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Assinatura de Gilberto Freyre
Prefácios  



O RIO QUE GASTÃO CRULS VÊ


Há quinze anos lembrei-me de escrever um guia da cidade do Recife. Mas um guia diferente dos guias comuns: sem as suas muitas obrigações burguesas. Livre para evocar o passado e comentar o caráter da cidade. Ilustrado mais com os desenhos de um Luís Jardim do que com fotografias oficiais. Um guia meio boêmio, embora de modo nenhum apenas literário: também útil, com nomes de ruas, horas de missas, informações sobre mercados. Pelo que denominei-o "guia prático, histórico e sentimental".

E o que tentei fazer com o Recife, procurei fazer, noutras páginas, com a cidade de Olinda: "2.º guia prático, histórico e sentimental de cidade brasileira". Ai cheguei a dar preços de corridas de automóveis até às cidades vizinhas, Igarassu e Paulista, o número não só de escolas como de lojas e fábricas, modelos das rendas e dos bordados que as meninas de Santa Teresa fazem, sob a direção das freiras, para enxoval de casamento ou batizado. Meu plano era ir adiante: escrever outros guias de cidades brasileiras. Um de Salvador da Bahia. Outro de Santa Maria de Belém. Um terceiro de São Sebastião do Rio de Janeiro. Todos guias práticos, históricos e sentimentais. Todos misturando notas sobre igrejas velhas com informações sobre mercados, arte popular encontrada nas feiras, doce a comprar dos tabuleiros de rua, quitutes a pedir nos restaurantes.

Mas mesmo meio boêmios, esses guias não se improvisam. E até hoje não me foi possível demorar em Salvador ou em Belém o tempo bastante para tentar escrever, a meu modo, guias dessas duas cidades de minha predileção. Ainda pretendo escrevê-los. Sem ignorar que, no mesmo estilo de guia esboçado nas páginas do "prático, histórico e sentimental" da cidade do Recife, ou ainda no estilo, clássico, já apareceram, nos últimos anos, dois roteiros de Salvador, como já apareceram dois de Ouro Preto, um de Porto Alegre, um de Natal, um de Rio Pardo (Rio Grande do Sul) todos escritos primorosamente por mestres - ainda não desisti da idéia um tanto ingênua de tentar escrever guias de Salvador e de Belém que sejam, ao mesmo tempo, práticos, históricos e sentimentais.

Desisti foi de escrever o que cheguei a anunciar sobre o Rio de Janeiro, com a colaboração de uma artista européia que é, ao meu ver, uma das melhores intérpretes da paisagem carioca: a Sra. Maria Retcheck, Ministra da Áustria entre nós. E desisti desse intento grandioso primeiro por saber que havia no Rio quem pudesse dedicar-se ao estudo da cidade e de sua história com um vagar pachorrento que, por muito tempo, me faltaria; segundo, porque meu começo de amor pelo Rio não era dos que facilmente pudessem resistir à descaracterização da face, ou antes, do corpo inteiro da cidade (que ainda conheci cheia de saliências de morros sempre jovens em sua vegetação e de igrejas, conventos e casas maternalmente gordas e que pareciam ter o direito de ser eternas), por massas de arranha-céus estandardizadores de paisagens. Arranha-céus erguidos aqui sem plano e em oposição às formas dos morros em que a paisagem da cidade parecia arredondar-se em ventres de mulheres moças a espera de arquitetos, de artistas, de homens que as soubessem fecundar. Levantados no puro interesse comercial de aproveitamento de espaço urbano por particulares ávidos apenas de lucros, à sombra de prefeitos ou governos ineptos ou complacentes. De modo que das velhas linhas de beleza carioca pouco resta para conservar viva a paixão de um estranho pelo que aquela beleza já teve de único ou de sem igual, com as saliências dos seus morros prometendo desentranhar-se em novas belezas.

Felizmente não falta ao Rio o amor endogâmico de um Gastão Cruls. Tendo nascido aqui, Gastão Cruls sabe perdoar à cidade do seu primeiro, profundo e constante amor, muitas das descaracterizações que ela vem sofrendo em sua antiga beleza. Necessidades de tráfego, de habitação, da urbanização, de higienização justificam, aos seus olhos, alguns desses ultrajes. O que não significa que em Cruls o sentimental tudo sacrifique ao carioca prático; e o sentido histórico se confunda com o do antiquário que se contesta com os pequenos pedaços de passado, melancolicamente guardados nos museus e nos arquivos. Suas páginas são as de quem sente e não apenas vê o Rio; as de quem sempre conheceu de perto a velha cidade e conhece agora como raros o seu passado; as de quem não sabe separar desse passado o Rio de hoje, deliciando-se, sempre que pode, em mostrar ao estranho, na fisionomia atual da metrópole, em tanta cousa degradada, traços bons ou sobrevivências pitorescas da cidade dos tempos coloniais, da época do Império e dos dias já remotos da Primeira República.

Creio que, pelo gosto de Gastão Cruls, a modernização do Rio se teria feito, desde os dias do Engenheiro Passos, com muito menor sacrifício do caráter e das tradições da cidade à mística do Progresso com P maiúsculo. Mas nunca se esquece ele de que, sob as descaracterizações e inovações brutais e tantas vezes desnecessárias por que vem passando a mais bela das cidades do Brasil, continua a haver um Rio de Janeiro do tempo dos Franceses, dos Vice-reis, de Dom João VI, dos Jesuítas, dos Beneditinos, dos começos da Santa Casa, de Mestre Valentim, de Grandjean de Montigny; dos arcos; de água de chafariz; de chácaras rodeadas de "ruas de laranjeiras", de pés de araçás, pés de cravos, pés de pimenta, pés de louro, romeiras, mangueiras, figueiras; de enterros nas igrejas, de festas nas igrejas, de namoros nas igrejas; de trabalho feito todo por mãos e pés negros, pardos e amarelos de escravos; de lampiões de azeite iluminando ruas orientalmente estreitas (tão próprias aliás para o clima tropical); de modistas francesas instaladas com suas plumas, seus vidros de cheiro, suas miudezas, seus vestidos, suas elegâncias de mulher, na Rua do Ouvidor como numa rua francesa; de negociantes ingleses de ferro, lã, vidro, máquinas, artigos de homem, quase senhores da Rua Direita. O Rio de Janeiro da Rua Larga; do Beco, da Música; da Praça Onze; do Cosme Velho; de capoeiras de gaforinha que pelo mais banal dos motivos navalhavam o mais pacato dos taberneiros lusitanos; de Mme. Durocher vestida de homem como para se distinguir das simples "comadres"; do teatro lírico freqüentado por um Pedro II de barbas mais de professor do que de rei; de Gottschalk morrendo romanticamente de tísica sob nosso sol tropical depois de ter arrebatado as sinhazinhas da época com sua música e sua mocidade. O Rio de Macedo, de Machado de Assis e de Lima Barreto; de troças de estudantes de medicina; de sambas sambados nos morros; de "cabeças de porco" instaladas em velhos sobrados de titulares do tempo do Império; de boêmios de confeitaria e de café; de crimes que arrepiaram o Brasil inteiro, como o de Carleto e Roca; de anedotas, pilhérias, músicas, canções picantes que daqui se têm espalhado por todo o Brasil; de cocottes célebres; de contos do vigário também célebres; de Gonzagas de Sá magros e bons a caminho das repartições; de Irmã Paula pedindo esmolas para os pobres; de Rui Barbosa discursando no Senado com uma voz que ninguém diria de homem tão franzino e voltando de vitória para a sua casa de São Clemente, leve como um menino doente vestido de doutor ou fantasiado de velho; de Rio Branco, gordo e imenso, quase um bom gigante, regalando-se de peixe à portuguesa no Rio Minho, e passeando escandalosamente pelas ruas principais de carro com a capota arriada, para melhor recordar-se da cidade dos seus dias alegres de Juca Paranhos; de carnavais grandiosos; de procissões e semanas-santas solenes, com os homens de preto e as iaiás de roxo; de agitações políticas às vezes sangrentas; de missas-do-galo; de barbadinhos curando endemoniados com surras de cordões de São Francisco; de macumbas; de "despachos" pelas esquinas; de "baianas" vendendo doce ou fruta madura sob chapéus-de-sol quase de rainhas do Oriente; de literatos de pince-nez conversando na Garnier; de moleques vaiando dondons enfeitadas e políticos impopulares.

Por mais que tudo isso venha desaparecendo dos nossos olhos e se dissolvendo em passado, em antiguidade, em raridade de museu, continua a ser parte do espírito do Rio de Janeiro. Pois as cidades são como as pessoas, em cujo espírito nada do que se passou deixa inteiramente de ser. O Rio descaracterizado de hoje guarda no seu íntimo para os que, como Gastão Cruls, sabem vê-lo histórica e sentimentalmente, uma riqueza de característicos irredutíveis ou indestrutíveis, que as páginas de Aparência do Rio de Janeiro nos fazem ver ou sentir. E este é o maior encanto do guia de cidade que o autor de A Amazônia que eu vi acaba de escrever: dar-nos, através da aparência do Rio de Janeiro, traços essenciais do passado e do caráter da gente carioca. Comunicamos do Rio de Janeiro que Gastão Cruls conhece na intimidade desde seus dias de menino de morro ilustre - menino nascido à sombra do Observatório - alguma cousa de essencial. Alguma cousa do que a cidade parece ter de eterno e que vem de certa harmonia misteriosa a que tendem o branco, o preto, o roxo e o moreno - principalmente o moreno - da cor da pele dos seus homens e de suas mulheres, com o azul e o verde quente de suas águas e de suas matas.

Desde os dias remotos das águas da Carioca que água e cidade, no Rio de Janeiro, tendem a se completar. Poucas são as cidades grandes em que há tanta intimidade entre cidade e água do mar. O carioca é hoje quase um anfíbio. Regala-se d’água de mar e de vida de praia como outrora os indígenas se regalavam d’água dos rios. Raro é o corpo moreno de carioca moderno que não se forma correndo na praia, nadando e mergulhando no mar, desde novo avermelhando-se de sol em Copacabana, no Leme, em Ipanema. Nem os arranha-céus, nem as piscinas dos clubes elegantes separam o verdadeiro carioca do mar ou da água viva. É uma constante essa, de homem e água viva, que, sob aspectos diversos, vem sobrevivendo no brasileiro do Rio a todas as transformações de aparência da cidade. Sem água não há carioca, nem há Rio de Janeiro, nem aparência de Rio de Janeiro.

Nas páginas de Gastão Cruls, ilustradas por Luís Jardim com um admirável vigor de traço, como que se sente, do principio ao fim, um ruído bom d'água, de natureza, de mar, de mata, e até de ressaca, a refrescar a erudição do pesquisador que, tendo conhecido o Rio de uma torre de observatório, com olhos de filho pequeno de cientista e de sábio, soube dedicar-se ao estudo do passado da cidade nos arquivos, nas bibliotecas e nos museus, com o rigor e a minúcia de um homem de ciência. O mesmo homem de ciência que soube completar o escritor na sua visão e interpretação da Amazônia.

O livro todo sobre o Rio de Janeiro escreveu-o vagarosa, pachorrenta e beneditinamente, debruçado como um frade antigo de São Bento sobre papéis velhos; e sobre estatísticas, gravuras, aquarelas, mapas. Mas escreveu-o também de olhos sempre abertos - franciscanamente abertos - ao que o Rio de Janeiro tem de vivo, de lírico e de irmão do homem em sua natureza. De ouvidos sempre atentos aos rumores vindos das águas e das matas e que aqui se misturam fraternalmente aos dos bondes, dos automóveis, dos homens, dos mercados, das danças, dos armazéns, dos jogos, das ruas, das favelas, dos hotéis, como em raras cidades grandes do mundo. Como talvez em nenhuma.



Fonte: FREYRE, Gilberto. O Rio que Gastão Cruls vê. In: CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro: notícia histórica e descritiva da cidade. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949. v. 1, p. 13-17. (Coleção Documentos Brasileiros, 60).

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