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Assinatura de Gilberto Freyre
Prefácios  



SOBRADOS E MOCAMBOS DRAMATIZADO POR HERMILO BORBA FILHO


Com meu nome associado ao de Hermilo Borba Filho, na teatralização de Sobrados e Mocambos, vejo-me na situação não direi de co-autor, mas, de alguma maneira, de inspirador de uma parte nada insignificante do que considero uma das obras-primas desse teatrólogo brasileiro. Associação que muito me agrada. Mas que exige umas tantas definições de minha parte.

Co-autor não poderia eu ser, de obra-prima tão singular. Não são exatamente afins nossas interpretações da fase do passado mais íntimo da gente brasileira agora dramatizada pelo teatrólogo. Senhor de sua arte, ele é também intelectual definido nas suas idéias e nas suas atitudes. E várias dessas idéias e dessas atitudes, são diferentes das minhas e até antagônicas às minhas.

Talvez se possa dizer, para fixar nossas divergências, que ele é de todo, ou quase de todo, da família dos Swift - com quem não repudio parentesco - enquanto, tomando por pontos de referência, escritores ingleses, e eu talvez seja, principalmente, no que toca à ficção, da família dos Defoe. Daí, nas suas interpretações do nosso passado, social, Hermilo Borba Filho dar uma ênfase a aspectos negativos que eu, nas minhas tentativas de interpretar o Brasil, reconhecendo-os, não deixo que abafem os positivos. A formação social brasileira, considero-a rica de aspectos positivos. O humor swiftiano não me domina ao ponto de, em face dessa formação, me fazer subordinar o positivo ao negativo. Prefiro a subordinação do negativo ao positivo.

O certo, porém, é que admiro em Hermilo Borba Filho o vigor sarcástico, irônico - cruelmente irônico, até brilhantemente, caricaturesco, por vezes, com que ele trata psicológica e sociologicamente o seu e, até certo ponto, meu material, dando-lhe, acima de tudo, um extraordinário brilho de expressão satírica, cômica, humorística. Expressão satírica em termos revolucionariamente teatrais. Como seria possível sermos co-autores havendo, entre nós, divergências tão profundas não só de idéias como de atitudes?

Não somos semelhantes mas, ao contrário, dessemelhantes - outra divergência essencial - em nossas atitudes para com o sexo. Há em mim um irredutível lirismo lawrenciano em torno de quase todos os assuntos sexuais que me vem seduzindo. Dificilmente resvalo, em face deles, no burlesco. Temo vê-los acanalhados. De modo que certas caricaturas, mesmo artisticamente válidas, de atos e de situações sexuais em que Hermilo Borba Filho se extrema com uma libertinagem por vezes antilírica, não correspondem ao meu modo de tratar o sexo em suas várias expressões: quer as ortodoxas, quer as heréticas.

Sendo assim profundas algumas das divergências de idéias e de atitudes que nos separam, não se compreenderia - repito - nosso aparecimento como co-autores de uma peça de teatro na qual quem comanda, dirige, domina é, necessariamente, o teatrólogo. Por mais que as sugestões e a própria matéria-prima de caráter histórico-social, por ele utilizada com admirável arte, procedam de trabalho meu, a criação ou a estilização teatral é sua. Extraída de trabalho histórico-social de escritor de feitio diferente do seu, é sua a nova configuração dessa matéria.

Utilizações dessa espécie têm ocorrido, quer entre nós, quer no estrangeiro. Utilizações que importam em colaborações. Por elas se vê quanto as chamadas "duas culturas", de que fala o inglês C. P. Snow - ele próprio, físico e escritor literário - podem fundir-se e resultar em expressões de uma "terceira cultura" em que o beletrismo, seja novelístico, poemático ou teatral, pode nutrir-se de sugestões vindas de fontes em que ciência ou filosofia ou história se juntam a criatividade literária ou artística. Literária, embora não beletristica, essa criatividade pode constituir a base sobre a qual tendem a desenvolver-se novas expressões de "terceira cultura" e até de "quarta". Inclusive através do teatro, do cinema, da televisão: tão capazes, com suas técnicas cada dia mais plásticas, de desenvolver sugestões vindas de pensadores, de cientistas, de escritores. Sugestões que contenham, em potencial, aquele fermento poético que tanto pode estar na obra de um Karl Marx como na de um Jung. Impossível, porém, a um antimarxista ou a um antijungista, dar expressão teatral ou plástica ao pensar de um Marx ou à ciência de um Jung. Para tais fusões é preciso haver uma essencial solidariedade entre criação e qualquer nova forma de expressão dessa mesma criação.

Não sendo este o caso, Hermilo Borba Filho só poderia ser um autor singular em sua teatralização de Sobrados e Mocambos. Teatralização por ele realizada, como teatrólogo magistral que é, com uma arte, uma técnica, uma expressão musical, uma movimentação coreográfica admiráveis.



Fonte: FREYRE, Gilberto. Sobrados e mocambos dramatizado por Hermilo Borba Filho. In: BORBA FILHO, Hermilo. Sobrados e mocambos: uma peça segundo sugestões da obra de Gilberto Freyre nem sempre seguidas pelo autor. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. p. 9-11.

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