GILBERTO FREYRE, UM MENINO AOS 83 ANOS.
Ganhador do Prêmio Moinho Santista em 1964, o autor de Casa-Grande e Senzala mantém acesa a chama da criatividade e trabalha como nunca.
Aos 83 anos, ele ainda tem muito do menino de engenho que convivia com antigos encravos da família em Pernambuco, onde nasceu, e demonstra pleno vigor físico e intelectual, participando das comemorações do cinqüentenário de sua principal obra, Casa-Grande e Senzala, marca raras vezes registrado na história da cultura brasileira. Sociólogo, escritor, cientista político e autor respeitado no Brasil e fora dele. Gilberto Freyre é detentor de inúmeras láureas concedidas por diversos países e tem ministrado constantes cursos no exterior a respeito do homem brasileiro e suas raízes. Supremamente criativo, como ele mesmo se defini, está escrevendo o livro de suas memórias, cujo nome revelou a SANTISTA, nesta entrevista exclusiva realizada na Fundação Joaquim Nabuco, em Recife. Fala de sua vida e de sua obra, lembrando que Casa-Grande e Senzala começou a ser escrita na Universidade de Stanford, nos Estado Unidos, como resultado de uma constatação que se tornou angustiante na época: não sabia o que era o Brasil e o que era ser brasileiro. Conta sua paixão por uma filha de ex-escravos de sua família e confessa: "Sou intratável de manhã".
SANTISTA: - Como nasceu Casa-Grande e Senzala?
Freyre - Desde os meus tempos de estudante no exterior eu verificara que não sabia o que era o Brasil. Meus colegas europeus, asiáticos, africanos e americanos tinham perfeita noção do que era seu país e sua nacionalidade. Aí, você vai dizer - "então, você era inteiramente ignorante das coisas do Brasil?" Não, eu sempre estava muito bem informado sobre o meu país. Para a minha idade, 19 anos, eu estava muitíssimo lido sobre o Brasil e conhecia bem os principais autores nacionais, mas nenhum deles me dava a idéia do que era o Brasil e do que era ser brasileiro. Daí é que me veio a idéia de me descobrir a mim mesmo e de descobrir o que era o Brasil. Portanto, eu tinha uma nebulosa de livros que eu ainda não sabia o que viesse a ser. A idéia tomou corpo na Universidade de Stanford, na Califórnia, que me havia convidado para dar dois cursos sobre o Brasil, um de bacharelado e outro de doutorado. Tive, então, de sistematizar uma síntese do Brasil para estudantes americanos de primeira ordem, pois Stanford é a universidade americana mais seletiva, social e intelectualmente. Aí, nasceu Casa-Grande e Senzala. Em Stanford havia a maior coleção de livros brasileiros da época, uma Brasiliana montada por um geólogo que estivera no Brasil e se entusiasmara pelo nosso país. Seu nome era John Casper Branner.
Santista - Quanto tempo o senhor gastou escrevendo Casa grande e Senzala?
Freyre - Uns dois anos. Comecei em 1931, em Stanford, continuei no Rio de Janeiro e acabei em Recife.
Santista - Alguns críticos afirmam que Casa-Grande e Senzala é uma obra puramente regionalista, que retrata as raízes do homem nordestino e não do homem brasileiro. O senhor concorda com essa crítica?
Freyre - Não. Acho isso uma imbecilidade de quem não conhece o Brasil. O livro dá atenção a Pernambuco, sobretudo, porque em Pernambuco começou a haver civilização no Brasil. Não foi em São Paulo. Em São Paulo, fundou-se um engenho no Século XVI. Enquanto se fundava esse engenho, perto de Santos, surgia uma constelação de engenhos e casas grandes em Pernambuco, constituindo a verdadeira raiz do Brasil. Esta é a tese de Casa-Grande e Senzala, pois a família - e não o governo ou a igreja - é que foi a raiz brasileira, cuja força germinal você encontra aqui, e não em outro lugar do Brasil. Essa crítica é de gente do sul e você sabe como seus conterrâneos são exclusivistas. Eles querem que tudo tenha começado por lá.
Veja bem. Eu admiro o bandeirante, mas ele foi um nômade, de pouca fixação. A fixação em algum ponto do Brasil - vamos dizer, vertical - começou aqui. Daí, o símbolo casa grande e senzala ser muito importante, pois foi uma fixação natural. A casa grande era aceita não só como residência, mas também como banco, escola e uma série de funções.
Santista - Em 1926, o senhor organizou o Primeiro Congresso Brasileiro de Regionalismo, do qual surgiu o Manifesto Regionalista, que defendia a tradição e o valor de tudo o que fosse tipicamente brasileiro. Como o senhor vê hoje a preservação dos valores culturais tipicamente nacionais?
Freyre - Em primeiro lugar, quero fazer um esclarecimento. O Congresso de 26 não foi só regionalista. Ele defendia a tese de que o Brasil era uma constelação de regiões, que devem continuar imperturbadas, completando-se na sua unidade, cada um com suas tradições próprias, as quais devem constituir o corpo geral de tradições brasileiras. Por isso, sempre digo que o Congresso foi, a seu modo, modernista, pois ocorreu pouco depois da Semana de Arte Moderna de 22, um grande movimento sem dúvida, mas muito sub-europeu, com a importação de europeismos modernos. Enquanto isso, aqui em Pernambuco procurava-se a criatividade brasileira, mas que também incluía arte moderna. Tanto que fizeram parte desse congresso alguns artistas radicados no exterior, como Rego Monteiro, que vivia em Paris. Hoje, dizem que ele fez parte da Semana de Arte Moderna, mas ele se recusou completamente a isso, pois se julgava um pioneiro do modernismo no Brasil e, para ele, a coisa deveria começar pelas raízes índias do Brasil através de uma arte moderna. Os modernistas de São Paulo estiveram inteiramente alheios a esse aspecto. De modo que o regionalismo de 26 tem também aspectos modernistas. Não é dizer que ele queria somente coisas arcaicas, antigas ou curiosamente históricas. Voltava-se para a cultura brasileira sob condicionamentos regionais.
Agora, vou responder a sua pergunta. Acho que a preservação dos nossos valores culturais tem melhorado. A nova fase eu diria que começou com o Serviço do Patrimônio Histórico Nacional, criado por Getúlio Vargas por volta de 27. Esse serviço, no entanto, tinha sido antecipado por Pernambuco e Bahia, com serviços regionais muito bem organizados e que constituíram o embrião do futuro serviço federal. Muita gente ignora isso.
Santista - O senhor nasceu com o Século XX e tem acompanhado de perto as grandes mudanças havidas ao longo desses 83 anos. O que mais o impressionou?
Freyre - O cinema mudo, de Charles Chaplin. Alias, acho o cinema mudo mais interessante que o atual, pois fazia o espectador mais colaborador, mais participante. Chaplin teve gestos e símbolos que exigiam muito mais de quem visse um filme naquele tempo. O cinema mudo me impressionou muito porque sou um visual mais do que auditivo.
Santista - Como vive uma celebridade nacional como Gilberto Freyre?
Freyre - Uma celebridade nacional como Gilberto Freyre é, sob vários aspectos, uma celebridade singular. Há outras, é claro, como Oscar Niemeyer, Burle Marx. Aliás, divergi de Niemeyer quanto a Brasília. Não que eu fosse contra o projeto Brasília, mas porque ela caiu no mesmo erro da Semana de Arte Moderna: ser sub-européia. Brasília trouxe como seu grande inspirador um centro europeu, da Europa Central inteiramente não tropical. Daí, ter criado aquela arquitetura que em inglês se chama de "glass box", que é uma arquitetura ótima para Nova York, por exemplo, defender-se da pouca luminosidade e do pouco sol. Em Brasília temos excesso de luminosidade. Essa é uma das minhas restrições a Brasília, que eu considero uma idéia magnífica.
Santista - Mas o seu dia-a-dia...
Freyre - Quando não estou viajando, passo as minhas manhãs escrevendo. Não atendo ninguém de manhã. Aliás, sou intragável de manhã. Estou sempre escrevendo um livro.
Santista - No momento, o que o senhor está escrevendo?
Freyre - O livro de minhas memórias, À Procura de um Menino Perdido, no qual sustento que todos os adultos guardam um pouco de menino em suas várias fases de adulto. Retrospectivamente, estou procurando me ver menino aos 20 anos, aos 40, aos 50 e aos 83, a idade avançada em que estou.
Vou contar uma curiosidade: sabe que até os 8 anos eu fui analfabeto? Eu me recusava completamente a aprender a ler e escrever. Tinha horror a livros. Isso preocupava muito a minha família. Mas, sabe o motivo? É que eu desenhava e pintava. Era a minha forma de expressão, da qual nunca me desprendi de todo, pois continuo pintando.
Santista - O senhor se considera um bom pintor?
Freyre - Não sei, mas fiz algumas exposições em São Paulo, com muito sucesso. Em uma delas, na Rua Augusta, todos os quadros foram vendidos em menos de duas horas. Mas, aí, você vai perguntar: "terá sido pela pintura ou pelo seu renome?" Só que isso eu não sei analisar muito bem. Algumas me chamam de primitivo, que eu considero uma expressão inadequada para me definir. Acho que minha pintura é infantilista. Procuro seguir o que via e pintava quando menino, aquele que se recusava a aprender a ler e escrever. Esse menino reflete fielmente a fonte de minha criatividade.
Santista - O Senhor foi um moleque de rua, daqueles que andam descalços e quebram vidraças por aí?
Freyre - Eu fui um pouco um menino de engenho, que andava descalço, montava cavalo, ouvia muita história de engenho e teve muitas influências africanas, negro-africanas, sobretudo. Uma delas é de uma antiga escrava da família de minha mãe, chamada Felicidade e que tinha o apelido de Dadade. Alguns críticos afirmam que sou um saudoso da escravidão, o que não é verdade. O que digo é que tenho memórias de escravos que, ao meu ver, foram felizes na escravidão. Felicidade é um deles. Sei que houve também vários que não foram felizes, mas há os que foram. Ela me contava histórias que me influenciaram muito a meninice. Outra foi uma negrinha um pouco mais velha do que eu, chamada Isabel, que me contava histórias maravilhosas. Por isso é que eu não queria aprender a ler. Eu pintava e me supria com essas histórias. Essa negrinha, tenho a impressão - considerando-a freudianamente - foi o meu primeiro amor.
Santista - Pouca gente no Brasil consegue viver de sua produção intelectual. O Senhor consegue?
Freyre - por incrível que pareça, consigo. Daí eu ter recusado tantos cargos públicos ao longo de minha vida. Fui convidado para ser ministro e embaixador. A embaixada em Paris me foi oferecida e eu não aceitei, e olha que essa é uma atração muito grande para todos os brasileiros, inclusive os intelectuais. Essas recusas deixaram que eu me concentrasse nas atividades intelectuais e artísticas. Sem dúvida, o poder tem suas atrações, principalmente para quem se mete dentro dele e acha difícil sair. Nunca recebi influência do poder.
Santista - E suas viagens?
Freyre - Sou muito conhecido fora do país e viajo muito, sempre a convites estrangeiros. Não pense que viajo como um filhinho querido do governo brasileiro. Pelo contrário, o Itamaraty tem sido hostil comigo, querendo ou não. O Itamaraty sempre foi convidado para as grandes homenagens que recebi no exterior, mas nunca compareceu. Não é curioso? Eu trouxe para o Brasil o Prêmio Aspen, que os Estados Unidos consideram o seu Nobel, a maior láurea que um brasileiro já recebeu no setor cultural, outorgada por criatividade máxima. Sabe quem era o único brasileiro presente? Minha Mulher. O então embaixador brasileiro em Washington mandou um telegrama para os organizadores do Prêmio, felicitando-os e me chamando de "distinghished author".
Santista - Como cientista político, qual, em sua opinião, o sistema ideal para o Brasil?
Freyre - A solução anárquica.
Santista - O que é a solução anárquica?
Freyre - É o mínimo de governo político. Um grande anarquista inglês foi Bertrand Russel, que admitia o governo na função de um regulador de trânsito, mas com a liberação das energias criativas, econômicas, religiosas, intelectuais. Um pluralismo criativo, do qual estamos muito longe.
50 anos comemorados no Brasil e no exterior
A comemoração do cinqüentenário de Casa-Grande e Senzala foi recomendada pelo próprio Ministério da Educação e Cultura, através de sua Secretaria da Cultura. Com essa recomendação, o MEC estendeu a todas as instituições interessadas em celebrar o evento a liberdade de organizar suas próprias iniciativas. Desse modo, a Fundação Joaquim Nabuco, de Recife, presidida por Fernando de Mello Freyre, filho do escritor, constituiu, através do seu Conselho Diretor, uma comissão encarregada de organizar as comemorações.
Essa comissão está desenvolvendo suas atividades em duas áreas: a Exposição itinerante, sob a responsabilidade da museóloga Maria Regina Batista e Silva, Diretora do Departamento de Museologia da Fundação. Inaugurada este mês, essa mostra de todas as edições de Casa-Grande e Senzala foi aberta na Fundação Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro, e depois irá para Bahia, São Paulo, Brasília, Alagoas e Recife. O próprio Gilberto Freyre estará presente em todas as cidades. As edições em português já são 21 e as estrangeiras somam 23: três espanholas, cinco inglesas, quatro francesas, duas portuguesas, uma venezuelana, duas alemãs, uma italiana, duas argentinas, três norte-americanas.
A outra área está sob a responsabilidade do "gilbertólogo" Edison Nery da Fonseca, Coordenador de Assuntos Internacionais da Fundação, a cuja disposição foi posto pela Universidade de Brasília, onde é professor.
Nery organizou o curso de 10 conferências sobre diversos aspectos de Casa-Grande e Senzala, realizado em setembro último em Recife, com a participação de professores e escritores de todo o país. A palestra de encerramento foi de Jorge Amado, com o tema "Casa-Grande e Senzala 50 anos Depois". Sobre a presença de Jorge Amado há um dado curioso: na comemoração do 25º aniversário da obra ele esteve presente e afirmou que desejava estar vivo para participar do cinqüentenário.
Estão sendo publicados também todos os artigos sobre o livro, veiculados na imprensa entre 1933 e 1943. Em 21 de março passado, dia consagrado pela ONU à eliminação do preconceito racial do mundo, foi lançado Um Livro Completa Meio Século, de autoria do próprio Nery. Na mesma data, tiveram início as comemorações, que se estenderão até o final do ano.
Em Stanford e Lisboa, os 50 anos do livro também serão lembrados, com eventos específicos. Em Lisboa, será publicada em edição especial da obra e haverá sessões solenes na Academia de Ciências de Lisboa e na Academia Portuguesa de História, além de uma serie de conferências na Fundação Calouste Gulbenkian. Paralelamente, os intelectuais portugueses estão organizando um movimento para que o governo português conceda a Gilberto Freyre a mais alta condecoração cultural do país, a Gran Cruz de Santiago da Espada.
Fonte: GILBERTO Freyre: um menino aos 83 anos. Santista. São Paulo, v. 1, n. 2, nov. 1983, p. 16-18.
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