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Assinatura de Gilberto Freyre
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PÁGINAS REGIONALISTAS


Os brasileiros do Nordeste são às vezes acusados de exagerados na importância que atribuem à região materna. Mas é de observadores estrangeiros, um deles o alemão Guenther, a conclusão de que no Nordeste se encontram reunidos tantos dos valores mais característicos do Brasil que não há, segundo esses observadores, exagero em falar-se dessa região como o centro ou a raiz de boa parte da cultura brasileira. Da mais original em suas expressões ou da mais autêntica em suas afirmações, pensam alguns. O próprio Guenther, ecologista e não apenas fitopatologista eminente.

O trabalho do Sr. Mário Brandão Torres é "mais um livro sobre o Nordeste". O autor adoça com a técnica da ficção seu saber especializado. Mas de modo nenhum sacrifica a intenções ou pretensões literárias o fim principal do seu esforço: revelar aspectos quase ignorados da vida regional, estudados com paciência e, ao mesmo tempo, com amor. Principalmente a língua falada por parte considerável da nossa população sertaneja.

Sob esse ponto de vista é que as "páginas regionalistas" do jovem pesquisador baiano me parecem cheias de interesse. Interesse não apenas filológico como sociológico. Interesse humano. Para os que não concebem conhecimento exato da vida brasileira sem sondagens minuciosas das suas diferentes expressões ou configurações regionais, estudos como o do Sr. Mário Brandão Torres representam uma das atividades mais úteis e, ao mesmo tempo, mais nobres, a que se possa dedicar hoje um intelectual em nosso país.

Nestas "páginas regionalistas" o autor aparece mais de uma vez entre seus personagens como no teatro, de Pirandelo. E os personagens quase não têm outra função senão a de darem vida, movimento, naturalidade à língua que o Caboclo do Nordeste sertanejo fala, aos seus costumes, às suas superstições, ao material que o pesquisador recolheu com intenção antes científica do que literária.

Pelo gosto do autor, o leitor escutaria do próprio Caboclo seu inteiro linguajar de dia comum e de dia de festa sem ser interrompido por nenhum comentário erudito. Mas isto seria impossível. Há do Sertanejo do Nordeste expressões, costumes e crenças que só explicadas por um mediador inteligente podem ser compreendidas pelo brasileiro de outras áreas. Daí a técnica engenhosamente adotada pelo Sr. Mário Brandão Torres: a de cochichar o autor ao ouvido do leitor mais explicações. Os personagens caboclos falam alto. O autor cochicha. Traduz. Esclarece em voz baixa. Pareceu-lhe isto mais cômodo para o leitor do que servir-se o autor, num livro aparentemente literário ou de ficção, de notas de rodapé de página ou de fim do livro. Ou de glossário às vezes enfadonho - a não ser para o especialista ávido apenas de minúcias como que anatômicas. E a verdade é que o brasileiro de outras áreas chega ao fim do livro do Sr. Mário Brandão Torres, deliciado com o linguajar característico do Sertanejo do Nordeste: um linguajar mais ouvido do que lido através das páginas em que o autor, em vez de ostentar, procura disfarçar sua erudição. Ao mesmo tempo, termina o leitor esclarecido, orientado, informado, com os comentários sugestivos ou oportunos do erudito dissimulado em simples contador de histórias que é o Sr. Mário Brandão Torres.

A técnica do pesquisador baiano tem os seus inconvenientes e os seus riscos. Mas não há dúvida que supera as convencionais pelo que consegue conservar de vivo no material recolhido em suas páginas. De vivo, de quente, de flagrante. Não nos vêm destas páginas impressão de material melancolicamente frio e de palavras tristemente mortas, estudadas com puro sentido anatômico. A impressão mais forte que as páginas do Sr. Mário Brandão Torres nos comunicam é - repita-se - a de um estudo realizado com a preocupação de conservar a frescura, a naturalidade e a vida do material recolhido na fonte.

Este material foi sentido e vivido, e não apenas observado, pelo autor. Experimentado por ele e não apenas visto com olhos alheios às intimidades do assunto e sensíveis apenas aos seus aspectos superficiais ou pitorescos.

Daí o interesse e o encanto deste livro. Um livro escrito com honestidade, ao mesmo tempo, com ternura. Atraente para toda espécie de leitor e cheio de informações valiosas para aqueles estudiosos do Brasil voltados com particular interesse para os assuntos sertanejos ou nordestinos.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Páginas regionalistas. In: TORRES, Mário Brandão. Acauã: páginas regionalistas. Rio de Janeiro: A Noite, 1950. p. 5-7.

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