prioridades
- embora não desdenhe das minhas modestas antecipações de jovem; e procure, quase
sempre, fixá-las, por vários motivos. Inclusive este: para não parecer aos olhos de
leitores superficiais um quase plagiário a servir-se, nos seus escritos recentes, de
prioridades alheias como se fossem antecipações próprias.
Pelo "Padre Carapuceiro" como por
Antônio Pedro de Figueiredo, por Louis Leger Vauthier como por Joaquim de Aquino Fonseca,
pelos Beranger como por Spieler, tenho velhos entusiasmos que, sem serem, suponho eu,
entusiasmos apenas sentimentais porém também o seu tanto lógicos, analíticos e até
críticos, me têm levado a concorrer para que lhes estejam sendo dados, na história
cultural não só de Pernambuco e do Nordeste como do Brasil, seus justos lugares de
renovadores de idéias, de artes e de ciências. Daí o júbilo que me dá um estudo como
aquele em que inteligentemente se deteve o professor Waldemar Valente em torno da figura
extraordinária do "Padre Carapuceiro". Extraordinária como crítico de
costumes e principalmente - aceita ele minha tese já antiga, desenvolvida de sugestão de
Alfredo de Carvalho - como caricaturista social. Foi - destaca argutamente o professor
Waldemar Valente - no que se salientou o Padre Lopes Gama: no tom de caricatura que soube
imprimir "aos acontecimentos e aos flagrantes da sociedade recifense. Autênticas
caricaturas de uma sociedade que mudava, à força, principalmente, de influências
européias nem sempre em saudável assimilação. Algumas vezes apenas arremedando ou
macaqueando".
Já Alfredo de Carvalho - repita-se - a
propósito do Padre Lopes, falava em "espirituosíssimo caricaturista da pena".
"Cariturista social" é mais do que isto, porém é mais do que espírito
literário ou do que graça jornalística em torno de costumes ou de vícios
característicos de uma sociedade ou de uma época: é crítica de costumes em termos
aumentados ou exagerados para ter essa crítica, não só validade histórica ou
sociológica, porém efetiva repercussão sobre os contemporâneos: quer os criticados
quer os susceptíveis de resvalarem nas mesmas deformações sociais dos criticados. O
caso mais expressivo de pioneiro da crítica social desse gênero, no nosso país, é,
evidentemente, o poeta dos dias coloniais, Gregório de Matos. O Padre Lopes Gama
aperfeiçoou, decerto, o gênero iniciado pelo poeta. Aperfeiçoou-o na sua prosa
incisiva, vivaz às vezes sobrecarregada de pitoresco: excesso de sal nem sempre ático.
Mesmo assim houve no Padre Lopes Gama um
escritor - um ensaísta que, tivesse escrito em inglês seus ensaios, talvez houvesse
alcançado renome nesse gênero literário - e não apenas um jornalista ou um
panfletário. Como escritor tem direito a aparecer nas histórias literárias do Brasil.
Não vou, entretanto, a extremos a esse
respeito; e até me surpreende o que me parece este exagero apologético da parte do
Professor Waldemar Valente: o de considerar o admirável caricaturista social que foi o
Mestre Miguel do Sacramento Padre Lopes Gama superior àquele insigne francês, de quem o
"Carapuceiro" se confessava discípulo - La Bruyère. Devagar com o andor,
Mestre Valente!
Como prefaciador do novo e erudito ensaio do
Professor Waldemar Valente estranho o seu aparente desdém pelos efeminados como
sacerdotes: parece só admitir como bons ministros de Deus indivíduos plenamente varonis
como era, ao que parece - fosse, ou não, perfeita, nele, a vocação sacerdotal -
Padre-Mestre Miguel do Sacramento Lopes Gama.
Sei que com esse desdém pretendem alguns
reformadores atuais da Igreja Católica justificar-se da reorientação que projetam dar a
formação, de sacerdotes: formação de todo igual à de qualquer pretendente ao
exercício de profissão, burguesa-liberal de hoje, com o candidato ao sacerdócio vivendo
vida comum ou de estudante de todo profano. Precisamente - pensam alguns desses
reformadores - para não haver entre os candidatos ao sacerdócio efeminados ou
indivíduos com tendências a homossexuais. Estarão certos tais reformadores? Estará
certo o Professor Waldemar Valente ao parecer a certa altura - talvez interprete mal o seu
pensamento - dar o seu valioso apoio de antropólogo, com responsabilidade científica
definida, a certos reformadores, antes cientificoides do que científicos, da formação
de sacerdotes católicos, aos quais repugna o que consideram "efeminado" ou
"amaricado" em certos religiosos? Não devemos admitir, à margem do próprio
freudismo - inspirador, ao que parece, de alguns desses reformadores - que o fenômeno da
sublimação possa se manifestar, em vários casos, em repressões a impulsos do sexo,
transformando-os em impulsos, sendo criadores, sacros, religiosos, místicos, sem que
desapareçam, com essa sublimação, característicos antes femininos do que varonis, nos
sublimados? Não haverá na história da Igreja, exemplos dessa espécie? Não terão sido
"efeminados", homossexuais em potência, sublimados, alguns dos seus santos e
dos seus místicos?
Sacerdotes sem vocação religiosa houve
decerto, numerosos, no Brasil da época do Padre-Mestre Lopes Gama - por algum tempo frade
- sob a pressão do prestígio social então associado a este status: o de
sacerdotes. Daí sacerdotes libertinos e sacerdotes pais-de-família. São excelentes as
páginas que o assunto consagra o professor Valente. Nelas o psicólogo se junta ao
sociólogo e o sociólogo ao historiador. Tão pouco deixa ele de reconhecer que tem
havido, no Brasil, em não pequeno número, sacerdotes fiéis ao celibato e sublimados em
servos de Cristo e devotos da Mãe de Jesus.
Ao "Padre Carapuceiro" pode ter
faltado a vocação sacerdotal plena: o Professor Valente se inclina a pensar que sim.
Não tendo deixado nunca de ser um crítico social do próprio clero, não me parece
inteiramente fácil caracterizá-lo como tendo sido negação de sacerdote, só por ter
resvalado demasiadamente em atividades panfletárias de caráter político; ou ter se
excedido numa crítica ou numa caricatura social que não se conforma de todo com aquela
caridade cristã, inseparável dos ministros de Deus, embora o próprio Jesus tivesse se
revelado caricaturista social ao chamar, certa vez, a um poderoso dos seus dias, de
"raposo".
Num dos seus artigos n'O Carapuceiro, o
Padre Lopes Gama critica asperamente padres ociosos do Brasil da sua época: ". . .
celebrada a sua Missa (por causa da esmola) levam todo o santo dia em completo
ócio", havendo os que se divorciavam de tal modo dos livros, - inclusive o
breviário - e do estudo que "a letra redonda" se tornava para eles "o
mesmo que carne de porco para um bom maometano". Que se podia esperar desses
"Reverendíssimos ociosos" como "confessores"? Ou como "diretores
de consciências"?
O Padre Lopes Gama atribuía a maior
importância ao ensino às crianças da Doutrina Cristã, das Sagradas Escrituras, da
Religião. E noutro dos seus artigos de 1839 se insurge contra a pretensão de Robinet de
serem "a Medicina e a Higiene os verdadeiros e únicos meios de obter a boa
moral". E o caricaturista social que fale: "Toda a moral dependeria dos filhos
d'Esculápio e por ordem deles nos viria quentinha e bem preparada das boticas. Para
sermos liberais, por exemplo, tomaríamos purgantes, para sermos gratos, xaropes e
limonadas para sermos obedientes e submissos à Lei, pílulas e vesicatórios para não
sermos contrabandistas e repetidos eméticos, os magistrados corrompidos e os venais
tomar-se-iam retos e íntegros tornando repetidas sangrias e alimentando-se só com água
e leite, as autoridades despóticas curar-se-iam dessa flogose com banhos mornos, água de
arroz, xarope de Spargo e caldinhos de pintainhos; os assassinos sarariam com boas
fricções de pomada mercurial, com ventosas sugadas, etc., etc.; as pessoas impúdicas
ficariam castas à força de muita bixa, e do uso continuo de beberagens antiflogísticas
e para os gamenhos extremosos, cabeça raspada, gelo sobre a cabeça e metidos em
camisolas; as meninas gamenhas, essas, sarariam da sua queixa com banhos de Maria ou, o
que tem provado, melhor, com banhos de Igreja; e qual seria a medicina para os
contrabandistas de carne humana?
Não desconhecia o Padre-Mestre Lopes o valor
da formação física dos indivíduos; nem deixava de estimar a medicina ou a higiene. O
que pretendeu pôr em revelo, em traços de caricatura, nesse trecho de ensaio quase
swiftiano, foi a importância da religião na educação da mocidade brasileira do seu
tempo: "que seus pais e preceptores lhe falem muitas vezes de um Deus criador, de um
Deus Justiceiro, de um Deus de Bondade, de um Deus que se fez homem para resgatar os
homens da culpa original. . ." Sinal de que nele o Católico, para quem a Teologia
era inseparável de Deus, sempre existiu no crítico social ou no caricaturista.
O ensaio do Professor Waldemar Valente nos
informa sobre alguns dos aspectos mais significativos não só da personalidade do
Padre-Mestre Miguel do Sacramento Lopes Gama como das suas relações de crítico social
como o seu meio e a sua época. Vai além: interpreta sua personalidade dinâmica.
Fixa-lhe os traços característicos. Destaca-lhe as virtudes sem negar-lhe a condição
humana. Um trabalho a que não falta orientação sociológica da mulher a animar-lhe o
que representa de pesquisa histórica, além de biográfica. Mais: à boa ciência e ao
honesto saber junta a arte literária. É bem escrito. Bem ordenado e bem escrito.
Admirável no seu conjunto.
O Padre-Mestre Lopes Gama ao falecer não se
aquietou em figura de museu histórico. Continuou a despertar interesse e admiração em
não poucos de seus pósteros, dentre os mais lúcidos e mais sérios. O Professor
Waldemar Valente é um deles, dentre intelectuais brasileiros de hoje. Outros são os
professores Luís Delgado e Amaro Quintas, Alfredo de Carvalho atinou com o valor
excepcional do irrequieto clérigo. Olívio Montenegro, também. Mas ninguém que o tenha
estudado com tanta minúcia e tão inteligente simpatia como, agora, o Professor Valente.
Aníbal Fernandes dizia que me era grato por
lhe ter posto em contato com O Carapuceiro tanto quanto com Leon Daudet. E a
verdade é que tanto o panfletário brasileiro quanto o francês incluíram sobre o estilo
jornalístico - também ele às vezes próximo da arte da caricatura social - do excelente
Anibal. Um continuador de Lopes que, mais fino que o Padre do século passado, no
espírito e na graça literária, está fazendo falta ao Recife de hoje. Um Recife cheio
de desafios ao caricaturista social. Necessitado, de um novo Lopes Gama. Ou de um novo
Aníbal Fernandes.
Fonte: FREYRE, Gilberto. O Padre Carapuceiro. In: VALENTE, Waldemar. O padre Carapuceiro: crítica de costumes na primeira metade do século XIX. Recife: Departamento de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura, 1969. p. 29-34.
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